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Por que autocuidado é tão importante para mulheres negras?

Ao longo dos meus 22 anos de vida, presenciei na prática o resultado do discurso “temos que ser fortes”. Vi minhas tias, primas, irmã e mãe sem tirar tempo para lazer, para estarem sozinhas ou para se cuidarem como mereciam. Raramente testemunhei conversas delas sobre viagens, uma ida a um restaurante gostoso ou uma noite de amigas, irmãs, primas. Para mim, tornou-se natural ver isso acontecer. Logo me vi na mesma situação, correndo e cuidando… dos outros.

Com o tempo, mais especificamente quando entrei na faculdade de Jornalismo em 2014, em uma universidade elitista, fui notando as muitas diferenças entre brancos, não-brancos e negros no Brasil, inclusive nesta área do autocuidado. Percebi como era um privilégio ter tempo para atividades ou se cuidar. Desde então, relações raciais é um dos assuntos que eu sempre paro para refletir e expando isso para os meus com o objetivo de que, por meio da reflexão, ocorram mudanças, principalmente na questão de merecimento.

O Atlas da Violência de 2018 apontou que entre 2006 e 2016, a quantidade de mulheres negras aumentou 15,4%, enquanto o homicídio de mulheres brancas caiu 8%. De acordo com o Infopen (Levantamento de Informações Penitenciárias) de 2016, 62% das mulheres presas são negras. Segundo a Fiocruz, 65,9% dos casos de violência obstétrica acontece com mulheres negras, e também, 62,8% das mortes maternas são negras. Em relação ao aleitamento materno, apenas 62,5% das mulheres negras afirmam ter recebido informações sobre a prática, enquanto 77% das mulheres brancas puderem acessar informações.

Essas informações infelizmente são apenas uma parte das muitas características que colocam mulheres negras na base da pirâmide social. Aceitei o desafio de escrever sobre o tema para o Valkirias porque acredito ser importante cada vez mais a gente se cuidar, assim como por querer contribuir para a discussão latente nesse cenário atual. Abaixo uma breve lista de mulheres negras que são inspiradoras e que discutem diariamente sobre a saúde física, mental, social, espiritual e também na alimentação.

Comer é político

Decidi conversar com as chefes Camila Botelho e Samanta Luz, ambas veganas, porque sabemos que muitas doenças são causadas por uma má alimentação, e que elas acometem, em sua maioria, a população negra. Pressão alta, diabetes e problemas cardíacos e ginecológicos são algumas delas. A carne é ainda sinônimo de status e sinal de abundância para muitas pessoas. De acordo com Samanta, ter uma alimentação vegana e saudável é uma forma de contrariar as estatísticas e sair da caixa. É uma forma de não aceitar qualquer coisa no prato e pensar muito além de um sistema opressor:

“Para mulheres negras, grande parte tem miomas e deixar de se alimentar de alimentos com hormônios (como queijos, leite, carne) ajuda a não desenvolver miomas.”

Para Camila, esse tipo de dieta abrange não só a nossa saúde individual, mas também do planeta e dos animais, além de ser uma forma de se posicionar politicamente:

“Estamos falando sobre alimentos carcinógenos, ou seja, seres sendo tratados como alimentos de uma maneira brutal, sendo alimentados com soja transgênica, vivendo em situações que geram doenças uns aos outros e consequentemente ao consumidor final. Agropecuária e indústrias farmacêuticas andam juntas neste sistema corrupto colonizando a população negra. Alimentação é política.”

No entanto, Samanta entende que há ainda diversas dificuldades para aderir ao veganismo. Uma delas é o conhecimento sobre o veganismo chegar ao público negro, mesmo que seja mais barato alimentar-se sem derivados de animais. Camila concorda e explicou que a televisão informa de maneira errônea, além de reforçar a questão de que comer carne branca é mais saudável. Para ela, é necessária uma desconstrução da carne como estrela do prato:

“Não precisa ser gourmet, é só se alimentar bem, com muitas folhas, verduras, frutas, cereais e grãos. Com o preço da carne hoje, a alimentação vegana acaba sendo uma opção muito mais saudável e mais acessível”, ressaltou Samanta.

Autocuidado para resgatar beleza ancestral

Nessa experiência de escrever um texto sobre algo tão necessário, conversei também com Ayna Oluremi, mulher sagrada, aromaterapeuta e artesã de cosméticos naturais. Ela fundou a Alquimias de Cura em 2017 e, além de vender produtos feitos por ela, ministra oficinas e compartilha nas redes sobre autoconhecimento, autocuidado, yoga, ayahuasca, entre outros temas. Para ela, autocuidado é um ato de amor, mas também uma forma de resgatar a beleza ancestral que a nossa sociedade extremamente racista tenta nos tirar. Segundo ela, esse lugar de realeza é o nosso lugar.

“O autocuidado é também uma forma de resistência, uma forma de se dar amor para que você consiga compartilhar com outras pessoas.”

E ela consegue. Em entrevista, Ayna me disse que o retorno de suas clientes é uma das melhores partes do seu trabalho, por conta das histórias de curas energéticas, emocionais, mas também físicas. “Há irmãs que aprenderam sobre as técnicas de respiração e levaram isso pra vida, compartilharam com a família, e assim superaram questões graves com ansiedade. São histórias muito lindas”, disse. Ela relatou também o retorno de mulheres emocionadas por terem se livrado de cólicas menstruais, miomas, cistos e remédios da indústria farmacêutica por meio do uso do Bálsamo do Ventre.

Em relação ao seu próprio corpo, ela falou que tem o antes e depois da aromaterapia. Ela sofria com ansiedade e depressão e tomou a decisão de se tratar de forma natural. “A aromaterapia veio de um movimento de resgatar saberes, de compartilhar sobre autocuidado, mas também de dar honra a esse primeiro lugar que é a África, fonte de toda ciência, sabedoria e conhecimento, visto que o fundamento da aromaterapia é kemetico, surgiu no Antigo Kemet, na África, que nós conhecemos como Antigo Egito, e não na França, como se fala muito.”

O que acontece no exterior, influencia o interior

Outra mulher que eu acompanho é Daniela Santa Izabel, modelo e estudante de Ciências Sociais na UFRJ. Me chamou a atenção ela chamar sua aula de pandeiro de “pandeiro terapia” e por isso a questionei sobre como isso tem transformado sua vida.

“No meio de várias tensões, eu percebi que sempre que saía de uma roda de samba, me sentia revigorada, pronta para viver a semana que vinha a seguir. Mas não estava sendo o suficiente, eu precisava sentir o samba de uma forma diferente e foi aí que decidi tocar algum instrumento!”

O pandeiro foi o instrumento que a encantou, “o coração de tudo o que acontece”, definiu. Ela faz aulas com o Mestre Wagninho, que tem um projeto de percussão só para mulheres, o Bambas de Saia. Ela contou que se sentiu bem e passou a chamar suas aulas semanais de pandeiro-terapia. Daniela ressalta:

“Estar no samba, sentir o samba, tocar o samba: tudo é estado de poesia pra mim. É, em cada batida, colocar pra fora o que me sufoca. Eu escolhi o samba como uma das formas de cuidado mental e espiritual. Ele me faz levantar, me faz sorrir, descobrir gente e me dá energia pra seguir.”

Meu corpo é um altar

Após contatos com espiritualidade por meio de uma medicina ancestral, sentir emoção, amor, devoção e respeito em relatos me inspiram muito. Tendo em vista essas características, recordei com carinho de uma amiga pessoal, que um dia narrou para mim a importância de sua religião. Ingrid Souza, administradora, me contou que seu primeiro contato com o Candomblé foi em 2017 em um momento em que ela passava por extrema solidão e uma saúde mental fragilizada, além de ter dificuldades para se reconhecer.

“O candomblé veio como uma forma de autocuidado e como um possível caminho de reconciliação comigo mesma. Eu me encontrava completamente perdida, eu me religuei a mim, eu me vi, eu sorri, eu me amei. Eu aprendi mais sobre respeito, sobre coletividade, sobre escuta, sobre disponibilidade. Eu pude me religar as minhas origens de uma maneira muito genuína. O candomblé me deu a oportunidade de sentir o que é pertencimento.”

Ela ressaltou, no entanto, que não é instantâneo. As mudanças ainda estão ocorrendo e ela acredita que muitas delas ainda estão por vir. E enquanto isso, seu corpo deve ser cuidado, como um altar, ele deve ser seu altar, pois um dia ela irá receber o sagrado por meio da iniciação na religião. “Quando isso acontecer, preciso ter dado os devidos cuidados para que o sagrado habite em mim”, disse.

Tempo para nós mesmas

Thaís Rosa Pinheiro, fundadora da Conectando Territórios, agência de turismo, também conversou comigo sobre autocuidado. Para ela, a prática é muito importante para as mulheres negras, principalmente, porque sempre foi o grupo que cuida e continua cuidando de toda uma estrutura social:

“Nunca temos tempo para cuidarmos de nós, da nossa saúde física e mental. Ter esse espaço e tempo para o autocuidado é essencial para nós.”

As viagens promovidas por sua agência de turismo, explicou Thais, é o que proporciona às mulheres negras que viajam com ela o autoconhecimento, alívio do stress do dia a dia, conexão com a cultura que faz parte da nossa história brasileira, reconhecimento da história de nossos ancestrais e da população negra na construção do país. Frequentemente há nessas vivências oficinas manipulação de plantas, rezas, oficinas de dança como o Jongo e Samba, que, pra ela, são formas dessas pessoas cuidarem da saúde e de se conectarem mais com a cultura afro-brasileira e saberes ancestrais que outras mulheres das comunidades ensinam. Segundo Thais, viajar é um momento em que ela pode cuidar de mim, assim como se conectar cada vez mais com outras mulheres tanto de comunidades tradicionais ou mulheres urbanas:

“Esses encontros são muito transformadores e sinto que cada vez mais estamos nos conectando em cuidarmos uma das outras. Sinto que é uma cura individual e coletiva Quando viajo procuro sempre aulas de dança, pois adoro dançar, gosto de procurar casas terapêuticas, vou a casas de banhos, faço massagens, procuro sempre comer algo novo e saudável e andar muito, percorrer ruas e avenidas. Sempre volto mais feliz, pois é o momento que tenho para mim. Sempre que volto de uma viagem acabo adquirindo um novo hábito na minha vida, de algo que é bom para o meu autocuidado.”

Somos pessoas que importam pro mundo

Na cidade que eu resido, Campinas-SP, tem o grupo Rolê das Pretas. Ele surgiu no final de 2015, por ideia de quatro mulheres negras que sentiam não ter amigas negras para compartilhar experiências, histórias que só pessoas como nós entenderíamos e que nos sentíssemos confortáveis em conversar. Paola Fernanda, estudante de Direito na PUC Campinas e uma das fundadoras do grupo, me explicou que ele foi criado primeiramente no Facebook e depois saiu do virtual para encontros pessoais com mulheres negras. O objetivo desses eventos é dialogar sobre temas específicos, fazer amizades e montar uma rede de apoio exclusivamente para mulheres negras. Hoje o grupo tem mulheres de todas as partes do Brasil e os encontros seguem ocorrendo algumas vezes por ano em Campinas.

“O grupo funciona como uma rede de apoio, de proteção, no qual o afeto, a acolhida, a escuta das nossas narrativas e a informação dissipada sobre assuntos específicos são o foco. E isso é importante para desfazer o preconceito de mulher negra que não fala, que só escuta, que não compartilha sua narrativas.”

Os encontros já abordaram relacionamento abusivo, saúde mental de mulher negra, racismo na infância, entre outros, e são sempre guiados por experiências pessoais e textos, vídeos e demais referências sobre o assunto. Paola finaliza, dizendo:

“Nos colocamos primeiramente como pessoas que importam ao mundo, nossa vida é importante, o que sentimos é importante, nossa saúde também. E por isso devemos nos cuidar, nos informar, aprender a resistir em diferentes espaços e situações, colocar nossas necessidades em primeiro plano, aprender a cuidar de nós e não só cuidar dos outros. Somos pessoas, ainda que o racismo e o machismo tente nos transformar em coisas.”

Sobre a dificuldade de pedir ajuda

Em entrevista, a psicóloga Leila Grave, mulher negra, baiana, nordestina, psicóloga há nove anos, graduada na Universidade Federal da Bahia, especialista em Psicologia e Ação Social e especialista em Saúde da Família, integrante da Rede MuitasPsi, coletiva de psicólogas feministas em Salvador, falou sobre as dificuldades que o povo negro tem para pedir ajuda.

Concordo, não é fácil. Por isso é necessário o fortalecimento e criação de iniciativas que mudem este cenário. Procure em sua cidade, no seu estado, grupos com os quais você possa se identificar e se tratar aos poucos. Converse com seus familiares negros sobre autocuidado, sobre tirar tempo pra si e sobre sentir. Sabemos que muitas coisas foram retiradas de nós após anos e anos de abusos, de genocídio, de violência.

Se fortalecer é importante.

Thalyta Martins tem 22 anos e é jornalista do Alma Preta, portal de mídia negra.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!
** A arte do banner é de autoria da artista Raquel Gouvea.

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2 comentários

  1. que texto maravilhoso ♥ tava precisando muito ler isso hoje!
    aprendi o quanto é importante trabalhar o autocuidado vendo um vídeo da nataly neri, acho que do ano passado, sobre esse tema. é urgente que a gente dissemine essa ideia por aí.
    adorei a variedade de fontes e é muito massa ver como todas elas se relacionam de alguma forma, né?

    um abraço!