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Troféu Valkirias de Melhores do Ano: TV

Em 1926, quando realizada a primeira transmissão de televisão (ainda em preto e branco, e dentro da Academia Britânica), seria impossível imaginar que esse se transformaria em um dos meios de comunicação mais importantes já criados. Mesmo na década de 1950, com sua popularização em países como os Estados Unidos e posterior chegada ao Brasil, precisar o quanto a televisão evoluiria ao longo dos anos seria uma missão quase impossível.

Hoje, com a evolução dos serviços de streaming e seus catálogos cada vez mais extensos, a televisão nacional e internacional ultrapassou barreiras, alcançando públicos cada vez mais diversos — e, por consequência, criando narrativas que pudessem dialogar com as mais diferentes realidades. Em 2024, finalmente vimos uma das maiores emissoras de televisão ter todas as suas novelas protagonizadas por mulheres negras: um feito não apenas inédito, mas também histórico — e apenas o começo de uma revolução que caminha a passos lentos, mas constantes, desde o início dos anos 2010.

O Troféu Valkirias de Melhores do Ano vem para celebrar não apenas as produções que conquistaram nosso coração em 2024, mas a diversidade presente em cada uma delas: de histórias sobre galáxias muito, muito distantes, à rotina das escolas estadunidenses ou a trajetória de uma jovem negra no Rio de Janeiro do final da década de 1950. E a conclusão é uma só: 2024 foi um ano de fato inesquecível para a televisão.

Abbott Elementary (Terceira Temporada), Disney+

Por Rafaela Freitas 

Uma comédia no estilo mockumentary (como The Office), mas ambientada em uma escola pública da Filadélfia, a série acompanha o dia a dia de professores tentando fazer o impossível com pouquíssimos recursos e muita paixão pelo que fazem. Se você ainda não assistiu, saiba que as duas primeiras temporadas estão disponíveis no Disney+ com uma dublagem maravilhosa (vale ressaltar). Infelizmente, a terceira temporada, que estreou esse ano, foi dublada em vários idiomas… menos o português (fica aqui minha indignação).

Entre os personagens, que são todos incríveis, meus destaques são Ava (Janelle James), a diretora, que, apesar de seu aparente desinteresse, principalmente na primeira temporada, rouba a cena com seu humor ácido e imprevisível, e Mr. Johnson (William Stanford Davis), o zelador, que me faz rir alto com suas teorias conspiratórias.

Para saber mais: Abbott Elementary, primeira temporada

Agatha all Along (Primeira Temporada), Disney+

Por Thay

Por mais que eu esteja verdadeiramente cansada de todo o MCU, Agatha all Along se mostrou um sopro de ar fresco em uma franquia já desgastada pela fórmula que outrora fez sucesso. Verdade seja dita, as séries da Marvel estão se saindo muito melhor do que os filmes, mostrando roteiros mais interessantes e personagens mais tridimensionais, além da inovação na maneira de contar as histórias, capturando a atenção do telespectador logo de início. Kathryn Hahn retorna como a irreverente bruxa que conhecemos em WandaVision, agora aprisionada em um feitiço elaborado pela Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) antes dela deixar WestView. É no meio desse feitiço que Teen (Joe Locke) aparece, tentado retirar a bruxa de seu transe inspirado por Mare of Easttown e pedindo ajuda para acessar o Caminho das Bruxas.

É a partir daí que tem início a busca de Agatha por um coven que aceite participar do feitiço que abrirá o Caminho das Bruxas com o intuito de recuperar seus poderes, mas ela sabe que essa tarefa não será fácil. Enquanto uma bruxa sem coven, a fama de Agatha não é das melhores e ela precisa convencer outras bruxas de que é uma ideia se juntar a ela, e Teen, em sua busca. Dessa maneira, Agatha recruta Jennifer Kale (Sasheer Zamata), Alice Wu (Ali Ahn), Lilia Calderu (Patti LuPone) e Mrs. Hart (Debra Jo Rupp) para se juntar a ela e Teen em sua empreitada, que logo tem a adição da misteriosa Rio Vidal (Aubrey Plaza). Muito além da bruxaria, Agatha all Along também é uma série sobre luto, dor, pertencimento e a busca do verdadeiro ser, tudo isso embrulhando em um visual divertido, colorido e sombrio, bem ao estilo Agatha Harkness de ser.

Um dos melhores episódios de Agatha all Along, “Death’s Hand in Mine”, nos presenteia com uma interpretação brilhante de Patti LuPone como Lilia, enquanto “Maiden Mother Crone”, o season finale, desvela o passado de Agatha e o que a levou a se transformar na temida bruxa que conhecemos, além de introduzir novos personagens e suas futuras jornadas no MCU.

As Bicampeãs, Globoplay

Por Rafaela Freitas

Embalada pelo espírito olímpico, assistir à série As Bicampeãs, que mostra a trajetória da seleção brasileira de vôlei feminino para conquistar as medalhas de ouro de forma consecutiva nas Olimpíadas de 2008, em Pequim, e 2012, em Londres, foi incrível. A série documental relembra esses momentos históricos e traz depoimentos das atletas campeãs, além de relembrar os momentos marcantes da trajetória dessa seleção.

A série explora como as jogadoras dessa geração lidaram com as críticas e o estigma de “amarelona”, além de enfrentarem o preconceito de gênero. Um dos momentos mais marcantes do documentário acontece nas quartas de final dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, quando o Brasil enfrenta a Rússia, uma de suas maiores rivais. Esse jogo se torna um dos mais épicos da história do vôlei feminino, com a série intercalando depoimentos das atletas com imagens dessa partida histórica.

Entrevista com o Vampiro (Segunda Temporada), Prime Video

Por Isabella Tamaki

A segunda temporada de Entrevista com o Vampiro, série inspirada nas Crônicas Vampirescas, de Anne Rice, segue os acontecimentos da primeira parte: Louis de Pointe du Lac continua recontando as suas memórias ao jornalista Daniel Molloy, agora no contexto parisiense pós-Segunda Guerra. Louis e Claudia tentam superar os acontecimentos de Nova Orleans e, principalmente, o vampiro que os transformou: Lestat de Lioncourt.

Na contramão dos discursos moralizantes e higienistas sobre a arte, que vêm pautando “o que a televisão deve ou não mostrar”, Entrevista com o Vampiro se apresenta como uma alternativa que traz a tragédia, o drama, a imoralidade, a teatralidade e o romance de volta para a TV. As atuações impecáveis do núcleo principal, que conta com Jacob Anderson como Louis, Sam Reid como Lestat, Delainey Hayles como Claudia, Assad Zaman como o vampiro Armand e Eric Bogosian como Daniel Molloy, acrescentam camadas e mais camadas aos personagens em uma história que não tem mocinho, nem vilão: eles são deploráveis na mesma proporção que são apaixonantes.

A adaptação para a televisão conta com mudanças que, ao mesmo tempo, preservam a essência do cânone (com discussões sobre a “humanidade” dos vampiros), mas atualizam as temáticas ao trazer personagens racializados para o centro da trama. Além disso, o que é subtexto nos livros — como o romance entre Louis e Lestat —, é explícito na série, suscitando ainda mais paralelos entre o vampirismo e a perspectiva queer.

Garota do Momento, Globo

Por Ana Luíza

Em um momento criativamente pouco inspirado da Rede Globo (cujas novelas parecem incapazes de cativar o público e permanecem reféns de tramas recicladas em roupagens ligeiramente diferentes), Garota do Momento chega como um respiro de ar fresco, com sabor de milkshake e o som das jukeboxes. Carregada de referências a outras produções ambientadas na década de 1950, bem como da literatura nacional e internacional, a novela cria algo inteiramente novo, evocando nostalgia ao mesmo tempo em que discute temas ainda muito atuais.

Muito disso se deve à sua protagonista, Beatriz (Duda Santos), uma jovem negra que se muda para o Rio de Janeiro em busca da mãe, Clarice (Carol Castro), que a deixou ainda criança sem nenhuma explicação. Motivada inicialmente por uma foto de jornal na qual Clarice aparece, a vida no Rio de Janeiro logo se mostra muito diferente de qualquer experiência que Beatriz poderia imaginar, levando-a, simultânea e ironicamente, para muito perto e muito longe da mãe. Mais do que isso, Beatriz torna-se o símbolo de um movimento que acontecia na cidade (e ao redor do mundo), em um momento de efervescência política e social: o movimento anti-racista. Alessandra Poggi, criadora e principal escritora da novela, faz da narrativa algo inegavelmente político, mas não se permite perder a doçura, projetando um espaço em que pessoas negras têm a chance de mostrar sua verdadeira complexidade em contextos e cenários diversos.

House of the Dragon (Segunda Temporada), HBO

Por Thay

Seguindo na premissa de adaptar livremente a obra de George R. R. Martin, o livro Fogo e Sangue (no Brasil, publicado pelo selo Suma, da Companhia das Letras), House of the Dragon chega em sua segunda temporada mostrando mais do conflito que quase exterminou por completo a linhagem Targaryen e os dragões em Westeros. A trama com apenas oito episódios, dois a menos do que sua temporada de estreia, acabou por apressar acontecimentos e eliminar algumas passagens que deixariam House of the Dragon ainda mais interessante, mas, ainda assim, consegue prender o telespectador em sua poltrona, ansiando por cenas de Rhaenyra Targaryen, interpretada brilhantemente por Emma D’Arcy, e Alicent Hightower, vivida por de maneira impecável por Olivia Cooke.

É certo dizer que Emma e Olivia carregam a série e, sendo assim, não há como reclamar quando o roteiro decide criar cenas de confronto entre as personagens quando Rhaenyra e Alicent sequer se encontram no material original após a partida da primogênita de  Viserys Targaryen (Paddy Considine), para Pedra do Dragão. A série continua a encher os olhos com visuais deslumbrantes e batalhas de dragões, mas perde muito quando simplesmente deixa Damon Targaryen (Matt Smith) por um longo período da trama alucinando em Harrenhal ou decide encerrar a temporada sem um gancho muito definido. A sensação que fica, ao final dos episódios, é que fomos preparados para a grande batalha definidora da Dança dos Dragões, mas teremos que aguardar a próxima temporada que estreará somente em 2026. Mesmo assim, é inegável o magnetismo exercido pelo universo de Gelo & Fogo e impossível não pensar em Emma D’Arcy como uma das melhores artistas a passar por ele.

My Lady Jane, Prime Video

Por Mirian de Paula

Uma das boas produções do Prime Video em 2024, My Lady Jane estreou um sucesso e se foi da mesma forma. A série de oito episódios, que aborda de forma revisional a história de Lady Jane Grey, rainha da Inglaterra por apenas nove dias e, oficialmente, sequer deteve o título antes de Elizabeth I, é a fusão perfeita entre comédia romântica, fantasia e drama histórico. Estrelada por Emily Bader e Edward Bluemel nos papéis principais, a produção aborda a inusitada história da Rainha Esquecida de forma criativa e bem-humorada, mesmo em meio a uma trama que explora o preconceito, o machismo e as intrigas palacianas de uma época politicamente complicada, conferindo vida a todos os personagens de forma quase igualitária, inclusive os coadjuvantes.

Um primor técnico, My Lady Jane conta com um texto afiadíssimo, que sabe a que veio, discutido em belos cenários e figurinos perfeitamente alinhados, os quais compõem não somente a beleza em tela, mas a personalidade dos personagens — do vilão ao mocinho —, além de uma trilha-sonora fincada no rock de Tainted Love (Goat Girl) e Wicked Ones (Dorothy), que deixa explícita a natureza disruptiva da produção, pois, apesar de se moldar a clichês do gênero, em nenhum momento deixa o brilho se apagar por conta disso.

Cancelada após uma temporada, provavelmente em razão do final trágico da verdadeira Jane Grey na História, uma vez que foi condenada a morte após os eventos finais — modificados — da série, My Lady Jane foi alvo de campanhas dos fãs nas redes sociais durante o ano todo para que fosse retomada. Além da construção da história em si, um dos maiores tropos do ano, o “enemies to lovers” [inimigos para amantes], é perfeitamente representado entre o casal principal, que só está junto por conta de um casamento arranjado e não deixa a desejar em química, romance e humor. Assim, seja assistindo pela primeira vez ou para rever, My Lady Jane é um “play” que vale a pena conferir ao Prime Vídeo, inclusive para constatar que se trata de uma temporada limitada muito bem desenvolvida como um todo.

Para saber mais: Drama histórico, fantasia e cultura pop em My Lady Jane

Nobody Wants It (Primeira Temporada), Netflix

Por Beatriz Romanello

Nós, adolescentes que crescemos assistindo às comédias românticas dos anos 2000, aprendemos a moldar nosso estilo, nossa forma de falar, nossos interesses e até nossos desejos para conquistar o “mocinho” do recreio, o novo colega no escritório ou um estranho no bar. Também nos ensinaram que, após a conquista, surgiriam conflitos e desencontros, mas que, se fosse realmente amor, tudo isso seria superado. Agora, já adultas, somos imersas na cultura dos aplicativos de relacionamento e nas performances que criamos on-line antes de um primeiro encontro. Além disso, nos deparamos com novos termos como “conversante”, “ficante”, “situationship” e “ficante premium plus“. Diante disso, como as comédias românticas atuais abordam as complexidades das relações?

Nobody Wants It surge para responder a essa pergunta, ao mesmo tempo em que nos lembra o quanto Adam Brody continua encantador. A personagem de Kristen Bell representa o estereótipo da mulher que não consegue estabelecer um relacionamento duradouro, seja por insegurança, idealizações ou falhas na comunicação. O que torna a série cativante é sua abordagem mais realista das relações modernas, ao apresentar uma representação que valoriza o respeito aos limites de cada um, prioriza o diálogo e busca, quando possível, encontrar um equilíbrio para viver a dois.

Only Murders in the Building (Quarta Temporada), Disney +

Por Bruna Scheifler

Only Murders in The Building alcançou a façanha de apresentar, em 2024, uma temporada ainda melhor do que as anteriores. Lançada em 2022, a série de mistério e comédia mostra a saga do trio formado por Martin Short, Steve Martin e Selena Gomez, que começa a investigar homicídios ocorridos no prédio onde vivem para um podcast. A quarta temporada ganhou novo fôlego com os novos rumos da história: ao longo de dez episódios, a investigação circunda a produção de um filme baseado no podcast Only Murders in The Building. O elenco, que já contava com Maryl Streep e Da’Vine Joy Randolph, recebe adições como Eva Longoria, Molly Shannon e Eugene Levy, além de uma participação de Melissa McCarthy.

O texto da série aproveita ao máximo a potência cômica de cada ator e o entrosamento do elenco, o que proporciona excelentes momentos. Além disso, o enredo cinematográfico proporciona mais referências, que levam a metalinguagem a outro patamar. Only Murders in The Building também mantém a tradição de apresentar ao menos um episódio com um formato totalmente diferente dos demais. Neste ano, o sexto episódio tem o formato de um documentário peculiar, que apresenta o ponto de vista de duas personagens secundárias. Apesar de causar certo estranhamento, também mostra a capacidade da série de inovar e se arriscar.

No geral, o maior acerto desta temporada foi o assassinato e a vítima da vez, que conseguiu prender o interesse e as dúvidas sobre o culpado até o último episódio, além de trazer uma carga emocional ainda maior para os protagonistas. Ao concluir a quarta temporada, OMITB segue como uma das séries de comédia mais prolíficas da atualidade e promete um quinto ano com ainda mais mistérios.

Star Wars: The Acolyte (Primeira Temporada), Disney +

Por Thay

The Acolyte foi anunciada como uma nova era para Star Wars e, de fato, isso poderia ter se consolidado caso não tivesse sido prematuramente cancelada pelos executivos da Disney. Protagonizada por Amandla Stenberg e Manny Jacinto, além de contar com um elenco de peso com nomes como Lee Jung-jae, Carrie-Anne Moss eJodie Turner-Smith, a série acompanhava os personagens em uma época pouco explorada no universo criado por George Lucas, a Alta República séculos antes da Saga Skywalker. Dessa maneira, The Acolyte abria uma nova janela de possibilidades para outras tramas no universo, trazendo novos personagens em uma era ainda desconhecida no audiovisual da franquia.

Com uma primeira temporada repleta de potencial, colocando Star Wars em uma nova linha do tempo, com temas e conceitos diferentes capazes de adicionar camadas a um universo tão amado, The Acolyte entra também facilmente na galeria das melhores cenas de ação da franquia, com excelentes batalhas de sabres de luz, mas não somente. The Acolyte coloca muito foco em quão falhos os Jedi são como instituição e como seus próprios métodos ajudam a colocá-los no caminho para sua ruína, tirando aquela mística de perfeição que os envolve. E vemos tudo isso pelos olhos das gêmeas Mae e Osha Aniseya (Amandla Stenberg ), que precisam lidar com o desenrolar de uma catastrófica tentativa de recrutamento por parte dos Jedis junto às Bruxas de Brendok.

Sol, o Jedi mais poderoso a aparecer nesses episódios, é interpretado de maneira ímpar por Lee Jung-jae, capaz de entregar faz uma performance incrível como o Mestre Jedi, imbuindo-o de muita alma e sofrimento enquanto sempre parece carregar o peso da galáxia em seus ombros. O personagem introduz mais nuances na moralidade dos Jedi, que geralmente vemos como guerreiros justos ou vilões impenitentes. Amandla Stenberg também consegue mostrar as diferenças entre as irmãs com meros toques de sua interpretação, o que é algo incrível de se assistir. Mas ninguém é tão magnético em tela quanto Manny Jacinto e seu Stranger — o ator entregou qualidade na atuação e doses extras de charme e inteligência, fazendo com que o lado negro da força fosse mais atraente do que nunca. É uma pena que não poderemos ver o que o futuro (e os roteiristas) reservaram para a saga de The Acolyte, e tudo o que, enquanto fãs, poderíamos ter recebido em Star Wars com esse novo olhar para essa galáxia tão, tão distante.

Senna (Primeira Temporada), Netflix

Por Thay

Para além de toda a polêmica a respeito do envolvimento da família na criação da série e o apagamento de Adriane Galisteu da trama, Senna desponta como a maior produção brasileira da Netflix. Com altas doses de nostalgia e orgulho nacional, a série passeia pela vida do maio piloto brasileiro, Ayrton Senna, mostrando sua trajetória desde a criança apaixonada por kart até o adulto campeão mundial de Fórmula 1. A série é trabalhada de maneira a mesclar cenas reais de Senna com a interpretação singular de Gabriel Leone como o protagonista, desde o início complicado, cercado de xenofobia, até as batalhas contra Alan Prost (Matt Mella) dentro e fora das pistas, e a FIA, Federação Internacional de Automobilismo, controlada por Jean-Marie Balestre (Arnaud Viard).

Como série, é claro que Senna toma muitas liberdades criativas, mas, de maneira geral, é uma produção que consegue despertar aquele orgulho que só o brasileiro tem a respeito de Ayrton Senna, mesmo aqueles que sequer eram nascidos na época em que ele abrilhantava nossas manhãs de domingo com seu controle absoluto das pistas e dos carros que pilotava. Gabriel Leone está irretocável como Ayrton, assim como a interpretação de Gabriel Louchard como Galvão Bueno consegue evocar as peculiaridades do narrador sem cair na caricatura. Outro destaque de Senna é  Pâmela Tomé que chega a assustar de tão parecida que fica com Xuxa Meneghel em seu auge de carreira. É inegável a importância de Ayrton Senna para o Brasil, e a série, contando sua vida, seus sonho e trajetórias, serve como uma bela homenagem ao atleta que ele foi, emanando aquele sentimento de pertencimento que nenhum outro conquistou após sua morte. Senna segue, e para sempre será, do Brasil.

Para saber mais: Senna: ainda hoje, do Brasil; Senna: a ambiciosa missão de retratar um ícone

Solo Leveling, (Primeira Temporada), Crunchyroll

Por Ana Luíza

Baseado na web novel coreana de mesmo nome e em sua sua adaptação em formato webtoon, a primeira temporada de Solo Leveling narra a história de Sung Jinwoo, um caçador simpático e corajoso que, embora considerado (e ser, de fato) o mais fraco entre seus pares, sobrevive a uma experiência traumática que aniquila a maior parte de seu grupo e o deixa bastante ferido. Após o ocorrido, Jinwoo acorda no hospital para descobrir ser capaz de subir seu nível de força pelo misterioso Sistema — o que dá início a uma jornada em busca de resposta tanto quanto por poder.

Dirigida por Jang Hiuk-Ri, o anime traduz as referências aos jogos de RPG contidos no material original (perceptíveis não apenas no Sistema, mas também nos papéis desempenhados por cada jogador dentro de um grupo) em uma narrativa de ritmo frenético, em que o combate e a evolução física de Jinwoo existem concomitantemente ao seu desenvolvimento psicológico. De um garoto simpático e aparentemente alegre, a aquisição de poderes transforma Jinwoo em uma figura soturna, com questionamentos e dilemas emocionais, filosóficos e morais, o que adiciona camadas mais profundas à obra. Embora a ênfase esteja, inegavelmente, na ação, Solo Leveling mescla momentos épicos à trajetória de desenvolvimento interno de seu personagem, destacando-se não apenas pelo visual, mas por se distanciar de um caminho fácil e fazer perguntas complexas para as quais, muitas vezes, não há uma resposta clara, tampouco única (quando há alguma resposta), o que o torna uma experiência única e também incômoda.

The Bear (Terceira Temporada), FX/ Disney +

Por Thay

Até quando a temporada deixa a desejar, ela é boa, e é esse o caso de The Bear. Parece estranho iniciar uma fala sobre Melhores do Ano assim, mas a título de comparação com as temporadas anteriores, a terceira leva de episódios de The Bear parece ter reduzido ligeiramente o ritmo, mas nada que desabone a trama da série ou seus atores, sempre impecáveis em seus personagens. O final incrível da temporada anterior colocou ainda mais pressão na série, mas de pressão The Bear entende, e embora tenha derrapado em alguns momentos nessa nova leva de episódios, a série consegue ainda ser uma das melhores do gênero, principalmente em episódios como “Napkins”, dirigido lindamente por Ayo Edebiri, que também interpreta a Chef Sydney, focado na trajetória da  sous chef Tina (Liza Colón-Zayas), e “Ice Chips”, que mostra Nat (Abby Elliott), irmã de Carmy (Jeremy Allen White) entrando em trabalho de parto.

Em meio a muitos gritos de “cala a boca” (seria essa a cozinha mais insalubre da televisão atualmente?) e outros tantos “eu te amo”, The Bear segue se consolidando como uma das melhores séries da atualidade, sempre com interpretações inspiradas de seus atores, capazes de nos fazer amá-los e odiá-los em igual medida. Sim, Carmy, estou olhando pra você.

The Boys (Quarta Temporada), Prime Video

Por Thay

Ah, por onde começar a falar de The Boys? A série chega em sua quarta temporada mais louca do que nunca, e isso mostra que não há limites para esse grupo de degenerados capitaneados por Eric Kripke, também o responsável por criar séries como Gen V e Supernatural. Desde sua estreia, em 2019, The Boys nunca teve receio ou escrúpulos, exibindo a que veio de maneira brutal e cenas bizarras, enquanto mostrava o lado perverso da cultura dos super-heróis e intercalava em sua narrativa fatos bem alicerçados no nosso mundo real. No quarto ano da série isso não foi diferente: Kripke e companhia continua a debochar da cultura da ídolo, da extrema direita (que vem cada vez mais estendendo seus tentáculos ao redor do mundo) em meio à violência gratuita e piadas, no mínimo, singulares.

A quarta temporada retoma a busca desenfreada de Billy Butcher (Karl Urban) por uma maneira de destruir Homelander (Antony Starr) de uma vez por todas, enquanto o restante do grupo, liderado por um sempre relutante Hughie (Jack Quaid), tenta impedir que Vought International coloque Victoria Neuman (Claudia Doumit) na Casa Branca. Esta, talvez, seja a temporada com mais política envolvendo, inclusive com uma cena de tentativa de assassinato do presidente eleito. Meus sentimentos com relação a essa temporada são conflituosos, mas pesando os prós e os contras, a quarta temporada tem mais momentos excepcionais do que o contrário. A Victoria Neuman de Claudia Doumit desponta como a estrela dessa temporada, personificando melhor do que qualquer um dos outros personagens a dicotomia entre estar do lado “certo” ou do lado “errado” enquanto tenta se safar da melhor maneira possível — o que, definitivamente, não é algo que acontece com facilidade em The Boys. O final da temporada nos deixa a pensar o que o futuro reserva para esse grupo de pessoas tão disfuncionais, e se a série conseguirá desatar os nós bem apertados que deixou (e se Hughie vai conseguir a terapia que precisa depois de tudo o que passou).

The New Look, Apple +

Por Ana Luíza

Ambientada na França durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial, The New Look faz um mergulho nas intersecções entre moda, cultura e resistência, além das dinâmicas sociopolíticas em meio ao conflito a partir da trajetória de Christian Dior (Ben Mendelsohn), um dos maiores ícones da moda do século XX e criador do chamado “new look” (símbolo da reconstrução e resiliência europeia), em sua tentativa de estabelecer-se como estilista em um cenário de imensa instabilidade — tanto a um nível social e profissional, quanto pessoal.

Desviando-se de uma abordagem simplista ou superficial, a série não se limita a recontar a biografia do estilista, contrapondo sua história a de outros importantes nomes da moda, como Coco Chanel (Juliette Binoche), inimiga assumida de Dior e conhecida por seu antissemitismo e associação a figuras do alto escalão nazista; e da resistência francesa, como sua irmã, Catherine Dior (Maisie Williams), presa e torturada pela Gestapo e, posteriormente, enviada ao campo de concentração de Ravensbrück. Trata-se de uma análise verdadeiramente crítica sobre as possibilidades de subversão e resistência, dentro e fora da indústria da moda, que ilumina o poder da arte em momentos sombrios da história e seu papel fundamental na preservação e reconstrução cultural.

The Penguin (Primeira Temporada), HBO Max

Por Thay

Chocando a todos com suas aparição em The Batman como Penguin, era apenas questão de tempo para que Colin Farrell recebesse mais uma oportunidade de brilhar como o icônico personagem dos quadrinhos. Em The Penguin, a minissérie, ele retorna na pele do personagem nesse spin-off que evoca as melhores qualidades de séries como The Sopranos, uma bem-vinda adição ao universo do Homem-Morcego. Bruce Wayne/ Batman, interpretado nos cinemas por Robert Pattinson, não dá as caras nessa Gotham recém destruída pelos eventos mostrados no filme de 2022, e a disputa entre as famílias da máfia se torna cada vez mais sangrenta. Nesse cenário, Oz Cobb, o Penguin de Farrell, tenta tirar o melhor proveito da tensão que cresce nas ruas, construindo um caminho para que ele próprio possa controlar a cidade após Carmine, seu chefe e líder da família Falcone, ser morto ao final de The Batman. A balança de poder dentro da família Falcone inclina-se em favor de seu filho, Alberto (Michael Zegen), mas não por muito tempo — em um ímpeto, Oz assassina Alberto afim de ocupar o vácuo de poder deixado com a morte de Carmine, mas, para isso, precisa lidar com as consequências, principalmente quando Sofia, interpretada de maneira brilhante por Cristin Milioti, retorna de Arkham disposta a descobrir quem matou o irmão e a se vingar da família que a deixou ficar por dez anos presa no temível sanatório.

Em sua busca por poder, Oz entra cada vez mais fundo em um jogo mortal para tomar o controle da cidade, bancando o agente duplo para os Falcone e os Maroni, e se metendo em uma teia intricada de traição e vingança. Dizer que Colin Farrell brilha como Oz Cobb é chover no molhado, com o perdão do dito popular, o que transforma The Penguin em muito mais do que um produto caça níquel de uma famosa franquia — ainda que não deixe de ser, claro, porém, aqui, há qualidade de roteiro, desde a condução dos personagens até a construção da narrativa que poucas franquias parecem alcançar atualmente.

Do outro lado da jogada, acompanhamos a trajetória de Sofia Falcone, muito mais capaz que seu irmão Alberto, enquanto busca a sua fatia de direito dentro da família. Trancafiada em Arkham por fazer perguntas demais a respeito do aparente suicídio de sua mãe, Sofia é acusada dos assassinatos de dezenas de mulheres e fica uma década no sanatório. Ao sair, ela não é mais a mesma e busca o controle dos negócios da família e de sua própria vida. Nessa empreitada, Sofia se alia à Oz por um período, mas sabe que ali nada é como parece ser. Por alguns momentos, é possível ver o que poderia ter sido da vida de cada um caso não fossem quem fossem, e a série se alia a isso para nos fazer criar laços com os personagens. Mas, no final do dia, é cada um por si tentando sobreviver em Gotham.

Para saber mais: The Batman: para além de vingança, esperança

What We Do in the Shadows (Sexta Temporada), Disney +

Por Ana Azevedo

What We Do in the Shadows é uma adaptação do filme de mesmo nome e, assim como o filme, a série segue a vida de vampiros que vivem juntos em Staten Island há mais de um século. No formato de documentário fake e com episódios curtos, a série começou em 2019 e completou a sexta e última temporada em dezembro de 2024.

Aclamada pela crítica e com um fandom relativamente pequeno, mas muito intenso e organizado (pessoas que ainda moram no quase falecido Tumblr, o site do senso de comunidade fandomlistíco), WWDITS tem um tom de série dos anos 2000, mas sem todo o queerbaiting. Agora é só queer mesmo — ainda bem. Sem spoilers porque a série acabou de acabar, é sempre bom ver uma produção que sabe a hora de parar. Parar no auge é sempre melhor do que ver alguma coisa definhar e What We Do in the Shadows é boa do início ao fim.

Para saber mais: O fenômeno What We Do in the Shadows

Wolf Hall: The Mirror and The Light (BBC Two)

Por Ana Luíza

Quase dez anos após o lançamento de sua primeira temporada, Wolf Hall retorna para encerrar a história de Thomas Cromwell (Mark Rylance), em seis episódios que cobrem os últimos seis anos da vida do advogado, ex-Conde de Essex e estadista inglês. Baseado, principalmente, no terceiro e último livro da trilogia de Hilary Mantel, a série toma como ponto de partida a execução de Ana Bolena (Claire Foy), último grande — e final — acontecimento da temporada anterior. Com uma nova perspectiva, que serve tanto para introduzir a substituição de alguns atores (Charlie Rowe no lugar de Tom Holland como Gregory Cromwell, por exemplo) como para oferecer novos detalhes do momento — quando Bolena distribui moedas para os espectadores de sua desgraça, ainda com esperanças de que Henrique VIII (Damian Lewis) volte atrás em sua decisão, ao passo que este se casa com sua terceira esposa, Jane Seymour (Kate Phillips) — ou recuperar lembranças que ajudam a traçar o caminho de Cronwell e suas relações interpessoais, que influenciam sua ascensão e queda — como o Cardinal Wolsey (Jonathan Pryce), cuja amizade o marca de forma irreversível.

Ao contrário de outras séries que abordam o mesmo período, Wolf Hall não pinta Cromwell como um vilão desprovido de nuances (algo de que, ironicamente, o próprio Cardinal Wolsey padece em algumas produções), mas como um homem bastante complexo, que sofre por muitas das atitudes que toma e, por fim, torna-se mais uma vítima dos caprichos do homem a quem serviu com lealdade. The Mirror and The Light se mantém eficiente em captar os tons de cinza presentes na obra de Mantel, traçando sua derrocada com clareza, sem subjugar fatores que estavam fora do seu alcance. A segunda temporada também se beneficia do novo elenco, que soluciona (ainda que timidamente) um problema notório em seu primeiro ano: a ausência de pessoas negras. Se há quem argumente que essa ausência deve-se, sobretudo, à fidelidade para com a História, por outro lado, a ficção permite que tais questões sejam revisitadas e abordadas sob um novo prisma, corrigindo tais questões — algo que Wolf Hall não hesita em, finalmente, fazer.