Categorias: LITERATURA

Caminhando Sobre os Ossos dos Mortos

Em algumas partes da Polônia é possível, da forma mais literal possível, caminhar sobre os ossos dos mortos. As cinzas carregadas dos fornos de campos de concentração eventualmente caíram sobre a terra e qualquer guia de Auschwitz te adverte sobre achar que chutou uma pedra e encontrar um pequeno osso. Na sangrenta história da Europa, a Polônia parece ter um lugar especial, um lugar em que os simbolismos da história ganham matéria, em que no curso de uma vida foi possível responder a três ocupantes diferentes, ver dizimado um terço do país e ser, ao mesmo tempo e sem concessões, vítima e algoz.

Acho que se perde algo com a afirmação de que Sobre os Ossos dos Mortos é um livro sobre a Polônia. Ele é, de forma tão concreta quanto fragmentos de ossos em um campo de concentração, sobre a Senhora Dusheiko. Mas ele é um livro na Polônia e um livro cujo senso de tempo e lugar é fundamental.

Talvez seja uma questão de astrologia: os elementos básicos para o traçado de um mapa astral são hora e local e são essas informações que a narradora busca incansavelmente na tentativa de explicar o mundo e as pessoas à sua volta. Igualmente, seria empobrecedor entender que o fascínio da protagonista com astrologia é algo simbólico para uma reflexão sobre a importância de tempo e lugar, sua cosmologia é astrológica, os signos e planetas são, de fato, a forma pela qual ela compreende o mundo e, portanto, a forma como o mundo desse romance é construído para o leitor. Ainda assim, tempo e lugar e Polônia.

Sobre os Ossos dos Mortos é um livro curioso em diversos aspectos, mas o primeiro deles se desenha nessa introdução: trata-se de um livro profundamente alegórico que ainda assim resiste a ser lido como alegoria. Polônia, tempo, espaço, feminismo, direitos animais são todos temas e é possível ler o romance como uma metáfora focada em cada um desses. E ao mesmo tempo não é porque a trama, em sua excessiva excentricidade, amarra o leitor e lhe impede de dizer que esse livro não seja também exatamente sobre aquilo que ele é.

sobre os ossos dos mortos

E ele é um livro sobre uma senhora idosa e cheia de moléstias que vive em um vilarejo isolado perto da fronteira com a República Tcheca. Aqui, mais uma vez somos tentados pela abstração: a ideia de fronteira, o conceito de fronteira, a República Tcheca com revoluções de veludo e primaveras de Praga, a rainha do leste europeu sendo olhada por sua prima pobre. E mais uma vez não é que essas abstrações não estejam ali, mas soa fútil e pouco sagaz escrever e refletir sobre elas quando a própria narradora fala da idealização da República Tcheca em termos muito mais prosaicos. O ar lá é mais puro, diz a senhora Dusheiko, a língua mais suave, a nossa língua sempre parece agressiva, mesmo quando não é.

Sob o risco de seguir por abstrações as quais esse livro resiste, seria possível pensar no caráter formador das línguas. Se o polonês é, como a narradora nos diz, uma língua da agressão, que chance teriam as relações nesse livro de se darem em qualquer nível que não o da agressão? Mais ainda, se a linguagem forma nosso pensamento e se percebemos o mundo apenas na materialização dada pela nossa linguagem, esse livro é sobre alguém que faz um mundo.

Dusheiko se recusa a aceitar o nome das coisas como eles são. Ou melhor, ela se recusa a aceitar o que sente como o nome falso das coisas dado pelas outras pessoas. Ela espera que as coisas se revelem em si, que seu verdadeiro nome venha espontaneamente e então é claro que a essência daquela coisa ou pessoa não poderia ser outro que não esse. Dusheiko cria uma espécie de horóscopo dos nomes e faz com o mundo o oposto do que eu faço nesse texto: ela busca as coisas pelo que elas radicalmente são e não pelo que se quer ler nelas.

Atenção: este texto contém spoilers!

O que esse livro radicalmente é é a história de uma senhora nessa cidade isolada que eventualmente decide que a indiferença e a violência que os homens em volta cometem contra a natureza e os animais não deve passar impune. Abstrações, sim, sim. E então ela decide tomar a vingança nas próprias mãos. Exatamente como o livro em si oscila entre a fábula e o realismo, o simbolismo e o apego aos acontecimentos, a senhora Dusheiko ao mesmo tempo sabe que é a culpada e acredita na vingança dos animais. Mais do que uma história que ela conta para evitar suspeitas, a narrativa de que os animais estão se vingando dos caçadores que ela espalha pela vila me parece ser sua crença real. Ela é a culpada e é ao mesmo tempo instrumento. Os assassinatos cometidos pela protagonista são ao mesmo tempo muito reais e muitos simbólicos.

É e sempre foi livros que como esse parecem surgir num vácuo e terem milagrosamente gerado a si mesmos do mesmo jeito fantástico que nasciam os deuses gregos. Claro, é possível fazer com Olga Tokarczuk, a autora e recém ganhadora do Nobel, o jogo de influências que todo leitor adora fazer, mas isso não impede que Sobre os Ossos dos Mortos seja um livro radicalmente único, radicalmente inédito. Arredio a todas as interpretações, algo do que esse texto é vítima. Parte fábula, parte surrealismo, parte alucinação, parte romance de detetive. Alegoria sobre aquecimento global e narrativa absolutamente direta sobre a vida e possível loucura de uma senhora.

Na Polônia se anda sobre os ossos dos mortos e se passam leis numa tentativa absurda, kafkiana, de separar vítima e algoz, simbólico e concreto, ocupado e colaborador. Não se separa o tema desse livro de sua forma, as abstrações de sua concretude, Dusheiko e deus animais.

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