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Sylvie’s Love: um conto de amor que resiste ao tempo

No verão de 1957, em Nova York, Sylvie (Tessa Thompson) e Robert (Nnamdi Asomugha) se conhecem. Ele, um saxofonista talentoso. Ela, filha do dono de uma loja de vinis que sonha em trabalhar na televisão. Ela não liga muito pra ele em um primeiro momento, mas ele fica caidinho por ela praticamente de imediato. Ele sonha em viver de sua música, ela conhece mais sobre o assunto do que qualquer um. Sylvie e Robert são perfeitos. Mas a vida tem das suas e nem tudo o que é pra ser, de fato, é.

Atenção: este texto contém spoilers!

Em Sylvie’s Love, filme escrito, dirigido e produzido por Eugene Ashe, estamos em uma Nova York que respira e transpira jazz. A música que Robert toca é aquela que irá embalar as idas e vindas entre ele e Sylvie, uma história de amor que resiste à passagem do tempo, aos desencontros e à vida. O longa soa como uma bela canção de jazz apaixonada pelo amor, conduzindo a trama com delicadeza. Sylvie’s Love não é um filme com um enredo mirabolante, plot twists ou coisas do tipo, mas é uma história sobre o amor e como são poucos aqueles capazes de encontrá-lo na vida.

Apesar de Robert ter tentado o emprego na loja de discos do pai de Sylvie apenas para ficar mais perto da moça, ele realmente precisa do dinheiro que recebe pelo trabalho para complementar sua renda. Como músico em início de carreira, Robert toca em uma banda de jazz com outros três rapazes. O dinheiro não é muito, a plateia nem sempre é das mais atentas, mas pelo menos Robert está seguindo seu sonho. Ele é um saxofonista talentoso e não demora para que seja notado por Lucy Wolper (Wendi McLendon-Covey), uma mulher rica que decide ser a empresária da banda e logo consegue agendar shows para eles em casas em Paris. Mas ir para Paris significa deixar Sylvie, e Robert não parece tão certo dessa decisão.

Sylvie, enquanto isso, luta, em um primeiro momento, para não se deixar envolver por Robert. Ela tem um noivo, Lacy (Alano Miller), que é médico, está na Coreia e é de uma boa família, como sua mãe, Eunice (Erica Gimpel), gosta de frisar. Os dois se conheceram em uma festa de debutantes, quando Sylvie foi apresentada, junto de outras garotas, formalmente à sociedade. Robert acha graça quando ela conta isso, mas dado o histórico de sua mãe e o fato dela trabalhar ensinando boas maneiras às meninas do Harley, faz todo o sentido Sylvie ter passado por algo assim. Sylvie sempre tenta se lembrar do quão bom rapaz Lacy é, mas seu coração começa a bater descompassado quando Robert está por perto. Depois de comparecer a uma de suas apresentações e ficar encantada depois de vê-lo tocar, Sylvie entende que não há como resistir ao que está sentindo. A música de Robert tem alma e emociona Sylvie, e não demora para que os dois comecem a se envolver romanticamente, mesmo que ela, a rigor, esteja comprometida a outro rapaz.

É nesse mesmo verão em que se encontram, que suas vidas tomam rumos diferentes. Robert convida Sylvie para ir com ele para Paris, mas ela recusa. Sylvie está grávida de Robert, mas não conta a ele sobre o bebê que está esperando. “Eu quero que você conquiste tudo o que deseja”, ela diz a ele quando se despedem. E esse é o presente de Sylvie para Robert, que deixa Nova York para conquistar o mundo com sua música, enquanto ela permanece para seguir seu destino traçado por outra pessoa. A partir de então, pelos próximos seis anos, eles vão passar por encontros e desencontros capazes de provar que o amor entre eles está tão forte quanto foi naqueles dias de verão.

Sylvie’s Love não tem um roteiro inovador e funciona como uma homenagem aos filmes de romance de antigamente. O ritmo lento do longa provavelmente afastará parte da audiência acostumada a uma sucessão mirabolante de acontecimentos, mas aqueles que se entregarem a trama poderão acompanhar uma história delicada e sensível se desenvolvendo entre os personagens. O filme de Eugene Ashe é repleto dos clichês que já conhecemos há anos, mas nada disso compromete a qualidade ou a beleza de seu trabalho justamente por serem clichês sempre negados às pessoas negras. Há algo de encantador nas cenas do casal se esbarrando e indo por outros caminhos no final da década de 1950 e início de 1960 que somada à química entre Tessa Thompson e Nnamdi Asomugha torna impossível desgrudar os olhos da tela.

Em matéria publicada no The Guardian, o crítico de cinema Benjamin Lee diz que há algo de subversivo em ver dois atores negros protagonizando um filme como Sylvie’s Love se levarmos em consideração que os longas homenageados por ele eram exclusivamente protagonizados por atores brancos. Para Lee, permitir que atores não-brancos tenham a oportunidade de habitar uma história tão leve e despolitizada quanto essa é o que traz o diferencial para Sylvie’s Love. Asomugha, em entrevista durante o Festival Sundance de Cinema de 2019, disse que ele sempre desejou assistir a um drama de época com personagens negros que experimentassem adversidades devido às circunstâncias e não somente por conta da cor de suas peles. Muitos filmes de época protagonizados por pessoas não-brancas se atém apenas às dificuldades relacionadas ao racismo, mas Asomugha gostaria de ir além. Sylvie’s Love não se abstém de mostrar diversas microagressões ao longo do caminho de seus personagens, como quando, por exemplo, Sylvie recebe clientes (brancos) de seu marido em casa e precisa lidar com a condescendência da mulher que janta na companhia de sua família, mas Eugene Ashe permite que seus personagens também amem, sejam amados, trabalhem e existam para além de sua raça. O diretor e roteirista não constrói seus personagens para que sua raça seja a única força definidora de suas vidas.

Nada de ruim acontece aos personagens de Sylvie’s Love por causa da cor de suas peles. O longa é uma história de amor em seu sentido mais puro, algo que deve ser celebrado. Ainda na entrevista durante o Festival Sundance de Cinema, Nnamdi Asomugha diz que ver esses jovens negros se apaixonando em mundo glamouroso e sofisticado criado especialmente para eles é fortalecedor. Em uma indústria antiga como a do cinema, é no mínimo triste perceber suas lacunas e que Sylvie’s Love seja um dos poucos dramas de época a retratar o romance entre dois protagonistas negros de maneira delicada e sentimental, mostrando beleza e doçura em casa cena. Assistir Sylvie’s Love é querer ser embalada ao som do jazz por seu amor, dançando levemente sem sair do lugar. É desejar sentir como Sylvie quando Robert olha para ela, encabulada e encantada em medidas iguais. É sonhar com um amor de cinema em que tudo se encaixa de maneira perfeita.

A delicadeza da obra não fica apenas por conta das interpretações inspiradas de seus atores, mas também passa pelos aspectos técnicos que vão desde ao figurino milimetricamente pensado, aos penteados, cenários e trilha sonora. Sendo Eugene Ashe também músico, é natural que seu filme se apoie nesse pilar para conquistar a atmosfera pretendida para cada cena. A trilha sonora de Sylvie’s Love passeia por canções originais compostas por Fabrice Lecomte especialmente para o longa, até gravações de Louis Armstrong e Doris Day. O drama romântico de Sylvie e Robert é embalado pelas melhores canções da época, mostrando o jazz quase como um personagem à parte, uma entidade que acompanha o casal em todos os momentos.

De maneira geral, o enredo de Sylvie’s Love não tenta inventar nada, mas inova ao entregar uma trama romântica e doce, em uma Nova York dos anos 1950/1960 para dois personagens que não puderam existir nos filmes daquela época. O filme se transforma em uma espécie de clássico ao retomar os melhores aspectos das produções antigas, adaptando para a realidade de Sylvie e Robert um amor puro e duradouro. Sylvie’s Love entrega um mundo que deveria ter sido, existido, regado à jazz, amor e carinho. O filme funciona por conta de seus personagens carismáticos, da química entre os atores e do trabalho impecável do diretor que decidiu recontar um clássico a sua maneira. Em meio aos discos de vinil da loja em que trabalharam, o amor nasceu entre Sylvie e Robert. Embalado pelo jazz, ele se transformou.

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