Categorias: CINEMA

Por Trás dos Seus Olhos

Por Trás dos Seus Olhos conta a história de Gina (Blake Lively), uma jovem mulher deficiente visual que vive em Bangkok, Tailândia, com o marido James (Jason Clarke). Com o passar do filme, reunimos mais informações sobre a personagem e descobrimos que ela perdeu a visão na infância, em um acidente de carro que matou seus pais. Mudou-se para a Tailândia por conta do trabalho do marido, e a barreira do idioma agravou ainda mais a situação de dependência em que já vivia. Tudo muda, entretanto, quando surge a oportunidade de realizar uma cirurgia para restaurar a visão de um dos olhos, e a possibilidade de uma nova vida se abre à sua frente.

Atenção: este texto contém spoilers!

As palavras-chave para se entender Por Trás dos Seus Olhos são dependência e controle. Com a irmã, única família que lhe sobrou, vivendo em outro país, e poucas pessoas em seu círculo próximo de convivência, é natural que Gina dependa do marido para realizar muitas atividades diárias. É ele quem a leva a todos os lugares, compra suas roupas e gerencia os aspectos de sua vida em geral. Até aí, não existe nada de errado com a situação toda, já que ela se encontra em um país estranho cuja língua não domina. É só quando as coisas começam a mudar em sua vida que os problemas aparecem realmente. Antes da cirurgia, Gina pergunta a James se ele não se importa de ter que fazer todas essas coisas por ela, ao que ele responde que isso faz com que ele se sinta especial. Esse é o gancho que alinha toda a trama do filme.

As coisas começam a mudar na vida do casal a partir do momento em que Gina abre os olhos e volta, aos poucos, a enxergar. Tendo visto durante boa parte da infância, é natural que após a perda da visão a imaginação ocupe o papel dos olhos para suprir sentido que ela não tem mais; ela tem expectativas de como é o marido, sua casa, o mundo à sua volta, e — como toda expectativa — é altamente improvável que elas correspondam à realidade. Uma das primeiras coisas que Gina diz a James após recuperar a visão é que ele não é como ela imaginava. A mesma coisa acontece mais tarde, com o apartamento deles, mas se ela consegue disfarçar uma eventual decepção com a aparência física do marido, quando suas expectativas são frustradas ao ver pela primeira vez o lugar em que mora, o descontentamento é claro. E esses são apenas os primeiros sinais de mudança. Com a visão vem a descoberta de um novo sentido estético, uma nova descoberta de quem ela é no mundo, do que gosta e não gosta, toda uma nova possibilidade de desenvolvimento para a sua personalidade, e isso traz mais mudanças em sua vida.

Por trás dos seus olhos

Se antes Gina era completamente dependente do marido, ela agora não precisa mais dele, e esse efeito colateral da cirurgia era algo que não havia passado pela cabeça de James até aquele momento. Ele acreditava realmente que a única diferença em sua vida seria que sua mulher antes cega, passaria a enxergar. Se ela acorda da anestesia para encontrar um marido, uma casa e um mundo diferentes daqueles que ela conhecia até ali, o que ele recebeu de volta no lugar da esposa dócil e dependente foi também uma nova pessoa. E ele claramente não gostou disso. A partir do momento em que a esposa recupera autonomia e independência totais, James perde grande parte do controle que tinha sobre ela. Se antes ele podia sair para beber com os amigos, seguro de que a mulher estaria sozinha em casa dormindo, enquanto ela só poderia sair se ele fosse junto, agora ela não só pode como gosta de fazer coisas por si mesma sem dar satisfações, toma decisões sobre sua própria aparência, o lugar onde quer morar e o que ela quer fazer. De uma hora para a outra, toda aquele sentimento de “importância” que ele sentia sumiu.

O descontentamento de James vai se mostrando aos poucos, à medida em que o lado do filme categorizado como thriller vai se construindo. Eles fazem uma viagem romântica e ela o contradiz e não cede até ele admitir que ele está errado e ela, certa. Eles visitam a irmã dela e ela mostra seu lado sensual e preocupado com a aparência. Ela quer novas experiências e resolve assistir um show erótico mesmo que ele não queira ir. Ele não gosta da nova forma dela de se vestir, nem do seu cabelo, quer controlar a roupa com que ela sai. No meio de tudo, agora as experiências sexuais dos dois envolvem uma nova dimensão, visual, que ele teme que não corresponda às fantasias anteriores dela. Paralelamente, ele descobre que é improvável que seus espermatozoides consigam fertilizar um óvulo. Não só ele se sente dispensável, como também deficiente em sua masculinidade, incapaz de cumprir o seu papel de reprodutor e concretizar os planos de vida deles enquanto família.

É aí que a abusividade do relacionamento se mostra: se antes de ela recuperar a visão, antes do ponto de partida do filme e por motivos que só podemos especular, ele já cumpriu as etapas padrão do relacionamento abusivo de isolá-la, em grande parte, da família e de quaisquer amigos que ela tivesse onde quer que eles morassem, agora todo esse processo se mostrou inútil e ele precisa encontrar uma forma de fazer com que as coisas voltem a ser como antes. Entretanto, existe apenas um jeito de isso acontecer: acabar com o elemento que deu o pontapé inicial em todas as mudanças — a recém-recuperada visão de Gina. É difícil dizer se ele sente remorso em algum momento por suas ações, mas o fato de não ter voltado atrás no plano e o desespero dele quando descobre que foi passado para trás são fortes indicativos de que ele considera que suas ações abusivas são justificadas em nome da preservação do relacionamento que queria ter com ela.

Por trás dos seus olhos

Uma das perguntas que ficam ao final é: por que ela simplesmente não deixa o marido quando descobre a sabotagem? Por Trás dos Seus Olhos não dá respostas, mas é perfeitamente possível imaginar centenas de motivos para isso. Começando pelo fato de que Gina está grávida, praticamente sozinha em um país desconhecido e depende financeiramente dele. Não sabemos que tipo de educação formal ela teve, que qualificações possui, e todo mundo sabe que não é tão fácil para mães arrumarem emprego. Também existe toda a dívida emocional envolvida pelos anos em que recebeu cuidados de James, coisa que não se resolve tão facilmente. Além disso, Gina não tem nenhuma garantia de que foi ele quem sabotou seus remédios; daria para cogitar um erro do laboratório ou algo parecido. A ruptura total de consciência só chega muito depois, quando ela já voltou a enxergar — sem que ele soubesse — e descobre que foi ele quem desapareceu com a cadela que ela havia adotado.

Existem, ainda, algumas questões que ficaram mal respondidas, como o motivo de alguém guardar um pássaro morto na geladeira ou como o autor da carta informando sobre o cachorro soube quem eles eram e onde moravam, mas nada que cause muito desconforto ou desvirtue a mensagem central do filme. Saindo da trama e passando para outros aspectos da obra, Por Trás dos Seus Olhos tem jogos de câmera e efeitos visuais muito interessantes, que se relacionam com a história contada e com a deficiência da personagem. As atuações são envolventes e funcionam bem no contexto geral da produção, o que torna o filme uma boa escolha para quem gosta do estilo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

12 comentários

  1. Mesmo com muitas incognitas, achei o filme muito interessante. Ela pôde mostrar quem era de verdade ao recuperar a visão, e isso mexeu com a segurança que ele tinha já que a controlava. Tudo deu a entender que ele sabotou os colírios e, mesmo sabendo q ela estaria grávida de outro, continuaria casado com ela. Enfim, acho que o filme refletiu muito o caso que poderia ser real: alguém que libertaria seu verdadeiro ‘eu’ depois de descobrir que não depende mais inteiramente de outra pessoa, e alguém que destruiria o sonho do outro, por medo perder a segurança que se tem num relacionamento.

  2. Eu achei que ele gostava de transar com ela com outras pessoas vendo (voyer), porque na parte do quarto da lua de mel. ela sabia que não era o quarto e logo em seguida vem a cena do casal transando naquele outro quarto que provavelmente eles ficaram, também tem a parte que ela esta na sacada e ve a velha fumando e observando e logo ela diz que queria se mudar, também tem o fato dele ter gravado a cena quando ela amarra ele na cama, depois ficava observando, mas não ficou muito claro

  3. O autor da carta é aquele tiozinho que ficava encarando ela na sacada, ou talvez foi ele que “manipulou” o colírio dela. É um filme que da margem pra muito interpretação!

  4. Um filme denso, interpretativo e de difícil conclusão. Mas, é um filme bom, que nos faz pensar em valores e referências. Bebe na mesma fonte do Ensaio sobre a cegueira do Saramago.

  5. Achei um filme otimo, bem verdadeiro, com uma fotografia excelente auxiliada aos bons angulos de camera que envolve o espectador.
    Fala diretamente de casos da vida, e nos leva a reflexão, o marido acostumado a uma mulher dependente dele, e mesmo deficiente visual, ela mostra muito potencial, indo na natação, se movimentando bem na casa. Ele se sente ameacado quando ela consegue ver, ele também ao sair com ela quando ela não enchegava podia olhar outras mulheres, casais… isso fez com que ele viesse a sabotar seu medicamento. Em fim um filme que faz a gente pensar profundamente sobre as relações humanas.

  6. Filme bom, ele apaixonado pela antiga gina e ela descobriu sua real essência promíscua e de liberdade.ambos se amam pois ele fez de tudo para ela voltar a enxergar e levar ela a lugares, e ela sempre meiga e amorosa com ele,e não querem ferir um ao outro de propósito, porém ele se mostra apegado e com dificuldade em aceitar a nova gina e ela ainda confusa na nova versão dela mesma.um fim ruim e bem real de quem deveria somente aceitar a não mais compatibilidade e seguir cada um em suas respectivas felicidade.

  7. Amei o filme!!
    Sua crítica bate bem com minha interpretação.
    Vou um pouquinho além.
    A questão da cegueira pode ser uma metáfora para qualquer tipo de sofrimento que um parceiro possa viver com um abusador emocional.
    Ela, simplesmente passou a “enxergar” a vida segunda sua ótica, que seu marido inseguro não permitia que visse a não ser sob uma única ótica, a dele.
    Quando ele percebe que ela se “libertou” dele, passa então a querer boicotar suas conquistas e tenta trazê-la novamente para a escuridão, à não liberdade conquistada, voltando a depender somente dele, devolvendo à ele o controle de sua vida.
    Fim maravilhoso!
    Enfim a liberdade!!!!

    Um bom tema para quem vive preso a um abusador, “ENCHERGAR” enquanto é tempo, mesmo não sendo CEGO

  8. Paloma, que prazer ler sua crítica, vc conseguiu resumir toda a essência do filme com maestria. Amei ler e gostei muito do seu texto sobre vc mesma pq eu tb tenho muitas das características que vc descreveu de si, tô com muita vontade de te conhecer para debatermos esses filmes legais. Obrigada pelo prazer da leitura!!!

  9. No início tudo lindo… quando ela ganha uma vida nova, o relacionamento abusivo foi ficando mais claro… belas cenas, excelente atuações, ótimo texto! A metalinguagem no final foi deliciosa!