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O horror na proximidade do real nos contos de Liudmila Petruchévskaia: Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha

Liudmila Petruchévskaia, apelidada pelo jornal britânico Finantial Times como a “última escritora da Rússia” e considerada pelo The New York Times Book Review uma das maiores escritoras russas contemporâneas, teve seu livro Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha publicado pela primeira vez no Brasil em 2018 pela Companhia das Letras com tradução de Cecília Rosas. Comentar sobre a escrita de Petruchévskaia é um caminho às escuras, pois ela pertence a um grupo de escritores que não encontra equivalente em nenhum outro autor ou autora, tradição ou país, apesar de já ter sido considerada herdeira dos contos de horror de Edgar Allan Poe e dos contos de estranhamento de Nikolai Gogol. Sobre este, a autora alega: “Essas histórias, às vezes assustadoras, existem dentro do povo. O Gogol não inventou nada, ele ouvia as histórias do povo.” Apesar de ser mais conhecida por suas histórias assustadoras, Petruchévskaia possui uma obra variada e, além de escritora, é também dramaturga, poeta, pintora e cantora. Recentemente a autora esteve no Brasil na 16ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Em seu livro Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha temos uma coletânea de 21 contos separados em quatro seções: Canções dos eslavos do leste (contos que brincam com a materialidade da morte — real/irreal — e os fantasmas enquanto traumas deixados pela guerra); Alegorias (contos que abordam o extremo do caráter humano); Réquiens (contos de fantasmas e mortos que são solidários com os vivos); e Contos de Fadas (contos que trazem de forma mais pungente a relação com narrativas folclóricas tradicionais). O livro, de modo geral, retoma a ideia dos antigos contos folclóricos popularizados como “Contos de Fadas” por figuras masculinas como os Irmãos Grimm, Charles Perrault e Hans Christian Andersen. Contudo, nas mãos de uma mulher, a moralidade masculina inserida nas entrelinhas desse gênero tradicional da oralidade é subvertida e apresentada com um humor sarcástico. O resgate de elementos místicos e alegóricos dos contos de fadas é anunciado logo pelo título do livro — Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha — e a situação descrita neste título diz respeito ao segundo conto da edição, “Vingança”, no qual uma amizade entre duas mulheres que dividem um apartamento é deteriorada após uma delas dar à luz a uma menina. O subtítulo do livro — Histórias e Contos de Fadas Assustadores — porém, denuncia que a retomada dos contos de fadas se faz na parte mais sombria e assustadora do gênero: assim como as narrativas folclóricas europeias originais recolhidas durante os séculos XVII, XVIII e XIX, as histórias escritas por Petruchévskaia possuem um clima de horror e infortúnio que assola todas as suas personagens, não há nenhuma intenção da autora em apresentar um desfecho alegre, porque a vida, como ela o conheceu, nunca o fez. Liudmila Petruchévskaia nasceu em 1938 em Moscou e viveu sua infância e juventude cerceada pelo regime stalinista — foi, inclusive, considerada pelo regime como inimiga do povo e teve sua obra censurada, possivelmente porque seu texto não correspondia às diretrizes estéticas do regime que ditava certa exaltação aos valores da revolução; foi apenas depois de 1986 com a instauração da perestroika (a reconstrução e abertura política-econômica comandada por Mikhail Gorbachev) que Liudmila passou a ser lentamente publicada em seu país de origem. “Fiquei proibida possivelmente porque quase todos os contos tinham a sua tragédia. Mas os comunistas gostavam que a literatura exaltasse as conquistas e a superioridade do poder. Praticamente toda a minha vida até a perestroika foi de tempos difíceis“, diz a autora.

A sombria realidade na qual a autora foi obrigada a conviver sob o regime stalinista moldou todo o seu percurso de escrita, sendo transposta para seus contos e perpassada por elementos fantásticos como assombrações, pesadelos, acontecimentos macabros e personagens sinistras. Talvez o mais impactante de suas histórias seja exatamente esse movimento entre a verossimilhança do real e os elementos fantásticos, porque Petruchévskaia acaba por normalizar de uma forma magistral o conteúdo pesado com que trabalha, como a morte, a fome, a miséria e a doença, através de uma escrita narrativa simples e objetiva acortinada pelo sobrenatural. Somos apresentados inicialmente a narrativas presas ao real que, de repente, são tomadas por elementos estranhos que nos encaminham a um profundo significado filosófico. De algum modo os elementos que aproximam seus contos da Literatura de Horror e dos Contos de Fadas chocam menos, mais chocantes que o sobrenatural em si é a realidade, é a miséria implacável capaz de transformar os seres humanos em seres horrendos. Fantasmas como em “O Abraço” e “Tem Alguém na Casa” ou mesmo uma menina que nasce de um repolho, como em “A Mãe-repolho”, são tão comuns quanto o é crianças que se tornam órfãos ou morrer congelado ou mesmo sumir misteriosamente raptado pela polícia, como ocorre em muitos outros contos do livro.

Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha

A crítica literária Marta Róbon comenta sobre a necessidade de manter a essência obscura dos contos de fadas, para ela “A cautela desmedida para não ferir sensibilidades poderia levar os contos a se transformar em diversões inofensivas ambientadas em um mundo distorcido, onde não há decepções, dor ou conflitos”. Robón comenta sobre os contos de fadas para crianças e, apesar de Petruchévskaia escrever para adultos, mantém-se a ideia de que a compreensão profunda do horror descrito em suas histórias precisa ser mantida, mesmo que em um invólucro de fantasia. Como Róbon também alega, a força do conto “está no fato de que ele fala por meio de uma linguagem simbólica e nos convida a explorar a escuridão do mundo, a cartografia dos medos, tanto ancestrais como íntimos”. O escritor Hans Christian Andersen usava desse artifício em seus contos de fadas os povoando com finais infelizes (talvez você não saiba, mas A Pequena Sereia não fica com o príncipe no final, ela vira espuma do mar) e tinha como figura recorrente a morte, uma personagem implacável que mudava o curso das histórias fazendo da felicidade algo arrasado por infortúnios e suas nem sempre merecidas calamidades. Os contos de fadas propostos por Petruchévskaia expressam a mesma linha de pensamento. Como abordado em uma entrevista da autora para o jornal Estado, a sensibilidade cômica e um subconsciente sombrio expresso em sua obra representa uma visão de mundo vivenciada pelas mulheres soviéticas — a própria autora mantinha um estilo de vida dividido entre os cuidados com o marido, três filhos e depois uma mãe com paralisia, realizar as tarefas domésticas e escrever contos à noite. O universo retratado por Liudmila, especialmente nos contos “Hiegiene” e “A Vingança”, reflete os horrores da vida doméstica de uma sociedade em que a privacidade era limitada e a desconfiança mútua entre vizinhos estava sempre presente — parte das famílias na União Soviética vivia em apartamentos subdivididos nos quais compartilhar a intimidade era inevitável. Os contos de Petruchévskaia abordam horrores reais permeados por uma carga política que não precisa ser expressa diretamente para existir. Seu conteúdo não é declaradamente contra o regime soviético, contra o gulag, nem uma negação das ideias comunistas, a sua escrita se vale substancialmente do relato seco e direto sobre as vidas das pessoas que se encontravam nessas situações-limite. Nesse sentido em muito lembra os relatos impactantes sobre o período trazidos pela escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch em seu livro A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, apesar de gêneros literários diferentes, as autoras abordam a mesma existência.

Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha como qualquer outra coletânea de contos traz alguns contos mais interessantes que outros e que merecem destaque: como o conto “Higiene”, que conta a história de uma família reclusa em seu apartamento devido a uma epidemia que se alastrou na cidade, uma condição ao qual estão expostos que exacerba o caráter humano dentro e fora do espaço familiar, um conto que faz referência à Peste Negra e traz ainda um intertexto com a figura central do conto “O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe (explicando também o gato presente na capa da edição brasileira do livro). Outro conto que se destaca é o que fecha o livro, ”A História do Relógio”, que traz o relógio como um artefato mágico ligado à vida da última pessoa que lhe deu corda, se o relógio deixar de funcionar a pessoa também morre; este conto faz uma ode à resistência do povo russo, finalizando com a frase “e por enquanto, o mundo continua vivo.

Como concluiu o escritor e crítico literário Italo Calvino em seu livro Fábulas Italianas (relatos compilados da tradição popular italiana durante dois séculos), os chamados contos de fadas perpetuam valores de uma dada cultura, contendo “uma explicação geral do mundo, onde cabe todo o mal e todo o bem, e onde sempre se encontra o caminho para romper os mais terríveis feitiços“. Liudmila Petruchévskaia encontrou esse caminho, transcendeu através da escrita suas próprias experiências de horror nas condições de vida soviética e pós-glasnot, encapsulando-as em um universo de literatura fantástica.

Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da colaboradora Luana

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