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Senna: ainda hoje, do Brasil

Maior produção brasileira da Netflix em termos de orçamento, Senna (2024) estreou no catálogo como um orgulho nacional, que emana algo parecido com aquele que o próprio Ayrton Senna despertava por todo o país.

Estrelada por Gabriel Leone, a série de seis episódios se propõe a abordar a trajetória do piloto desde a origem de sua paixão, por trás dos volantes de karts, em São Paulo, e os eventos que o levaram a ser o protagonista de três campeonatos mundiais inesquecíveis.

Senna

Não é de hoje que o automobilismo desperta a atenção, a paixão e a emoção das pessoas. Desde os primórdios, com Niki Lauda e Emerson Fittipaldi, nomes que abriram caminhos para aqueles que viriam posteriormente, a Fórmula 1 se mostra o cenário propício para grandes histórias reais e fictícias, que adentram o subconsciente do público com seus mitos e narrativas. Recentemente, isso foi bem captado pelo reality da Netflix, Drive To Survive, que adentra os paddocks ao redor do mundo a partir dos bastidores.

Porém, Ayrton Senna foi o personagem definitivo para que o esporte se consolidasse no Brasil e, aos domingos, as pessoas ligassem a TV para acompanhar as corridas narradas por Galvão Bueno. Momentos verdadeiramente impressionantes, para o bem ou para o mal, ficaram marcados na memória do público, que realmente acompanhou a carreira do piloto nos anos 1980 e 1990, e daqueles que vieram depois, quando atravessou as gerações como o último herói do país e pôde ser merecidamente perpetuado por suas conquistas.

Assim, não é surpresa que a obra de 2024, primeira que faz um retrato fictício da história do piloto após o documentário vencedor do BAFTA, Senna (2010), tenha sido tão aguardada e se tornado um sucesso instantâneo no catálogo do streaming. Senna é, até hoje, do Brasil, e a produção dirigida por Vicente Amorim, Julia Rezende e Marcelo Siqueira capta parte dessa essência ao colocar o personagem, literalmente, no mundo — um que não envolve apenas corridas, mas negociações e politicagem ferrenhas, ao qual tem de se adaptar desde o início. A produção aborda a paixão pela velocidade desde criança, com destaque para o ator-mirim, Antônio Menqui, que exala carisma na pele do pequeno Ayrton, bem como o talento e o conflito entre correr e trabalhar na fábrica de peças da família. Contudo, o chamado das pistas é mais forte, como se estivesse destinado, e, ainda jovem, ele se muda para a Inglaterra ao lado da primeira e única esposa, Lilian Vasconcelos (Alice Wegmann), para pilotar nas ligas amadoras de automobilismo.

Senna

A promessa de correr por um ano e voltar para o Brasil se mostra um grande conflito interno para o piloto, que sente um imenso dever para com a família, de quem sempre foi muito próximo e foi essencial para perseguir seu sonho nas pistas, mas também com o instinto de que nasceu para pilotar, o que o faz rapidamente retornar à Inglaterra ao receber uma nova proposta, ainda que isso tenha significado o fim daquele primeiro relacionamento. É a partir daí, quando seu nome começa a chamar atenção de grandes equipes da época, como a Lotus, ainda sob o nome Da Silva, que Ayrton começa a trilhar o caminho do sucesso. Lá, ele deve lidar com o preconceito por ser um piloto sul-americano, bem como os bastidores intensamente políticos e de grande pressão de um esporte que vai muito além das corridas e dos carros, e que o fez aceitar um contrato com a Toleman, uma equipe menor, descrita como de “fim de grid”, para iniciar sua história.

Há uma frase de Terry Fullerton (Rob Compton), que resume bem o automobilismo — tanto nos anos 1980 quanto agora: “A Fórmula 1 é um negócio. Menos por algumas horas no domingo. É isso aqui [as pistas] que realmente importa”. Trata-se de uma boa definição, mas que se aplica a um personagem mais sonhador e menos prático, residindo aí o grande problema da série como obra biográfica. Ao optar por abordar os momentos mais emblemáticos da carreira de Ayrton, a série tem dificuldades em mostrar o personagem crescendo e evoluindo fora deles, além de demonstrar ter receio de retratá-lo como alguém ambicioso e impositivo em relação à sua carreira. Daquele que abre mão do casamento e da família em nome dos carros, ele se torna excessivamente seguidor de regras, o que não casa com o piloto determinado que se conhecia.

É claro que é possível abordar inseguranças e incertezas ficcionais, ainda que em uma produção que se propõe a reproduzir a história de alguém, que se mescla com a de um todo muito maior e complexo; no entanto, fica mais complicado quando não há verdadeiros obstáculos a se ultrapassar, uma vez que estes, por opção ou falta de tempo de tela, são mais contados do que mostrados, o que faz com que Senna sofra com a superficialidade. Ainda que se tente compensar com um produto visual tecnicamente bem feito, a partir de uma direção de arte que reproduz muito bem os cenários em que a série se passa, além do figurino e maquiagem totalmente alinhados à História, a fragilidade da falta de conflitos reais empobrece, inclusive, os diálogos, impedindo que o personagem crie conexões reais com os demais e evolua através desses acontecimentos, que dão a impressão de ser somente o “check” em uma grande caixa de eventos vividos pelo real Ayrton Senna. Tratando-se de um personagem ficcional, falta real peso a este Ayrton, pois, se fosse só isso e, hipoteticamente, o piloto de verdade não existisse, haveria uma falta de desenvolvimento latente entre o protagonista apresentado nos três primeiros episódios e nos últimos, onde se pode ver uma versão parecidíssima ao que se conheceu, de fato, do homem.

Senna

Os conflitos entram e saem da trama de forma conveniente, sem se encontrarem devidamente interligados à evolução de Senna. Não há uma abordagem padrão para os acontecimentos reais, de forma que não se explica porque o romance com Xuxa (Pâmela Tomé) ganhou bastante atenção do roteiro e aquele com Adriane Galisteu (Júlia Foti) pôde passar batido. Ainda que exista uma certa ânsia irresistível em colocar o maior piloto do Brasil ao lado da maior apresentadora infantil do país juntos em tela, a motivação para tanto é incompreensível e o impacto em Senna, nulo.

Isso ocorre mesmo em relação aos acontecimentos emblemáticos que o cercaram em sua carreira, como a rixa com Nelson Piquet (Hugo Bonemer), que aparece brevemente, sem qualquer influência; e as vitórias mundiais, uma vez que não há uma construção para que o público da série chegue até aquele momento junto com o personagem. Existe o conhecimento prévio de que uma das corridas mais impressionantes do piloto foi o Grande Prêmio do Brasil de 1991, quando se sagrou vencedor em casa em um carro com defeito: com apenas a sexta marcha, Ayrton terminou a corrida fisicamente extenuado e com o ombro machucado, quase sem forças para levantar o próprio troféu, o que tornou a imagem daquele dia ainda mais emblemática. Não se trata de um documentário, no entanto, mas de um personagem que passou por muitos obstáculos que motivaram o seu ímpeto de não desistir naquele momento. Assim, apesar da amplitude e beleza da cena da corrida em si, reproduzida à perfeição, a falta de desenvolvimento é gritante.

A partir da série, é possível assistir a outros ângulos de momentos mágicos como este, bem como bastidores polêmicos, como a histórica rivalidade com o francês Alain Prost, e o embate com a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), especialmente por conta da ficcionalização de relatos jornalísticos. Porém, a pressa do roteiro em abordar fatos suficientes, que o tornassem A Lenda, faz com que a série falhe em mostrar como ele construiu suas convicções, sejam as sociais e pessoais em relação ao Brasil, sejam as profissionais, não servindo como explicação o recurso mitológico da ligação com o carro ou do talento inexplicável, embora lendário, para correr sob a chuva, o que torna a produção extremamente frustrante neste sentido.

Senna

Essa dificuldade em criar relacionamentos reais, profundos e com camadas entre os personagens, que façam diferença no roteiro e tenham impacto no arco do protagonista, fica mais latente quando se observa a interação engessada de Ayrton com os próprios pais, resultando em falas ensaiadas e nada naturais, bem como na maior constância de toda a série, Laura Harrison (Kaya Scodelario), uma jornalista esportiva que acompanha a carreira de Senna desde o início, mas nunca existiu na vida real.

Ainda que seja um recurso interessante para abordar a relação difícil do piloto com a imprensa, servindo para situar o público do momento que ele vivia, também como uma espécie de termômetro de popularidade, Laura escancara o caráter ficcional da produção por ser aquela a deixar clara a dificuldade de construir uma obra com personagens complexos, como era o piloto em seus relacionamentos, tornando o Ayrton dos dois últimos episódios pouco crível em um contexto geral, ainda que extremamente parecido com o que se conhecia do piloto. Isso porque faltam conflitos para que a maturidade, responsabilidade e seriedade cheguem da forma como chegou naquele ponto de sua carreira, ainda que fique claro como, nos dois últimos episódios, Gabriel Leone adentre de vez naquela essência que foi buscada desde o primeiro minuto, resultando em uma produção curiosamente inconstante a ponto de se levar a pensar que a conexão entre público e personagem tenha sido criada mais em relação à memória e grandeza de Ayrton Senna do que ao retrato que se vê na tela.

Tudo isso, no entanto, não tira o brilho dos dois episódios finais extremamente bem produzidos, com destaque especial para Gabriel Louchard na pele — e voz — de Galvão Bueno. Amigo pessoal e locutor, o apresentador foi um dos grandes responsáveis por transformar Ayrton em um ídolo dos brasileiros, sendo o responsável por narrar os auges do piloto, como a vitória no Brasil em 1991, e a batida, que levou a sua morte em 1994, conferindo o real tom e dimensão, junto a uma edição caprichada, dos momentos decisivos do piloto e do personagem.

Dessa forma, terminando de forma inteligente ao narrar até os minutos decisivos de Ayrton em Ímola, na Itália, durante um fim de semana de tragédias na Fórmula 1 e fatídica preocupação dele em relação às condições de segurança dos pilotos, o grande mérito de Senna, especialmente através das cenas nas pistas, é despertar a emoção e a adrenalina de um público que nunca o viu correr naquela época, bem como fazer com que aqueles que têm idade para o terem acompanhado, pudessem vivenciar essa sensação novamente, assim como seu inacreditável, frustrante e injusto fim. O sentimento de pertencimento emanado por Ayrton Senna, inexplicável até os dias de hoje, é bem explorado pela série, que consegue o mesmo feito, ainda que com suas inconstâncias, tendo estreado na Netflix como um sucesso nacional e internacional quase que obrigatório. Como Senna, denotando o orgulho do Brasil para o mundo.