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Grown-ish: a solidão da mulher negra e ser forte como única opção

Posso dizer que este texto sempre esteve escrito, entalado na minha garganta e na de minha avó. Uma sensação que atravessou gerações. Vovó ainda não sabe que escreveu isso, porque, no fim, nenhuma de nós sabe dessa solidão até que ela seja estampada em nossas vivências, corroendo cada parte de nós. Mas cada palavra desse texto estará impregnada mais sobre a dor dela do que necessariamente a minha, a mulher que em nossa última conversa me questionou sobre os relacionamentos e sobre como é tão melhor evitar a decepção. Ela nunca vai ler este texto, que está mais para desabafo, mas ao menos alguém saberá que ela foi obrigada a ser forte, pois era sua única opção. Foi quando assisti a um episódio de Grown-ish que, de maneira sutil, fui atingida gradativamente pela concepção da solidão da mulher negra, e eu tive um daqueles cliques que deixa a gente refletindo um pouco, se identificando com cada palavra e se sentindo impotente. Esse sentimento de impotência me trouxe até aqui e comecei a escrever.

Para quem nunca ouviu falar, Grow-ish é uma sitcom lançada em 2018 (sua primeira temporada já está na Netflix). Spin-off de Black-ish, a comédia acompanha a filha mais velha dos Johnsons, Zoey (Yara Sahidi), uma jovem mulher negra que ao ingressar na faculdade cheia de certezas acaba tendo, no fim, uma série de choques de realidade. Zoey é uma personagem real e acompanhamos a jornada real de uma pessoa que está aprendendo com todas as armadilhas da vida. Com o elenco principal quase todo negro — representatividade importa! — a série ainda traz em suas pautas assuntos pertinentes tais como racismo, colorismo, sexualidade, relações inter-raciais, e, é claro, a solidão da mulher negra.

É especificamente no décimo episódio da primeira temporada, “It’s Hard Out Here for a Pimp”, que o grupo de amigos vai a uma festa e começa a discutir sobre como as gêmeas Jazlyn e Skyler Foster (Chloe e Halle Bailey) se encontram sozinhas desde que entraram na faculdade, mesmo que suas amigas Ana (Francis Raisa) e Nomi (Emily Arlook) tenham tido encontros.

No episódio são mostrados dados e estatísticas que corroboram a ficção: 82% dos homens não-brancos mostram algum preconceito com mulheres negras, expondo que a mulher branca é uma das mais cotadas entre a preferência masculina para relacionamentos amorosos. Aqui no Brasil não é muito diferente: no censo realizado pelo IBGE em 2010, estimava-se que mais de 52% das mulheres negras não viviam em união, independente do estado civil. No já citado episódio de Grown-ish aconteceu uma discussão calorosa sobre como até mesmo os homens não-brancos preferem mulheres brancas; olhando mais uma vez para o nosso país, a socióloga Eliane Oliveira, em uma entrevista, comentou que:

“Muitos podem dizer que é uma questão de gosto, mas nós somos socialmente moldados dessa forma, nosso gosto não é isento de manipulação ou imposição do que é belo, bom, seguro e desejável. Ora, se sofremos ainda hoje com a herança escravagista de que a negra é para cama e não para o casamento, como pensar que o homem negro também não reproduz esse tipo de pensamento sobre ela quando o que mais vemos são eles se casando com as brancas?”

Em meio à discussão, uma das personagens de Grown-ish “aconselha” as gêmeas a se envolverem com homens brancos, no que as gêmeas respondem “por que nós temos que mudar o que queremos?”. É aqui que entra outra fala pertinente de Oliveira: “A rejeição é muito mais doída quando vem dos seus iguais; a mulher negra quer ser amada, ser feliz.” 

Segundo Ana Cláudia Lemos Pacheco em seu livro Mulher Negra: Afetividade e Solidão, “há um fio condutor que mostra em diferentes momentos, de que maneira as escolhas afetivas são permeadas de solidão, e ao mesmo tempo, motivadas e/ ou alicerçadas, por racismo, sexismo e desigualdades”. Então, estamos aqui, mais uma vez, sendo forçadas a sermos sozinhas não porque queremos, mas porque o racismo somado ao machismo danificou até mesmo o afeto.

Este, com certeza, é um texto pessoal. Mas, sinceramente, qual texto não é? Enquanto os personagens de Grown-ish discutiam a partir de um roteiro, eu ficava imaginando o quanto de verdade aquelas atrizes estavam pondo nas palavras que proferiam. Isso me enchia de pesar, e era uma raiva que me consumia. Obviamente isso me levou a pensar nas minhas experiências, nos meus relacionamentos, e em como é engraçado que no fim eu sempre me encontrava só, mas enquanto estava com alguém eu pensava “como eu sou sortuda por ele querer estar comigo”, mesmo que o relacionamento não fosse saudável. Essa linha de pensamento me levou à minha melhor amiga e minha avó — ambas pretas — e eu fiz uma análise rápida de todas as situações abusivas que sofreram em seus relacionamentos, o que nos leva a um ponto extremamente importante, segundo a psicóloga Maitê Lourenço em entrevista:

“A própria violência doméstica também pode fazer parte das estatísticas para pontuar o que acontece com as mulheres negras, pois muitas acabam se submetendo a relacionamentos abusivos para não permanecerem sós.”

E é exatamente agora que eu quero que vocês respirem bem fundo. Não preciso citar todas as situações de violências a que fomos submetidas por achar que não tínhamos outra opção senão a de sermos fortes. Eu sinto muito por isso e nada me dá mais raiva do que ser obrigada a ser forte por simplesmente estar só. Diversas vezes eu escutei que era forte. Mas o que ninguém sabe é que cansa. E nos sentimos tão sós e desesperadas, tão magoadas e ofendidas, tão insignificantes por todas as vezes que nos abandonaram ou por todas as vezes que tivemos que abrir mão de sonhos. Sim, sonhos! Pois parte dessa solidão também nos obriga a repensar sonhos.

Quando falo sobre ser obrigada a repensar sonhos, falo a partir do que Albertina Camara Ribeiro disse em seu depoimento, de todas as vezes que teve que se readaptar para poder ter experiências e o quanto isso pouco a pouco a roubou tudo. “Esse foi o primeiro sonho que o preconceito me roubou: o sonho de ter uma primeira vez com amor, carinho e respeito”. É ela quem vai falar também que:

“A solidão da mulher negra não é sobre ser solteira…é sobre o que nos é duramente imposto: ser forte como única opção, criar filhos sozinha, ou não tê-los, não por escolha minha, mas por se mostrar a única opção”.

As mulheres negras sempre são as fortes e uma coisa que me fez questionar isso aconteceu quando li Djamila Ribeiro dizendo que, enquanto as mulheres brancas lutavam pelo direito ao voto e ao trabalho, as mulheres negras lutavam para ser consideradas pessoas. A autora ainda comenta que existe uma resistência por parte das feministas brancas em perceber que, apesar do gênero nos unir, há outras especificidades que nos separam e afastam. Essa questão de não ter opção de que Albertina fala, Sojourner Truth, ex-escravizada, já falava em 1851.

Em seu discurso em Ohio, ela esbravejou toda a dor e abandono, em um texto intitulado “E não sou eu uma mulher?”:

“Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?”

Sempre que retorno a esse texto e leio este trecho em especial, “e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?”, a verdade sobre a obrigatoriedade da mulher negra ser forte me é empurrada goela abaixo. As dores que ouvimos em meio a nossa solidão, que rompe a relações românticas, estão presentes nas amizades e como crianças acabam aprendendo a serem cruéis. Lembro de uma vez que uma colega minha usou um ferro de passar roupas no meu cabelo para que ele ficasse menos volumoso. Eu aceitei. Queria ser amada. Toda queimada, mas o cabelo estava liso. Lembro de todas as vezes sozinha na escola, as horas passadas na biblioteca não por ser estudiosa, mas sim por ali ser o único lugar em que eu poderia permanecer em paz.

Mas dia desses me senti menos só. Tem uma mulher preta incrível que me ajudou muito no meu processo de reconhecimento, mas isso é assunto pra outro texto. Acredito muito nessa coisa de transmitir afeto e apoio e a Gabriela Feitosa sempre faz isso comigo sem perceber. Hoje posso entender melhor minha dor e minha solidão a partir do que ela disse:

“Sinto que vivi coisa pesada demais. Talvez seja porque reúno muitas outras histórias silenciadas de meus ancestrais. Alimento todas elas e as vomito com raiva, ora amor.”

Encerro este texto, que começou falando de mim e dançou por todas as referências possíveis, deixando um poema, que está mais para oração, de Maya Angelou. Somos fortes, sim, mas também somos seres que merecem o amor e o afeto. Apesar de tudo, ainda assim, eu me levanto.

“Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto”

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6 comentários

  1. Sem palavras pra esse texto, pro tanto de sentimento e e referência nele. Depois dessas palavras vou ficar um tempinho pensando e me emocionando…

  2. Esse texto, não tenho palavras para descrever o que me causou. Um impacto sútil, mas extrema importância pois é aquilo que vivemos e sentimos por sermos mulheres negras.
    Obrigada por esse desabafo.

  3. Que texto incrível! É sempre bom lembrar disso e falar sobre. Eu, como homem, acabo esquecendo. Seu texto é lindo, profundo, conscientizador, mas acima de tudo apaixonado e um grito pra que essas amarras sociais caiam. Amo esse site e acho que todo o mundo deveria lê-lo. Só agradeço e oro pra que cada dia essa luta seja menos necessária.

  4. Você escreve tão bem .
    Quando eu comecei a ler ,antes pensava que iria me identificar mas não, passei por momentos difíceis também mas esse texto é extensão de qualquer outro sofrimento relacionado a essa área que qualquer garota não negra pode passar .Mas acho que a maioria das garotas que já foi posta em uma situação semelhante vai para para te ouvir continue escrevendo precisamos saber mais .