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Late Night e como as mulheres são tratadas na linha de frente

Mindy Kaling é o tipo de amiga que queremos ao lado quando acabamos um relacionamento e também quando ganhamos uma promoção. É uma mulher que vibra, vive e opina sobre aquilo ao seu redor, sempre trazendo a tona comentários pertinentes que muitos pensam, mas não têm coragem de falar em voz alta. Seja como Kelly Kapoor ou Mindy Lahiri, Mindy escreve personagens e narrativas que trazem uma essência ao mesmo tempo atual e crítica, direta ou indiretamente focadas no funcionamento do show business. Late Night não é diferente.

Filmado em 2018 e lançado pela Fox em 2019, Late Night conta a história de Katherine Newbury (Emma Thompson), uma apresentadora de talk show que tem uma longa carreira na comédia, mas que está para ser substituída por um homem mais jovem e com piadas mais infames.

Atenção: o texto contém spoilers

Katherine é uma mulher de meia idade, rabugenta e desagradável. Ela praticamente não conhece quem é seu staff de escritores e apenas dá ordens à sua equipe, ignorando ou reclamando das opiniões que recebe. Eventualmente, Katherine ganha um ultimato da presidente do canal em que trabalha: ou ela melhora os números de audiência ou será substituída por um novo comediante, mais novo, que faz stand up em bares. A saída para Katherine é, então, tentar entender melhor como a produção do seu próprio programa funciona, participando do seu processo — o que ela não fazia antes.

A primeira coisa que ela percebe é que seu corpo de roteiristas é apenas masculino. Graças a isso, muitas de suas opiniões e visões essencialmente femininas não aparecia no programa; não havia quem as pensasse por ela. Assim, ela contrata Molly Patel (Kaling) como sua nova roteirista. Molly, porém, não tem experiência com escrita criativa, ela apenas o faz em seu tempo livre, o que causa antipatia entre os outros membros da equipe. Molly é mulher em um grupo de 11 homens, e sem experiência no ramo. Mas, ao mesmo tempo, ela não tem medo de dar suas ideias, admira o trabalho de Katherine e quer mudar a maneira como as coisas funcionam no programa — diferente dos homens que somente abaixam a cabeça e que, muitas vezes, não fazem um trabalho melhor porque não acreditam que exista uma forma de tornar o programa melhor.

late night

Aqui, Kaling traz duas situações reais em seu texto: a primeira, de uma mulher na linha de frente de um talk show, como apresentadora, e a segunda, sobre a ausência de mulheres dentro da sala de roteiristas. É possível recordar alguns exemplos, como é o caso de Ellen Degeneres, única mulher com um programa de talk show de comédia na televisão norte-americana. No Brasil, temos o exemplo de Tatá Werneck, no Lady Night, que traz um tipo diferente de entretenimento para a televisão brasileira: uma mulher fazendo comédia em horário nobre. Já exemplos de mulheres na comédia, podemos visualizar outros vários, como o elenco de Saturday Night Live (que já teve nomes como Tina Fey, Amy Pohler e Maya Rudolph em seu elenco), ou nomes como Hannah Gadsby, Ali Wong, Sarah Silverman e as meninas de Broad City, no stand up — mas ainda não vislumbramos muito mais. Outra questão muito pontual é a falta de diversidade na sala de roteiristas de parte desses programas: embora muitos dos nomes citados já tenham também exercido domínio dentro delas, com autonomia criativa para criar as próprias piadas, essa ainda é uma minoria.

Em Late Night, Molly é quem começa a trazer piadas e situações cômicas nunca antes pensadas pelo grupo masculino de roteiristas, e que faziam muito mais sentido para Katherine abordar em seu programa. Assim, o programa de Katherine passa a ter novidades, a contar com quadros diferentes e mais atuais, piadas mais críticas, e a apresentadora renova seu trabalho, voltando a ser mais como era no início de sua carreira. Ela sai do óbvio, desbrava outros nichos, consegue efetivar resultados. Mas até que isso aconteça, é também necessário um trabalho interno da própria Katherine, que precisa aceitar essas mudanças, ter outra mulher trabalhando para ela, algo que ela acreditava ser impossível — porque a criação patriarcal também diz que mulheres trabalhando juntas não é possível; elas só podem ser rivais.

Já vimos essa falta de representatividade e diversidade em outro seriado, 30 Rock. Seriado da NBC escrito e apresentado por Tina Fey, ele conta a história de um programa de comédia (inspirado no SNL) em que ela é a única mulher na sala de roteiristas. Por ser a chefe e estar cercada de homens, todos passam a vê-la como um deles, sem muito respeito e cordialidade. Tanto que, em episódios em que ela se arruma ou arranja um namorado, eles estranham, afinal, ela é um brother, não é? Não, ela não é. Ela é uma mulher e pode trabalhar com homens, mas isso não a torna um deles. Ela pode ter seu espaço e ainda ser ela mesma. Ou, ao menos, deveria.

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Em Late Night, Katherine conquista um novo espaço e garante melhores números de audiência com as mudanças propostas e executadas, mas isso não é o bastante. Quando um e-mail contendo uma conversa picante entre Katherine e um de seus roteiristas é liberado na internet, ela passa de apresentadora a vadia. É a primeira vez que ela tem contato com o termo slut-shaming.

“Toda essa prática de xingar ou constranger usando como base o comportamento sexual da mulher tem um nome: slut-shaming. Resumidamente, slut-shaming é uma forma de restringir e controlar a sexualidade feminina usando xingamentos, ou fazendo com que ela se sinta culpada, humilhada ou inferior por comportamentos diversos, como ter vários parceiros, transar sem compromisso, usar roupas curtas, etc. A implicação por trás é a de que quanto mais sexualmente ativa uma mulher, menos valor ela tem como ser humano.” — Via Nó de Oito.

Tanto na vida real como na ficção, as mulheres estão condicionadas a uma posição de vulnerabilidade social. Quando dizem o que pensam, quando expressam suas vontades, quando fogem ao que culturalmente é considerado adequado, são chamadas de loucas, vadias. Conquistar o próprio espaço, para uma mulher, ainda é algo inaceitável em alguns lugares do mundo, e impossível em outros; é frequente que mulheres sejam invalidades profissionalmente por ter uma “personalidade forte”, por ser considerada difícil.

“Xingamentos são uma forma eficaz de controle social e funcionam muito bem para reafirmar constantemente todos os “podes” e “não podes” de uma sociedade. Através deles, recebemos a deixa de como devemos e não devemos nos comportar desde a mais tenra idade. Por isso, não é nada surpreendente que em uma sociedade machista, os principais xingamentos para mulheres sejam aqueles que refletem o rígido controle exercido sobre os seus corpos e sexualidade (enquanto para homens a ofensa maior reside em ser comparado a mulheres).” 

Enquanto muitas situações são negativas para uma mulher, as mesmas enaltecem um homem. Enquanto a mulher é promíscua por ter vários parceiros, os homens são garanhões. Enquanto um homem difícil é complexo, uma mulher é louca. E esse tipo de comportamento social, de controle social, gera sérias consequências psicológicas. Muitos filmes e seriados em que a suposta má fama de uma menina na escola a acompanham até a vida adulta já foram realizados, expondo os desdobramentos do que acontece quando essas garotas são atormentadas por algo que diz respeito apenas a elas mesmas.

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Para Katherine, essa pressão social dos fãs e da mídia, que a retrata como uma mulher mais velha e casada tendo um caso com um de seus jovens funcionários, foi a gota d’água para que perdesse seu programa. Enquanto sofria todos os tipos de julgamentos, o funcionário com quem vinha tendo um caso apenas sumiu e não disse nada. Não a apoiou, não ficou ao seu lado, não admitiu nada para o público. Enquanto isso, Katherine tinha um júri popular para encarar.

Molly é uma figura essencial naquilo que acontece depois: é ela quem vai até a chefe e lhe mostra o quanto a situação está equivocada. Katherine estava arrependida e queria o perdão de seu marido, mas ela não conseguiria seguir com o programa porque não tinha o perdão da audiência. Por isso, entender que nada disso estava certo, que ela não era culpada, é tão importante. Só assim ela toma a frente do seu programa e não deixa que o tomem dela. Sua paixão e posicionamento frente às câmeras fazem com que a presidente do canal lhe dê continuidade na programação — e agora ela poderia ter um programa diferente, mais seu, que refletisse mais sua opinião.

A figura de outra mulher é quem promove o ponto de virada na vida da protagonista; um exemplo do quanto somente outra mulher poder entender determinadas circunstâncias e que a dinâmica entre mulheres é um aspecto essencial para nossa sobrevivência. Mudar a maneira de como mulheres se posicionam diante de injustiças sociais, preconceitos e falta de representatividade é um dos passos que promovem uma transformação na maneira como mulheres são retratadas na ficção. Um filme que mostra tanta atualidade, que trabalha com humor e retrata um problema social real é o que precisamos para exemplificar a importância das relações que estabelecemos umas com as outras. E é isso que faz Late Night.

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