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Senciente Nível 5: “a coletividade é o que derruba a tirania”

Em Senciente Nível 5, ficção científica escrita por Carol Chiovatto e publicada pela AVEC Editora, dois sistemas planetários estão prestes a entrar em guerra quando a Soberana Rea de Lena-Hátia acredita que seu irmão gêmeo, Teo, refém político da Bílgia, está morto. Ao receber a notícia da morte do irmão, Rea decide atacar a Bílgia e romper com o tratado que permite que o sistema explore a Luna 54, mas o que a Soberana não sabe é que Teo está vivo e tudo não passa de um mal-entendido arquitetado para fazer com que os sistemas entrem em guerra.

Dessa maneira, caberá à capitã Lin da Bílgia fazer o possível para resolver a questão enquanto resgata Teo e tenta mantê-lo em segurança até que ele possa entrar em contato com a irmã, esclarecendo todo o engodo. Em pouco mais de 150 páginas, Carol Chiovatto é capaz de criar uma intrincada trama política que prende o leitor do começo ao fim enquanto tentamos, junto de Lin e Teo, desvendar o que está acontecendo entre os dois sistemas planetários. Com a ajuda da inteligência artificial Nyx, Lin e Teo, improváveis parceiros, juntam forças em uma missão cujo principal propósito é impedir que aconteça uma guerra entre a Universidade da Bílgia e Lena-Hátia. Usando inteligência e diplomacia, Lin, Teo e Nyx precisam descobrir a quem beneficiaria uma guerra entre os sistemas enquanto tentam sobreviver para contar a história.

“O planeta que abrigava a unidade de Filosofia, Artes e Ciências Sociais. Os retentores do conhecimento extratemporal, daquilo que restava das culturas e sociedades após colapsarem. Os mais combatidos em qualquer regime totalitário ao longo da história universal, nos mais diversos lugares e épocas. Bastiões da memória.”

Intercalando capítulos com os pontos de vista de Lin e Teo, somos inseridos na trama que envolve os dois sistemas planetários, suas culturas, diferenças e similaridades. Para quem conhece a escrita de Carol Chiovatto, não é surpresa constatar que a autora se sai muito bem contando uma história de ficção científica — é fácil se deixar envolver por toda a trama política e a curiosidade para desvendar a conspiração ocorrendo na Bílgia nos faz virar as páginas freneticamente. A leitura é rápida e flui de maneira prazerosa, tornando impossível deixar o livro de lado antes de chegar em uma conclusão.

A autora consegue criar um universo complexo em poucas páginas e ainda que as informações a respeito do mesmo pareçam densas a princípio, não me senti perdida em momento algum da leitura. Carol Chiovatto tem aquela qualidade ímpar que é a de transmitir as informações pertinentes à história e ao universo em que ela se passa sem soar didática ou repetitiva, o que faz a leitura de Senciente Nível 5 algo muito fluído — sempre lembrando que tudo o que acontece na trama, acontece em meras 150 páginas. Não há momentos desinteressantes ou desnecessários por aqui, e tudo acontece por um motivo, o que nos leva ao ótimo desenvolvimento dos personagens principais.

“Vocês passaram milênios renegando suas emoções, a chave da sua evolução. Procuraram um propósito para a vida, o que não existe, então inventaram um.”

Quando conhecemos Lin e Teo, ambos estão em uma situação de vida ou morte. Some-se isso ao fato de que tanto a capitã quanto o refém político possuem um histórico com seus respectivos sistemas planetários, e um certo grau de preconceito advindo de suas culturas correspondentes, e temos um primeiro contato com um pouco de aversão entre os dois. Mas com o passar das páginas e as situações a que ambos são expostos, o que acompanhamos é um relacionamento que se desenvolve aos poucos e com naturalidade. Tanto Teo quanto Lin começam a entender melhor suas origens, suas culturas, e que nem tudo o que se supõe a respeito do outro é completamente verdadeiro. Carol Chiovatto utiliza dessa trama para falar da desconstrução de preconceitos e como cabe a cada um fazer uma análise atenta a respeito de si mesmo, o que se sente e o que se sabe sobre o outro a fim de evoluir.

Os personagens são carismáticos e repletos de nuances, e esse é um trunfo que faz de Senciente Nível 5 uma leitura tão agradável. Além de Lin e Teo, temos também Nyx, a inteligência artificial, e Tera, uma cientista, além da já citada Soberana Rea — cada um, com personalidades tão únicas e verossímeis, são peças fundamentais da narrativa, e ao final da leitura a vontade que fica é de mergulhar em mais e mais páginas sobre cada um deles. Assim como ao final de Porém Bruxa, também de Chiovatto, minha vontade era a de ler muitas tramas envolvendo Ísis e seu universo de fantasia, com Senciente Nível 5 não foi diferente: quero mais histórias envolvendo Lin e Teo, os sistemas planetários em que eles vivem e tudo o que vem no pacote de uma boa trama de ficção científica.

A capitã Lin, inclusive, entra facilmente na minha lista de personagens femininas favoritas da ficção científica ao lado da Soberana Rea. Lin é uma mulher inteligente e corajosa que faz o necessário para proteger Teo em meio a uma trama que não compreende direito; ela não é invencível ou super-poderosa, mas usa de lógica e análise para desvendar a trama envolvendo a Bílgia e Lena-Hátia. Mesmo assim, enfrentando as situações que surgem diante dela, Lin não deixa de sentir medo, o que a torna muito humana e identificável. Lin é uma cientista e, como tal, valoriza o estudo e a pesquisa, mostrando que, com astúcia, é possível seguir adiante. Rea, enquanto isso, é uma líder destemida que não tem medo de usar a força quando necessário, mas é doce e gentil nos momentos certos, frisando que para ser uma liderança respeitável não é preciso se destituir de empatia. O elo que ela compartilha com Teo, seu irmão gêmeo, também é muito interessante de acompanhar e rende alguns dos melhores momentos do livro — principalmente quando isso significa contar para Lin o que Teo está sentindo.

No caso de Senciente Nível 5, até o posfácio escrito por Claudia Fusco, a convite da própria Carol Chiovatto, é digno de nota. Fusco, que é mestre em Estudos de Ficção Científica pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, analisa como a novela de Chiovatto é fruto de uma mentalidade exposta por Ursula K. Le Guin, renomada escritora de literatura fantástica. Em 2014, Le Guin falou sobre como tempos difíceis estavam chegando e como seria necessário que ouvíssemos as vozes capazes de enxergar alternativas para o modo como vivemos agora. Para Fusco, Senciente Nível 5 é um dos frutos dessa mentalidade descrita por Le Guin que vê a arte, a escrita, “como peça-chave para a sobrevivência em um mundo que flerta com o autoritarismo e o desprezo profundo pelo conhecimento.” Le Guin diz também que “vamos precisar de escritores que possam se lembrar da liberdade — poetas, visionários, realistas de uma realidade maior” e é aí que entra Senciente Nível 5.

“Eu sou fruto dos seus melhores acertos. Não é irônico, uma inteligência magnífica como a minha ser incompleta pela falto de algo que vocês desprezam?”

Em Senciente Nível 5, Fusco escreve, Carol Chiovatto não teve receio em vislumbrar um mundo em que os conflitos existem, assim como diferentes convicções, mas de uma maneira em que tudo pode ser mediado e negociado com diplomacia. Nas palavras de Fusco, “Senciente Nível 5 nos relembra a importância das ciências humanas num contexto diplomático e futurista e, de forma muito elegante, nos mostra que a academia, mais do que um espaço dedicado a uma elite, deve ser povoada, valorizada, habitada. O conhecimento é vivo.” Basicamente, a novela de Carol Chiovatto é um produto de nosso tempo e, como tal, aborda as questões que se fazem presentes em nosso cotidiano: relações de poder, sexualidade, opressão, sofrimento, dor e empatia. O coletivo, e a união, é o que propicia que o universo de Senciente Nível 5 continue existindo, um lembrete para todos nós de que “a coletividade é o que derruba a tirania”.

Terminar a leitura de Senciente Nível 5 é cultivar aquela sementinha de esperança que resiste dentro de nós mesmos nos momentos mais sombrios. Fusco diz que “a transformação é possível e que a liberdade é revolucionária”, e é isso o que a trama de Chiovatto nos lembra. Ler Senciente Nível 5 em meio a uma pandemia em que a ciência é negada por nossos próprios governantes, é reforçar que é ainda possível resistir.


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