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Crítica: Para Todos os Garotos que Já Amei

Que atire a primeira pedra quem nunca teve uma paixonite (ou várias) na adolescência e preencheu páginas de um diário com os sentimentos mais piegas, porém mais sinceros sobre ela. Ou ao menos se imaginou tendo uma paixonite na adolescência que poderia fazê-la preencher páginas de um diário com os sentimentos mais piegas, porém sinceros sobre ela. Foi mais ou menos isso que Lara Jean (Lana Condor), protagonista de Para Todos os Garotos que Já Amei, fez: sempre que ficava encantada por um garoto, ela escrevia uma carta para ele despejando em palavras todos os seus sentimentos. Ao invés de enviá-las, as correspondências ficavam guardadas dentro de uma caixa em seu closet, até que um dia elas encontraram seus destinatários, e de uma hora para outra a menina se viu protagonizando a história romântica mais inusitada de sua vida.

Atenção: este texto contém spoilers!

Essa é a premissa resumida do longa-metragem baseado na trilogia homônima de Jenny Han. Parece simples, mas Para Todos os Garotos que Já Amei consegue inovar dentro do gênero por dois motivos: primeiro, porque embora a situação seja comum nessa fase da vida, a maneira como o romance se desenvolve é particular para cada garota e características distintas sempre se ressaltam na protagonista e nos outros personagens que a circundam; e segundo — e mais importante —, pelo filme ser protagonizado por uma atriz asiática e receber incentivo apesar disso. Na história, Lara Jean é descendente de coreanos por parte de mãe, mas sua ascendência não determina de forma alguma que ela tenha experiências ou um estilo de vida diferente de outras garotas da sua idade. Sua mãe faleceu quando ela ainda era criança e isso fez com que a família Song-Covey estabelecesse uma dinâmica que funcionasse bem para eles em decorrência disso, mas o tempo passou, e embora o pai, Dan (John Corbett), fizesse questão de preservar aspectos da cultura coreana na rotina da família, o cotidiano deles não diferia em nada de outras famílias estadunidenses.

No princípio da história, Lara Jean está fantasiando um cenário romântico com a sua última crush: Josh Sanderson (Israel Broussard), o vizinho que também acontece de ser o namorado de sua irmã mais velha, Margot (Janel Parrish), que por sua vez está de mudança para a Escócia para cursar a faculdade e por isso desata os nós que a prendem no relacionamento na véspera da sua viagem. Lara Jean jamais trairia a irmã de tal maneira, então, para elucidar e superar os sentimentos que sente por Josh, ela escreveu uma carta para ele — que jamais pretendia enviar —, como fez antes com Kenny (Edward Kewin), do acampamento; Peter (Hunter Dillon), na sétima série; Lucas (Trezzo Mahoro), do baile escolar e John Ambrose (Pavel Piddocke/Jordan Burtchett), da ONU mirim. Seguindo a partida de Margot, começa mais um ano escolar para Lara Jean e Kitty (Anna Cathcart), a esperta e vivaz caçula de 11 anos. O retrato da protagonista como aluna é bastante comum: inteligente, mas “invisível”, o que quer dizer que embora não fosse a rainha da popularidade, também não era uma pária social, e isso não é mau, já que ela sempre podia contar com Chris (Madeleine Arthur) sua melhor amiga descolada. Lara Jean vive conformada nessa situação: altamente sonhadora em sua cabeça, mas muito introvertida para tomar uma atitude na vida real. Ela precisa de um empurrãozinho para vivenciar novas experiências, e quando as cartas são de fato enviadas aos seus destinatários, ela vê sua vida virar de cabeça para baixo.

Para Todos os Garotos que Já Amei

O primeiro a confrontá-la é Peter Kavinsky (Noah Centineo); o Peter-da-sétima-série que posteriormente tornou-se namorado de sua ex-melhor amiga do fundamental e atual abelha rainha, Genevieve (Emilija Baranac). O garoto a aborda na aula de educação física para dispensá-la da forma mais educada possível, já que recentemente ele havia terminado seu namoro com Gen e não se sentia pronto para seguir em frente. Antes de entender completamente a situação, Lara Jean vê Josh caminhando em sua direção com a carta destinada a ele na mão, e para não lidar com a fatídica conversa, ela rouba um beijo de Peter para que Josh veja, antes de sair em disparada já que o chão não iria engoli-la. Como se não bastasse a exposição pessoal, ainda existia o drama de não ferir os sentimentos da irmã com esse triângulo, o que se tornou a preocupação primordial de Lara Jean. Por isso, sua tática foi evitar o conflito, fugindo e evitando Josh conforme necessário. Peter volta à história descontraidamente, sem abusar de Lara Jean no meio da confusão, só querendo esclarecer as coisas e ser um pouco engraçado. É após essa conversa que ele vê uma oportunidade e propõe um relacionamento falso para beneficiar os dois: LJ despistaria Josh e Peter chamaria a atenção da ex para tê-la de volta, como um dos nossos clichês de histórias adolescentes favoritos.

O restante é previsível: a convivência faz a sua mágica e o relacionamento que era falso — celebrado com um contrato envolvendo referências a filmes dos anos 1980 e tudo mais —, acaba abalando os dois corações desavisados. Lara Jean até então tivera dificuldade de se relacionar com as pessoas por conta do medo do abandono, decorrente da perda de sua mãe muitos anos atrás. Ter consciência de que seu trato com Peter era apenas isso, um trato, foi o que a fez baixar algumas barreiras e se permitir ficar na companhia dele e compartilhar alguns de seus sentimentos. Por acaso, ela encontrou no garoto alguma empatia e compreensão, porque ele também foi deixado para trás pelo pai, e esse aspecto em comum nas suas vidas abriu espaço para conversas sensíveis e o acolhimento que ambos secretamente precisavam. Foi assim que se estabeleceu o relacionamento dos dois, a partir de uma amizade sincera, com respeito mútuo de limites e bastante leveza.

Sentimentos são universais. E, acredito eu, seja por isso que sempre caímos nas graças de comédias românticas, independente de quase nunca nos vermos exatamente representadas na tela. As cenas, as amizades, o romance e a moda acabam sendo atraentes demais para boicotarmos as histórias que vendem. É com o gancho nesse viés que Jenny Han escreveu seu ensaio para o The New York Times falando sobre a sua experiência com representatividade nos seus anos de formação. Ela cita Alicia Silverstone e Sarah Michelle Gellar, como Buffy, como suas inspirações na adolescência, mas, ainda que admirasse o estilo de ambas na época, a tentativa de reproduzi-los não caía como uma luva. Esse foi um dos motivos pela qual Jenny foi tão criteriosa na escolha da capa do livro e da protagonista do filme — ela queria que as garotas com a mesma etnia que a sua tivessem a experiência que ela não teve de chegar em uma livraria e ver alguém parecida consigo na capa. Pessoas caucasianas com frequência não percebem o privilégio que têm em sempre ter protagonistas que compartilham das mesmas características físicas que as suas. Lara Jean representa as garotas que nunca tiveram a oportunidade de se verem como as donas da história, não como a melhor amiga da protagonista, nem como interesse amoroso de alguém ou qualquer coisa menos que isso.

“Mesmo antes de o livro ser lançado em 2014, havia interesse em produzir um filme. Mas o interesse morria assim que eu deixava claro que a protagonista tinha que ser asiática-americana. Um produtor me disse, ‘desde que a atriz capture o espírito da personagem, idade e raça não importam’. Eu disse, ‘bem, o espírito dela é asiático-americano’. E foi o fim da conversa. […] Decidi trabalhar com a única produtora que concordou que a personagem principal seria interpretada por uma atriz asiática. Ninguém mais queria fazer isso. Ainda assim, eu segurei o fôlego o tempo todo até o início das gravações, porque eu tinha medo que eles mudassem de ideia. Não mudaram.”

Aileen Xu, produtora de conteúdo sino-americana, publicou em seu canal no YouTube um vídeo relatando a importância que Para Todos os Garotos que Já Amei e Asiáticos Podres de Ricos teve para ela como alguém que não apenas cresceu influenciada por duas culturas, mas também experimentou estabelecer uma carreira na indústria do entretenimento e conheceu de perto os obstáculos enfrentados por causa de sua etnia. É um relato bastante emotivo que transmite seu orgulho de ver uma garota como ela assumindo o protagonismo de um filme tão bem repercutido, e a satisfação em saber o espaço está se expandindo, aos pouquinhos, para outros artistas e eles estão agarrando essas oportunidades e representando um grupo inteiro. Já passou da hora de a indústria perder o medo de apostar na diversidade e subestimar as minorias, acreditando que elas não têm a mesma força de vender histórias e por isso limitam suas participações a meras cotas, com personagens muitas vezes estereotipados, porque ninguém tem a preocupação de explorar todas as suas nuances.

Para Todos os Garotos que Já Amei

Por isso me atrevo a dizer que Para Todos os Garotos que Já Amei é um filme com bastante pé no chão. Lara Jean não está na posição de salvadora de uma história, tampouco carrega os rótulos de garota mais bonita, mais popular, mais inteligente ou mais rica, que justifiquem o fato de ela ser a protagonista e não Chris ou Gen. Ela é uma garota sonhadora em um contexto de classe média comum dos Estados Unidos, que carrega uma herança cultural, sim, mas não a ponto de tê-la como o grande denominador de sua vida, como acontece com Lane Kim (Keiko Agena), em Gilmore Girls. Lara Jean tem um ótimo relacionamento com as irmãs, que tem lá suas escorregadas, mas nada que um bom diálogo não resolva no fim do dia, e com o seu pai, que não é aquela figura ausente, alheio a tudo que acontece na agenda e do coração das filhas como alguns filmes adolescentes gostam de inserir na equação das tramas de vez em quando. Ela lê livros, vai à escola, se interessa por garotos e escreve cartas para expressar o amor que jamais teria coragem arriscar se não fosse o vazamento destas. E isso coloca em movimento a sua trama.

Para Todos os Garotos que Já Amei é mais um filme adolescente para amarmos sem pudor algum e que ainda ultrapassa os demais em questões de representatividade e também por não se resumir apenas ao romance escolar entre garota e garoto, mas os sentimentos que implicam na dificuldade que Lara Jean tem de se relacionar, que é algo próprio dela e independe de quem está ao seu lado. A trama explora sua bagagem emocional num todo e a forma como isso a afeta diariamente, como ela enfrenta diversas situações. Talvez por esse motivo não tenha sido dado ênfase na rivalidade de Gen, tampouco no burburinho repercutido na escola quando o vídeo de Lara e Peter na jacuzzi viralizou. O conflito com os outros não importava tanto quanto as atitudes de Lara Jean em relação àquilo; o centro da trama era apenas ela — desde a mágoa aparente em seu rosto quando ela se viu naquela posição, a decisão de enfrentar sua inimiga ao invés de sofrer passivamente, e recorrer à irmã para ajudá-la mesmo num momento sensível entre as duas. Pela primeira vez em tanto tempo um filme adolescente mostrou sinais evidentes de que o interesse amoroso gostava mais da protagonista do que o contrário, e tomo isso como uma indicação de que Lara Jean é uma personagem bem delineada pelos seus princípios, sonhos e medos, e sua abertura para o mundo vai acontecer a seu próprio tempo, sem deixar de lado quem ela verdadeiramente é.

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