Categorias: LITERATURA

A Louca dos Gatos: o terceiro volume da vida ilustrada por Sarah Andersen

Em março de 2015, adotei um casal de gatos. Eles chegaram para mim com dois meses, ou seja, numa idade em que estão espertinhos e… incontroláveis. Talvez eu estivesse um pouco enferrujada no trato, porque meu instinto foi tentar mantê-los quietos dentro de uma caixa de papelão e obviamente não consegui. Quando Sarah Andersen anunciou sua terceira coletânea de quadrinhos com o título Herding Cats, que foi traduzido no Brasil como A Louca dos Gatos, essa história me veio à cabeça, porque, pense nos bichanos como situações da vida: em sua multiplicidade, não temos controle sobre eles; enquanto estamos correndo atrás de um, outro está correndo para longe, e se tentarmos insistir a frustração é certa. Mas garotas como a Sarah e eu somos propensas a insistir e, com isso, precisamos de um antídoto no meio do caos, que pode, sim, ser um gatinho de verdade, mas não só isso. E esse é apenas um pedacinho da metáfora.

Sarah Andersen é uma ilustradora e cartunista norte-americana que ganhou notoriedade na internet por suas tirinhas publicadas na página Sarah’s Scribbles (inicialmente, Doodle Time by Sarah Andersen) no Facebook. Sua identidade artística é retratar as pequenas tragédias cotidianas com um quê de humor ou o estilo de vida millennial que intriga demais as gerações anteriores, mas que faz muito sentido para quem faz parte dela, e ao compartilhar esses momentos em imagens, Sarah conseguiu reunir um grupo de pessoas que se identificam com aquilo, riem das mesmas piadas, compartilham das mesmas experiências, estão em sintonia em hábitos aleatórios, e sequer sabiam que mais pessoas se sentiam assim ou pensavam da mesma maneira, porque, em sua maioria, são detalhes tão pequenos que muitos ficaram escondidos até então. Se me perguntassem, eu diria que a característica mais marcante do trabalho dela é a expressão autêntica de um senso de humor sarcástico e imperfeições humanas.

Pouco antes de anunciar a publicação da terceira compilação de tirinhas, Sarah compartilhou uma ilustração em sua página que resume em uma frase o tema recorrente: “Herding cats: a futile attempt to control that which is inherently uncontrollable” [“Pastorando gatos: uma tentativa em vão de controlar aquilo que é inerentemente incontrolável”]. Mas, na prática, o que isso significa? Significa que, cada um à sua própria maneira e em maior ou menor grau, todos temos o desejo de controle sobre alguns (ou todos) aspectos da nossa vida, mas, na prática, esse controle é ilusório porque a vida é imprevisível, e não aceitar isso como um fato e tentar insistir nos leva à exaustão mental e quiçá danos emocionais mais duradouros. Significa também aceitar que somos imperfeitos e sempre teremos alguns momentos melhores do que outros, mas o importante é seguir em frente fazendo o que sabemos de melhor.

É difícil falar sobre o trabalho de Sarah Andersen sem mencionar a representação das características comuns aos millennials e os conflitos que ocasionalmente surgem com outras gerações. Isso porque suas tirinhas são semi-autobiográficas e ela mesma faz parte dessa geração. Em A Louca dos Gatos, Sarah mostra sua personagem em muitas situações que envolvem a relação dual com a internet e o excesso informações dos dias de hoje, em especial quando são notícias de cunho político e/ou social. Muitos integrantes das gerações precedentes ainda tomam os millennials por jovens acomodados, quando na realidade as mudanças que ocorreram no mundo nas últimas décadas os tornaram muito diferentes na hora de conseguir um lugar ao sol. Dentro de um recorte bastante específico, Sarah ilustra como tentamos conciliar os prazos do trabalho com os nossos limites em meio ao caos pessoal de alguém com transtorno de ansiedade. Ao mesmo tempo, ela também retrata situações que mostram como tentamos ser mais receptivos com os outros e como precisamos ser mais receptivos conosco acima de tudo.

Depois de 82 páginas de quadrinhos — a maioria dos quais já foram compartilhados na internet — de leitura veloz e agradável, o A Louca dos Gatos traz um conteúdo inédito em formato de guia ilustrado com o tema “Fazendo coisas nos dias de hoje”. Em tal conteúdo, Sarah elucida a dificuldade de se manter criativa e continuar produzindo conteúdo em uma época em que o excesso de informações nos deixa sobrecarregados, e a internet, meio que muitos de nós utilizamos para expor nosso trabalho (vide esse site que você está lendo agora), nem sempre é um lugar receptivo ainda que seja democrático. E, assim como nas tirinhas, esse relato da experiência da própria Sarah desperta a familiar sensação de compreensão naqueles que desenham, escrevem, ou de outra forma dependem da criatividade de alguma maneira como forma de sustento, mas que vez ou outra esquecem que escolhemos esse caminho lá atrás por imenso prazer em desenhar, escrever, criar.

O conselho que Sarah deixa, ao final de A Louca dos Gatos, é que não devemos deixar de fazer coisas. Mesmo quando as notícias nos deixam emocionalmente exauridos. Mesmo quando não consideramos nosso trabalho muito bom. Mesmo quando uma crítica negativa se sobreponha a inúmeras críticas positivas. Na vida, encontraremos muitas situações em que vamos duvidar da nossa própria capacidade de concluir um projeto, superar um desafio ou apenas sobreviver. Mas a verdade que conhecemos bem — embora às vezes tenhamos dificuldade em lembrar dela — é que somos capazes, sim, de fazer qualquer coisa se colocarmos nossa energia naquilo. Talvez a execução fuja um pouco da forma que planejamos no início, mas o resultado não precisa ser perfeito desde que exista. Quantas vezes acreditamos com todo o nosso coração que não iríamos conseguir, e conseguimos? No meu histórico, perdi as contas. Especialmente de todos os textos que achei que não seria capaz de terminar, e cá estou batendo mais um ponto final ainda que com meses de atraso. Obrigada a todos os envolvidos. E seguimos.

A Louca dos Gatos

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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