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A Pediatra de Andrea Del Fuego e o fascínio pelo detestável

Cecília, a personagem do terceiro romance de Andréa del Fuego, é daquelas figuras que a maioria das pessoas negaria gostar, ao menos, publicamente. Na narrativa curta, publicada  pela Companhia das Letras, o leitor adentra na mente da pediatra neonatologista que não gosta de crianças e detesta a vertente “desconstruída” e sentimental em torno da maternidade.

É difícil se afeiçoar à narradora de A Pediatra; ao mesmo tempo, beira o impossível não se deixar seduzir por ela. A voz em primeira pessoa é direta e sem pudores, mas os “sincericídios” da  habitam apenas o campo do privado, não escapando a sua boca. Fica subentendido que Cecília sabe os limites que não pode ultrapassar com suas palavras e, não à toa, o livro possui poucos diálogos, refletindo a consciência da personagem sobre como uma pediatra deveria agir, mas também a precariedade com que ela mantém seus poucos relacionamentos.

Cecília é o oposto do que se poderia esperar dela; é uma profissional pragmática, defensora de ideia de que para ser um bom médico não é preciso ser boa pessoa:

“[…] não tenho vinculo mesmo, mas cansei de ver colegas empáticos praticarem medicina de barbearia e, por outro lado, médicos pragmáticos e de pouco riso salvarem vidas apenas imitando o que aprenderam. Detesto crianças e não sou eu quem as trata, mas a medicina que estudei”. (pg. 40)

Além da falta de apreço com seus pacientes e com os pais e mães que os acompanham, Cecília não se tornou médica pelo caráter benevolente que carrega o tão prestigiado ofício. A medicina adentrou na vida dela como um caminho óbvio e confortável, tendo o pai como influência:

“Ninguém notava que eu tinha pouca vocação ou paciência para ser médica, a boa formação garantia que eu não fosse processada, fazia bem-feito o feijão com arroz, procedimentos que qualquer pediatra faz escondiam minha inaptidão. Meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme. Não é diferente de quem cuida de vacas porque de sua janela era o que havia, festejando o fato de que não era mais preciso caçar, apenas manter o gado.” (pg.19)

O pai é uma das poucas pessoas que Cecília demonstra algum respeito, ainda que se  mantenha distante dele. Homem e médico, ostenta o poder de que Cecília tanto gosta e deseja também manter para si. Neste ponto, seu machismo transborda, ficando latente seu desprezo pelas mulheres que a cercam. A narradora desdenha da própria mãe, inferiorizando-a por ter sido enfermeira; com a esposa de Celso, homem com quem tem um caso extraconjugal, seu sentimento é igualmente cruel. Sua relação com a empregada, Deise, é cercada pelo elitismo. Em certo momento, quando a relação das duas periga ganhar um grau de intimidade, Cecília lembra que isso pode acabar em um estalar de dedos, basta apenas demitir a moça, e ela o faria a qualquer momento, sem nenhum remorso.

Mas, verdade seja dita, Cecília não detesta apenas mulheres e pobres. O marido depressivo é para ela um fraco, e a “moda” do parto humanizado é reflexo de profissionais despreparados e picaretas. Decidida a desmascarar essa nova prática, Cecília se infiltra no mundo da medicina alternativa, do parto natural e domiciliar, e seleciona Jaime, pediatra humanista, como seu nêmesis. No entanto, Cecília é egoísta e covarde. Fica evidente ao leitor que sua intenção nada tem a ver com o bem-estar dos pacientes ou a melhor forma de se fazer medicina. Ela se vê perdendo espaço para profissionais como Jaime e as chamadas doulas, a quem dirige seu ódio, uma vez que não tem a coragem de enfrentar seu “verdadeiro” inimigo.

Com capítulos curtos, A Pediatra pode ser dividido em duas partes, cada uma contendo as obsessões de Cecília. A primeira é sua saga contra Jaime e as práticas que ela tanto despreza. A segunda é quando a narrativa toma um rumo inesperado, tanto para o leitor quanto para a própria narradora. É numa nova relação que Cecília experimenta sentimentos inéditos, avassaladores e contraditórios com tudo o que ela havia expressado anteriormente.

E é o contraditório que parece tornar a leitura de A Pediatra impossível de largar. A atração pelo avesso, por aquilo que se detesta, nos aproxima de Cecília e nos faz querer seguir cada linha do seu pensamento, cada um dos seus passos, ainda que seja para condená-los. O desvio de caráter da personagem colore a narrativa, carregando-a de humor e humanidade. A descrição da personagem feita pela atriz e escritora Fernanda Torres na contracapa do livro resume a complexidade de Cecília e de tudo que se pode compreender dessas duas palavras, aparentemente, impossíveis de coexistirem na representação de um mesmo indivíduo: pediatra canalha.


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