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Lov3: teledramaturgia erótica LGBQIA+

Enquanto as emissoras brasileiras abertas de televisão continuam resistindo em colocar tramas e personagens LGBTQIA+ como protagonistas de suas obras ou até mesmo em destaque secundário, os streamings que chegaram recentemente ao Brasil vem abocanhando a fatia desse público ávido por representação. Após Manhãs de Setembro, com a cantora Liniker interpretando a personagem principal, uma mulher trans, a Amazon Prime Video aposta numa nova série nacional com protagonistas LGBQIA+.

Atenção: este texto contém spoilers!

Lov3 — assim mesmo, em inglês e com um três estilizado no final da palavra — apresenta as vivências amorosas sexuais de três irmãos. Os gêmeos Sofia (Bella Camero) e Bento (João Oliveira) abrigam a irmã mais velha e recém separada, Ana (Elen Clarice), na casa da família em São Paulo, onde ficaram morando após os pais se mudarem para o interior. Antissociais e levemente agorafóbicos, a reviravolta na vida dos irmãos começa com uma visita inesperada da mãe, Baby (Chris Couto), que anuncia que vai se separar do pai dos três (Donizette Mazonas) e ter uma vida livre. Assim, colocará a casa para alugar e por isso os filhos têm, ou que se mudar, ou começar a pagar aluguel.

Os três reagem de forma diferente ao anúncio. O conformado Bento resolve mudar radicalmente de vida, sair da casa e da influência da irmã gêmea e arranjar um namorado. Num aplicativo encontra tipos opostos de homem: Hétero Curioso (Tatsu Carvalho), com quem inicia um relacionamento sexual, e Luis (Samuel de Assis), que acaba virando seu colega de casa, amigo e confidente. A antissocial Sofia decide continuar na casa pagando aluguel, o que dificulta por ela não parar emprego algum. Ao conhecer o trisal Isa (Ingrid Gaigher), Joaquim (Caio Horowitz) e Matheus (Jorge Neto), os convence a dividir a casa com ela, sem que eles saibam que o imóvel, é na verdade, de sua mãe. E a primogênita Ana volta ao casamento com Artur (Drayson Menezzes) e ao emprego no restaurante de onde pensava em se demitir. No emprego ela é promovida, e no casamento institui que seria melhor se os dois tivessem um relacionamento aberto e pudessem se encontrar com outras pessoas.

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Uma série explicitamente sexual, Lov3 mostra diferentes orientações e relacionamentos sexuais entre pessoas homossexuais e bissexuais de forma natural, uma abordagem recente no audiovisual brasileiro. Mesmo com um histórico forte de produções eróticas no Brasil, são raras as opções com personagens LGBTQIA+ em papéis principais. Lov3 se insere totalmente no gênero erótico que se propõe, tendendo mais ao estilo Bridgerton (2020) e Verdades Secretas 1 (2015) do que ao nicho de seriados LGBTQIA+, como Queer as Folk (2000) e The L Word (2004). Em ambas as séries, o sexo é inserido num contexto de evolução da trama e personagens, que usam os relacionamento sexuais para navegar em suas vidas complexas.

Em Lov3, o sexo é o personagem principal, o que também pode ser interessante de um ponto de vista de entretenimento, mas não insere profundidade à trama. Ao contrário, ao alçar as cenas de sexo acima de seus personagens, acaba deixando o desenvolvimento dos irmãos um pouco de lado. As relações sexuais também não evoluem dentro da trama, como em Bridgerton ou Verdades Secretas 1, num crescendo gradual que culminam num clímax erótico, mas estão ali desde o início. No terceiro episódio, as peripécias sexuais dos irmãos já são tão corriqueiras que não mais chocam e não ajudam a evoluir a história, estando apenas ali. Nesse ponto, Lov3 se compara a Verdades Secretas 2 (2021), embora tenha personagens mais bem construídos e uma trama um tanto mais sólida.

Para uma série sobre sexo jovem no século XXI em que tantos estranhos transam entre si por minuto, a falta de menção ao uso da camisinha é um preocupante. A conversa sobre preservativos é apenas tocada em duas situações durante os seis episódios e pela mesma personagem: quando Ana percebe que seu marido realmente está tendo relações sexuais com outros; e numa longa conversa entre Ana e a mãe, onde a moça dá uma bronca em Baby por não fazer uso da camisinha ao se relacionar sexualmente com um estranho — um diálogo maçante que se perde em outros assuntos sobre traumas passados geracionais.

É comum que autores busquem em suas próprias experiências psico-sociológicas a inspiração bruta para suas obras, mas é justamente a capacidade de polidez que o autor tem sobre esse material bruto que diferencia uma obra pronta para o público de uma obra ainda em andamento. É a polidez de um texto que o move de uma história individual, pessoal, para o emparelhamento com os sentimentos do espectador. Ao se assemelhar as experiências individuais às universais, com sentimentos universais, é possível gerar empatia no público, fazendo com que ele se importe com os acontecimentos na tela e com os personagens apresentados pela obra.

Falta essa polidez nos diálogos e situações de Lov3 para que a série se torne universal. A especificidade apresentada na trama de Ana faz com que a personagem se torne engessada, o que aliena o público. Sofia também sofre desse mal, mas talvez não por concepção de texto e sim pelo estilo de relacionamento em que se propõe estar. No decorrer dos episódios, a personagem vai se familiarizando com o trisal e, consequentemente, também é familiarizada a quem assiste, ganhando seu espaço aos poucos, o que parece ser exatamente a intenção dos roteiristas.

Apesar de ter sido criada por Felipe Braga e Rita Moraes (produtores de Samantha! e Sintonia), quem assina os episódios é a sala de roteiro composta por Rafael Lessa, Filipe Valerim Serra (ambos roteiristas em Samantha!), Duda de Almeida (Sintonia), Natália Sellani e Elton de Almeida; e a direção fica por conta de Gustavo Bonafé e Mariana Youssef. Em Lov3, os roteiristas abusam de monólogos ultra textuais, principalmente em relação à Baby, personagem da mãe, que ficam deslocados da trama. Não se encaixam na dinâmica do momento que os irmãos vivem e parecem estar ali para aumentar o tempo de tela de Chris Couto.

Em mais uma série brasileira da Prime Video, direção e roteiro não conversam entre si (como em Manhãs de Setembro). Baby é uma personagem inteiramente forjada pelas escolhas de direção, e assim, estranha ao texto e roteiro. É possível entender que seu narcisismo afeta profundamente os três filhos, mas suas cenas se alongam desnecessariamente, principalmente em relação a Ana, e tiram o foco das personagens que realmente importam. Compreensível pelo narcisismo da personagem, cansativo de ver em tela.

É João Oliveira quem estrela o melhor da série, com um balanço perfeito entre trama sexual e desenvolvimento de personagem. Bento cativa e intriga com suas primeiras experiências no mundo gay paulistano, sem a necessidade do batido arco dramático de saída do armário, e assim faz com que o espectador queira ver mais dele. O ganho de autonomia vem aos poucos e o triunfo de liberdade de Bento, dentro da trama, é melhor que qualquer orgasmo atuado em cena. Sua trajetória é o motivo pelo qual se continua assistindo aos episódios.

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A Sofia de Bella Camero também tem seus bons momentos, principalmente quando começa a olhar mais em volta do que para si, mas demora um pouco para chegar lá e os episódios são curtos (em duração e quantidade) para o desenvolvimento lentamente necessário da personagem. Já Ana, uma personagem sem carisma, tem pouco ou quase nada a seu favor, e sua busca por liberdade e ruptura com a imagem da mãe não empolga como deveria. Ana fica sempre numa linha contínua, sem altos ou baixos, sem resoluções ou catarses. O final em aberto de Ana, em específico, contribui ainda mais para a sensação de coito interrompido e sexo ruim que a personagem parece carregar consigo.

Embora atual na representação de orientações sexuais, o seriado desliza em não trazer personagens declaradamente trans e colocar minorias em papéis de apoio. Já que o foco da série não é romance, e sim o relacionamento que os irmãos constroem entre eles e com si mesmos, os interesses românticos serem negros pouco importam. Acaba por cair na clássica escolha de trazer um elenco mais diverso sem precisar se importar realmente com retratar essa diversidade no roteiro. Luis, apesar de ser um personagem divertido e bem interpretado por Samuel de Assis, acaba por cair no estereótipo da “fada madrinha” gay e negro (já observado em As Five, por exemplo), sendo durante a temporada apenas apoio para Beto. De Artur, Isa e Mateus, não conhecemos nada…

O relacionamento do trisal também cai em diversos estereótipos, o principal deles é que a maioria das cenas que os três aparecem são retratadas de forma cômica. Sofia entra no relacionamento por conveniência e a trajetória da personagem parece enfatizar que os outros três também não estão tão juntos assim. A bissexualidade de Ana não é tratada além de sua faceta sexual.

A fotografia escura também traz uma carga dramática exagerada para as cenas, o que não acompanha o roteiro. Enquanto a divulgação do seriado foi feita inteiramente com base em cores vibrantes, que trazem como referência o roxo e rosa da bandeira bissexual, todas as cenas de Lov3 são sombrias. É possível entender a escolha da direção de fotografia, que tenta acompanhar o humor da vida dos irmãos, mas ao mesmo tempo a necessidade dessa escolha se perde ao não sofrer mudança alguma no decorrer da trama. A escolha das cores do seriado contribuem para diminuir a qualidade da direção de cena, sempre muito bem feita. Apesar de algumas escolhas discutíveis, a trilha sonora fica do lado inquestionável, com bons covers inseridos em momentos cruciais, elevando a qualidade da maioria dos episódios.

Com um início truncado, Lov3 apresenta um primeiro episódio longo demais para tão curta duração. Sem cativar muito os espectadores, tenta passar muita emoção já de cara, mas por se tratar de uma introdução, não se tem conexão suficiente para nos importarmos com o que está acontecendo com os personagens. A temporada termina em aberto, e após acompanharmos por um breve momento a vida dos três, apenas Bento tem um final empolgante a ponto de fazer o espectador voltar para uma segunda temporada. Impera na série um sentimento de, se não perda de tempo, irritação, principalmente em relação ao grande foco colocado em Baby e Ana. O balanço geral é que, com alguns ajustes na trama e mudança de prioridades para retratar mais da vida dos gêmeos numa segunda temporada, Lov3 pode vir a se tornar uma série referência no mundo brasileiro LGBTQIA+.


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