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Homem-Aranha no Aranhaverso: a vez de Miles Morales

Com 52 indicações e 33 vitórias nas mais diversas premiações de cinema, inclusive levando para casa a estatueta de Melhor Animação no Oscar 2019, Homem-Aranha no Aranhaverso tem feito bastante barulho na mídia desde sua estreia no exterior, em dezembro de 2018. A animação chegou ao Brasil em janeiro deste ano e continua arrebatando fãs a cada nova exibição, provando que a história de Miles Morales e como ele se transformou no Homem-Aranha é uma das mais divertidas, calorosas e apaixonantes de se acompanhar das encarnações do Cabeça de Teia dos últimos anos.

E com isso não quero desmerecer, de maneira alguma, as demais versões do Aranha no cinema. É possível dizer sem medo de errar que o hype do gênero dos super-heróis no cinema aconteceu justamente com o Homem-Aranha, de 2002, com direção de Sam Raimi e com Tobey Maguire como protagonista, ainda que um dos primeiro filmes baseados nos quadrinhos da Marvel tenha sido X-Men, de 2000. É fácil gostar de Peter Parker/Homem-Aranha, o amigão da vizinhança que tenta balancear sua vida como estudante, fotógrafo e apaixonado em tempo integral por Mary Jane enquanto tenta salvar Nova York de vilões como Duende Verde e Doutor Octopus, só para citar alguns.

Dezessete anos se passaram desde então e os filmes do Cabeça de Teia sofreram dois reboots, um com Andrew Garfield assumindo a função em dois longas, O Espetacular Homem-Aranha (2012) e O Espetacular Homem Aranha 2 (2014), e outro com Tom Holland fazendo seu debute em Capitão América: Guerra Civil (2016) e iniciando franquia própria com Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017). Com algumas pequenas diferenças entre as histórias de origem e universos, de maneira geral a história de como Peter Parker se transformou em Homem-Aranha não muda, e essa é, inclusive, uma maneira que o roteiro de Homem-Aranha no Aranhaverso encontra para rir de si mesmo. Seja você fã de histórias de super-heróis ou não, você sabe que Peter Parker foi picado por uma aranha radioativa, se transformou em Homem-Aranha e que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, história que não se altera também na animação dirigida por Bob Persichetti e Peter Ramsey. O que muda, aqui, é como tudo isso se conecta com a história de Miles.

Homem-Aranha no Aranhaverso

Miles Morales (Shameik Moore) é um adolescente comum do Brooklyn que está tentando se adaptar ao novo colégio, uma instituição particular em outro bairro cuja realidade dos alunos é totalmente diferente da sua. Ele sente falta dos amigos do antigo colégio, mas seu pai insiste para que ele continue os estudos no novo bairro, principalmente por conta do ensino de melhor qualidade, uma oportunidade que não deve ser desperdiçada. Dessa maneira, Miles tenta se enturmar na escola enquanto cumpre com suas obrigações de aluno, mas sempre aproveita as oportunidades que aparecem para escapar e encontrar seu tio Aaron (Mahershala Ali). O pai de Miles, o oficial Jefferson Davis (Brian Tyree Henry), e o tio, não parecem ter uma relação muito próxima e com o decorrer do longa descobrimos o que causou o afastamento entre eles, mas para o garoto, tio Aaron é alguém a quem recorrer ao final de um dia estressante no colégio. É dessa maneira que os dois decidem explorar juntos os subterrâneos de Nova York para que Miles possa exercitar sua arte com tranquilidade.

É nesse interlúdio que Miles é picado por uma estranha aranha radioativa que carrega o número 42 marcado em seu corpo, mudando a vida do garoto para sempre. Não demora muito para que os poderes de Miles despertem, o que acontece durante as aulas — e nos presenteia com uma sequência hilária entre Miles e Gwen Stacy (Hailee Steinfeld) regada a muito constrangimento adolescente. Tentando entender o que está acontecendo com seu corpo, Miles decide retornar ao local em que foi picado em busca de pistas, se colocando no lugar errado na hora errada: é assim que o garoto presencia a luta entre Peter Parker (Chris Pine) e Wilson Fisk, o Rei do Crime, (Liev Schreiber) e testemunha a ativação de uma engenhoca construída a mando de Fisk para que Vanessa (Lake Bell) e seu filho sejam trazidos de outra dimensão. O que ninguém esperava, no entanto, é que a interferência na ativação também fosse trazer para a dimensão de Miles Morales outras encarnações do Cabeça de Teia.

É assim que Miles encontra Peter B. Parker (Jake Johson), uma versão mais velha e descrente do amigão da vizinhança; uma super-heroína de anime, Peni Parker (Kimiko Glenn), com seu robô aranha super tecnológico; o Porco Aranha (John Mulaney); o Homem-Aranha Noir (Nicolas Cage), em preto e branco e constante vento batendo em seu sobretudo; e Spider-Gwen. Todos são transportados para a realidade de Miles e precisam unir forças tanto para ajudar o novo Aranha quanto para impedir o Rei do Crime de concretizar seu plano e poderem voltar para suas respectivas realidades. O enredo em si já é um tributo a toda a história do Homem-Aranha nos quadrinhos, visto que universos múltiplos e compartilhados não são realmente novidade, aparecendo em arcos de quadrinhos tanto da Marvel quanto da DC Comics. O caso é que em Homem-Aranha no Aranhaverso isso aconteceu da melhor maneira possível, com um enredo bem amarrado, personagens carismáticos e cores tão vivas que só poderiam vir de uma história em quadrinhos — essência que Bob Persichetti e Peter Ramsey resgatam com maestria do material original.

Ainda que, de maneira geral, Homem-Aranha no Aranhaverso siga uma fórmula que já conhecemos — afinal, é a jornada do herói toda outra vez —, o filme consegue fazer isso com ar de novidade justamente por conta de seu protagonista. A primeira aparição de Miles Morales no universo dos quadrinhos foi nas páginas de Ultimate Fallout em 2011; criado por Sara Pichelli e Brian Michael Bendis, Miles foi inspirado em Barack Obama e Donald Glover, um adolescente com herança birracial que assume o manto do Homem-Aranha quando Peter Parker morre pelas mãos do Duende Verde. Em sua versão animada, a essência de Miles permanece, mostrando que sua inclusão nas histórias pode ter sido responsável por desencadear uma grande mudança na Marvel, o que levará (ou assim esperamos!) vários outros personagens de diferentes etnias, origens e idades para o cargo de protagonista de suas respectivas tramas. Miles é um adolescente e se comporta como tal, o que adiciona camadas de verossimilhança à trama: todos irão se reconhecer em Miles cantarolando em seu quarto, sendo desajeitado ou simplesmente tentando sobreviver à escola.

Como escrito por A.O. Scott em sua crítica para o The New York Times, parte da beleza de Aranhaverso é que a identidade de Miles é muito importante ao mesmo tempo que não é, um avanço da mesma maneira que é uma reafirmação de quem o personagem é desde o começo. Assim como acontece com Pantera Negra, ter um super-herói negro e, no caso de Miles, birracial, fará brilhar o olhar de milhares de crianças que, depois de anos, poderão finalmente se encontrar nas telas do cinema. A Marvel tem adicionado camadas de representatividade em seus filmes e demais produções, e ver o protagonismo de Miles é de encher os olhos — toda a trama de Aranhaverso, inclusive, é trabalhada de maneira ágil e inteligente, com bons momentos de diversão e outros de aquecer o coração, uma boa dose de aventuras e luta contra o crime e outras tantas de momentos adoráveis entre todos os Aranhas, ou Miles e sua família.

O roteiro consegue costurar as bagagens de todos os personagens sem deixar pontas soltas ou perder o foco em Miles, então é possível se conectar com cada um dos Aranhas, seus medos e anseios. Desde Peter B. Parker, que já não é mais o mesmo, até Gwen ou Peni; cada um dos personagens tem uma história de background completa que só nos faz torcer ainda mais por eles no desenrolar do filme. Some-se a isso todos os easter eggs possíveis — uma especialidade da Marvel — que Aranhaverso se torna um prato cheio para fãs antigos e novos, com referências mais evidentes — como as cenas retiradas diretamente da trilogia de Sam Raimi e Tobey Maguire — a outras um pouco obscuras e feitas para aqueles totalmente aficionados pelas histórias do Cabeça de Teia. De uma maneira ou outra, Homem-Aranha no Aranhaverso é entretenimento garantido capaz de ter deixar eufórico, com coração quentinho e completamente mesmerizado.

Homem-Aranha no Aranhaverso

E tal encantamento reside no fato de que Aranhaverso, do começo ao fim, faz jus aos quadrinhos que lhe deram origem. Poucos filmes de super-heróis se parecem com o material original, e essa é uma característica que o longa de Bob Persichetti e Peter Ramsey soube usar com maestria. Seja por meio das cores fortes, dos pontos usados para colorir as páginas ou as onomatopeias e recursos visuais, tudo em Homem-Aranha no Aranhaverso clama comic book — e isso é maravilhoso. No artigo escrito por Dan Gvozden para o The Hollywood Reporter, é explicada a técnica utilizada pelos diretores para emular a sensação que se tem ao ler um quadrinho, desde a explosão de cores que saltam para a tela na batalha final ou aos elementos únicos que fizeram da Nova York de Miles Morales uma das mais verossímeis do universo dos super-heróis. Até o erro de impressão dos quadrinhos, com cores sobrepostas “vazando” dos espaços que deveriam preencher, referencia o estilo. É de encher os olhos.

Por último, mas não menos importante, Homem-Aranha no Aranhaverso é um filme que transborda sentimento. Como fã de animações, quadrinhos e mangás desde que me entendo por gente, é difícil não ficar emocionada ao ver algo tão cuidadosamente bem feito como o debute de Miles Morales nos cinemas. O enredo tem vida, os personagens te cativam e as cores saltam da tela em sequências de tirar o fôlego. Se o gênero de filmes de super-heróis está alcançando um ponto de não retorno, talvez os estúdios em questão devessem olhar com mais carinho para uma animação como Aranhaverso para reaprender como se faz.

“Anyone can wear the mask. You can wear the mask. If you didn’t know that before, I hope you do now.”

“Qualquer pessoa pode usar uma máscara. Você pode usar uma máscara. E se você não sabia disso antes, espero que agora saiba.”

Homem-Aranha no Aranhaverso recebeu 1 indicação ao Oscar, na categoria de: Melhor Animação

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