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Deixem Bella Swan em paz: uma reflexão sobre personagens medianas e o ódio por fãs adolescentes

Que 2020 já se provou um ano estranho, com mais acontecimentos em todas as áreas do que imaginaríamos ser possível em pouco mais de seis meses, não resta dúvidas. No meio literário um dos eventos mais inesperados, com toda certeza, foi o anúncio do lançamento de Sol da Meia-Noite, de Stephenie Meyer, mais de dez anos após o lançamento do último livro da saga Crepúsculo. O livro, que conta a história do primeiro capítulo do romance entre Bella Swan e Edward Cullen sob o ponto de vista do vampiro, era um dos maiores objetos de desejo dos fãs que já haviam desistido de ver a história ganhar a luz do dia. Com o lançamento, Crepúsculo como um todo voltou a gerar discussões fervorosas — não que em alguém momento, em todos estes anos, essas discussões tenham parado de fato.

(In)felizmente este texto não é mais um entre milhares que existem na internet que apontam tudo-que-está-errado-com-Crepúsculo, com todas as decisões duvidosas, bregas, tóxicas e que envelheceram mal que a escritora tomou durante a jornada de Bella e Edward, mesmo que, claro, todos esses pontos sejam válidos e extremamente necessários. Mas não estamos mais presos nos anos de 2010, e talvez seja a hora de olharmos mais de perto para algumas problemáticas e porque elas despertaram, e ainda despertam, tanto ódio e opiniões maldosas.

Um dos alvos que mais recebe crítica e escrutínio do público é a personagem principal criada por Meyer, Isabella — ou apenas Bella — Swan. Mesmo para quem nunca leu os livros ou assistiu aos filmes, a história dispensa apresentação. Você certamente já viu dezenas de vezes nos mais diversos lugares imagens de Kristen Stewart como a humana que se apaixona irrevogável e incondicionalmente por um vampiro. A face sem muitas expressões da atriz e toda sua áurea sem sal nos filmes reproduzem muito bem a personalidade de Bella e a impressão que boa parte dos leitores têm da personagem.

bella swan

Sem hobbies definidos além de ler, sem grandes ambições para o futuro, gentil, desajeitada, com um senso de humor depreciativo, baixa autoestima e uma sensação constante de não se encaixar, de não pertencer (o que descreve muito bem todos os minutos de ser adolescente): essas são as qualidades básicas formativas da personagem principal de Meyer — e também praticamente as únicas. Não muito mais pode ser dito de Bella e do que a move como pessoa durante a trama além da sua paixão por Edward, que vira o centro de seu mundo, de seus pensamentos e o principal motivo de todas as suas ações.

Toda esta construção de personagem — ou pouca construção de personagem, dependendo do ponto de vista — tem um motivo maior, e não é por acaso. A forma como ela nos é apresentada vai bem ao encontro do tipo de história da qual ela faz parte e sobre qual trama a autora estava disposta a contar. Histórias sobrenaturais geralmente são contadas pelo ponto de vista de um protagonista “normal”, que nada sabe daquele mundo, com sua ignorância e mesmerização contribuindo para que o leitor entre de cabeça na mitologia apresentada. Nos últimos anos talvez não tenha existido uma personagem que represente tão bem o tropo de garota normal e, sobretudo, mediana como Bella Swan. Alguns outros exemplos, bons e ruins, podem ser lembrados, como Pam Besley, de The Office, cuja normalidade é o grande trunfo de sua trajetória trabalhada pelos roteiristas que conseguem explorar muito bem todas as nuances dos altos e baixos que isso traz para sua vida. Do outro lado da balança, temos Anastasia Steele, uma versão derivada de Bella, mas levemente diferente (e muito pior?), que protagoniza a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, que nasceu de uma fanfic de Crepúsculo escrita por E. L. James.

“Bom, olhe para mim. Sou absolutamente comum. (…) E olhe para você.”

O fato da própria Bella reconhecer o quão ordinária é também faz parte do “charme” da personagem e do recurso narrativo de construí-la como uma página metade preenchida de forma genérica, com espaço suficiente para que os leitores possam projetar suas expectativas e desejos nela e se sentirem próximos ou, com mais sucesso ainda, se verem totalmente nela.

“Bella is relatable because she’s the fuzziest outline of a human being — an empty vessel waiting to be filled with each individual reader’s interpretations.”

“Bella é identificável porque ela é a descrição mais vaga de um ser humano — um recipiente vazio esperando para ser preenchido com as interpretações de cada leitor.”

Análise sobre Bella Swan do blog Jo Writes Stuff.

Mesmo Edward, em Sol da Meia-Noite, reconhece o quão banal e nada fora do normal Bella é, antes de conhecê-la pessoalmente e tê-la visto apenas por meio dos pensamentos dos outros estudantes.

“Era só uma humana comum.”

Isso começa a mudar quando ele percebe que não consegue ouvir o que ela está pensando e, quando a encontra na aula de Biologia, descobre que ela é la tua cantante, uma humana cujo sangue canta para ele mais do que qualquer outro. Ou seja, no fim das contas, Bella Swan não é tão ordinária assim, e são essas partes intrigantes que captam a atenção do mocinho e a arrastam para o mundo sobrenatural, sendo o gatilho para sua vida virar de cabeça para baixo. Durante os quatro livros da série, Bella enfrenta inúmeras adversidades e passa por incontáveis experiências de quase morte, mas elas têm pouca influência em seu desenvolvimento como personagem, permanecendo praticamente imutável em sua personalidade e totalmente passiva frente a acontecimentos importantes de sua vida.

Existem muitas problemáticas nestas questões, sejam elas por refletirem uma escrita preguiçosa, uma narrativa pouco rica ou uma representação feminina questionável. Entretanto, há um motivo pelo qual clichês e estereótipos existem e dão tão certo: justamente o seu grande poder de identificação. Somos todos um pouco entediados com a vida, com uma visão distorcida e autodepreciativa de nós mesmos, esperando que alguém venha e nos resgate do passar inexorável da existência e torne tudo um pouco — nos torne — interessantes. E é este, mesmo com diversos defeitos, o papel que a construção de Bella Swan cumpre muito bem; não para todos, é claro, mas para boa parte do público-alvo dos livros (pelo menos para meu eu adolescente o apelo sempre esteve ali).

bella swan

Afinal, também existe algo de libertador no modo como Bella se porta. Ela simplesmente não se importa em não demonstrar interesse em assuntos que deveriam interessá-la como adolescente, como bailes e outros dramas do Ensino Médio (neste caso temos outro clichê, mas isso é assunto para outro texto), ela não está disposta a performar alguém que ela não é a fim de se encaixar neste mundo ou para se enquadrar em algum estereótipo de como garotas adolescentes deveriam pensar, viver e agir. Além disso, sua personalidade quase zero, o modo tedioso com que ela leva seus dias e sua aparência física ainda mais comum não a tornam apelativa para o olhar masculino — o chamado male gaze —, que sempre molda garotas ficcionais especialmente para satisfazer os desejos dos homens, exemplificado muito bem pelo tropo da Manic Pixie Dream Girl.

“I think it says something about who Bella was written for when it was simply impossible for men to use her for their own purpose in any way, shape or form, the way in which we’ve seen them sexualise characters like Hermione and Buffy the Vampire Slayer. Bella was written for girls, and only girls. (…) She is relatable in a way few female protagonists are. We are so used to the conceptualised, idealised, romanticised teenage girl, that the existence of a character like Bella is disruptive. A character who makes no effort to be interesting, which to me is interesting in and of itself.”

“Eu acho que diz algo para quem Bella foi escrita quando era simplesmente impossível para os homens a usarem para seu próprio propósito de qualquer jeito, modo ou forma, da maneira que nos os vimos sexualizar personagens como Hermione e Buffy, a Caça-Vampiros. Bella foi escrita para garotas, e somente para garotas. (…) Ela é relacionável de um jeito que poucas protagonistas mulheres são. Nós estamos tão acostumadas com a concepção, idealização e romantização de garotas adolescentes, que a existência de uma personagem como Bella é disruptiva. Uma personagem que não faz esforço para ser interessante, o que para mim é interessante por si só.”

A love letter to Bella Swan: The opposite of the manic pixie dream girl. 

Em suma, o modo como Meyer escreveu Bella pode, sim, ter seus problemas, mas gostar e se ver na personagem em seu jeito mediano de ser mantém seus méritos e o impacto positivo que ela trouxe ao dar um escape para um grupo de garotas não deve ser subestimado — ou julgado.

Reconhecer os defeitos e problemas das coisas que lemos, assistimos e escutamos é um dos passos da jornada de quem consome cultura como um todo. Isso pode, e deve, moldar como nos relacionamos com esses produtos e como influencia em nossas escolhas de consumir algo que leve em conta uma diversidade de raça, gênero e representação LGBTQI+ bem escrita. No entanto, ser um espectador autocrítico e problematizador que não ignora os erros e tropos nocivos não precisa, necessariamente, significar invalidar automaticamente a importância e impacto que algo teve em quem você é. Gostar de algo, reconhecer seus erros, e no fim do dia ainda apreciar o que este produto midiático significou para você ainda conta como uma experiência totalmente válida, da qual não deveria-se sentir vergonha.

“But there’s something damaging about being made to feel shame because you relate more to Bella than some other feminist approved strong female character who don’t need no man to rescue her. (…) I don’t think It speaks to some character deficit if your fantasy is being rescued by a sparkle vampire prince. (…) And you are not stupid if that’s your fantasy.”

“Mas há algo prejudicial em ser ridicularizada porque você se identifica com Bella mais do que com alguma personagem feminina forte aprovada por feministas que não precisa de um homem para resgatá-la. (…) Eu não acho que seja um defeito de caráter se sua fantasia é ser resgata por um príncipe vampiro cintilante. (…) E você não é estúpida se essa é a sua fantasia.”

Dear Stephenie Meyer, por Lindsay Ellis.

O ódio por tudo que garotas adolescentes amam

Por que odiamos tanto personagens medianas como Bella Swan e também livros medianos, como Crepúsculo? Que, ao contrário do que todo o ódio recebido mundo afora possa fazer parecer, definitivamente não é o pior livro já escrito da humanidade — e também não é o melhor, o que está tudo bem, uma vez Meyer nunca teve tal anseio. Crepúsculo é bom naquilo em que se propõe dentro da categoria em que se enquadra. Existem livros que se saem melhor do que ele e outros que se saem pior, mas a demonização de todo o furor ao redor deste fenômeno tem muito a ver com velhos conhecidos nossos: machismo e misoginia.

bella swan

Por que aos homens é dada a chance de apreciar personagens e mil e umas produções medianas em paz? Sem a vergonha de expressar seus gostos por qualquer tipo de entretenimento ou admitir o quanto gostariam de calçar os sapatos de um personagem ou se identificam com ele? Aos homens, neste caso mais especificamente homens héteros cis, a liberdade de preencher suas fantasias completamente, sem medo ou embaraço, nunca é questionada.

A grande parcela do ódio que os livros e filmes sofreram vêm de algo mais profundo e complexo do que apenas ser algo mediano cheio de decisões questionáveis. No sistema patriarcal em que vivemos somos condicionados a odiar garotas adolescentes e a fomentar uma cultura de ódio baseada em desprezar tudo e qualquer coisa feita para este público ou admirada por elas, seja no âmbito da música, com o k-pop ou com as famosas boybands, livros, como os chick-lit, filmes ou qualquer outra forma de arte e expressão.

Por causa disso, as adolescentes aprendem muito cedo como o mundo é um lugar cruel para mulheres, especialmente da idade delas, e como é preciso jogar um jogo injusto para tentar crescer e formar sua identidade no meio deste turbilhão. Este contexto faz com que garotas que ainda estão formando suas opiniões e navegando por seus gostos escondam aquilo que consomem, tenham vergonha de suas preferências e se sintam menos válidas, inteligentes ou cool por gostar de algo que a sociedade ditou como bobo, de má qualidade e desprezível por critérios arbitrários e repletos de falsa simetria.

bella swan

Estamos tão presos nas amarras deste ciclo que até garotas adolescentes odeiam garotas adolescentes. Em um movimento desesperado de tentar se diferenciar das suas iguais para escapar de todo o ódio e julgamento, algumas meninas assumem a postura de se distanciar de coisas de “menininha” para não fazer parte do grupo visto como o das “garotas estúpidas” e que não são levadas a sério por seus gostos “fúteis”. Quem nunca fingiu não gostar de algo por não ser “descolado o suficiente”? Ou zombar da colega que ouvia no repeatBaby”, de Justin Bieber? Ou que ia para pré-estreias de filmes como Crepúsculo?

No entanto, mesmo quando garotas se distanciam de produtos culturais que vão de encontro a este estereótipo e se aproximam de produções tipicamente consideradas masculinas, como esportes, games e filmes tal quais Velozes e Furiosos e O Senhor dos Anéis, ainda não é o suficiente para se isentarem do julgamento ou do questionamento de “verdadeiras fãs”. São ambientes totalmente inóspito de ambos os lados, onde não há chances de se vencer ou conviver em igualdade.

Mas da onde vem todo esse ódio? A escritora feminista e ativista Bailey Poland tem uma teoria. Em uma sociedade que odeia mulheres, e que reprime qualquer modo de expressão que fuja do padrão de feminilidade estabelecido taxando alguns comportamentos como de “mulher doida” ou “mulher histérica”, milhares de adolescentes sendo espontâneas, apaixonadas e autênticas deve ser um verdadeiro pesadelo. A imagem que fica na cabeça dos que amam odiar fangirls são garotas gritando em um fila para entrar em um show ou para assistir um filme, fora de controle, e longe do alcance dos moldes de recatadas e do lar em que tentam encaixá-las.

“‘There’s an underlying assumption that teen girls are not in control of their emotions or interests and become overly excited or upset for no reason,’ she said. ‘When the reality is that teen girls are often very intentional about what they’re interested in and aware of the social influences behind those media products, and they deliberately use excitement and passion as the foundation for community-building and empathetic development.’”

“‘Existe uma suposição primária de que garotas adolescentes não estão no controle de suas emoções ou interesses e ficam excessivamente animadas ou chateadas sem razão,’ ela [Bailey Poland] diz. ‘Quando na verdade garotas adolescentes são muito intencionais sobre o que estão interessadas e conscientes da influência social por detrás desses produtos midiáticos, e elas deliberadamente usam essa animação e paixão como base para construir uma comunidade e desenvolver empatia.’”

Why Must We Hate the Things Teen Girls Love?

Todo este ciclo afeta também, de maneira comprovada, a credibilidade daquilo que é produzido por mulheres, seja direcionada para elas ou para o público em geral. Se fãs mulheres, ainda mais as adolescentes, não são levadas a sério e têm seus gostos diminuídos, aquelas que produzem conteúdos, seja qual for, também sofrem com este desprezo — e com a pressão de fazer um trabalho perfeito de primeira, enquanto homens ao realizarem o mesmo trabalho, ou uma versão medíocre, recebem reconhecimentos e elogios. Outro aspecto desta situação é a “produção com sucesso demais para estar nas mãos de uma mulher”. Basta observar filmes como Crepúsculo, Cinquenta Tons de Cinza e Para Todos Os Garotos que Já Amei: todos foram dirigidos por uma mulher; todavia a partir do momento que alcançaram um nível de sucesso estrondoso, suas continuações foram passadas para as mãos de homens, vistos como mais “competentes”.

Em resumo, nós como sociedade amamos odiar meninas adolescentes e tudo que a afeição delas ousa tocar. Odiamos as personagens com as quais elas se identificam, os livros que as fazem pertencer e as bandas que as ajudam a se expressar. O nosso ódio tira delas a liberdade de ser quem são, e isso precisa parar. O sexismo que as tornam alvo por serem mulheres e por sua idade precisa deixar de ser alimentado por nós se quisermos, no futuro, ter uma chance de continuar construindo a mudança que está em movimento, afinal, como aponta Harry Styles, fãs adolescentes são incríveis e seu interesse genuíno e puro — quando saudável, é claro — precisa ser celebrado.

“Who’s to say that young girls who like pop music — short for popular, right? — have worse musical taste than a 30-year-old hipster guy? That’s not up to you to say. (…) Young girls like the Beatles. You gonna tell me they’re not serious? How can you say young girls don’t get it? They’re our future. Our future doctors, lawyers, mothers, presidents, they kind of keep the world going. Teenage-girl fans — they don’t lie. If they like you, they’re there. They don’t act ‘too cool.’ They like you, and they tell you. Which is sick.”

“Quem disse que garotas jovens que gostam de música pop — abreviação de popular, certo? — tem um gosto musical pior que um cara hipster de 30 anos? Isso não é algo que você deve decidir. Garotas jovens gostam dos Beatles. Você vai me dizer que eles não são sérios? Como você pode dizer que garotas jovens não entendem? Elas são nosso futuro. Nossas futuras médicas, advogadas, mães, presidentes, elas meio que mantêm o mundo em frente. Fãs adolescentes — elas não mentem. Se elas gostam de você, elas estão presentes. Elas não agem ‘descoladas demais’. Elas gostam de você, e elas te dizem isso. O que é incrível.”

Harry Styles em entrevista para a revista Rolling Stone.


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine Gualberto.

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13 comentários

  1. Crepúsculo é mediano e, sejamos honestas, cheio de questões que devemos discutir. Mas isso não anula o impacto dessa produção na vida de diversas fangirls. A saga crépusculo foi a minha porta de entrada para o mundo dos “livros da fantasia” e acho que pra muitas gatotas também. A invalidação desse reconhecimento é uó.

  2. Que texto perfeito! Mas é real, o ódio que crepúsculo recebeu vai muito além dos seus defeitos, diz muito sobre pra quem ele se destina.
    Seja crepúsculo, one direction ou kpop agora, a sociedade sempre vai arrumar um jeito de odiar algo que é do interesse de meninas adolescentes.

  3. Adorei o texto.
    Faz tempo que eu li a saga (meus saudosos 13 anos) e lembro que desde aquela época eu não gostava especificamente da Bella por achar ela muito “sem sal” – mas agora, lendo o Midnight Sun, percebo que talvez seja uma característica da autora – por que vendo a Bella por meio do ponto de vista do Edward, percebo que ele que é um “sem sal” e ela que é a de destaque (mesmo sendo “comum”).
    No mais, lembro que eu tinha birra com a Bella também por ela querer ser vampira, e essa falta de auto aceitação como uma humana me irritava na época, além de querer mudar quem ela era em parte por causa do seu boy.
    Mas enfim, também me lembrei de um artigo de psicologia que dizia que as vezes, quando nos identificamos com algo que não seja considerado bom por nós e pela sociedade (principalmente), tendemos a detestar, e vai ver isso pode ter acontecido com as pessoas da época. Bella reflete uma pá de gente que pode ter se reconhecido como uma “sem sal” também, e por isso o ódio.
    Muito boa a discussão.

  4. Vejo que esse ódio descrito ultrapassa os limites dos livros/filmes e vai até os atores, corrijo, A ATRIZ. já vi inúmeras vezes as críticas geradas para a Kristen pela personagem. Ela já atuou em dezenas de papéis em filmes, desde crianças e muito antes de Crepúsculo, mas só conseguem lembra-la pela Bella, apontando toda sua “inexpressão”. Ao Robert ou ao Taylor nenhuma palavra.

  5. É muito curioso esse ponto de como ela é feita pra identificação.
    Qdo os 1os livros saíram, eu tinha 20 e poucos e nunca tinha namorado. Eu chorei lendo crepúsculo, eu consigo ver todos os problemas, mas naquele momento eu queria ser salva do meu tédio e amada por alguém, e o livro me tocou. Aí minha vida foi andando, eu li Lua Nova achando ok mas sem me emocionar, e Eclipse já li meio forçando pra terminar (nunca li Amanhecer). Parece muito a ver com ser adolescente, e ser mto adolescente com 20 poucos anos ainda, e dps ir amadurecendo e já não ser mais tanto o público alvo.

    Sobre o hate e como isso mistura com misoginia: eu tinha uma colega q lia romances bem água com açúcar na época, mas desprezava Crepúsculo, o que pra mim parecia influencia do marido nerd hater dela. Não tinha 50 tons ainda, mas lembro que ela me emprestou um livro que era feito do mesmo jeitinho q Crepúsculo, só que sem fantasia e para um público mais velho. Uma protagonista neutra atrás de amor e satisfação pessoal. E não via como a pessoa poderia gostar de uma coisa e desprezar a outra.
    Aí eu acho que um pouco do hate específico de Crepúsculo tem a ver com a fantasia. Os homens acham que esse tipo de ficção fantástica é o parquinho deles. Claro que tem um certo desprezo a romances de banca, novelas e etc. Mas uma parte do ódio de Crepúsculo ser maior é “como assim vc está usando meus poderosos vampiros pra um romance e em vez de queimar eles brilham!”

    Sobre o ódio as coisas de adolescente… isso marca demais. Até hj eu não confio no meu gosto por ter sido zoada qdo era adolescente. Eu sei que o que eu gosto e o que gostei tem valor, mas eu sou muito insegura pra indicar coisas, ou colocar uma playlist pra várias pessoas ouvirem, achando q vão achar chato ou ridículo.

  6. Eu não sei se interpretei o texto realmente, mas pelo que entendi se somos mulheres temos que gostar de personagens sem atrativos, ou personalidade pelo simples fato dessa personagem ser mulher?. Não concordo com isso, já li livros eroticos quando mais nova(parei de ler quando me tornei mais assídua no feminismo) em que mulheres perpetuavam com o machismo, tanto naquelas que foram escritas quanto nas que escreveram. Claro, que se voce gosta de ler livros como 50 tons de cinza secretamente, e para a sociedade escreve resenhas criticando o machismo, bem voce é uma hipôcrita.

    1. Não acho que é isso que o texto quer dizer. Entendo como uma análise sobre a raiva que as pessoas têm de personagens medianas, não é a super mulher, não é a mulher fatal, nem é a submissa. Para muitos ela é sem atrativos e não há problema nenhum em ser assim, muita gente é assim. A questão não é a obrigação de gostar, mas de compreender que ali também é um jeito de ser.

  7. Sobre a tal “falta” de personalidade que o texto aponta, e falta de ambição: no livro Sol da Meia-Noite a gente consegue entender muito mais sobre a Bella e como a relação dela com a mãe afetou sua autoestima e planos para o futuro. Infelizmente tivemos que perceber isso apenas através do olhar masculino, porém, deixando questões de gênero de lado, as vezes é mais fácil alguém de fora ver um problema do que a pessoa que tá lá com a autoestima prejudicada devido a uma relação familiar tóxica. E realmente a escrita da Stephenie tem problemas.

    Enfim, acho que mesmo tentando defender os pontos positivos da personagem, o texto ainda desdenha um pouco dela, chamando de sem personalidade.

  8. Excelente forma de trazer o quanto, desde muito novas, as mulheres são desacreditadas e colocadas à prova. Bella é apenas uma “humana comum” – e quantas de nós não somos também, ou pelo menos nos sentimos assim?
    .
    Vi muitos homens dizendo que “o vampiro estava errado, vampiro não brilha” e etc., ao que eu sempre respondia: vampiros não existem! Logo, se a autora quisesse que ele transpirasse glitter e tivesse a barba roxa, ela poderia! Então, realmente existe essa questão de que estamos “roubando” dos homens algo de suas fantasias e deixando-o menos violento ou agressivo, menos “masculino” – e daí vem o ódio e a necessidade de desmerecer a saga.

  9. Eu concordo completamente com este artigo, quando vamos pesquisar sobre crepúsculo vemos apenas pessoas diminuindo a saga e falando que a Bella é sem sal, sendo que >>>para mim<<< é um tanto quanto óbvio o quão insegura, deslocada e depressiva ela é, ela sempre acha que tem algo de errado consigo e pensa que as pessoas importantes para si iram lhe abandonar (Exemplo o Jacob e o Edward), ou pensa que precisa dar sua vida em troca daqueles a quem ama, a realidade é que o Edward ajudou ela a se sentir viva e ajudou ela a se encontrar, fez com que ela pudesse ser quem ela tanto quis ser e tal coisa é intenso demais para qualquer olhar entender e tudo que vai além disso também. (algo comum com garotas adolescentes)