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Garota em Pedaços: quando o coração está cheio demais

“Obviamente, você nunca foi uma menina de 13 anos” diz Cecilia Lisbon, de As Virgens Suicidas, para seu médico quando ele a pergunta sobre o motivo que a fez tentar se matar. Dentro de toda a história das irmãs Lisbon e de seu mundo particular, tão vigiado pelos meninos da vizinhança em que moram, essa é uma das frases que mais me marcou desde que assisti ao filme dirigido por Sofia Coppola e li o livro de Jeffrey Eugenides. A frase, ainda que simples, contém uma das maiores verdades do mundo. Não, você não sabe como é ser uma menina de 13 anos a não ser que tenha sido uma. E, não, você não sabe como é ser uma adolescente ou uma mulher a não ser que seja uma.

Aviso de gatilho: este texto contém linguagem de automutilação e suicídio.

Charlotte Davis, a protagonista de Garota em Pedaços, livros escrito por Kathleen Glasgow e publicado no Brasil pela editora Outro Planeta, sabe muito bem o que Cecilia e as irmãs Lisbon queriam dizer. Charlotte sabe que não é fácil ser uma menina, uma mulher, num mundo em que é necessário enfrentar o bullying e lidar com as dores que carrega dentro de si, um universo particular em que alimentar o próprio sofrimento parece ser tudo o que ela sabe fazer. Charlotte foi diagnosticada com o Transtorno do Controle do Impulso, um distúrbio que a leva a se automutilar quando o peso que carrega em seu coração é demais para aguentar.

“Eu me corto porque não consigo lidar com as coisas. É simples assim. O mundo se torna um oceano, o oceano cai em cima de mim, o som da água é ensurdecedor, a água afoga meu coração, meu pânico fica do tamanho do mundo. Preciso de libertação, preciso me machucar mais do que o mundo pode me machucar. Só assim posso me reconfortar.”

Além do diagnóstico da doença, Charlotte precisa lidar com o suicídio do pai, com tentativa de suicídio da melhor amiga, que a deixa em estado vegetativo, e o fato de ter saído de casa por conta de conflitos com a mãe e por isso estar vivendo nas ruas em constante situação de vulnerabilidade e medo. Charlotte é quem narra sua história e a partir de então acompanhamos toda a espiral de agonia, dor e sofrimento que regem a vida da menina até que ela parece encontrar uma saída, pela primeira vez, quando é internada em uma clínica psiquiátrica após tentar se matar. É assustador perceber que a segunda chance de Charlotte veio exatamente em decorrência de sua tentativa de suicídio, mas ela agarra essa nova oportunidade com toda a força que possui, apoiando-se na rede de segurança que a estadia na clínica psiquiátrica a proporciona.

Quando Charlotte está finalmente deixando suas barreiras caírem para receber ajuda médica profissional, ela é informada de que seu plano de saúde não poderá mais mantê-la na clínica, e, novamente, precisa encontrar opções para não desistir de lutar. Nesse contexto, Charlotte deixa a fria Minneapolis e vai viver em Tucson, no estado norte-americano no Arizona, na tentativa de superar seus medos e seus transtornos, mas nada é assim tão simples para quem se vê refém de uma doença tão perigosa quanto a depressão, ainda mais se ela é agravada por outro transtorno como o do Controle de Impulso. Com a narrativa acontecendo em primeira pessoa, Garota em Pedaços nos mostra em cores fortes o que é (con)viver com sentimentos tão destrutivos dentro de si. A tentativa de suicídio acontece em decorrência de vários estigmas que Charlotte vinha carregando durante anos e que apenas agravaram sua condição: a solidão, a depressão, a automutilação e o sentimento de inferioridade e vergonha que vinham em consequência do que ela fazia a si mesma.

A Sociedade Internacional para Estudos de Comportamentos Autolesivos define a automutilação como um transtorno em que o paciente se agride ou se fere intencionalmente, causando cortes, arranhões, beliscões e queimaduras. Ainda que possa ter início em qualquer idade, é diagnosticado com maior frequência durante a adolescência. As feridas causadas não tem a intenção de tirar a vida, mas de aliviar, mesmo que por um breve momento, a angústia que se sente e com a qual a pessoa não consegue lidar. Durante Garota em Pedaços, por exemplo, Charlotte descreve muitas vezes como o que sente é mais do que consegue suportar — “(…) quando digo ‘tristeza’, o que quero mesmo dizer é ‘um buraco negro dentro de mim cheio de pregos e pedras e vidro quebrado e de palavras que não tenho mais”. A dor e a angústia são tamanhas que apenas o alívio proporcionado pelo corte é capaz de fazê-la sentir-se — momentaneamente — bem.

Garota em Pedaços

A mutilação surge para atenuar a dor emocional que a pessoa está sentindo naquele momento. Para quem está de fora, parece paradoxal imaginar que um corte ou queimadura autoinfligida acarretará em alívio emocional, mas essa é a principal justificativa feita pelas pessoas que buscam esse recurso para deixar de sentir — ou, em contraponto, sentir qualquer coisa que seja. A dor física as distrai da dor emocional, e isso é capaz de fazê-las entrar em um ciclo vicioso de mutilação. É entristecedor pensar que a dor que alguém leva no peito é tão insuportável a ponto de considerar a dor física como preferível a dor emocional.

De acordo com um estudo publicado na revista de medicina The Lancet, meninas se automutilam muito mais do que os meninos. A coleta de dados — que durou 16 anos, na Austrália — foi feita com mais de 1800 pessoas de 44 escolas do estado de Victoria, com idades entre 15 e 29 anos, e a ideia dos pesquisadores do King’s College, na Inglaterra, e da Universidade de Melbourne, na Austrália, era estudar a evolução da automutilação da adolescência à vida adulta. Uma das conclusões do projeto é justamente a de que meninas buscam na automutilação um alívio para a tristeza profunda que sentem, a raiva ou o nervosismo, muito mais do que os meninos. De maneira geral, a automutilação está relacionada a doenças psiquiátricas como depressão, e a busca de auxílio médico para seu tratamento é essencial para que o distúrbio não se transforme em uma doença crônica, comprometendo a qualidade de vida do paciente além da possível evolução para tentativas de suicídio.

“Estou tão partida. Não sei onde todas as peças de mim estão, nem como montá-las, nem como fazê-las se grudarem. Nem sei se consigo.”

Em artigo publicado no Journal of the American Medical Association, as pesquisadoras Mellisa Mercado, Kristin Holland e Ruth Lemmis constataram que o número de meninas que se automutilam triplicou desde 2009, e que a idade em que os índices são mais altos é justamente entre 15 e 19 anos. Para o Brasil, de acordo com o Centro de Valorização da Vida, o CVV, ainda não há dados consistentes sobre esse tipo de comportamento, mas a estatística mundial também se repete em nosso país e a prevalência de automutilação acontece da pré-adolescência até a idade do jovem adulto, algo entre os 12 e 30 anos de idade e o predomínio dos casos de automutilação acontece entre meninas. Para os estudiosos, é difícil saber as razões exatas por trás do aumento da incidência de casos de automutilação entre meninas, mas eles trabalham com a hipótese de que isso se deve a um conjunto de fatores como incerteza econômica, pressões sociais e ambientais, problemas específicos de gênero além da ascensão e do uso recorrente das redes sociais que despertam gatilhos relacionados ao fear of missing out [medo de estar perdendo algo] e pressões estéticas e sociais.

Kathleen Glasgow, autora de Garota em Pedaços, usou de sua própria história e experiência para dar vida à Charlotte. Ao final do livro, Kathleen diz como, anos atrás, não queria escrever a história de Charlotte, de suas próprias cicatrizes, nem a história de como é ser uma garota com cicatrizes “porque já é difícil o suficiente ser apenas uma garota no mundo” e que ser uma garota com cicatrizes, nesse mundo, é mais difícil ainda. Uma a cada duzentas garotas entre as idades de 13 a 19 anos comete automutilação nos Estados Unidos e mais de 70% delas se cortam — lembrando de que essas estatísticas revelam apenas os casos já registrados e que muitas outras meninas não falam sobre isso. É quase certo que você, que me lê, conviva com uma mulher que se automutila, mas não tem a menor ideia disso.

Garota em Pedaços

A automutilação pode ser o resultado de inúmeros traumas como abuso sexual, físico, verbal, emocional, de abandono ou negligência, de vício e tristeza. Não é, no entanto, uma tentativa de chamar a atenção, mas uma maneira de lidar com transtornos emocionais e sentimentos, uma luta contra uma série de emoções confusas e destrutivas que estão guardadas dentro de si. A angústia que se sente não é algo comum que desaparece em dois ou três dias, mas um sentimento permanente e que desorienta, e que nunca é fruto de apenas uma fonte de tensão, mas de várias, normalmente acumuladas ao longa da vida e do crescimento. Outros agravantes para o sentimento de angústia vivenciado por alguém diagnosticado com o Transtorno do Controle do Impulso são o bullying e o cyberbullying, como descrito pelo CVV.

Garota em Pedaços coloca muito dessa realidade nua e crua em suas páginas. Kathleen Glasgow não doura a pílula e descreve com todas as letras como é viver com depressão, buscando cacos de vidro para aliviar a inquietude que pesa o peito. Justamente por isso não recomendo a leitura do livro para quem tem gatilhos com depressão, ansiedade e automutilação — em algumas passagens as cenas são descritas com uma riqueza de detalhes que chega a ser insuportável, principalmente quando Charlotte descreve os itens que usa para se cortar e o que ela sente quando o faz. De maneira geral, o livro pode atuar como uma importante ferramenta para conscientizar o leitor do que é o Transtorno do Controle do Impulso, quais são suas características e o que fazer para ajudar alguém que recebe o diagnóstico, mas pode conter gatilhos perigosos para quem lida com a doença em sua vida.

A prevenção é a chave, o ponto mais importante para impedir que jovens adoeçam e coloquem sua saúde mental em jogo. Não há meios de proteger nossos entes queridos das dores e dificuldades do mundo, mas podemos fazer o possível para estarmos presentes e sermos um suporte quando o momento se fizer necessário. Uma única resposta é inexistente visto que frustrações e conflitos são praticamente intrínsecos à vida, mas encontrar ajuda especializada é o começo do ciclo de cura. O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio e atende de maneira voluntária e gratuita todas as pessoas que precisam conversar. As ligações podem ser feitas no número 188, com sigilo absoluto, e também por e-mail e chat 24 horas por dia. Você pode procurar ajuda especializada também no Ambulatório Integrado de Transtorno Impulsivo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPq- HCFMUSP) ou no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB-UFRJ), dependendo de onde mora. Busque ajuda!, e saiba:

“Não faz sempre sol e nem sempre é um mar de rosas, e às vezes a escuridão fica bem sombria, mas estamos cercados de pessoas capazes de entender e de nos provocar gargalhadas suficientes para aliviar todas as pontas afiadas e nos ajudar a chegar ao dia seguinte. Por isso, vá.”


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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