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Queen & Slim: uma história de amor à comunidade negra

Queen & Slim (2019) é uma história de amor. Sem romantismo, desencadeada pelo “acaso” de um sistema esmagadoramente racista, mas ainda assim uma amostra de que o amor consegue encontrar espaço até nas situações mais penosas. O longa acompanha o casal negro que dá título ao filme tentando fugir dos Estados Unidos depois de matar um policial em legítima defesa. No caminho, enquanto descobrem um ao outro e redescobrem a si mesmos, eles provocam uma onda manifestações por todo o país e se tornam símbolo de rebeldia.

Com roteiro da escritora e atriz Lena Waithe (vencedora do Emmy de Melhor Roteiro em Série de Comédia pelo episódio “Thanksgiving”, de Master of None) e direção de Melina Matsoukas (Formation de Beyoncé; Losing You, de Solange Knowles, e We Found Love, de Rihanna) que faz sua estreia em longas, Queen & Slim é, portanto, produto de duas mulheres negras. E como tal, expõe diversas sequelas da desigualdade racial na sociedade americana, como a pena de morte no sistema prisional e o abuso de autoridade, enquanto apresenta seus personagens centrais.

Interpretados por Daniel Kaluuya e Jodie Turner-Smith, Slim e Queen estão vivendo seu primeiro encontro depois de meses apenas conversando (ele interessado, ela nem tanto). A situação é desconfortável. Queen é advogada e um de seus clientes acabou de ser condenado à morte. Ela está ali meio a contragosto pois não queria ficar sozinha justamente nesse dia já que não tem amigos ou familiares próximos. Nesse primeiro momento, fica visível que ambos têm experiências de vida bem distintas e, consequentemente, visões de mundo também.

Após o encontro frustrado, eles estão voltando para casa até que são parados por um policial branco que cita uma suposta violação de trânsito. A partir daí, tudo acontece muito rápido. Queen critica veementemente o tratamento abusivo do policial com Slim, e quando a situação piora, Slim acaba atirando e matando o policial. Apesar de ter sido legítima defesa e de a ocorrência provavelmente ter sido filmada (o que eles não têm certeza até então), Queen sugere que eles fujam. O conhecimento dela sobre o sistema de justiça criminal faz com que a advogada defenda a fuga dos dois ao invés de tentar explicar a outros policiais o que aconteceu. Ela já não acredita em isonomia.

Queen & Slim

Então, eles partem pelo país numa fuga que remete ao famoso casal de assaltantes dos anos 1930, Bonnie e Clyde. A dupla até chega a ser comparada a eles como uma espécie de versão negra. No entanto, aqui o recorte de raça joga luz sobre toda uma estrutura que condena as ditas minorias como bandidos antes mesmo de qualquer julgamento, a exemplo de tantos casos reais. Sobre os paralelos com Bonnie e Clyde a própria diretora do filme afirma que essa é uma maneira simplista de ver o filme. “Eu realmente não concordo em basear filmes negros em qualquer arquétipo branco. Eu acho que há uma enorme diferença em quem Queen e Slim são. Eles não são criminosos em fuga, são duas pessoas muito humanas que têm uma experiência compartilhada, essa não foi a escolha deles. Acho que é uma diferença muito crítica entre eles”, disse ela ao The Los Angeles Times. E Waithe reitera essa visão em entrevista ao USA Today: “é quase um grito de guerra para todos os negros que perdemos de uma arma ou de um vigilante simplesmente pelo fato de serem negros”.

Não à toa, vários momentos do filme parecem totalmente inspirados em acontecimentos reais. É o caso da ativista Assata Shakur, do Partido Pantera Negra e do Exército de Libertação Negra, mencionada no filme e que serve como referência para as decisões que Queen e Slim tomam após o tiroteio. Ela e outros membros se envolveram em um tiroteio no qual o policial Werner Foerster foi morto, em maio de 1973, no New Jersey Turnpike. Depois de condenada à prisão perpétua, Shakur escapou da cadeia em 1979 e vive como asilada política em Cuba desde então.

Ainda ao The Los Angeles Times, Matsoukas diz que uma das principais referências para seu trabalho tem sido a vida real e as lutas autênticas na comunidade negra: “Eu assisti muitos vídeos do YouTube de negros sendo presos pela polícia ou encontrando policiais, e isso não necessariamente terminou bem. Infelizmente, existem muitos desses vídeos, mas eles foram uma grande influência em como eu queria abordar a cena de abertura”. Importante ressaltar também a escolha por uma atriz de pele negra retinta, para que assim “suas irmãs” se sentissem representadas, afirma a diretora.

Em artigo para o The New York Times, Jelani Cobb afirma que Matsoukas não criou apenas uma história de gângster para a era moderna, mas sim um filme de blaxploitation. Para ele, a referência não é Bonnie & Clyde, e sim a Canção de Sweet Sweetback’s Baadasssss, filme independente de Melvin Van Peebles, de 1971, que inaugura esse movimento cinematográfico norte-americano. O gênero foi responsável por favorecer o protagonismo negro atrás e na frente das câmeras mesclando críticas ácidas, bom humor e muito estilo. Este último outro ponto em comum com Queen & Slim, pois junto com o roteiro afiado a direção de arte, a fotografia e a trilha sonora prestam uma rica homenagem a cultura negra.

Queen & Slim

No entanto, toda essa beleza contrasta com as feridas expostas pelo jovem casal. Enquanto tentam chegar ao país cubano para finalmente se sentirem seguros, Queen e Slim dialogam sobre o que é ser negro e as infinitas maneiras de sê-lo, considerando as múltiplas nuances experimentadas por cada um deles. Eles se abrem um para o outro. Passam a confiar. E o estranhamento inicial vai se esvaindo. A tensão da fuga é quebrada por alguns momentos de leveza quando o filme assume ares de videoclipe ou quando lembra aos dois que há todo um discurso sendo construído atrás deles e — às vezes — esse discurso é de acolhimento. Quase dá para acreditar que eles vão conseguir.

Embora seja declaradamente uma carta de amor a cultura negra, Queen & Slim opta pelo final trágico para não romantizar as realidades que espelha. “Imagine ser a família dessas pessoas. Eu não queria desrespeitá-los, tentando dar às pessoas um final de Hollywood. Isso é desrespeitoso para Emmett Till, Trayvon Martin, Sandra Bland, Mike Brown, Eric Garner…”, explica Waithe também ao USA Today, numa lista desastrosa que não pára de crescer.

Episódios recentes como o de George Floyd e Breonna Taylor desencadearam uma série de protestos a partir de maio deste ano nos Estados Unidos, ecoando em outros países impulsionados por movimentos como o Black Lives Matter, e aqui no Brasil através do Vidas Negras Importam. O longa é mais uma entre as muitas denúncias do racismo que persiste sobre pessoas de diferentes nacionalidades. É um lembrete de que cada uma delas recebe de herança as consequências de um passado escravocrata que se faz presente cotidianamente. E um convite a meditar sobre a grandiosidade de toda uma cultura que não se permite ser ofuscada nem pela maior das dores. O legado é real e vivo. Muito vivo, apesar de tudo.

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