Categorias: LITERATURA

A Farsa de Guinevere: a lenda arturiana por Kiersten White

Como entusiasta das lendas arturianas e fã do trabalho de Kiersten White desde que li sua Saga da Conquistadora, foi com muita expectativa que acompanhei o lançamento de A Farsa de Guinevere, primeiro livro de sua trilogia dedicada a reimaginar a lenda do Rei Arthur por meio dos olhos de uma mulher. Lançado no Brasil pela Plataforma 21 no primeiro semestre do ano e com tradução de Lavínia Fávero, A Farsa de Guinevere nos leva para o reino de Camelot, para os caminhos mágicos das florestas ao redor e a solidão do lago sem vida que espreita o reino à distância. Tudo isso enquanto acompanhamos Guinevere desbravando Camelot e procura descobrir a ameaça que assoma sobre o rei.

A trama tem início com Guinevere a caminho de Camelot para se casar com um total desconhecido, o jovem e carismático Rei Arthur. Merlin, o velho feiticeiro, é o responsável por organizar o casamento da princesa com o rei, mas o plano do mago vai muito além de um matrimônio e a missão de Guinevere não é apenas se transformar em uma boa rainha para Camelot, mas também proteger Arthur dos perigos que rondam as fronteiras do reino. Tendo conquistado Camelot por meio de uma batalha sangrenta, resguardando o reino da magia que o espreitava expulsando-a para longe, Arthur tem um alvo nas costas para o qual todos aqueles que esperam a queda da cidade apontam uma arma — o papel de Guinevere nisso tudo é protegê-lo de qualquer ameaça, principalmente de origem mágica.

“Nada neste mundo é tão mágico e tão assustador quanto uma moça prestes a se tornar mulher.”

Guinevere, então, é escoltada para Camelot, para o casamento, pelos melhores cavaleiros de Arthur, mas eles não fazem ideia de que a jovem princesa é, na verdade, alguém muito mais mortal do que sua aparência frágil dá a entender. Treinada pelo próprio Merlin, Guinevere não é quem diz ser: o nome e a identidade real da jovem prometida em casamento à Arthur são um segredo guardado a sete chaves; a moça a caminho de Camelot desistiu de tudo o que conhecia como verdadeiro para proteger Arthur e o reino, assumindo a identidade da real Guinevere, dada como morta, no processo. Ninguém além dela e Merlin sabem sua verdadeira identidade, e esse é um segredo que deve ser mantido a todo custo a fim de preservar sua missão.

Para Merlin, a maneira mais fácil para Guinevere se misturar à paisagem de Camelot, ficando ao lado de Arthur sem levantar suspeitas, é se casando com o rei e, assim, o plano é levado a cabo. Arthur sabe no que está sendo envolvido e concorda com o estratagema, casando-se com a jovem como planejado. A partir de então, com acesso garantido ao castelo e a todo o reino governado por Arthur, Guinevere dá início ao seu plano para manter o rei a salvo, transitando entre os nobres da corte, os cavaleiros leais ao rei, ao povo comum e os seres mágicos que ainda não deixaram o mundo por completo. Ela mesma, como feiticeira, sente que nas florestas e nas profundezas dos lagos, na água que transborda e nas folhas carregadas pelo vento, a magia está apenas aguardando o momento correto para tomar de volta a lendária Camelot.

A Farsa de Guinevere tem um início leve, quase simples, que não entrega toda a sua trama logo de primeira. Guinevere está em Camelot para proteger Arthur e Arthur aceita se casar com ela e nasce toda uma tensão romântica entre eles — e entre Guinevere e outro personagem, vale apontar — mas isso não é tudo o que há. Kiersten White não tem pressa em desenvolver sua história e, assim como Guinevere, estamos descobrindo as nuances desse mundo novo que é Camelot e tudo o que vem no pacote aos poucos, peça por peça. Personagens nos são apresentados, histórias não são contatadas por inteiro logo de uma vez e a autora vai tecendo, linha por linha, uma tapeçaria que só podemos imaginar qual será o desenho final. Entendo que isso pode ser frustrante para alguns leitores, mas esse ritmo lento funcionou para mim. Gosto tanto da construção de mundo de Kiersten White que por vezes, durante a leitura, dizia a mim mesma para ir devagar, para não ler o livro todo em dois dias e ficar um ano esperando a sequência — no caso The Camelot Betrayal, ainda sem tradução no Brasil — em total agonia. Mas foi difícil não ler A Farsa de Guinevere como se minha vida dependesse disso.

A Farsa de Guinevere é uma história sobre suas mulheres e seu papel no mito do grande Rei Arthur e apenas raspamos a superfície do que Kiersten White tem preparado para suas personagens nesse primeiro livro. Há na narrativa aspectos conhecidos da lenda arturiana, como os cavaleiros leais ao rei, o misticismo que envolve Camelot, a Dama do Lago e toda a magia ao redor, mas Kiersten White toma várias liberdades narrativas inserindo personagens queer, atualizando a trama para o momento mais inclusivo em que vivemos, e ainda nos entregando gratas surpresas com relação a personagens que são velhos conhecidos. Ainda temos os combates de escudo e espada, cavaleiros misteriosos salvando jovens em perigo em uma floresta mágica, mulheres trançando feitiços com fios de cabelo e sangue, mas a trama consegue ir além disso, incluindo novidade onde, a princípio, existe algo tão certo quanto o fato de que apenas o legítimo rei conseguirá retirar Excalibur da pedra.

“Certamente, nos três dias que passara no convento, aprendera muito a respeito de pecado e culpa, que pareciam ser uma espécie poderosa de magia por si só, que controlava e moldava os demais.”

Porém, mesmo com todo o carinho que eu tenho pela trama em si, por amar a temática, e pela própria Kiersten White, por adorar os livros da autora, a protagonista de A Farsa de Guinevere se perde em alguns momentos dentro de sua própria narrativa. Não darei spoilers, visto que a graça do livro é tentar desvendar a real identidade de Guinevere e o que Arthur e Merlin tem a ver com tudo isso, de que maneira estão envolvidos em toda essa farsa, mas em alguns momentos da narrativa é mesmo difícil de acompanhar os pensamentos de Guinevere, sempre tão voltados para Arthur mesmo que ele quase nunca esteja disponível para ela. Como rei, Arthur tem muito com o que lidar e, portanto, permanece a maior parte do tempo viajando ou se preocupando com outras questões além do castelo no topo da montanha onde ele e Guinevere vivem. E com isso Guinevere, cuja missão é protegê-lo, se encontra sem saber como fazê-lo visto que ele nunca está presente.

Guinevere faz o possível com sua magia, mas chega um momento em que tudo o que ela pensa é sobre quando Arthur voltará e o que ela fará no momento em que isso acontecer. Isso incomoda um pouco, principalmente pelo fato de Guinevere, uma feiticeira tão poderosa, se encontre refém dos encantos de Arthur mesmo ele estando tão pouco presente para ela de maneira geral. Não me entenda errado, eu adoro os poucos momentos que eles compartilham juntos, mas é incômodo vê-la tão carente de atenções — ainda que ser poderosa não deva ser um impedimento para ela se apaixonar por alguém, a forma constante com que ela pensa em Arthur não deixa de ser uma repetição cansativa. Talvez essa quase obsessão tenha relação com Merlin e a maneira como ele interferiu nas memórias de Guinevere, que não consegue se lembrar de momentos específicos de sua vida antes de ir para Camelot, e do fato da moça ter sido criada completamente isolada na floresta tendo apenas o velho mago como companhia e professor, mas esse é um mistério que somente Kiersten White poderá nos revelar nos próximos livros.

“Guardar segredos é como ter um espinho por baixo da pele. A gente pode se acostumar, mas sempre estará lá, incomodando.”

Mesmo com esse incômodo na maneira como Guinevere lida com o que sente por Arthur, foi impossível não gostar de A Farsa de Guinevere — principalmente depois da decepção que Cursed, série da Netflix com a mesma intenção de recontar a lenda arturiana com o protagonismo de uma personagem feminina, me causou. Aqui, pelo menos, temos uma autora que sabe o que está fazendo e não nos deixa espumando de raiva por esse ou aquele desfecho. A Farsa de Guinevere tem muito mais acertos do que erros, personagens complexas e verossímeis pelos quais torcer e uma trama que te faz sempre ansiar por mais.

Em comparação com outras personagens femininas escritas por Kiersten White, como Lada Dragwlya, protagonista da já citada Saga da Conquistadora, ou Elizabeth Lavenza, de A Sombria Queda de Elizabeth Frankenstein, Guinevere pode soar inocente demais, quase boba, mas se tem uma coisa que a feiticeira não é, é sonsa. Guinevere tem sua parcela de insegurança, talvez pela maneira como foi criada ou por não se lembrar de momentos importantes de sua vida anterior a Camelot, mas no decorrer do livro vamos descobrindo junto dela o poder adormecido em seu interior. Pela pouca idade de Guinevere, até é possível dizer que a nova trilogia de Kiersten White aborda um coming of age onde acompanhamos a protagonista encontrando seu lugar no mundo, o que os outros esperam dela e, o mais importante, o que ela quer fazer com seu poder no meio de tudo isso.

“Mas como poderia oferecer consolo para a destruição impiedosa do tempo?”

A Farsa de Guinevere é um típico livro de início de trilogia, ou seja, introdutório. Ao mesmo tempo em que Kiersten White nos dás as peças e começa a tecer sua trama, ela não responde muitas das questões que mais inflamam o leitor durante as mais de 300 páginas de sua obra. Poucos são os mistérios realmente elucidados e muitos aspectos são deixados para serem destrinchados nos dois próximos livros — embora eu tenha gostado da trama, é preciso admitir que em alguns momentos a sensação durante a leitura é de que a autora precisou esticar sua história para preencher os próximos dois livros. Isso não desabona a experiência de leitura de maneira alguma, mas pode incomodar leitores que prefiram ciclos completos dentro dos livros, mesmo que a trama maior da trilogia ainda fique por concluir.

Mesmo assim, A Farsa de Guinevere é uma leitura muito prazerosa e divertida. A autora não foca apenas em Guinevere e Arthur, mas dedica um bom tempo aos personagens coadjuvantes como Mordred, sobrinho do rei, Lancelot, espadachim de talento, e Brangien, dama de companhia de Guinevere que é muito mais do que aparenta ser na superfície. O misticismo que envolve Camelot está lá, personagens conhecidos da lenda arturiana também, e tudo se complementa de maneira orgânica. Como alguém que gosta tanto da lenda do Rei Arthur quanto dos livros de Kiersten White, A Farsa de Guinevere reúne o melhor dos dois mundos com a vantagem de ser narrado por uma perspectiva feminina, normalmente a parcela relegada ao segundo plano em tramas de reis prometidos e guerreiros idealizados. Guinevere receia se perder dentro da mentira em que sua vida se transformou, mas acredito que a protagonista ainda tenha muito o que mostrar — e Kiersten White também.

O exemplar foi cedido como cortesia pela Plataforma 21.


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3 comentários

  1. Você foi bem mais generosa com o livro do que eu! 🤣

    Mas eu gostei do livro, no geral. Só que AQUELA revelação lá do meio para o final me brochou. Parece que tirou toda a importância do trabalho dela pra ela ser apenas um joguete nas mãos dos homens do enredo. Mas Lancelot vai me segurar pra um próximo volume!

    1. Sybylla do céu, Lanceolt foi TUDO. Nas versões que já li/ assisti eu sempre gosto do personagem, dessa vez então foi a melhor coisa do mundo. Espero que a Kiersten faça valer a fé que depositei nela, hahaha!

  2. Só de ler o texto apaixonei pela ideia. Ontem mexendo em meus LPs (disco de vinyl-bolachão) ví um do tecladista Rick Wackeman que nos anos 70 promoveu a fusão do Rock com Orquestra sinfônica que resultam para mim e milhares de fãs em experiência únicas. Viagem ao Centro da Terra, e também Mitos e Lendas do rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda são expoentes incontesti… Não resistí e coloquei o disco na Pick Up (toca discos), os primeiros acordes após a apresentação me levaram a um mundo de magia que há pelo menos 40 anos, eu não experimentava. Quando começou a música “Guinevere” (nossa… quantas centenas de vezes a ouvi naqueles tempos atrás), uma beleza me invadiu a alma, os acordes, a delicadeza das notas, a voz na canção me acordaram para algo que nunca imaginei: ” Quem foi Guinevere ?” Quem foi a mulher que foi homenageada com uma canção tão linda. Agora pela manhã acordei com as notas da música em todo meu corpo, coloquei o disco pra rodar, e vim a internet para saber quem foi esta mulher. E um dos links me trouxeram ao teu texto, que me apaixonou imediatamente pela estória. Vou comprar o livro, quero saber de tudo com detalhes… Obrigado por partilhar tão importante opinião conosco