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Cixi, a imperatriz viúva que mudou a história da China

Qualquer leigo em História poderia contar nos dedos o número de figuras históricas femininas com as quais travou contato ao longo da vida. Esse número é ainda menor quando saímos do espectro eurocêntrico e voltamos nossos olhos ao Oriente. Quantas figuras históricas do Oriente você conhece? Eu, até ler A Imperatriz de Ferro de Jung Chang, pouquíssimas. E olha que estou quase na metade do curso de História.

Para os chineses, a imperatriz viúva Cixi entrou para história como uma déspota. Envenenou o filho adotivo, deu um golpe para assumir o maior cargo de seu país, e foi a responsável pelo massacre dos boxers no começo do século XX. Jung Chang, por meio dessa biografia de mais de 400 páginas, no entanto, tem o intuito de rever essa figura por vezes tão desprezada, apresentando-a nem como santa ou déspota, mas como uma governante que merece mais valor. Isso porque a imperatriz viúva foi a responsável por modernizar a China, abrindo-a para o Ocidente, o que contrariava totalmente a vontade de seu falecido marido — uma modernização que sempre foi creditada aos homens que a rodeavam, não a ela. Mesmo que tenha contado com a consultoria de nomes ilustres como Lord Salisbury, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, as decisões eram, por fim, tomadas única e exclusivamente pela imperatriz.

Ainda que não possuísse uma educação formal, Cixi impressionou o imperador Xianfeng durante a seleção para consortes. Essa seleção definia quem seriam as concubinas do imperador — e ele podia ter várias. A candidata precisava desfilar para o imperador e, assim, ele escolheria as que mais lhe agradavam. Ser selecionada mudou a vida de Cixi para sempre; ser concubina, ainda que não significasse ser imperatriz, era estar em competição constante com centenas de outras garotas. A avó da própria Jung Chung fora concubina, experiência que vai ser explorada em outra obra de sua autoria, Cisnes Selvagens. Como Chung revela, a concubina precisava lutar pela atenção do imperador, mas também para não ser difamada ou traída por seus criados. Além disso, havia uma hierarquia de concubinas, e Cixi estava entre as mais baixas, possivelmente entre a sexta à oitava posição. Ela não tinha direito a muita coisa, como por exemplo, a uma vaca privada. Só recebia três quilos de carne por dia. Quanto mais você subia de posição, no entanto, mais vantagens tinha uma concubina.

Ao contrário do que aconteceu a avó de Jung Chang, Cixi se deu bem com a imperatriz oficial, Zhen. Na verdade, Zhen começou em uma categoria menos pior que a de Cixi, a quinta, e em um ano subiu até a primeira, quando foi coroada imperatriz. A imperatriz oficial gerenciava todas as outras consortes e se dava bem com elas. Um caso único na história chinesa.

Enquanto ainda era esposa de Xianfeng, Cixi tentou lhe falar sobre política. Ela tinha uma inteligência para lá de aguçada, mas o imperador não lhe dava ouvidos. Afinal, uma mulher não deveria se intrometer nesses assuntos. Nessa época, acontecia uma sublevação dos rebeldes Taiping na China por causa da fome. Reza a lenda que o imperador entregou um edito a Zhen, dizendo que executasse Cixi caso ele viesse a morrer, já que suas ideias podiam prejudicar o império. Mal sabia ele que as duas mulheres se juntariam, após sua morte, para dar um golpe e assumir o governo.

O golpe arquitetado por Cixi e Zhen

O prelúdio para o golpe que viria acontecer após a morte do imperador começou quando Zhen ajudou a promover Cixi para a categoria cinco das consortes. A amizade entre elas era tão forte que, além de governarem a China praticamente juntas, Zhen costumava chamar Cixi de “irmãzinha”.  O golpe, porém, só pôde acontecer porque, no dia 27 de abril de 1856, Cixi deu luz ao futuro imperador. Até o momento, Xianfeng só tinha tido uma filha com outra concubina, que não tinha direito ao trono. O nascimento de seu filho proporcionou à Cixi a subida imediata de categoria. Contudo, como nem tudo são flores, ela não era considerada a mãe verdadeira do garoto — tal mérito era concedido à imperatriz oficial, ou seja, Zhen. Do que se sabe, contudo, as duas cuidaram do pequeno Zaichun.

A guerra do ópio com a Inglaterra levou o imperador Xianfeng à morte. O conflito chegou ao ápice quando o Antigo Palácio de Verão fora incendiado pelos ingleses. Esse lugar ocupava uma área de 350 hectares e abrigava tanto edifícios europeus como prédios em estilo chinês, mongólico e tibetano. Antes de atearem fogo, os franceses e os ingleses saquearam o lugar, e não sobrou nada para contar história:

“De imediato teve início a pilhagem indiscriminada e a destruição galhofeira de todos os artigos que fossem pesados demais para levar (…) Oficiais e soldados pareciam tomados por uma insanidade temporária; estavam dedicados, de corpo e alma, a uma única atividade, que era o saque, o saque.”

O incêndio do palácio obrigou o imperador Xianfeng a se refugiar no Pavilhão de Caça, construção que não tinha os recursos necessários para abrigá-lo. Lá, ele praticamente morreu de tristeza por assistir seu país curvado aos estrangeiros, ódio do qual seu falecido pai compartilhava. Inclusive, foi por isso que Xianfeng tornou-se imperador: seu pai sabia que o irmão dele, o Príncipe Gong, seria um frouxo e deixaria o país à mercê dos invasores.

A morte do imperador Xianfeng tornava o filho de Cixi o sucessor natural ao trono. No entanto, o menino ainda não tinha idade suficiente para assumir, de modo que foram nomeados oito regentes para governar em nome dele. Após a morte do imperador, Cixi recebeu o título de imperatriz viúva, algo que a tornava a mãe oficial do imperador também. Agora, ela e Zhen estavam no mesmo patamar, de modo que começaram a planejar o golpe. Além de quererem salvar a dinastia, esse golpe significava uma mudança de perspectiva na vida dessas mulheres. Elas sairiam dos bastidores, da esfera privada que lhes estava reservada. Elas queriam mudar o curso de suas vidas.

Correndo o risco de serem condenadas à traição e submetidas à morte por mil cortes, a pior punição na China, as duas planejaram o golpe à beira de um poço, como se estivessem contemplando o próprio reflexo na água e conversando sobre trivialidades. Na verdade, conversavam sobre como subverter o sistema e logo acharam a falha que poderia lhes possibilitar dar o golpe: o sinete. Por costume, os imperadores Qing mostravam sua autoridade escrevendo com tinta carmesim. Como o imperador era apenas um menino, Cixi e Zhen receberam um sinete, designado pelo falecido, para autenticar os editos. Isso seria crucial para retirar os oito regentes do poder, já que qualquer coisa retificada com o sinete teria autoridade. Antes do golpe, o príncipe Gong, aliado das duas imperatrizes viúvas no golpe, tentou sugerir que elas pudessem participar dos processos decisórios, assim como alguns príncipes. A sugestão fora, contudo, rejeitada. Cixi e Zhen, sem solução, resolveram provocar os regentes para que o imperador menino chorasse. Isso era uma infração gravíssima. Elas conseguiram e acabaram escrevendo um edito para condená-los:

“Com um convincente ar de pesar, as duas imperatrizes-viúvas acusaram os regentes de ter maltratado a elas e ao imperador menino. Todos os presentes demonstraram intensa indignação. Em meio à denúncia, os regentes que tinham viajado com Cixi entraram correndo no palácio e gritaram que as mulheres tinham violado uma regra fundamental ao chamar funcionários do sexo masculino ao harém. Mostrando-se colérica, Cixi ordenou que um segundo edito fosse redigido e estampado ali mesmo: determinava a prisão dos regentes, acusados de impedir o imperador de ver seus auxiliares graduados, o que era um crime grave.”

Sendo assim, os regentes foram presos. Cixi usou de sua prerrogativa, a de mandar um súdito se matar, ou algo do tipo, para assassinar alguns dos regentes que ela mais temia. Não seria a primeira vez: Cixi mandaria a concubina Pérola, a favorita de seu filho, atirar-se em um poço. Ela não se apiedava de ninguém e pensava sempre no futuro do império.

Estava dado o golpe, mas Cixi não governou oficialmente. Decretos eram emitidos em nome de seu filho, embora ela tomasse as decisões. Ela não pôde ver a coroação do próprio filho, já que a parte principal da Cidade Proibida, onde essa ocasião acontecia, era vedado a ela — por ser mulher. Mesmo separada por um biombo de seus conselheiros, Cixi levaria a China a conquistas fenomenais.

Algumas conquistas de Cixi

Quase todos os feitos de Cixi durante seu governo podem ser resumidos a uma única palavra: modernidade. O imperador Xianfeng odiava o Ocidente, mas Cixi não compartilhava do mesmo sentimento. Na verdade, ela sempre sentira que poderia aprender algo com os ocidentais e não foi a toa que ela trouxe estrangeiros para a corte, na tentativa de entender por que eram tão bem-sucedidos em alguns aspectos.

Cixi não estava sozinha na missão de governar. Ela e a imperatriz Zhen compartilharam o poder até a morte desta. Quase sempre era Cixi quem assumia uma posição de destaque, algo que não incomodava Zhen. Embora separadas por um biombo dos homens, todos os funcionários que tinham audiências com Cixi sentiam sua forte presença. Ela podia fulminar alguém com o olhar, mesmo estando coberta por um biombo. Essa mão firme foi um dos motivos para ela ser tão respeitada no Ocidente, até mesmo defendida por membros dos governos de outras nações, como os Estados Unidos.

Uma das primeiras realizações de Cixi foi a remodelação das alfândegas do país, conhecidas por sua ineficiência e corrupção. Logo que “subiu” ao trono, a imperatriz viúva percebeu o potencial do comércio internacional, que tinha como principal centro Shanghai:

“Shanghai não passa de um cafundó e é periclitante [estava ameaçada pela Taiping] como uma pilha de ovos. Entretanto, com a confluência de comerciantes estrangeiros e chineses, tem sido uma rica fonte de recursos para a manutenção do Exército. Ouvi dizer que nos dois últimos meses o porto arrecadou 800 mil táeis só em imposto de importação. Devemos fazer tudo o que pudermos para preservar esse lugar.”

E ela o fez, chamando o irlandês Robert Hart como inspetor geral da Alfândega Marítima Chinesa, lugar onde ele já trabalhava. Foi a primeira de tantas vezes que a imperatriz viúva trouxe um estrangeiro para dentro do governo, a fim de que ele a aconselhasse. Hart era detestado pelos chineses mais conservadores, mas fez muito pela China. A quantia faturada pela alfândega dobrou em sua administração. Além disso, a carta desaforada dele para Cixi foi o que impulsionou as primeiras tentativas tímidas de a China se modernizar, ou seja, entrar para a era moderna por meio da mineração, das estradas de ferro e do telégrafo. Nessa época, as estradas de ferro foram retiradas de cogitação porque os chineses acreditavam que profanar os túmulos dos mortos para construir tais estradas traria azar. Cixi, que era muito supersticiosa acabou adiando a industrialização.

A modernização, porém, viria de outra maneira: por meio da criação de uma esquadra moderna. A supervisão da obra ficou a cargo de Prosper Giquel, um francês que ajudara a combater a Rebelião Taiping, comandando o Exército Sempre Triunfante. Para a imperatriz viúva, “o programa de construção naval é realmente vital para nossa meta de Tornar a China Forte”. Em pouco tempo, nove navios a vapor foram construídos. Os chineses pediram perdão à Rainha Celeste e aos deuses por estarem perturbando as águas do mar, mas não puderam deixar de comemorar essa conquista.

Reviravoltas e mais algumas conquistas

A Imperatriz de Ferro por vezes parece uma novela devido a seus acontecimentos. O período em que Cixi esteve no trono, direta ou indiretamente, foi repleto de momentos dignos de um dramalhão e que acabaram mudando os rumos da China. Para começar, o herdeiro do império, o futuro imperador Tongzhi, morreu. Apesar de ter sido preparado para assumir o cargo desde criança, o imperador gostava mais de se divertir, ouvir óperas (algo considerado baixo na China daquela época) e farrear com mulheres. Um dia, após agonizar de varíola ou sífilis — ainda não se sabe a causa precisa da morte — o imperador faleceu, aos 19 anos. A esposa do imperador, Alute, o acompanhou ao mundo dos mortos. Na China, tirar a vida por causa da morte de um marido é considerado virtuoso. Assim, a imperatriz o fez, morrendo 27 dias após Tongzhi. Muitos atribuem a morte de Alute à Cixi, com a justificativa de que ela atormentou tanto a vida da nora que ela preferiu morrer. Não sabe-se se isso é verdade, mas histórias como essa apenas reforçam a má fama de Cixi.

Cixi também conheceu o amor. Reza a lenda que ela se apaixonou por um de seus eunucos, An Pequeno. Nessa época, Cixi estava planejando o casamento do imperador Tongzhi, de maneira que mandou An Pequeno para Beijing (Pequim) a fim de que ele escolhesse tecidos. Sabendo de seu envolvimento com o eunuco, no entanto, os nobres decidiram denunciar a saída de An Pequeno, alegando que isso era proibido a um eunuco. Na verdade, sair dos muros da Cidade Proibida era permitido aos eunucos, mas os nobres não quiseram saber. An Pequeno foi sentenciado à morte e ninguém, nem a imperatriz Zhen, conseguiu salvá-lo. Aquilo deixou Cixi de coração partido e acabou levando a uma vingança pessoal da imperatriz contra um dos nobres que haviam executado An Pequeno. Cixi lhe tirou o filho, decidiu adotá-lo e fazer dele imperador. Assim, o nobre não poderia ter contato algum com o futuro imperador e teria que abrir mão da criança, que seria criada no palácio.

O imperador Guangxu, o sucessor de Tongzhi, não se dava bem com a mãe adotiva. Os dois tiveram diversas discussões ao longo da vida, uma delas resultando em um edito que proibia a imperatriz viúva de se meter nos assuntos do império. Esses momentos de tensão entre os dois deram espaço para que a figura de Kang Raposa Selvagem, um homem que acreditava ser a reencarnação de Confúcio, pudesse manipular o imperador ao ponto de eles tramarem o assassinato de Cixi. A verdade é que eles queriam assassinar Cixi devido à sua influência com os assuntos chineses, mesmo não podendo se envolver diretamente neles. Como dito anteriormente, Cixi era respeitada no exterior, era reformista e isso machucava os mais conservadores. Não é a toa que tantas pessoas tenham tentado tirá-la do poder.

O fim do reinado de Cixi, quando estourou a revolta dos boxers, foi o momento em que se pôde vislumbrar melhor suas conquistas. Apesar de ter sido culpada pelo massacre dos boxers, usados de forma indevida como maneira de frear o Japão e outros países, Cixi também foi a mulher que deu fim a uma das práticas mutiladoras mais conhecidas da China: o enfaixamento dos pés de garotas. Uma menina, antigamente, tinha os pés enfaixados desde criança, pois os chineses achavam o andar desengonçado dessas jovens algo atraente. A avó de Jung Chang foi uma das últimas moças a ter os pés enfaixados, e ela sentiu na carne — e por toda a vida — a dor de não poder andar adequadamente. Esse, talvez, seja um dos maiores feitos da imperatriz viúva, pois livrou muitas mulheres de um destino mais triste do que aquele ao qual já estavam sujeitas.

Ainda sobre as mulheres, Cixi também retirou-as do âmbito privado. Pela primeira vez, elas puderam sair em público, passear e ir ao cinema. Ela fundou a Escola para Mulheres Aristocráticas, com sua filha adotiva, a princesa imperial, como diretora. Mulheres influentes também vieram para a corte, como foi o caso de Louisa Pierson. Os conservadores desaprovaram, pois ela era mestiça, filha de um comerciante americano e uma chinesa. Pierson era viajada, falava vários idiomas e aconselhou Cixi em muitas ocasiões. Um dos filhos dela até mesmo fotografou a imperatriz, uma tecnologia que acabava de chegar ao mundo oriental. A amizade de Cixi com a americana Sarah Conger provou que as fronteiras entre ocidentais e orientais podiam ser ultrapassadas, e as duas desfrutaram de uma relação muito bonita. Conger defendeu Cixi na imprensa internacional, quando todos estavam apavorados com o massacre dos boxers:

“(…) O retrato de Cixi traçado pela americana e o fato de terem se tornado amigas íntimas criaram uma imagem nova, mais simpática da imperatriz-viúva, sobretudo nos Estados Unidos. A imprensa passou a reconhecer suas reformas, ainda que normalmente as creditassem a Mrs.Conger, afirmando, por exemplo, que, ‘graças à influência de Mrs.Conger, têm ocorrido inúmeras manchetes.'”

Os últimos de anos de Cixi acabaram sendo os mais produtivos para o império, culminando na possibilidade de os chineses poderem votar pela primeira vez. Ironicamente, o direito ao voto foi o que enterrou a dinastia Qing.

Quem pode fazer História?

Durante a leitura de A Imperatriz de Ferro, cheguei à conclusão de que a resposta para a pergunta que abre esse tópico são os homens. Homens podem fazer história. Eles podem errar e saírem quase ilesos, isto é, os erros deles não serão creditados à sua natureza. Napoleão não perdeu Waterloo porque era homem. Com Cixi e figuras históricas femininas a realidade muda de figura. A responsabilidade de todo e qualquer ato sempre recai no fato de que essas mulheres eram fracas demais para governar. A Imperatriz de Ferro ajuda a desconstruir o estereótipo de fraqueza feminina, porque expõe a trajetória de uma mulher que governou para dois imperadores incapazes, mesmo nos bastidores.

Por mais que a historiografia busque apagar os feitos das mulheres, a modernidade está resgatando suas histórias. Está mais do que na hora de conhecermos as mulheres que fizeram parte da nossa história, que mudaram nossas vidas, porque é assim que a aula de História não parecerá tão distante. Uma garota poderá acreditar que seu lugar não é à sombra de um homem, e um livro como A Imperatriz de Ferro mostra que, até mesmo em uma posição inferior, as mulheres resistem. Até assim elas fazem História.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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