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Quem cuida dos seus filhos quando você não está olhando?

“Quem cuida dos seus filhos quando você não está olhando?”, é a pergunta que aparece em destaque na contracapa de Canção de Ninar, best-seller francês de Leïla Slimani, que em breve estará no Brasil como uma das atrações da Flip 2018. O romance rendeu à escritora o Prêmio Goncourt, o mais importante e tradicional da literatura francesa, o que fez dela, curiosamente, a primeira mulher a receber o prêmio grávida. Quem cuida de seus filhos quando você está ocupada escrevendo livros e viajando pelo mundo?

A pergunta, com variantes específicas para realidade de cada mulher, é velha conhecida de mães que ousam ter uma vida para além de cuidar dos filhos. É uma questão aparentemente simples que, no entanto, sintetiza aspectos mais complexos da maternidade. Existe a cobrança interna e externa enfrentada pelas mulheres, sempre pressionadas a “dar conta de tudo” e culpadas por não conseguirem, e também um problema social mais amplo que diz respeito não apenas à questão da desigualdade de gênero, mas também de classe e raça, como não poderia deixar de ser. Numa realidade em que empresas não se preocupam em manter creches para suas funcionárias, em que poucos países possuem licença maternidade e paternidade justas e equivalentes, em que o serviço público não dá conta de toda a demanda de espaço e assistência para mães com filhos pequenos, e em que o discurso child-free é cada vez mais banalizado, a articulação entre trabalho e criação de filhos acaba simplificada na transferência dos esforços da maternidade com base no poder econômico. Essa alternativa, por sua vez, sedimenta e aprofunda outras desigualdades.

“Mulheres mais e menos abastadas vincularam‐se a milhares de mulheres mais e menos pobres aplicadas ao trato de suas casas, através de infindáveis tarefas e de um grande número de compensações recíprocas. A saída para estudar, trabalhar e equiparar‐se aos homens, ou para a mera permanência no ócio, através da maternidade transferida de umas para outras mulheres, marca seguidos pactos (e guerras) domésticos. Só o cuidadoso preparo dessa transferência de responsabilidades e de afetos no interior da vida doméstica podia impedir o risco de caos na vida familiar. Dados sobre a regulação do tempo doméstico, o controle da concepção e os sistemas protecionistas, quando correlacionados, mostram as muitas faces da lutas  feministas diante destes dilemas existenciais.”

Suely Gomes Costa — Proteção social, maternidade transferida e lutas pela saúde reprodutiva, na Revista Estudos Feministas

No romance, Leïla Slimani navega por todas essas questões com bastante eficiência enquanto constrói um thriller sobre a babá aparentemente perfeita que termina assassinando as duas crianças pelas quais é responsável. Isso é feito de forma mais sutil e menos burocrática — e portanto mais agradável — que os primeiros parágrafos deste texto, mas são questões tão fortes e urgentes que foram nelas que fiquei pensando ao final do livro, apesar de todo o choque de uma história que logo no início já nos informa que o bebê está morto e a outra criança não irá sobreviver. Não é uma reclamação.

A ação se desenrola no apartamento de Paul e Myriam Massé, casal da classe média emergente francesa que está começando a construir uma vida e uma família. Myriam engravidou da primeira filha quando ainda estava na faculdade, e abandonou sua carreira de advogada, que ainda engatinhava, para se dedicar ao cuidado com a família. Pouco tempo depois veio outro bebê e as coisas começaram a se complicar com as dificuldades do puerpério, uma provável depressão pós-parto, e a ausência de uma rede de apoio para auxiliá-la. Quando recebe uma proposta de trabalho vinda de um antigo colega de faculdade, Myriam fica animada pois vê aí uma oportunidade de se refazer como indivíduo, de deixar a alienação da vida doméstica, de ser alguma coisa além de mãe.

O salário que ganha vai praticamente inteiro para babá, algo que ilustra como se dá essa transferência de trabalho feminino, quando o privilégio de ter uma carreira é literalmente comprado em troca do trabalho precarizado de outra mulher que não terá oportunidade de ascensão. No Brasil, país que é campeão em serviço doméstico no mundo, essa é uma equação que tem cor, já que nossa herança escravista faz com que até hoje as mulheres negras sejam maioria nesse tipo de atividade. Leïla Slimani, marroquina radicada na França, pinta o cenário do serviço doméstico num país marcado pela crise migratória. Na agência de babás e na pracinha do bairro, quem cuida das crianças são mulheres expatriadas, que não falam bem o francês; mulheres muçulmanas de hijab que deixam seus patrões desconfortáveis; mulheres que saíram da África, do Oriente Médio e da Ásia deixando seus lares, e muitas vezes seus filhos, para escapar da pobreza e da violência.

Ao ambientar sua história em Paris, a escritora se afasta do Arco do Triunfo para mostrar uma cidade com contornos mais realistas, num inverno gelado em que praças são tomadas por homens bêbados e desempregados, jovens usando drogas e um desfile de nacionalidades periféricas. A família mora num bairro de boa reputação, mas em troca desse status são obrigados a viver num apartamento minúsculo, com cômodos mal distribuídos. A Paris das luzes, dos sonhos, é vista em Canção de Ninar apenas de relance, pela janela. Da mesma forma, a maternidade construída pela autora se afasta da idealização e permite que as mães confessem a própria solidão e a sensação de estar sendo devoradas vivas pelos próprios filhos. A abordagem da autora fez de Canção de Ninar um sucesso de público e crítica, e Leïla Slimani foi convidada pelo presidente Emmanuel Macron a ser algo como uma ministra das relações francófonas, uma escolha estratégica visando a unificação da cultura francesa pela literatura num momento em que política de imigração proposta pelo líder tem gerado controvérsias.

A babá contratada pelos Massé, por sua vez, é branca. Louise é uma mulher de unhas bem pintadas e roupas discretas; viúva e sem filhos pequenos, ela surge quase como uma Mary Poppins saída de um conto de fadas ou como uma babá francesa responsável por educar as crianças que não fazem manha do famoso manual de educação infantil de Pamela Druckerman. Discreta, jeitosa com as crianças, organizada, boa cozinheira e prestativa, ela assume a função de transformar a vida doméstica — antes caótica e remendada — da família em um perfeito lar burguês. Myriam, que é árabe, buscava justamente esse tipo de babá para seus filhos, numa tentativa de fazer com que seu privilégio de classe se sobreponha às dificuldades de se viver num país marcado pela xenofobia e pelo racismo, disfarçando e sufocando qualquer detalhe que possa relegar seu status, e de seus filhos, à penosa condição de Outro.

Não é o dinheiro, que mal dá para o aluguel e as dívidas, que explica a dedicação de Louise para com os Massé, que extrapola bastante suas atribuições como babá. Na verdade, o que ela ganha em troca de manter a casa da família funcionando como num sonho de classe média é a ilusão de também fazer parte daquela vida e daquele mundo, a ilusão de ser mesmo alguém da família, não quase. Em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, a autora disse que quis escrever sobre babás porque elas são figuras que expõem as contradições entre as classes sociais: “Elas alimentam as crianças, ensinam como ser, mas essas crianças não são delas. Há intimidade, os patrões dizem que são da família. Moram na casa, sabem tudo sobre a família e as crianças, mas elas não pertencem àquela casa, àquela família”, disse.

O preço de ser quase da família é não ter uma vida própria para a qual voltar. Longe da casa dos patrões, Louise é uma mulher sozinha, que mora num apartamento sujo e praticamente abandonado à própria sorte, e que não sabe o que fazer consigo mesma nos fins de semana. Quando todos vão viajar num feriado, em vez de ir para casa Louise fica no apartamento e passa todos os dias deitada no sofá, assistindo televisão e fingindo que aquela é a sua vida. Ter intimidade e uma vida particular também é um privilégio, e essa alienação completa de Louise com o resto do mundo fora do trabalho talvez seja uma forma literária de falar sobre essas figuras que frequentemente aparecem no pano de fundo das histórias cujas trajetórias são ignoradas nas narrativas e também dentro de uma sociedade que as trata como invisíveis, assim como as empregadas domésticas. Louise tem problemas que seus patrões não sabem e nem querem saber, que eles preferem ignorar porque isso mancharia a ideia de uma serviçal perfeita, invisível, e sem bagagem alguma que é tão confortável para eles. A própria Louise os evita como se isso fizesse com que eles desaparecessem.

Não é spoiler revelar que essa babá perfeita sequer sabe do paradeiro da filha, que fugiu de casa ainda na adolescência, porque sabemos o ônus de ser uma mulher pobre muitas vezes é ter que abrir mão da própria casa e dos próprios filhos para trabalhar na casa dos outros, cuidando dos filhos dos outros. Myriam só pode se tornar uma advogada de sucesso porque Louise cuida de seus filhos, e em vários momentos surge também uma relação de cumplicidade entre as duas mulheres, mesmo no meio de tantos sentimentos complicados, porque elas são as únicas a carregar esse peso e sabem disso. “Quem cuida de seus filhos quando você não está olhando?” é uma pergunta que nunca foi feita a Paul ou ao falecido marido de Louise, como não é feita a homem nenhum.

Ao revelar o grande clímax da história logo nas primeiras páginas do livro, Leïla Slimani nos convida a prestar atenção na gradual deterioração mental de Louise, que sabemos que é o que a levará a cometer os assassinatos. As contradições sociais as quais está exposta não podem ser consideradas causa da tragédia, mas ter a morte de duas crianças como pano de fundo serve para imprimir nessas contradições, que são o principal tema de Canção de Ninar, o peso e a violência que representam na prática. Além de um thriller ágil, com capítulos curtos e objetivos, o que a escritora constrói é uma lição bem didática sobre luta de classes com o necessário recorte de gênero que passou batido por muitos homens que têm se debruçado sobre a questão ao longo dos últimos séculos.

A história de Louise também lança um olhar interseccional para a questão da igualdade de gênero, que não pode ser pensada, muito menos alcançada, se não forem considerados os recortes de classe e raça, dentre outros, que marcam a realidade das mulheres — aspectos que também passam despercebidos quando a luta é focada apenas nas mulheres brancas de classe média e alta. Esse olhar revela o poder de uma voz como a de Slimani, uma mulher não-branca e não-ocidental, no momento atual, algo que vai além de seu talento, que não é pouco. Seu primeiro romance, Dans le jardin de l’ogre, ainda sem tradução, deve chegar no Brasil no segundo semestre, também pelo selo Tusquets, do grupo editorial Planeta. Em entrevista, a autora diz também que não acha que “um autor de ficção pode mudar o mundo sozinho, mas os leitores de ficção, juntos, podem”. Um fenômeno literário como Canção de Ninar não resolve nenhum dos problemas que apresenta, mas nos faz olhar para eles e usa o choque da história como armadilha para torná-los impossíveis de esquecer.

Canção de Ninar

O exemplar foi cedido como cortesia da Tusquets Editores.


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