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Fora do lugar: as relações familiares em Relic

Primeiro longa-metragem dirigido por Natalie Erika James, Relic (2020) conta a história de Edna (Robyn Nevin), Kay (Emily Mortimer) e Sammy (Bella Heatchcote) — avó, mãe e neta, respectivamente — que passam a enfrentar a presença de algo obscuro em suas vidas. No filme, Kay e Sammy se reúnem para ajudar na investigação do desaparecimento de Edna, que mora sozinha na antiga casa da família, no interior da Austrália. Chegando lá, elas se deparam com a casa suja e desorganizada. Pelas paredes espalham-se estranhas manchas escurecidas, caixas empilhadas repletas de objetos, lembretes indicando tarefas básicas (como “tome suas pílulas”) em vários lugares. Após alguns dias, tão repentinamente quanto sumiu, a avó reaparece, sem saber dizer onde estava ou o que lhe ocorreu.

Atenção: este texto contém spoilers!

Vários episódios de esquecimento e confusão mental indicam que Edna pode estar sofrendo de um tipo de demência, uma síndrome de causas diversas que “caracteriza-se pela perda da capacidade de memorizar, de resolver os problemas do dia a dia, o que interfere em […] relacionamentos e atividades sociais e profissionais” (NITRINI, 2011). A experiência do processo demencial, portanto, reflete e modifica o contexto familiar, podendo diminuir ou acentuar conflitos preexistentes.

Em Relic, é possível observar como os novos comportamentos da avó evidenciam o estado dos afetos presentes naquela família. Já no início do filme, percebemos que Kay tem uma relação distante com Sammy (que não a chama de mãe, e sim pelo nome) e Edna. Ainda antes do sumiço da mãe, Kay havia falado com ela por telefone pela última vez semanas antes, para conversar sobre assuntos triviais. No momento do seu retorno, em lugar do que seria um esperado abraço, resta a Kay uma postura de espanto frente à mãe. Ao contrário, Sammy e Edna demonstram carinho e proximidade.

A natureza dessas relações fica ainda mais explícita quando Kay decide pôr Edna em uma casa de repouso para idosos, ao que Sammy se opõe, gerando uma divergência entre os planos de cada uma para lidar com a nova fase de Edna. Nesse sentido, Kay e Sammy parecem, em certa medida, ser antítese uma da outra: enquanto a mãe demonstra uma visão prática e metódica da vida, a filha expressa uma postura flexível, beirando a indefinição de objetivos para o próprio futuro. Isso é bem demonstrado quando, imediatamente, a jovem tem a ideia de deixar a vida na cidade e mudar-se para a casa da avó.

Cena do filme Relic

Além desses desacordos, as três mulheres ainda passam a enfrentar uma espécie de manifestação sobrenatural na casa, supostamente do bisavô de Kay que vivia sozinho num casebre na mesma propriedade da família. Já idoso, ele sofria de uma perturbação mental e não foi cuidado devidamente. Após sua morte, o casebre foi destruído, restando apenas o mosaico que foi usado para adornar a porta da nova casa. Assim, essa relíquia aparece como um símbolo da existência esquecida desse antepassado; relíquia que assombra a família com a perspectiva de uma velhice marcada pela demência, como uma sina a ser passada de geração a geração.

Como a abordagem prevalente do filme é voltada para a perspectiva da família de um idoso dementado — diferente da visão mais íntima de The Father, por exemplo —, os sentimentos de Kay e Sammy frente à nova situação ajudam a desenrolar o horror da trama.

À medida que o comportamento da avó fica mais agressivo e hostil, Sammy hesita cada vez mais em relação a ela, como se refletisse se a avó ainda é a mesma pessoa. Tal sensação de estranhamento parece ser o estímulo para o crescente medo com relação ao estado de Edna — a incompreensão diante da transformação de alguém conhecido em desconhecido assusta e confunde. Não à toa, no ato final, Kay e Sammy perdem-se num labirinto misterioso que se modifica constantemente por entre as paredes da casa — em certo sentido, elas estão sem rumo diante dos desafios impostos pela demência que se desenvolve em Edna. Assim, se Edna não é mais o que era, e o que ela se tornou é incompreensível, a idosa acaba por adquirir a forma de um monstro, que persegue filha e neta como se o resíduo de sua existência dependesse delas.

Finalmente, quando o monstro é vencido e surge a oportunidade de dar as costas para o terror recém-vivido, Kay decide permanecer e cuidar da mãe em sua nova condição. Ela “passa a compreender a pessoa de que está cuidando e vivencia o processo demencial, aceitando-o e exercitando a paciência” (CALDAS, p. 63, 2002). Dessa maneira, cria a possibilidade de reparo dos conflitos familiares, ainda que perdure o receio sobre a herança da “relíquia” da família. Assim, Relic busca desenvolver uma representação dos obstáculos e sentimentos que surgem a partir da vivência da família de um idoso com demência, expondo os conflitos, dúvidas, medos, mas também a expectativa do fortalecimento dos laços familiares como rede de apoio.


Referências:

CALDAS, Célia Pereira. O idoso em processo de demência: o impacto na família. In: MINAYO, Maria Cecília de Souza; COIMBRA JUNIOR, Carlos E.A. (orgs.). Antropologia, saúde e envelhecimento. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2002. p. 51-71. Disponível em: http://books.scielo.org/id/d2frp/pdf/minayo-9788575413043-05.pdf

NITRINI, Ricardo. Demências. [Entrevista concedida a] Drauzio Varella. Portal Drauzio Varella, publicado em 28 de novembro de 2011, revisado em 11 de junho de 2021. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/demencias-entrevista/

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