Categorias: LITERATURA

Canção de Ninar e o não ver

“O bebê está morto”. Assim começa Canção de Ninar, livro de Leïla Slimani, primeira autora marroquina a vencer o Goncourt, mais importante prêmio literário francês, publicado no Brasil pela Tusquets Editores, com tradução de Sandra M. Stroparo. “O bebê está morto” e, dessa forma, já desconfiamos que as páginas que se seguem a esta pequena frase não serão fáceis. Talvez contenham angústia, medo, violência. Ao começar de forma tão direta, a autora nos dá a chance de escolher se vamos seguir ou não. Já sabemos que não se trata de uma obra leve — mas quem escolhe seguir, não se arrepende por um só instante.

Canção de Ninar se passa em Paris e conta a história da babá Louise, que assassina as crianças que cuida. “Adam está morto, Mila não vai resistir”. O que pode parecer um grande spoiler, na verdade, não é. Nós descobrimos os crimes já nos primeiros parágrafos do livro. O que vem na sequência é uma volta no tempo que nos apresenta os acontecimentos que culminam nas mortes de Adam e Mila. Entre as descrições do que sentem os personagens e passagens do passado distante e recente, sabemos que Louise é uma babá aparentemente perfeita, contratada por Paul e Myriam Massé quando esta decide voltar a trabalhar. No entanto, as idas e vindas do fio narrativo mostram muito além das pistas desse crime, escancarando o quanto os outros nos são desconhecidos e como não buscamos conhecê-los. Também jogam na nossa cara o quanto escondemos o que sentimos ou o que somos, dos outros e de nós mesmos. Nos expõe situações que escolhemos não ver.

“Louise vagava pela rua, desconcertada, os olhos tão abertos que doíam. Na solidão, ela começou a olhar as pessoas. A vê-las de verdade. A existência dos outros se tornou palpável, vibrante, mais real que nunca. Observava nos menores detalhes os gestos dos casais sentados nos terraços. Os olhares oblíquos dos velhotes abandonados. A afetação dos estudantes que fingiam estudar, sentados no encosto de um banco. Nas praças, na saída de uma estação de metrô, reconhecia o estranho desfile dos que estão perdendo a paciência. Esperava com eles a chegada de alguém. A cada dia ela reencontrava os companheiros de loucura, falantes solitários, malucos, mendigos.”

Dentre tudo que Canção de Ninar escancara, podemos citar as angústias da maternidade. Quando Myriam tem Mila, a primeira filha, acredita que nada em sua vida mudará, que ela seguirá sua carreira de advogada recém-formada sem grandes percalços. Não é exatamente o que acontece. Com a chegada do segundo filho, Adam, a vida muda ainda mais. Myriam ama os filhos, mas se sente devorada por eles, sem escapatória, prisioneira em sua casa. E ninguém vê, ninguém sabe o que ela está sentindo, ninguém a salva. Quando recebe uma proposta para voltar a advogar, agarra-se a isso com todas as forças, sente-se voltando a ser ela mesma. E acredita que, agora, a vida ficará perfeita. Mas, mais uma vez, não é o que acontece. Nesse sentido, Canção de Ninar traz à tona os milhões de questionamentos que uma mãe enfrenta todos os dias. A sociedade cobra uma perfeição, uma entrega absoluta, um esquecer-se de si. Porém, a mulher que opta por dedicar-se somente ao papel de mãe também é julgada: como assim fica em casa com os filhos? A mãe que trabalhar fora tampouco escapa ao julgamento: ela é a mulher sem coração, alguém que fica horas longe de casa e deixa seus filhos ao cuidado de desconhecidos. É nessa balança que nunca fica equilibrada que Myriam se encontra nessa história.

Canção de Ninar

“Percebeu que jamais poderia viver sem o sentimento de estar incompleta, de fazer as coisas mal, de sacrificar uma parte da sua vida em função da outra. Tinha feito um drama ao se recusar a renunciar ao sonho dessa maternidade ideal. Teimando em achar que tudo era possível, que ela alcançaria todos os seus objetivos, que ela não ficaria nem amarga, nem esgotada. Não faria o papel de mártir, nem de mãe coragem.”

O entregar os filhos a desconhecidos significa, em geral, entregá-los a babás. É o que acontece em Canção de Ninar, que é permeado por elas. Myriam quer uma babá, uma que seja perfeita — não pode ser uma imigrante ilegal, como muitas são; não pode ser uma magrebina (relativo a Magreb, região noroeste da África), pois não quer alguém falando árabe em sua casa, sua própria língua, que não deseja ensinar para os filhos.

Aqui, poderíamos fazer um imenso parêntese e discutir diversos assuntos que permeiam a narrativa, mas o que desejo abordar são as babás que também não são vistas. Essas babás que são filipinas, marroquinas, africanas, russas, que cuidam de crianças que um dia irão esquecê-las. Babás que se entregam, se apegam aos filhos dos patrões, que saíram de seus países de origem em busca de uma possibilidade de viver melhor, de uma chance de cuidar melhor dos próprios filhos, serão apagadas.

“Em torno do escorregador e da caixa de areia ressoam notas de baúle, diúla, árabe e hindi, palavras de amor são pronunciadas em filipino ou em russo. Línguas do fim do mundo contaminam o tatibitate das crianças, que aprendem alguns sons que seus pais, encantados, as fazem repetir. ‘Ele fala árabe, eu juro, ouça!’ Depois, com os anos, as crianças esquecem, e enquanto o rosto e voz da babá, agora desaparecida, se apagam, ninguém mais na casa se lembra de como dizer mamãe em lingala ou quais os nomes daqueles pratos exóticos que a babá gentil preparava.”

Já Louise parece inesquecível. Branca, franzina, com ares de boneca de porcelana, porém com uma força física descomunal, ela é perfeita demais para ser esquecida. Ela não só cuida das crianças, ela dá conta de tudo, ela doma a casa, ela cria a perfeição. Apesar disso, tampouco é vista. Paul, o patrão, se surpreende ao descobrir que ela tem nádegas; Myriam não pensa que Louise possa ficar doente como todas as pessoas ficam. Ninguém sabe, de fato, quem ela é. Ninguém sabe as profundezas em que essa mulher se encontra, onde parece não ser e nem ter nada. Nada a que se prender. E isso é brutal. No meio do nada não há o que se perder, e isso pode levar
alguém a atitudes extremas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *