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Cheer: O cheerleading como ferramenta de transformação

Líderes de torcida são uma parte indissociável das narrativas adolescentes norte-americanas, normalmente representadas como meninas bonitas e populares que andam pela escola sempre com seus uniformes e suas minissaias e namoram os atletas que jogam nos times (futebol americano ou basquete) cujas torcidas (outros alunos da escola e seus pais) elas devem animar. Cheerleading é uma daquelas palavras para as quais não temos uma tradução exata porque não faz parte da nossa cultura, ainda que venha, aos poucos, ganhando algum espaço por aqui. Mesmo assim, com o nível de influência que a indústria cultural norte-americana tem em nosso país e mundo afora, a figura da líder de torcida é muito bem cristalizada também em nosso imaginário. Longe da ficção, no entanto, o cheerleading competitivo tem muito menos a ver com popularidade, saias curtas e namoros com atletas igualmente populares do que com muito trabalho, muitas dores e muito suor. É um mundo sem glamour e repleto de pressão e dedicação que a série documental Cheer, criada por Greg Whiteley para a Netflix, apresenta ao longo de suas seis horas, que mostram a rotina de uma equipe universitária de líderes de torcida em uma pequena cidade no interior do Texas.

No primeiro dos seis episódios somos introduzidos à importância da Navarro, uma faculdade comunitária localizada em Corsicana, cidade com cerca de vinte mil habitantes, no cenário do cheerleading universitário. Nas mãos da técnica Monica Aldama a pequena faculdade texana venceu catorze campeonatos nacionais em menos de duas décadas. O que estamos prestes a acompanhar é a preparação da equipe para a edição de 2019 da competição. Como é enfatizado pelo documentário, a competição anual realizada em Daytona, na Flórida, é extremamente importante: é a única chance no ano inteiro que a equipe tem de competir nacionalmente. Ela consiste em uma única apresentação que dura exatos dois minutos e quinze segundos.

Como relembram várias falas ao longo da série, o cheerleading é um esporte com pouco ou nenhum futuro competitivo depois da faculdade, ainda que os atletas que se destacam possam ter oportunidades em outros espaços — talvez na NFL ou então treinando e coreografando atletas e aspirantes mais novos, já que a modalidade é bastante popular nos Estados Unidos. Mas o eixo dramático que dá peso aos seis episódios é a fugacidade da vida do líder de torcida universitário, que treina à exaustão, corre o risco de enfrentar lesões severas e muitas vezes trabalha sentindo dor em troca de uma chance de dois minutos e quinze segundos e de uma carreira competitiva tão curta que provavelmente vai terminar bem antes dos trinta anos.

A série é guiada por duas perguntas simples: primeiro, quem serão os atletas escolhidos para competir em Daytona, e, segundo, se eles conseguirão dominar a intrincada coreografia até lá. O tempo é medido em dias de treinamento restantes até Daytona, e a coreografia executada com uma série de erros diferentes a cada treino se torna uma questão cada vez mais urgente para os atletas e para os técnicos. O cheerleading só funciona quando toda a equipe funciona, não importa quantos destaques individuais existam dentro dela. É algo que Monica busca enfatizar a todo instante para cada um de seus atletas. Eles competem diretamente uns com os outros por uma vaga na equipe o tempo inteiro, mas precisam pensar e agir sempre como uma equipe. Quando um atleta comete um erro, pouco interessa a ela quem foi o responsável. Monica não permite que seus atletas reclamem uns dos outros ou busquem responsabilizar uns aos outros pelo erros cometidos. Todo erro é um erro da equipe. Apesar da competição interna por uma vaga em Daytona, o clima em Cheer nunca é o de competição, e o documentário não se alimenta de intrigas ou puxadas de tapete, porque elas não fazem parte de sua narrativa, mesmo que eventuais conflitos apareçam.

É Jerry quem melhor representa o que, em tese, significa fazer parte de um time. Em seu segundo ano na Navarro, Jerry se vê pela segunda vez fora da equipe principal, apesar de seu evidente esforço e amor pelo cheerleading. É claro que existe decepção e insegurança em Jerry quando se vê preterido, mas ele parece recusar terminantemente qualquer negatividade. Querido por todos, Jerry recebe grande destaque na equipe porque ninguém é tão dedicado às mat talks — ou as palavras de incentivo gritadas das laterais — quanto ele. Mais do que executar suas próprias acrobacias com perfeição, Monica espera que seus atletas, quando tiverem um minuto para respirar, estejam presentes para incentivar seus companheiros de equipe. Nesse sentido, Jerry é incansável. O documentário sugere que foi essa mesma positividade quase radical de Jerry que tornou suportável a perda extremamente dolorosa da mãe quando ele ainda estava no colégio.

Em um time composto por dezenas de pessoas, a equipe do documentário opta por se aprofundar nas histórias de vida de apenas cinco atletas. Um deles é Jerry. Outro é La’Darius, com uma história marcada pelo bullying, pela homofobia e pelo abuso sofrido quando se sentia indefeso enquanto a mãe cumpria pena na prisão. Há Lexi, que busca uma volta por cima depois de alguns episódios de agressividade e de acabar presa. Há Morgan, abandonada pelos pais e adotada pelos avós depois de passar algum tempo vivendo sozinha em um trailer. E há Gabi Butler, uma celebridade do mundo do cheerleading bastante exposta na internet desde a pré-adolescência, cujos pais parecem viver de sua imagem e de seu sucesso. São, é claro, narrativas escolhidas com motivações óbvias — o documentário não tem interesse em aprofundar as histórias daqueles com pais presentes (mas não tão obsessivamente envolvidos como os de Gabi) e vindos de contextos confortáveis e privilegiados, embora esses atletas também existam na Navarro.

É uma escolha que funciona. Não porque esses atletas são menos relevantes ou dedicados à Navarro, mas porque é mais difícil perceber o tamanho da importância de áreas como o esporte, as artes e a cultura quando sempre tivemos acesso a elas como algo dado em nossas vidas — o que às vezes nos leva a acreditar que essas são áreas triviais, alimentando uma visão que acaba por tratar pessoas mais como números ou meros autômatos do que como seres humanos. Nesse sentido, Cheer funciona muito bem ao demonstrar o quanto a oportunidade de ser visto pode ser transformadora na vida de quem precisa dela. Em determinado momento da série, Monica afirma que para muitos de seus atletas estar na equipe da Navarro significa também a primeira vez em suas vidas que alguém passou a esperar algo deles. Sua ênfase nas vitórias e derrotas como algo coletivo também funciona nesse sentido. Uma vez que entram na equipe, as escolhas e atitudes de todos esses jovens já não os afetam só individualmente — o que eles fazem ou deixam de fazer faz diferença.

Nesse cenário, não é difícil entender por que tantos atletas e ex-atletas da equipe idolatram Monica e afirmam que ela mudou suas vidas ou que não sabem onde estariam hoje se ela não tivesse dado a eles uma chance. É compreensível, mas, por outro lado, também pode ser desconfortável de acompanhar. Na New Yorker, Jia Tolentino explora a influência ambígua de Monica — e dos técnicos em geral — sobre seus atletas: suas coreografias e o que elas demandam dos atletas os colocam sempre em risco de lesões potencialmente severas, mas ela também desenvolve sua autoconfiança de um jeito extraordinário. Para quem, como eu, não é e nunca foi atleta, nem sempre é fácil compreender por que alguém aceitaria de bom grado ser jogada para cima e para baixo de novo e de novo e de novo a troco de tão pouco, como faz Morgan, que opta por ignorar médicos e esconder suas lesões para poder competir. Mas essa não é uma pergunta que surge exclusivamente com o cheerleading.

Para acompanhar Cheer, não é necessário nem conhecimento prévio nem um grande interesse pelo cheerleading em si. A série é suficientemente explicativa a respeito da modalidade, suas competições, seus elementos e sobre como o cenário de modo geral funciona. E Cheer, no fundo, não é exatamente sobre o cheerleading, mas uma longa indagação que se pergunta por que esses jovens colocam tanto suor e tanto esforço em uma atividade que pode ser tão dolorosa. Nesse sentido, Greg Whiteley poderia ter optado por explorar histórias dentro de qualquer esporte (e ele também produziu Last Chance U, sobre futebol americano). Mas é ainda mais significativo que a modalidade escolhida seja justamente o cheerleading.

É uma questão controversa — e que vem de anos — se o cheerleading pode ou não ser considerado um esporte de fato. Em 2016, a prática foi reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, embora ainda não seja considerada um esporte olímpico. Mas a insistência em reafirmar o tempo inteiro que o cheerleading não é um verdadeiro esporte e em diminuir o que fazem os líderes de torcida continua sendo uma constante — e talvez, só talvez, tenha alguma relação com o fato de essa ser uma atividade historicamente associada às meninas e jovens mulheres, numa lógica parecida com aquela que dá base para o famoso meme quer moleza?, vai fazer balé, ignorando a quantidade de trabalho, determinação, suor e dor envolvidos na vida de qualquer bailarino profissional (gosto muito do vídeo em que praticantes de crossfit aprendem os elementos básicos do balé).

A maneira como enxergo os processos de atribuição de valor nas artes e na cultura foi radicalmente transformada pela minha primeira leitura de Um Teto Todo Seu, o clássico tratado de Virginia Woolf sobre mulheres e ficção. Me pergunto o quanto o tratamento dispensado a modalidades como a dança, o cheerleading e até mesmo o futebol feminino, não raro discutidas como empreitadas menores, menos importantes, desinteressantes, não tem a ver, no fundo, com uma argumentação que aparece no livro de Woolf:

“Mas é óbvio que os valores das mulheres diferem, com frequência, dos que foram estabelecidos pelo outro sexo; isso decerto acontece. E, no entanto, são os valores masculinos que prevalecem. Falando cruamente, o futebol e o esporte são ‘importantes’; o culto da moda e a compra de roupas são ‘insignificantes’. E esses valores são inevitavelmente transferidos da vida para a ficção. Esse é um livro importante, pressupõe o crítico, porque lida com a guerra. Esse é um livro insignificante, pois lida com os sentimentos das mulheres numa sala de visitas. Uma cena de campo de batalha é mais importante do que uma cena de loja — em todos os lugares, e de modo muito mais sutil, a diferença de valores persiste.” (Um Teto Todo Seu, tradução de Vera Ribeiro)

Essa discussão não faz parte da narrativa de Cheer, e nem os documentaristas, nem os atletas e técnicos retratados nela sentem necessidade de ficar na defensiva em relação à modalidade. Mas o documentário não existe no vácuo. Se toda a sua construção enfatiza os atletas extraordinários que são os líderes de torcida, essa sugestão é amplificada quando pensamos que tudo o que eles fazem parece destinado a ficar limitado aos seus próprios olhares atentos. Como lembram os atletas, ninguém precisa estar presente para assistir suas apresentações, mas eles precisam apoiar todos os esportes em que atletas da Navarro competem. Para as mulheres, essa demanda ainda engloba, a cada apresentação, horas extras de preparação fazendo cabelo e maquiagem. E, ainda assim, ninguém ali parece infeliz com as infindáveis horas passadas dentro de um ginásio.

Ao final das seis horas de Cheer, tive mais certeza do que nunca de que nada me convenceria a aceitar ser jogada para o alto de novo e de novo tendo apenas os braços muito humanos e com todo o potencial para falhar de meus colegas para me proteger de um encontro doloroso com o solo. Mas pude entender melhor por que alguém diria sim para essa proposta completamente maluca. O cheerleading, afinal, funciona como qualquer outra atividade que nos lembra de que estamos aqui, de que estamos vivos, de que alguém nos vê — de que, pelo menos para mais alguém, o que fazemos importa.

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