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Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta

Não é de hoje que amamos Amy Poehler. Seja como a “cool mom” em Meninas Malvadas, como vice-diretora do Departamento de Parques e Recreação da cidade fictícia de Pawnee, Indiana, em Parks and Recreation ou a melhor dupla possível para Tina Fey, o fato é que Poehler é ótima em tudo o que se propõe a fazer. Foi com esse sentimento, de entender que Amy Poehler dificilmente erra em sua carreira, que decidi dar play em Moxie: Quando as Garotas vão à Luta, filme dirigido por ela que entrou recentemente no catálogo da Netflix.

Atenção: este texto contém spoilers!

Baseado no romance homônimo escrito por Jennifer Mathieu e publicado no Brasil em 2018 pela Verus, a trama acompanha a trajetória de Vivian (Hadley Robinson), uma adolescente de dezesseis anos que começa a perceber que tem algo de muito errado acontecendo em seu colégio. Quando Lucy (Alycia Pascual-Pena) chega ao colégio, transferida, e passa a estudar na mesma turma de literatura que a protagonista, Vivian fica admirada com o posicionamento assertivo da garota com relação à leitura de alguns clássicos norte-americanos, como O Grande Gatsby, e pontua isso para o professor apenas para ser interrompida por Mitchell (Patrick Schwarzenegger), o quarterback do time de futebol americano do colégio e queridinho de todos. Mesmo que Lucy se mantenha calma e certeira em seus comentários, tudo o que Mitchell faz é desconsiderar o ponto de vista da menina, interrompendo seus argumentos. Vivian acompanha a conversa, interessada, e logo sente que algo não estava se desenrolando entre os dois de maneira correta, mas ainda não consegue entender muito bem o que lhe causou o desconforto.

Moxie

Mitchell não se limita à sala de aula e assedia Lucy sempre que possível, e nem mesmo a Diretora Shelly (Marcia Gay Harden) leva a sério o pedido de ajuda da menina: “assédio é uma palavra muito forte”, ela diz à Lucy, e ela teria que fazer “coisas”, indicando uma burocracia com a qual não quer ter que lidar, caso a aluna decida seguir adiante com a queixa sobre o quarterback. Em uma das ocasiões, Vivian vê Mitchell importunando Lucy no refeitório do colégio, invadindo o espaço da garota, cuspindo em sua lata de refrigerante e tocando-a sem permissão. Lucy não baixa a cabeça para nada disso — mas na hierarquia do colégio ela, uma garota negra recém-chegada, não é alguém a ser considerada perto de Mitchell, rapaz branco e líder do time de futebol americano. Some-se a isso o fato dos rapazes do colégio divulgarem uma lista classificando todas as meninas em categorias como “mais pegável”, “melhor bunda” e “melhores peitos” para que Vivian perceba o quanto a situação é ultrajante e que esse comportamento não deveria ser indultado pela escola.

Vivian começa a maquinar algumas coisas enquanto conversa com sua mãe, Lisa (interpretada por Poehler), sobre como era para ela, na adolescência, lidar com situações como as de Lucy no colégio. Lisa diz que, na sua época, elas e as amigas protestavam sobre tudo, como uma Riot Grrrl, e é assim que surge o primeiro estalo em Vivian de que ela precisa fazer alguma coisa. Vivian e Claudia (Lauren Tsai), sua melhor amiga, sempre passaram fora do radar da maior parte das pessoas do colégio, sendo meninas introvertidas (ambas são INTJ, da tipologia de Myers-Briggs, como Vivian frisa em determinado momento do filme) e não gostam de ser o centro das atenções ou se expor na frente dos outros, mas neste momento a protagonista sente que tem que fazer algo não apenas por Lucy, mas por todas as garotas do colégio que sentem diariamente as mordaças e amarras do patriarcado agindo sobre elas. Passeando pelas recordações de adolescência da mãe, Vivian descobre os fanzines de protesto e começa a redigir ela mesma seu material, colocando em evidência o quanto é degradante os meninos do colégio elencarem as meninas em uma lista, opinando a respeito de seus corpos como se tivessem todo o direito para tal.

Moxie

Vivian termina seu material e o espalha pelo colégio, aguardando que as meninas leiam e tomem partido em seu protesto marcando com canetinha estrelas e corações em uma das mãos. A menina prefere se manter anônima, não revelando a ninguém que é a autora do fanzine, que ela batiza de “Moxie” (um termo antigo que significa “bravura”, em inglês), após um discurso da Diretora Shelly durante a abertura da temporada de futebol americano. Aos poucos, o fanzine de Vivian começa a circular pelo colégio, angariando a simpatia de muitas meninas que entendem perfeitamente os protestos ali escritos, mas também de alguns poucos meninos que sabem que devem ser aliados naquela luta. É o caso, por exemplo, de Seth (Nico Hiraga), crush de Vivian. A conversa iniciada pelo fanzine de Vivian inflamará discussões em todo o colégio, promovendo a união das garotas e fazendo-as lutar contra o sexismo que impera nos corredores e nas salas de aula.

De maneira geral, não há nada de errado com Moxie: Quando as Garotas vão à Luta. O filme é coerente em sua narrativa, seus personagens são críveis e a luta de Vivian em prol das garotas faz todo o sentido, principalmente para o tempo em que vivemos. Os atores incorporam muito bem seus personagens e todos estão ótimos em seus papéis, com destaques óbvios para Hadley Robinson, que às vezes se parece muito com uma jovem Kirsten Dunst, Alycia Pascual-Pena e Lauren Tsai. O filme traz uma história de empoderamento feminino especialmente feita para a Geração Z, e soa quase como um curso básico de feminismo, um feminismo para iniciantes, sem soar pedante. E isso é ótimo. É perfeito que as novas gerações de meninas possam ter contato com um conteúdo como esse, que trate de assuntos relevantes sem parecer algo engessado e decorado. Moxie não pretende se aprofundar completamente nos temas, mas consegue mostrar até mesmo um pouco de feminismo interseccional quando coloca Claudia interpelando Vivian sobre como não pode agir sem pensar da mesma maneira que a amiga — Claudia, sendo de origem chinesa, não tem o mesmo respaldo ou proteção da branquíssima Vivian, algo que esta não parece se dar conta até que a amiga exponha o fato a ela.

Moxie

Moxie lembra muito Booksmart, dirigido por Olivia Wilde, em seu jeito de trazer temas como gênero, raça e identidade para a conversa. Mas, diferente de Booksmart, falta um certo brilho em Moxie, algo que faça o filme memorável, visto que a produção dirigida por Amy Poehler aos poucos se transforma em mais um coming of age centralizado em uma personagem branca e loira. Como disse anteriormente, Hadley Robinson faz um ótimo trabalho dando vida à Vivian, mas ela é uma personagem que já vimos vezes suficientes em filmes. Não estaria na hora (ou melhor, já não passou da hora?) desse espaço ser preenchido por personagens como Lucy, Claudia, Kiera (Sydney Park), Amaya (Anjelika Washington) ou CJ (Josie Totah)? É ótimo que o filme tenha em seu elenco essa diversidade, com personagens negras, de origem latina e asiática, além de uma menina trans, mas a partir do momento em que elas se mantêm como ferramentas de roteiro para a evolução da protagonista branca, não há nada realmente novo por aqui.

É ótimo que a Geração Z já tenha produções pensadas para ela, como Moxie, mas a partir do momento em que os padrões de representação seguem os mesmos, onde está a inovação? Em suas quase duas horas de duração, Moxie: Quando as Garotas vão à Luta tenta encaixar questões sobre os padrões impostos aos corpos das mulheres, confronta o privilégio branco não apenas de homens, mas também de mulheres, trata sobre o silenciamento de vítimas e da importância da união das minorias para enfrentar o status quo. Há uma menina trans, outra menina com deficiência e diversos personagens com diferentes origens raciais e socioeconômicas passeando pelo filme, mas a sensação que fica é a de que o roteiro poderia ter ido além, aprofundado nessas representações ou focando nos dilemas desses personagens e não somente em Vivian.

Moxie

Vivian erra e acerta, trilhando seus primeiros passos no mundo do feminismo. Por meio de seu fanzine, ela consegue apoiar Lucy, assediada desde o primeiro instante por Mitchell, defende Kaithlyn (Sabrina Haskett), depois da Diretora Shelly usar de um código de vestimenta discriminatório para mandar a colega para casa por usar uma blusa de alcinha e ainda ajuda Kiera em uma campanha para conquistar uma bolsa de estudos. Quando a amiga perde, no entanto, Vivian fica irritada e é pura raiva adolescente, o que desencadeia uma ação do Moxie que fará com que Claudia seja suspensa na escola. Mas Vivian compreende o erro e aceita seus desdobramentos, porque ela se importa. E se importa muito. E aprender com seus próprios erros não deixa de ser uma forma de evolução.

As quase duas horas de filme não são um desperdício do seu tempo, no entanto. Moxie acerta no carisma dos seus atores, que fazem com que a audiência se importe com eles e torça por um desfecho positivo para cada um (menos para você, Mitchell). Eu gostaria de ver mais sobre Lucy, Claudia e CJ, por exemplo, mas Moxie tem seus pontos positivos ainda assim. A narrativa é importante para que a Geração Z se veja representada a entenda que seus dilemas são universais, e o roteiro não tem medo de falar de temas complicados como estupro mesmo para uma audiência jovem. A trilha sonora foi escolhida com cuidado e vai de Bikini Kill a Gossip e The Linda Lindas. As cenas finais, que apresentam uma festa com fantasias vibrantes e coloridas, é de deixar o coração quentinho ao mostrar o poder da amizade feminina.

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1 comentário

  1. Senti a mesma coisa quando assisti, considerando que é um filme adolescente é plausível a forma com as questões são apresentadas, porém fica um sentimento de quero mais por não ter um aprofundamento em pautas importantes e focar demais na personagem branca, cis e sem deficiência.