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Para Todos Os Garotos: P.S. Ainda Amo Você (e ainda amamos Jenny Han!)

Quando deixamos Lara Jean Covey (Lana Condor) no final de Para Todos os Garotos que Já Amei, ela está com a vida resolvida: ela e Peter Kavinski (Noah Centineo), seu namorado-fake, finalmente confessaram seus sentimentos um pelo outro e estavam prontos para viver esse amor — de verdade agora! O começo de Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você reflete toda essa felicidade e esse amor da Lara Jean por Peter e a segurança que ele traz.

Atenção: este texto contém spoilers!

“Não é hora de fantasiar com a vida num filme dos anos 80,” diz Kitty (Anna Cathcart), ao que Lara Jean responde “Mas hoje é diferente, porque não é fantasia. É minha vida real.”

Esse é o primeiro dos grandes paralelos que o filme faz e que mostram o quanto a personagem cresceu e evoluiu. Enquanto no primeiro filme tínhamos uma protagonista que se sentia mais confortável lendo e fantasiando dentro da própria cabeça sobre o amor, agora no segundo temos uma protagonista que vai ser feliz, sim, que vai amar na vida real.

Tudo está bem e a comédia romântica respira.

PS: Ainda Amo Você

O diálogo inicial segue e, graças a ele, dá pra começar a identificar que o filme será dividido em duas importantes pautas: a felicidade que Lara Jean sente com o amor “real”, não-fantasiado, e a estranheza que é ser, pela primeira vez, namorada de alguém. Enquanto sequência, o segundo filme é coerente com o primeiro em tudo que realmente importa: evolução de personagem, fotografia, cenários e ampliação de mundo. Isso quer dizer que nós efetivamente vemos o que queremos ver (o romance de Lara Jean e Peter), mas também vemos que há mais na vida dos dois que apenas isso, ou seja, o universo se expande.

E se expande tanto que o enredo principal do filme é justamente que a vida não parou de acontecer quando Peter recebeu a carta da Lara Jean e resolveu seguir com o plano infalível de deixar a ex-namorada Genevieve (Emilija Baranac) com ciúmes. No primeiro filme, Kitty manda todas as cartas de Lara Jean pelo correio. Peter recebe a dele, Lucas (Trezzo Mahoro) recebe a dele (e acaba virando um grande amigo de Lara Jean), algumas voltam, mas o paradeiro da última carta sempre foi um mistério. Até agora.

John Ambrose McClaren (Jordan Fisher) foi um dos crushes de Lara Jean e a última carta que ela escreveu, em ordem cronológica, antes de Kitty colocar todas no correio. E o que acontece é que ele responde, super amável. Isso causa uma mini-confusão na cabeça de nossa romântica protagonista, que se pergunta se deveria contar a Peter o que aconteceu.

É um pouco confuso que esse tipo de dúvida esteja deixando Lara Jean tão sem sono, mas quando ela resolve contar a Peter tudo faz sentido. Lembram do universo expandido? Pois é, acontece que John Ambrose era um dos melhores amigos de Peter, e a gente descobre ao longo da história que antes que Gen e Lara Jean parassem de se falar, o grupinho tinha as duas, os dois, a Chris (Madeleine Arthur) e o Trevor (Ross Butler). Finalmente nossos pedidos de triângulo amoroso foram atendidos!

Dê às pessoas não-brancas os clichês que elas merecem!

Assistir a esse filme sendo uma pessoa não-branca é uma experiência, e ela já começa com os flashbacks de Lara Jean quando ela conta sobre sua amizade com John Ambrose, e quão cedo ela começou.

Foi impossível pra mim não me sentir representada pelas cenas onde eles se aproximam quase que naturalmente enquanto crianças, porque a narrativa de pessoa negra que faz amizade com pessoas amarelas e asiáticas fez parte da minha vida inteira. Isso me fez pesquisar pra saber se isso também havia feito parte da vida da Jenny Han. E aí as surpresas começaram.

Talvez algumas pessoas lembrem que John Ambrose nem sempre foi negro. No primeiro filme, enquanto ela lista as cartas, quando aparece John ele é uma criança branca. Branquíssima. Menos pessoas ainda lembram que os pós-créditos de Para Todos os Garotos que Já Amei inclui uma cena de John Ambrose. A criança branca crescida. Naturalmente.

P.S: Ainda Amo Você

Eu, Duds, não me apeguei na imagem de John Ambrose criança e não vi essa cena pós-créditos. Contrariando minha criação de filhote da Marvel, eu simplesmente fui seguir minha vida sem esperar os créditos acabarem. Isso significa que quando Jordan Fisher foi anunciado como John Ambrose eu não liguei tanto e nem vi na internet todas as discussões (em sua maioria baseadas em racismo velado) que vieram a partir dessa escolha.

O que aconteceu afinal?

Quando tudo isso veio à tona depois da Netflix anunciar o “novo” John Ambrose, ninguém da produção falou muito sobre os porquês. Não houve nenhuma militância, não houve briga entre os atores, nada. E cá entre nós o nome de Jordan Fisher é muito maior na indústria, por ter participado de vários filmes e por ter inclusive sido John Laurens/ Philip Hamilton em Hamilton, na Broadway. Inicialmente, do ponto de vista de direção de elenco, parece uma decisão natural. Só que a gente sabe que não é bem por aí.

P.S: Ainda Amo Você

Quando falamos de atores não-brancos sendo escolhidos para papéis é sempre importante que façamos duas perguntas. A primeira é “era mesmo necessário?” e a segunda é “um estereótipo ou padrão que está sendo reforçado?” Nem sempre as duas perguntas têm respostas positivas, o que acaba fazendo com que a gente precise elencar uma prioridade.

No caso de John Ambrose, as respostas são simples. Não, não era necessário que John Ambrose fosse um personagem negro, ele é apenas uma pessoa negra existindo, porque negritude não é personalidade. Mas sim, o personagem reforça um padrão.

Muito embora nos livros John seja descrito como neto de Stormy (Holland Taylor) e o fato da atriz escolhida ser branca contribuiu para que isso fosse retirado do contexto do filme (o que não faz sentido aqui no Brasil, país “miscigenado”, mas faz nos Estados Unidos), as únicas coisas que sabemos sobre ele é que ele é um cara muito gentil, doce e inteligente. Podem ser características de qualquer pessoa.

O filme porém coloca o personagem de John Ambrose sobre duas lentes muito importantes: a da representatividade e a do padrão estereotipado. Se por um lado o roteiro não esquece que Jordan é negro e nos dá frases importantes e fortes como “eu precisava saber que alguém gostava de mim na escola” (só quem é não-branco e preterido sabe…), ele também pode ser um gatilho para os negros que são sempre muito legais e amigos, mas que no final perdem o amor romântico para os brancos.

Estereótipos assim não podem ser ignorados, mas o esforço da direção de elenco em simplesmente colocar Jordan para viver uma história de comédia romântica que é simplesmente negada a pessoas como ele também não pode. Esse é um esforço visto ao longo de todo o filme, em pequenas coisas como o fato do interesse amoroso do pai da Lara Jean ser uma mulher com ascendência indiana, e como o fato da escola ser repleta de pessoas diversas em corpos e em cores (os protagonistas ainda são magros, e isso é mais um passo que precisamos dar).

É impossível não pensar que isso acontece apenas pela história ser escrita e protagonizada por pessoas não-brancas, mais uma vez provando que os não-brancos precisam se unir, contar as próprias histórias e, ainda mais, ocupar espaços que antes eram ocupados apenas por pessoas brancas.

Uma simples história inocente de triângulo amoroso não pode ser protagonizado por pessoas não-brancas? Pode, sim!

A insegurança de ser namorada de alguém

Uma das frases mais fortes de todo o filme é quando Lara Jean e Peter estão jantando e ela diz “eu não estou acostumada a ser a namorada de alguém”, e isso é importante porque dá à história duas nuances muito importantes: tanto se conecta com a Lara Jean do primeiro filme que só queria saber de histórias de amor em livros e filmes, quanto se conecta com a Lara Jean que sempre viu as amigas brancas e loiras sendo “as namoradas” e nunca ela.

É muito legal ver a forma natural com que isso acontece com ela e Peter.

Se por um lado, para Peter, Lara Jean é, claro, super importante, e tê-la a seu lado é uma felicidade e um privilégio, não tem nada realmente muito novo aí. A atuação de Noah Centineo traz uma linguagem corporal de alguém que está muito feliz com seus primeiros encontros (e isso é bem legal de ver), mas o que incomoda Lara Jean é que no mundo dos jovens nada daquilo está realmente acontecendo pela primeira vez com ele.

Porque todas as primeiras-vezes dele foram com Gen, a ex-melhor amiga de Lara Jean.

Pequenas grandes coisas vão deixando Lara Jean insegura ao longo do filme, e é nesses buracos de insegurança que sua “paixão” por John Ambrose volta. Porque parece seguro, e é onde a personagem mais cresce: quando ela precisa encarar essa insegurança. Muito embora ela seja infantil em algumas cenas (como quando decide promover o encontro de velhos amigos para colocar Peter e John Ambrose lado a lado), ela também se vê frente a frente com seus próprios defeitos e seus próprios desejos. Afinal, Lara Jean, o que você realmente quer?

Estamos acostumados com grandes monólogos introspectivos da maioria dos personagens de romances jovem-adulto, mas o que o roteiro do filme e a história de Jenny Han nos dá é a coisa mais humana de todas, porque ao invés de descobrir tudo sozinha, Lara Jean pede ajuda.

Desde a cena com Gen na casa da árvore (uma das melhores de todo o filme, na minha opinião), até o diálogo com Stormy, Lara Jean percebe que, para muito além de #TeamJohn ou #TeamPeter o que mais faz sentido aqui é perceber que apesar de não ser a primeira vez de tudo do Peter, é a primeira vez que ele está vivendo aqueles momentos com ela, especificamente, e mais que isso, é importante que o enredo respeite a história que ele mesmo criou no primeiro filme e honre a crescente da personagem.

E, para desgosto de muitos #TeamJohn, ele faz sim. Que bom!

A sequência foi filmada “back to back”, ou seja, já emendaram as filmagens uma na outra, e enquanto a gente não tem título confirmado ou data de estreia, Para Todos os Garotos que Já Amei e Para Todos Os Garotos: P.S. Ainda Amo Você estão disponíveis na Netflix pra todo mundo que, assim como a Lara Jean, ama o amor!

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