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The Father: um relato comovente sobre perder controle das próprias memórias

Com um total de seis indicações ao Oscar, incluindo na categoria de Melhor Filme, The Father aborda a rotina e a vida de Anthony (Anthony Hopkins), na medida em que ele vai perdendo o controle e passa a absorver os eventos ao seu redor de forma confusa e desconexa. Com atuações impecáveis e uma narrativa comovente, o longa se torna uma experiência imersiva e se consagra como uma das melhores produções na corrida pela estatueta. 

Atenção: este texto contém spoilers

Apesar das complicações de distribuição de filmes na era da Covid-19, o consenso geral de que esse ano da premiação estaria mais fraco é uma observação que está essencialmente errada. Passando por Nomadland, Minari, Promissing Young Woman, Sound of Metal e finalmente Judas and the Black Messiah, a maioria dos longas indicados nas categorias principais exploram assuntos relevantes e contam com personagens interessantes e complexos, que vêm de lugares e contextos diferentes. Apesar do discurso ao redor de The Father não ter sido o mais discutido na internet, o longa se destaca por ser uma mistura honesta de técnica e história, criando uma produção que não só é genuinamente interessante de assistir, como também tem um pay off satisfatório e até mesmo um pouco triste.

The Father

A história de The Father começa com Anne (Olivia Colman) indo contar ao seu pai que arrumou um namorado e está de mudança para Paris. Ele questiona sua decisão e pergunta sobre seu marido, James, ao qual ela responde que se separou, anos atrás. Ao decorrer da primeira cena, Anthony também fala sobre sua filha mais nova (uma pintora) e questiona sobre a decisão de Anne de contratar profissionais para ajudá-lo com suas tarefas do dia a dia, argumento que não precisa de tal atenção. Nesse mesmo assunto, ele acusa Laura, sua cuidadora mais recente, de ter roubado seu relógio, que pouco depois ele encontra escondido na casa. Então, no dia seguinte, Anthony se encontra em um cenário completamente diferente: seu apartamento não é exatamente seu (as decorações, por exemplo, são diferentes), ele não reconhece o marido da filha ou sequer Anne. Mais para frente, ele conhece Laura (Imogen Poots) — a cuidadora que anteriormente tinha acusado de roubar seu relógio.

Escrito e dirigido por Florian Zeller e baseado na peça homônima, também de Zeller, The Father apresenta um roteiro que brinca com a questão do tempo, mas não necessariamente de uma maneira tradicional. Enquanto a maioria das produções que exploram o conceito de tempo usam sua narrativa para criar algo não linear, é possível perceber que a história aqui é diferente. Para o público que está assistindo o filme, fica claro que Anthony sofre de demência e está confundindo os eventos da sua vida, misturando suas memórias e as pessoas que são figuras constantes na mesma. Ao mesmo tempo, é possível perceber também que todos os eventos apresentados na obra passam em questões de dias para Anthony, criando assim uma estrutura que, de certa forma, é linear para ele. Tudo é confuso e obviamente ele não entende o que está acontecendo, mas essa confusão vem justamente porque, na sua cabeça, está vivendo um dia de cada vez. Na mente de Anthony, horas, dias e até alguns meses são espremidos e ele vive tudo ao mesmo tempo, com um fluxo de informações que nunca para de chegar — fazendo com que ele não entenda o que está se passando, afinal, como se ele fosse de uma grande pegadinha conjunta. O dia se transforma em noite, seu apartamento se transforma no apartamento da sua filha, e assim por diante.

The Father

Apesar de ficar claro que Anthony é um senhor que sofre de demência, passar o filme tentando adivinhar quando exatamente sua mente o levou no momento é algo esperado, já que a história constrói o quebra cabeça dos acontecimentos mais recentes da sua vida de forma lenta e gradual. Aos poucos fica claro como se dá seus relacionamentos com as filhas, onde elas realmente estão, e como ele chegou até ali. Apesar desse elemento do roteiro criar uma narrativa envolvente, que te faz questionar os mesmos fatores apontados acima, o que mais vale a pena, no entanto, é a forma como o mesmo explora profundamente a mente do protagonista e como isso afeta os outros ao seu redor — por vezes com gentileza e amor, outras com crueldade e impaciência. Os momentos ternos são realmente comoventes, enquanto os cruéis — aqueles que mostram o próprio Anthony perdido, ou alguém que não sabe lidar com ele — são implacáveis e difíceis de assistir.

“Estou sentindo como se tivesse perdendo todas as minhas folhas. Os galhos, o vento, e a chuva. Não sei mais o que está acontecendo.”

O fato de que o filme acontece inteiro em apenas alguns locais — sendo os principais sempre os apartamentos dos personagens —, garante uma qualidade imersiva para a narrativa e, consequentemente, para quem está assistindo. Conforme a percepção do que acontece ao seu redor vai mudando na cabeça de Anthony, as coisas, os objetos, também vão mudando, e isso fica claro por meio de pequenos detalhes. A atenção ao detalhe é primorosa, ressaltando a importância da ambientação, e lembra muito um trabalho de palco. Talvez a experiência de adaptar essa obra do teatro para o cinema também tenha ajudado o diretor nesse exercício, que sabe muito bem usar dos espaços que têm disponíveis para contar sua história com êxito. Ao mesmo tempo, é possível também perceber um trabalho excelente de edição: a mixagem de som ajuda muito nesse processo de criar uma imersão na cabeça de Anthony, na sua agonia, assim como a trilha sonora, composta por Ludovico Einaudi, oferece um carga dramática com cordas graves e sensoriais. É interessante ver como o equilíbrio entre o roteiro, que claramente foi adaptado de uma peça, e a forma como são usados os recursos disponíveis no cinema, criam uma experiência completa.

Mas nada disso teria funcionado se não fosse pelo trabalho excelente de atuação, tanto de Anthony Hopkins, como de Olivia Colman. Aos 83 anos de idade, depois de sair de projetos como Westworld, Hopkins prova que ainda está no auge da sua carreira, oferecendo uma atuação que é devastadora. Um ex-engenheiro e um homem que claramente tinha muita vida e personalidade, ele passa por momentos abruptos e até mesmo um pouco violentos, onde sua confusão e medo pelo o que está acontecendo são quase palpáveis. Ao mesmo tempo, e em contraponto direto, o longa tem Colman. A atriz, que levou o Oscar de Melhor Atriz por A Favorita em 2019, prova que é uma das mais versáteis trabalhando hoje e entrega um desempenho cujo a ternura é tão presente quanto a frustração de ter que lidar com o seu pai.

The Father

Toda a situação que existe entre eles é muito complicada. Apesar de Anne claramente amar o seu pai, algo que é explorado pela extensão dos gestos que ela tem para protegê-lo, ter que aguentar ele sendo rude e maltratá-la é algo difícil de ver. É lógico que parte desse comportamento vem do fato de que ele está confuso e se sente mal com as mudanças que vem tendo na sua cabeça, sem ter como explicar ou compreender com totalidade o que está acontecendo, e ela entende muito bem isso, mas mesmo assim as palavras e a forma como ele está constantemente cobrando-a é algo que machuca a personagem. Colman mostra isso muito bem no seu trabalho, oferecendo uma mágoa contida, que nunca é perceptível ao pai, mas sempre ao público. Ao mesmo tempo, nos momentos em que eles estão bem, o amor e o afeto com que ela olha para ele praticamente transborda da tela, o que faz com que toda a experiência se torne ainda mais dolorosa.

O confronto desses dois pontos de vista é, no final, o que faz o filme ser tão bom no que se propõe. The Father é uma experiência devastadora pelo ponto de vista de Anthony, que não consegue mais controlar sua vida e sente suas memórias mais preciosas escaparem como água pelos seus dedos, mas também pelo ponto de vista de Anne, que vê o pai se perder e não consegue fazer nada para ajudá-lo. Talvez o longa vá falar mais com aqueles que tiveram familiares que passaram por isso, mas mesmo se não for o caso, The Father oferece um olhar empático que garante o envolvimento de todo tipo de público, desde que ele aprecie um bom filme na sua técnica e um drama familiar intrigante e sensível.

The Father recebeu 6 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Ator (Anthony Hopkins), Melhor Atriz Coadjuvante (Olivia Colman), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Design de Produção. 

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