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De 1984 a Star Wars: o que a ficção tem a dizer sobre regimes totalitários

Durante a Ditadura Militar instaurada no Brasil entre os anos de 1964 e 1985, muitos artistas decidiram usar aquilo que sabiam fazer de melhor para protestar contra a censura e a intervenção militar no governo. Nos 21 anos em que nosso país foi refém de um governo ditatorial, muitos artistas e líderes políticos foram obrigados a deixar o Brasil para salvar suas vidas, retornando somente após a Lei da Anistia, promulgada em 1979. Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, ficaram presos por três meses e deixaram o país no início de 1969, enquanto Chico Buarque, interrogado sobre suas atividades pessoais e artísticas, consideradas “subversivas” pelo governo da ditadura, deixou o país no mesmo ano. Nomes como Marília PêraNorma Bengell, Rita Lee e Milton Nascimento foram outros artistas que, entre centenas, sofreram, de alguma maneira, a perseguição por parte da Ditadura Militar, fosse pelo seu posicionamento político, fosse por usar a arte como forma de denúncia contra os horrores que ganhavam espaço nos bastidores do regime.

Essa realidade repressora, porém, não foi uma exclusividade da ditadura brasileira: ao longo dos anos, muitos foram os artistas e pensadores perseguidos por regimes totalitários por representarem uma forte oposição a esses governos. Durante a primeira metade do século XX, a arte assumiu um papel fundamental no debate político e social, que poderia servir tanto aos propósitos de líderes políticos quanto de revolucionários. Após duas guerras mundiais, entre outros conflitos, a ficção passou a incorporar essas experiências em suas obras, apresentando contextos diegéticos que detinham semelhanças profundas com a realidade, refletindo, em maior ou menor escala, padrões sociais de comportamento e expondo táticas de manipulação frequentemente utilizadas por líderes totalitários.

Ainda que sejam fruto da imaginação de seus autores, as obras a seguir são excelentes pontos de partida para a compreensão de eventos históricos, sejam eles antigos ou não, e a importância da manutenção da democracia em oposição a governos absolutos.

1984, de George Orwell

Regimes totalitários

“A guerra se trava entre cada grupo dominante e seus próprios súditos, e o objetivo dela não é obter ou evitar conquistas de territórios, mas manter intacta a estrutura social.”

Ambientada em um futuro distópico, a história de 1984 centraliza a trajetória de Winston Smith, um homem solitário que vive no que antes fora conhecido como o território correspondente ao Reino Unido, e é refém de uma opressão absoluta, onde até mesmo os pensamentos são monitorados, uma mente livre é considerada um crime gravíssimo e a história é literalmente reescrita todos os dias, conforme os interesses do governo. Sem muitas lembranças da infância ou da ascensão do Partido, Winston começa a nutrir em seu íntimo sentimentos revolucionários, que são agravados após apaixonar-se por Júlia, uma colega de trabalho, e se ver envolvido em uma organização secreta.

Mais antiga dentre as obras citadas, 1984 foi publicado pela primeira vez após o fim da Segunda Guerra Mundial e o conflito, assim como seus desdobramentos, foram influências decisivas para a obra. A figura onisciente do Grande Irmão (Big Brother, no original) é inspirada em líderes de regimes totalitários que ascenderam na Europa e na Ásia durante a primeira metade do século XX, e são incorporados ao contexto de opressão e crueldade institucionalizadas em que o romance se desenvolve. Utilizando questões como os avanços tecnológicos, a desumanização e a vigilância constante e absoluta, George Orwell reflete medos, angústias e anseios particularmente característicos da época, mas que continuam (talvez, mais do que nunca) bastante atuais. O autor expõe, ainda, uma interessante teoria sobre a guerra, como seu objetivo não diz respeito a uma luta, tampouco vencer um inimigo comum, mas funciona como um mecanismo de manutenção do poder nas mãos de uma minoria abastada, limitando o acesso à educação, cultura e aos bens de consumo pelas classes mais baixas, impedindo, em consequência, que elas adquiram conhecimento, cultura e riquezas — fatores que as tornariam uma ameaça em potencial aos interesses burgueses.

Em conformidade com outros aspectos históricos, 1984 também aborda estratégias utilizadas por diversos governos totalitários ao longo da história, como a manipulação midiática, a forte propaganda centralizada em uma única figura — neste caso, o Grande Irmão — e o ódio direcionado a um único indivíduo, classe ou organização — como os judeus, na Alemanha nazista ou o Partido dos Trabalhadores no discurso da extrema-direita brasileira.

O Conto da Aia, de Margaret Atwood

regimes totalitários

“Estranho lembrar como costumávamos pensar, como se tudo estivesse disponível para nós, como se não houvesse quaisquer contingências, quaisquer limites; como se fôssemos livres para moldar e remoldar para sempre os perímetros sempre em expansão de nossas vidas.”

É uma verdade incontestável que O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale, no original) tornou-se um exemplo importante no debate sobre totalitarismo, religião e direitos humanos. Escrito em meados da década de 1980 pela canadense Margaret Atwood, o livro traça um cenário em que, num futuro não muito distante, os Estados Unidos passaram por uma revolução teocrática, sendo posteriormente transformados na chamada República de Gilead, um lugar de direitos escassos — e, não raro, inexistentes —, devastado pelos efeitos da radiação e pela exploração desenfreada de recursos naturais, cujo impacto resulta na infertilidade de homens e mulheres.

Embora possuam diferenças — sendo a mais evidente delas o fato de a série ampliar consideravelmente o alcance do seu universo —, tanto o livro quanto a adaptação buscam descrever as conjunturas do funcionamento de Gilead, quais são os papéis desempenhados por cada grupo dentro da sociedade e quais princípios a norteiam, como a religião converte-se em uma justificativa para a submissão, a tortura e o cerceamento de direitos. Margaret Atwood destaca a influência das raízes puritanas da América do século XVII, que continuam a existir com o passar de muitos anos, e revela que mesmo uma sociedade aparentemente evoluída guarda em si um histórico bastante problemático, que mudanças geram medo e o medo, por vezes, torna-se catalisador de retrocessos políticos e sociais. Ao passo que muitas histórias utilizam divisões de classe e/ou a discriminação racial como pontos centrais na construção de um cenário distópico, The Handmaid’s Tale, na contramão, encara o gênero como um aspecto determinante no desenvolvimento da narrativa. Ainda que homens sofram os efeitos de um Estado opressor, são as mulheres as maiores vítimas — e Offred, a protagonista, é apenas mais uma a sofrer seus horrores. Mesmo as Esposas, que possuem privilégios em comparação às mulheres de outras classes, perdem autonomia para tornarem-se propriedade de seus maridos; são impedidas de ler e escrever, e estão restritas ao cumprimento de atividades específicas, como a administração do lar e o cuidado dos filhos.

A hipocrisia do discurso religioso da República de Gilead, que utiliza ensinamentos bíblicos do Velho Testamento como justificativa para suas ações, também não passa despercebida aos olhos da autora, que expõe desde as contradições inerentes à união entre religião e Estado, até de seus líderes e únicos beneficiados pelo regime instaurado.

Star Wars, de George Lucas

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“Então é assim que a liberdade morre… com um estrondoso aplauso.”

A ficção científica, em essência, sempre esteve ligada a questões políticas e impulsos revolucionários. Star Wars não poderia ser diferente: desde o lançamento do primeiro filme da franquia, ao final da década de 1970, George Lucas dispõe dos acontecimentos ocorridos em uma galáxia tão, tão distante de maneira a explorar questões muito próximas da realidade, como a manutenção da democracia, a tirania como uma resposta ao caos político e social, e a ascensão de falsos defensores do povo, que uma vez no poder, utilizam-no de maneira perversa e somente para seus interesses particulares.

Muitos são os paralelos possivelmente delineados entre os Sith, a classe poderosa e opressora do Império Galáctico, e os líderes de Estado de diversos países do mundo. Como acontece na vida real, a democracia em Star Wars entra em colapso quando há abuso de poder — o que pode ser comparado, por exemplo, ao que acontece atualmente no contexto brasileiro, em que escândalos sobre corrupção instauram o caos social. Entretanto, diferente do que acontece no Brasil, em que a liberdade de expressão é um direito garantido pela Constituição, o regime tirânico do Império Galáctico não permite a existência de qualquer tipo de oposição, tampouco ativismos.

Quando aborda a fragilidade de sua democracia, porém, Star Wars não tem o intuito de estabelecer lições de moral, tampouco propor o totalitarismo como uma resposta válida, mas de reforçar a importância da manutenção e proteção da democracia, assegurando sua existência geração após geração. Em comparação, a franquia original fornece um olhar relativamente mais otimista diante dos fatos — muito embora, conforme revela suas produções mais recentes, nem mesmo uma nação que superou uma autocracia tirânica está imune a cometer os mesmos erros outra vez.

V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd

“O povo não deve temer seu Estado. O Estado deve temer seu povo.”

Durante a década de 1990 (ou ao final da década de 2020, na adaptação cinematográfica), o Reino Unido é controlado por um regime totalitário que ascende ao poder após uma guerra nuclear. Com o apoio popular, o partido consegue vencer as eleições e, uma vez no poder, passa a perseguir e silenciar desde opositores políticos até muçulmanos, negros e homossexuais, que, considerados indesejáveis pelo governo, são presos, torturados e/ou enviados para campos de concentração. Nesse cenário surge, então, a figura de V, um defensor da liberdade que, muito mais do que um homem em busca de vingança, torna-se a personificação de um ideal revolucionário anarquista.

V for Vendetta, no original, utiliza referências que vão desde eventos históricos como a Conspiração da Pólvora (planejada por Guy Fawkes e outros revolucionários, que pretendiam destruir o Parlamento inglês, em 5 de novembro de 1605) até obras como O Conde de Monte Cristo e o próprio 1984, e estabelece analogias com regimes fascistas, o que possibilita em muito a compreensão desses governos, como ganham espaço — muitas vezes, com o apoio da população — e como mantêm o controle sobre uma nação inteira. Muitas características são utilizadas como forma de estabelecer essas ligações e estão presentes tanto na graphic novel quanto em sua adaptação cinematográfica, como o controle midiático, a existência de uma polícia secreta e o uso de tecnologias de monitoramento.

Embora tenha sido escrita em meados da década de 1980, quando a Inglaterra vivia sob o controle da primeira-ministra Margaret Thatcher, a narrativa de Alan Moore torna-se palpável nos mais diferentes contextos — o que, por sua vez, também auxilia o entendimento de fenômenos atuais, como a ascensão de políticos inicialmente vistos como uma piada do próprio sistema, a mídia como fonte tanto de denúncia quanto apoio a esses governos e o uso de violência como forma de opressão a tudo aquilo é que — ou pensa — diferente. Não por acaso, a máscara de Guy Fawkes é, até hoje, utilizada como um símbolo revolucionário, vista tanto em protestos ao redor do mundo, quanto relacionadas a membros de organizações transgressoras.

Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

“Mas o pensamento coletivo é normalmente de curta duração. Nós somos seres inconstantes, estúpidos com memórias pobres e um grande dom para a autodestruição.”

Em contraponto ao cânone da literatura distópica do século XX, Jogos Vorazes é, muito provavelmente, o maior representante do romance distópico contemporâneo, que possibilita uma análise mais atual sobre o contexto no qual essas histórias se situam e como o futuro é imaginado a partir da perspectiva de acontecimentos da primeira década do século XXI. Na história, o território que hoje compreende a América do Norte passa a ser conhecido como Panem (uma referência à política do pão e circo — panem et circenses, no latim — do Antigo Império Romano); uma nação formada inicialmente por treze distritos — muitos dos quais são caracterizados pela escassez de recursos e pobreza extrema — e comandada a mãos de ferro pela rica e próspera Capital. Após uma sucessão de revoltas contra o controle soberano da Capital e as péssimas condições de sobrevivência nos distritos, os rebeldes de Panem são derrotados, o décimo terceiro distrito é supostamente exterminado e o governo impõe a vigência de um tratado cujo principal objetivo é punir simbolicamente os rebeldes, além de demonstrar o grande poder da Capital. Assim, todos os anos, jovens de doze a dezoito anos são sorteados como tributos para os chamados Jogos Vorazes, dos quais apenas um sairá com vida.

É impossível ignorar o contexto político presente na narrativa de Suzanne Collins. Panem é dividida de acordo com classes sociais: os mais ricos, que nada produzem, ficam com os primeiros e mais abastados distritos; enquanto que, quanto mais distante o distrito, menor é o padrão de vida e maior a miséria. A mídia, nas mãos de um governo ditatorial, possui duas funções: entreter e amedrontar. A ameaça de morte é uma constante e a alternativa para aqueles que discordam do governo é a morte. Mesmo a revolução é muito mais suja e complicada do que é possível imaginar olhando de longe. Os bastidores da revolta não são bonitos, heroicos ou romantizados: tudo é horrível, pesado, repleto de decisões difíceis. Katniss, protagonista e rosto da revolução, precisa abrir mão do pouco que possui por um ideal, cuja recompensa nem sempre é a esperada. É através de traumas, feridas e perdas que a liberdade é alcançada; nunca da forma ideal como é concebida. Infelizmente, os paralelos de Panem com a realidade para a qual caminhamos não são tão distantes, de modo que é possível tirar lições valiosas tanto da obra literária quanto de sua adaptação cinematográfica.

Harry Potter, de J. K. Rowling  

“São as nossas escolhas, Harry, que revelam quem realmente somos, muito mais do que as nossas habilidades.”

Desde o golpe sofrido em 2016, o Brasil tem visto memes sobre a saga Harry Potter ganhar as redes sociais com alguma frequência. Não é para menos: por trás da história do menino bruxo, há uma trama extremamente política, sobre a luta pela liberdade e contra um regime autoritário.

A saga nasceu em 1997, mais de dez anos atrás, e conta a história de Harry Potter, um menino que sobreviveu ao ataque de Voldemort, um dos bruxos mais poderosos daquele universo e também responsável pelo assassinato dos pais do jovem bruxo. Utilizando seus conhecimentos e poderes para subjugar a todos, Voldemort utiliza táticas de perseguição, ameaça, tortura e assassinato para atingir o poder, o que torna, desde o princípio, o teor político da narrativa bastante perceptível. Contudo, é apenas a partir do terceiro volume, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, que é possível perceber temas sociais mais palpáveis, como o racismo, a intolerância e a hierarquia social, que são apresentados no cotidiano de Hogwarts, nas conversas entre Harry e seus amigos, Rony e Hermione, e no tratamento de professores e alunos para uns com os outros.

A história se desenrola num crescendo: primeiro, temos a visão de uma criança de onze anos que é inserida em um mundo completamente novo e precisa conhecê-lo e aprender a se adaptar. Com o passar dos anos, no entanto, a narrativa também amadurece, nos colocando diante de um fato: aquele mundo onírico, onde tudo é possível através da magia, é também repleto de podridão e bruxos das trevas, que desprezam aqueles que não possuem o sangue “puro” (ou seja, têm preconceito contra bruxos originados em famílias não-mágicas, os chamados trouxas), o que reflete-se dos ideais pregados por Voldemort e seus seguidores, os Comensais da Morte, que não apenas desejam governar o mundo bruxo, mas sim exterminar todos aqueles nascidos trouxas. O discurso sobre um mal comum a ser expurgado, contudo, não é o único aspecto que a obra de J.K. Rowling que remete a governos totalitários: da censura da imprensa, até o golpe de Estado, Harry Potter está longe de ser apenas uma história de fantasia, chegando muito mais perto da nossa realidade do que gostaríamos de admitir.

Texto escrito por Ana Luíza, Mia e Thay.

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1 comentário

  1. Sempre falo que eu queria ter crescido tendo Jogos Vorazes e Harry Potter à disposição. Agradeço muito a todo o apoio à leitura que eu tive no colégio, mas os livros eram bem simples no sentido de enredo. Não tinham o forte componente político que estes livros têm. Fui ler Harry Potter adulta, com livros emprestados e já tinha o blog quando li Jogos Vorazes e hoje vejo como essas obras teriam feito a diferença na época. É revigorante saber que os adolescentes tiveram contato com esses temas, mesmo envelopados na ficção, e tenham transportado esse conhecimento para fora da ficção.