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20 anos de Amor à Segunda Vista: uma comédia romântica que resistiu ao teste do tempo

Produzida na leva mais clássica de comédias românticas que dominaram o início dos 2000, tais quais, Como Perder um Homem em 10 Dias (2003), E Se Fosse Verdade (2004) e 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999), Amor à Segunda Vista — disponível na HBO Max —, surge como um dos clichês que melhor sobreviveu ao teste do tempo graças ao texto arrojado, ao carisma de protagonistas bem delineados e a química de Hugh Grant e Sandra Bullock na pele do casal principal.

Atenção: este texto contém spoilers!

Diferente de outros pares femininos da época, Lucy Kelson representa uma mulher mais madura que tem um objetivo bem definido: dedicar sua vida ao ativismo, especialmente o ambiental, uma pauta que, na época, emergia em razão do interesse e influência de Al Gore, vice-presidente dos Estados Unidos na gestão Bill Clinton, sobre os debates relacionados ao tema.

Assim, a protagonista de Sandra Bullock se mostra moderna e alinhada à ideias mais revolucionárias, refletindo a sede de mudança com a chegada do novo século, pois assim foi criada para ser. Fica claro que seus pais, os professores e estudiosos do Direito, Ruth (Dana Ivey) e Larry Kelson (Robert Klein), possuem uma longa história com a militância, especialmente os ideais de Martin Luther King Jr., sendo extremamente ativos na luta por direitos civis e direitos das mulheres, vindo daí parte de suas aspirações e expectativas sobre as próprias ações em prol de suas crenças.

amor à segunda vista

Contudo, diferente dos anos 1960 e 1970, quando os Estados Unidos vivia uma conhecida onda de reivindicações reais se escorando a partir de nomes que ganharam força simbólica, tais quais a feminista Gloria Steinem, Lucy está sozinha parecendo lutar contra tudo e todos, sem muito engajamento de seus pares. É um novo tempo e ele não parece promissor com George Bush na presidência do país, um cético quanto à agenda ambiental, que reflete bem a mentalidade do eleitorado estadunidense, descrente das reivindicações da advogada que, num primeiro momento, aparenta ser inconsequente e desajeitada.

Apesar de ter como principal característica a necessidade de abraçar o mundo e resolver os problemas de todos ao seu redor, a questão mais urgente de Lucy é a iminente destruição do Centro Comunitário de Coney Island em nome de uma construção milionária do setor imobiliário. Para além das consequências práticas na vida da comunidade ao redor, famílias e turistas que realmente o frequentam, pois o Centro resiste como uma obra arquitetônica centenária, que representa alguma tranquilidade na vida corrida e impessoal de Nova York, além do impacto ambiental de um projeto como aquele junto à praia, trata-se do local onde Lucy passou sua infância, o que determina a extrema importância dessa luta em especial para a mocinha a levando ao seu último apelo: tentar convencer o proprietário da empresa do ramo imobiliário, George Wade (Grant), a preservar o Centro.

O personagem de Hugh Grant, por sua vez, vai além da face gananciosa que os milionários têm a princípio. Não há nele a falta de escrúpulos e o tino para os negócios, restando a George servir mais como rosto e relações públicas da empresa da família enquanto mais desfruta do dinheiro quase sem limites (“como um jogo do Monopoly”, como ele mesmo descreve) do que se preocupa com as partes espinhosas do trabalho.

Por causa disso, George facilmente consegue envolver Lucy e o Centro em um acordo pouco lógico, mas muito conveniente: ao notar que a advogada tem desenvoltura para resolver problemas, ele a convida para ser diretora do departamento jurídico da empresa em troca de não demolir o Centro Comunitário durante a construção de seu novo empreendimento. Simples assim, pois ter suas vontades imediatamente atendidas e resolver todos os empecilhos surgidos em seu caminho com dinheiro e poder é apenas parte de seu dia. Não há muitos problemas na vida do bon-vivant e assim ele deseja que continue.

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A questão para ela, no entanto, é que trabalhar para um grande conglomerado vai contra todas as suas crenças e, embora isso seja apenas arranhado na superfície da produção e de maneira bem humorada, têm a ver com a sustentação desse tipo de capital tão descomunal e quase ilimitado, advindo de uma herança familiar — provavelmente em uma alusão a Donald Trump, um concorrente direto de Wade no setor imobiliário, que faz uma pequena aparição no filme e tem seus bens baseados nessa mesma origem —, que se torna promíscuo em relação às necessidades daqueles que vivem com muito menos e ao fato de serem, geralmente, um problema diretamente relacionado às questões ambientais que defende. Um ideal muito mais difundido nos tempos atuais e que, de fato, não caberia ser aprofundada em uma produção do gênero, mas que se encontra presente como pano de fundo para a personagem.

Contudo, quando seu pai aponta que, do lado de dentro da Corporação Wade, poderia fazer muito mais pelas causas nas quais acredita justamente em razão de todo o poder e influência que a empresa detém em diversos ramos, Lucy aceita o trabalho. O que não esperava era que sua função fosse muito além das burocracias contratuais do ramo de imóveis. Sem muita demora, George se torna extremamente dependente dela e de suas decisões ágeis, mesmo para as coisas mais simples do dia a dia, como a cor de sua gravata ou o material do papel de um envelope, fazendo-a ter que se desdobrar entre a rotina de advogada da empresa e de assistente pessoal, o que a esgota em cerca de um ano a ponto de pedir demissão e dar o aviso prévio de duas semanas, o deixando chocado e um tanto quanto sem reação, pois toda a sua vida já gira em torno da presença de Lucy.

O charme de Amor à Segunda Vista reside exatamente neste nervo: por mais que não consiga conciliar seu trabalho de verdade com as necessidades de George, sua vida pessoal e o ativismo — como a maior parte das pessoas adultas que se encontram estafadas da vida corrida —, George e Lucy se entendem muito bem em suas particularidades, desde à forma como trabalham juntos, se compreendendo muito bem sem precisar de muitas palavras, até ao modo como se sentem à vontade para se abrirem um com o outro. Do minuto um do primeiro encontro, é como se se conhecessem há muito tempo, pois o diálogo e a dinâmica entre os dois flui de maneira muito natural, especialmente devido a um texto que não têm medo de explorar quem eles são de verdade nesse primeiro instante, ou seja, pessoas quem têm interesses diferentes pela vida, sem qualquer intuito de impressionar um ao outro.

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Ainda que a produção recaia no arquétipo da personagem extremamente genial, que não se preocupa com a aparência física, pois há coisas muito mais importantes a fazer em um dia que parece ter poucas horas (e as maquiagens disponíveis não são cruelty-free), as ações de Lucy não se limitam a esse que, volta e meia, seria um problema para outras protagonistas da época, como em O Diário da Princesa (2002). Ao contrário, ela é bem resolvida o bastante para admitir que faria essa concessão — se arrumar para outra pessoa ou para uma ocasião especial — quando tivesse vontade, em uma forma de resistir às convenções sociais impositivas de padrões femininos e de manter a própria autonomia e essência.

Isso só acontece porque o roteiro desenvolve muito bem quem é Lucy, quais são seus princípios, suas ambições e suas características mais marcantes, como a teimosia, a falta de tato social e todo o “destrambelhamento”, construindo camadas que complementam sua personalidade. Assim, quando seu relacionamento com Ansel, um ativista do Greenpeace, termina, e ela não consegue evitar os clássicos questionamentos sobre ser a parte problemática do casal, não hesita em dispensar completamente a sugestão clichê de George, apenas reafirmando suas convicções ante a compreensão superficial do empresário sobre mulheres e beleza:

Lucy: O que há de errado comigo? 
George: Bem… às vezes, você pode ser intimidante. Poderia relaxar um pouco, contatar seu lado feminino. 
Lucy: Ok, é uma boa sugestão. 
George: Quem sabe suavizar a aparência. Não que eu não goste desse visual, mas, às vezes, poderia se arrumar um pouco mais. 
Lucy: Não vou passar horas arrumando meu cabelo ou usar maquiagens testadas em animais apenas para me enquadrar em alguma fantasia masculina, [como] uma boneca degradante. A menos que eu realmente goste do cara.
George: Então, talvez esse seja o problema. Você não gosta desses caras.  Os afasta, porque sabe que eles são errados pra você. 

Tal característica do roteiro, assim como pequenas piadas que se encaixam em momentos diferentes da história e sugerem todo um pano de fundo por trás da relação que se vê em tela, construída sob confiança e muita falta de limites, apenas torna a protagonista mais crível diante do público, e longeva perante o teste do tempo, pois Lucy facilmente se encaixaria em uma produção atual, uma vez que a estrutura das comédias românticas pouco mudou nesse intervalo de 20 anos.  Já George funciona como um ótimo complemento à Lucy. Se o humor de Sandra Bullock é muito mais físico e apelativo, o de Hugh Grant reside nas entrelinhas de seu texto complementadas por olhares e expressões contidas, que são o suficiente para expressar exatamente o que ele precisa, sejam as sugestões ácidas disfarçadas num tom condescendente, sejam as vontades supérfluas.

Todavia, o que melhor une os dois personagens é o fato de o milionário ser muito diferente do que a advogada havia julgado inicialmente. Apesar de inevitavelmente atender ao estereótipo batido do playboy desligado, bonito e rico o suficiente para não ter que se esforçar muito com as mulheres ou qualquer outro aspecto da vida que não diz respeito a si mesmo, George se revela um tanto ingênuo em relação às pessoas que o cercam e ao seu patrimônio, o que logo é percebido por Lucy, que está sempre o cercando de todos os lados para protegê-lo. Dessa forma, o filme não tem medo de fazê-la ser a mulher mais esperta da sala e o protagonista é plenamente feliz em vê-la exercendo a função, especialmente porque sua personalidade não é construída sobre bases tão fortes quanto às dela.

Tudo isso se quebra na iminência da demissão de Lucy, que pega de surpresa o homem acostumado a ter tudo. Sem conseguir identificar o sentimento de perda, George recorre à sua influência para tentar anular as possibilidades de carreira dela fora de sua empresa, mas mesmo esse é um comportamento rapidamente percebido e neutralizado por Lucy, que o faz desistir da pequena empreitada para mantê-la junto de si quando afirma que não está feliz e que poderiam ainda ter contato, mas como amigos, cedendo para ficar até o fim do aviso prévio e para treinar outra pessoa para a chefia do departamento jurídico, o que demonstra a maleabilidade do protagonista.

George, diferente de Lucy, que vive em nome de seu ideal e do que precisa ser feito, independente do que os outros pensam, é uma pessoa que quer agradar a todos, ainda que a única forma que enxerga de fazer isso seja por meio do dinheiro, e ela o conhece perfeitamente bem para saber disso, residindo aí a essência de Amor à Segunda Vista: mais do que o romance por si mesmo, construído em entrelinhas, é sobre se entender com uma pessoa, sem qualquer motivo aparente ou explicação lógica, à ponto de a ligação parecer bizarra para quem olha de fora. Não haveria romance na comédia de Hugh Grant e Sandra Bullock se eles não conseguissem estabelecer uma conexão maior, ainda que, em um primeiro momento, esta não estivesse identificada como um sentimento romântico.

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O defeito do protagonista, contudo, é sofrer do mesmo mal de muitos personagens de sua época, algo que perdura em produções atuais e até na vida, a “Síndrome de Peter Pan” — ou dos “Homens que Nunca Amadurecem” —, como o Joey Tribbiani de Friends (1994–2004) e Charlie Harper de Dois Homens e Meio (2003–2015), de forma que suas atitudes mimadas, erros e falta de compromisso com responsabilidades da vida adulta, são perfeitamente compreendidos pelo mundo ao seu redor, não sendo somente um sintoma da bolha em que vive, mas que é, sim, agravado pelo pedestal em que George se encontra no mundo.

Por isso a necessidade de Lucy para complementá-lo: por mais que não demonize seu dinheiro e tenha aprendido destiná-lo como doação para suas constantes causas sociais, durante seus últimos dias com ele, está está sempre apontando que pode ser mais do que a visão limitada que tem de si mesmo relacionada ao status e ao seu patrimônio, só precisa querer — especialmente porque, naquele momento, está prestes a deixar o lugar de Wendy na vida de George, outra escolha tomada com base em convicções fortes sobre privilegiar a si mesma.

Infelizmente o personagem de Hugh Grant não possui um arco tão bem desenvolvido quanto a protagonista feminina, mas, ainda assim, devido a uma sensibilidade mais aflorada e menos temerosa do que a dela, consegue identificar melhor quando o sentimento que os envolve começa a se transformar — especialmente após a chegada de June Carver (Alicia Witt), sua sucessora como chefe do departamento jurídico e rapidamente transformada em interesse amoroso de George. De repente, eles soam mais como interesses amorosos decepcionados com as expectativas que tinham um sobre o outro do que preocupados pelo fim da relação profissional ilimitada que construíram por todo aquele tempo.

June é, possivelmente, a curva mais fora da linha de Amor à Segunda Vista, pois chega como substituta inevitável de Lucy, de modo que toda a certeza que tinha antes sobre precisar deixar a corporação e, especialmente, George, para não perder a si mesma, é questionada ao presenciar a relação fácil que os outros dois criam num piscar de olhos, sendo compreensível a insegurança, o ciúme e o ego ferido (afinal, ela seria trocada tão rápido?), mas não o artifício da rivalidade feminina que se cria entre as duas tendo o milionário como pivô, embora isso renda momentos engraçados como a briga pela propriedade do grampeador — o alvo preferido da raiva de Lucy desde o término com seu namorado ativista — até a corrida no meio da rua para encontrar um banheiro, depois de descontar toda a frustração na comida.

Se, por um lado, é fácil compreender as motivações para a implicância de Lucy, pois, acima de tudo, ela sabe — e, consequentemente, o público que está ao seu lado também — que conhece tanto sobre George que June nem sonha, por outro é uma forma preguiçosa de desenvolver o enredo até o ponto em que ela os vê juntos juntos jogando strip poker, ao ir até o apartamento dele para tentar esclarecer a decisão de George e de seu irmão, realmente o tipo milionário ganancioso e sem escrúpulos esperado, de realmente demolir o Centro Comunitário de Coney Island.

A partir daí, não só o aviso prévio termina, mas também qualquer possibilidade de relação futura que George e Lucy poderiam ter, pois nem mesmo o sentimento inexplorado surgido nos últimos dias de trabalho se sobrepõe ao desapontamento latente dela. Nesse momento, é como se ele fosse realmente tudo o que ela acreditou que não fosse, o que faz com que a decepção também seja consigo mesmo e com a fé que depositava nele. O questionamento, que também alcança o público, é feito de forma que a audiência também o sinta: George realmente parecia ser mais ou ela havia se enganado com aqueles pequenos detalhes que o tornavam uma boa pessoa?

É claro que Amor à Segunda à Vista não poderia terminar de outra forma, que não como em todas as comédias românticas existentes, ou seja, com um gesto significativo ao final do terceiro ato, onde George garante que não vai destruir o Centro da infância de Lucy, afirmando que ela se tornou “a voz em sua cabeça”, apesar de já não estarem mais trabalhando juntos, deixando-a claramente balançada pela declaração baseada num texto fácil que toca o público em auto-referências sem necessidade de muitas explicações, como deve ser para as produções do gênero.

Embora explore alguns elementos questionáveis, Amor à Segunda Vista suaviza bastante seus estereótipos e constrói narrativas, assim como arcos de personagens, que sobrevivem bem ao tempo, de forma que sequer parece ter sido lançado vinte anos atrás. Uma pena que não há mais da produção naquelas que vieram depois e consolidaram arquétipos prejudiciais, inevitavelmente intrincados na mente e no comportamento de mulheres de toda uma geração. Assim, Hugh Grant e Sandra Bullock, na pele de Lucy e George, ainda hoje formam um dos melhores pares em filmes do gênero, ultrapassando os anos 2000 com êxito para chegar à atualidade.

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