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Sexe et Mensonges: o retrato da hipocrisia na sociedade marroquina por Leïla Slimani

Desde que a escritora franco-marroquina Leïla Slimani surgiu no meio literário, sua trajetória vem sendo marcada por atos políticos que dialogam muito com sua literatura transgressora. Em 2016, ela recebeu o Prêmio Goncourt  grávida. Prêmio, aliás, por um livro que discutia justamente o impacto da maternidade na vida feminina, e as relações de classe entre patroas e empregadas. Depois recusou o convite do presidente Emmanuel Macron para ser Ministra da Cultura.

E então, depois de falar sobre maternidade e ninfomania, ela decidiu escrever sobre o que viveu de perto: a vida sexual em seu país de origem. Sexe et Mensonges (Sexo e Mentiras, em tradução livre) é um ensaio de menos de 200 páginas, mas que consegue fazer um grande estrago em nossas cabeças ao discutir como a hipocrisia e o conservadorismo sobre as relações sexuais no Marrocos faz com que a vida de milhares de mulheres e homens seja devastada.

A ideia para escrever Sexe et Mensonges veio de um encontro casual entre Slimani e uma fã em um saguão de um hotel. Na época, ela foi apresentar Dans le Lardin de L’ogre, um de seus best-sellers, no Marrocos. Esse romance conta a história de Adèle, uma mulher que tinha tudo para ser feliz, um casamento e um filho, mas a grama de seu jardim não é tão verde assim. A personagem principal acaba encontrando no vício por sexo uma forma de escapar da queda iminente. Segundo a própria Leïla, no prefácio de Sexe et Mensonges, alguns jornalistas franceses ficaram surpresos que uma marroquina pudesse escrever um romance como esse:

“Eles entendiam esse livro como uma obra ‘livre e sensual’, um livro cru, que conta a história de uma mulher que sofre com o vício por sexo. Como se, culturalmente, eu devesse ser mais pudica, mais reservada. Como se eu tivesse que me contentar em escrever um livro erótico com uma pegada orientalista, digna dos descendentes de Sherazade.”

No entanto, Slimani pensa diferente. Por pertencer a uma sociedade em que o ato sexual fora do casamento é passível de prisão, é óbvio que o sexo torna-se um objeto de obsessão permanente. Que, por ter esse background, parece-lhe muito mais fácil falar sobre frustrações ligadas ao sexo. A Adèle de Slimani é tão, ou mais, hipócrita do que a sociedade onde a autora cresceu.

Voltando ao saguão do hotel no Marrocos, foi lá que Slimani conheceu Soraya, a fã. A mulher, de aproximadamente 40 anos, contou-lhe que um de seus maiores arrependimentos era não ter conseguido ter filhos. Como muitas mulheres marroquinas, ela cresceu em um meio extremamente conservador, com sua mãe lhe dizendo todas as noites em que ela saía de casa para continuar virgem. Através desse relato, Leïla percebeu a força daquelas palavras, o quanto aquelas narrativas se repetiam. Era necessário, absolutamente necessário, escrever um livro a respeito desse assunto.

O livro é estruturado através de capítulos que carregam o nome de suas narradoras. Cada um deles conta uma história diferente, mas que acaba voltando ao mesmo ponto de partida: os efeitos do conservadorismo na vida dos cidadãos marroquinos. Para Slimani, o inimigo não é exatamente os homens, mas toda uma estrutura patriarcal, incluindo as leis, que aprisiona esses corpos.

Fazer amor: o crime original

Zina, ou fornicação, não é apenas uma infração moral. Trata-se de um crime previsto no Código Penal marroquino, passível de prisão de um mês a um ano para qualquer pessoa que tenha relações sexuais com outra não estando unida por laços matrimoniais. Além disso, a homossexualidade também é punida no Marrocos. A pena para ligações entre pessoas do mesmo gênero varia de seis meses a três anos de prisão.

Com esse cenário de proibição, cria-se o que Slimani chama de “institucionalização da mentira”. Isso quer dizer que os cidadãos passam a viver na hipocrisia, encontrando-se às escondidas, em lugares inóspitos, para satisfazer seus desejos sexuais. Em árabe, há uma palavra para essa ideia: hadith. Significa que, se você cair em tentação, deve satisfazê-la discretamente. Você pode se encontrar com outras pessoas, mas jamais ser pego. É um acordo silencioso.

Curiosamente, o único capítulo narrado por um homem, Mustafá, discorre justamente sobre como a institucionalização da mentira funciona no âmbito policial. Ele é o pai de uma das amigas de Slimani e exerce a profissão de policial há 25 anos. Sobre as prisões por causa das relações sexuais entre pessoas não casadas, ele declara:

“A verdade, ele me diz, é que não dá para aplicar as leis. Sinceramente, como vamos deter todos os casais que estão de mãos dadas para verificar se eles são casados? Sabemos muito bem onde os jovens se encontram, mas fazemos de conta que não vemos. É claro que acontece de a polícia realizar verificações nos hotéis, mas é para proteger as mulheres, por exemplo, nas cidades turísticas, onde existe muita prostituição. A verdade é que tudo depende de dinheiro. Quem pode pagar faz o que bem entende. É horrível, mas quando nos obrigam a deter prostitutas, são sempre aquelas que recebem o pagamento em legumes que nós prendemos, não as outras. As prostitutas que andam de carro de luxo, elas ganham, em uma noite, mais do que eu em uma vida inteira.”

Dessa forma, podemos ver como a vida sexual dos cidadãos marroquinos é uma questão de poder. O aparato de poder sustenta a hipocrisia, que sustenta o machismo e a misoginia, e assim vai, chegando em dados alarmantes, como o fato de o Marrocos ser o quinto país no ranking daqueles que mais consomem pornografia.

Segundo Michel Foucault, em A História da Sexualidade, os discursos sobre sexo variam de acordo com as instituições, como a igreja ou a escola. Isso não é bem um problema, porque cada uma delas visa o controle do indivíduo e da população. “O sexo não se julga apenas, administra-se”. No caso do Marrocos, essa administração é realizada através da proibição e dos aparatos do Estado. Ainda citando Foucault, o poder não acontece simplesmente através da sujeição dos cidadãos a uma determinada norma, mas sim através do jogo entre forças. No Marrocos, essas forças opostas estão sempre no campo de enfrentamento, simbolizado por esses corpos que não podem se satisfazer.

Mesmo dentro de leis extremamente rígidas, algumas mulheres conseguem insurgir e rebelar-se contra o sistema. É o caso de Malika, uma médica que relata ter atestado falsamente a virgindade de uma moça no hospital onde trabalha. No Marrocos, é possível pedir uma prova médica da virgindade para que o casamento seja feito “dentro dos conformes”. Em outra ocasião, Malika discutiu com um colega que queria denunciar uma mulher solteira diagnosticada com gravidez extrauterina. Para ele, era mais importante denunciá-la às autoridades do que protegê-la.

Sexe et Mensonges

Solteiras ou casadas, elas estão sempre em desvantagem

Como poderíamos imaginar, as mulheres são as mais afetadas pela proibição do sexo fora do casamento. Isso porque são elas que precisam recorrer a clínicas clandestinas de aborto quando acabam engravidando, correndo o risco de serem presas e condenadas pelo Estado. É interessante observar como, no caso do aborto, o Marrocos guarda muitas semelhanças com o Brasil. Assim como aqui, lá o aborto é permitido apenas em casos de estupro, má formação, ou, ainda, adultério.

Mas há casos ainda mais graves. Slimani nos conta a história de Amina El-Filali, uma jovem que se suicidou depois de ter sido estuprada e obrigada a se casar com o estuprador. Sua família fez um arranjo para casar os dois, pois, dessa forma, segundo o Código Penal, ele não poderia responder na Justiça por seu crime. Houve uma grande mobilização da sociedade, sobretudo das feministas marroquinas e, devido à pressão popular, foi retirado do Código Penal a lei que ditava que um estuprador não poderia ser perseguido na Justiça depois de se casar com a vítima.

Casadas ou solteiras, a corda sempre arrebenta para o lado das mulheres. Malika relata a discriminação que sofre por ser solteira, pelo o que ela representa para a sociedade marroquina: uma mulher em seus 40 anos que não é mãe e possui um cargo elevado na sociedade. É como se ela fosse a personificação de tudo aquilo do qual a sociedade marroquina mais despreza. E, no entanto, apesar de ser desprezada no espaço público, no espaço privado ela é alvo de homens que desejam uma noite descompromissada com as mulheres que “não são para casar”. Mais tarde, esses mesmos homens serão aqueles que pedirão um certificado de virgindade à noiva, para saber se ela ainda pode se casar com eles.

Dessa forma, podemos perceber a importância da questão da liberdade sexual que Leïla tanto prega no livro. É só com uma liberdade sexual plena que temas como o aborto e o machismo poderão ser discutidos de maneira límpida. O conservadorismo que detém esses corpos é a causa de mortes e doenças, e suas vítimas são sobretudo as mulheres. Enquanto a narrativa padrão for a do conservadorismo, não há maneira de avançar. Acredito que seja por isso que Leïla Slimani quis escrever um ensaio como Sexe et Mensonges. Ela sabia de seu alcance na Europa, e fazer com que a narrativa dessas mulheres silenciadas seja conhecida é uma maneira de iniciar uma revolução.

Chimamanda Ngozi Adichie nos alerta para o perigo de uma história única. Qual é a nossa história sobre o Oriente? É muito provável que seja uma visão orientalista, aquela em que o Oriente se resume a um lugar muito atrasado, com sujeitos passivos esperando os bravos salvadores europeus. Slimani, através de Sexe et Mensonges, nos mostra essa história de uma maneira totalmente diferente. As mulheres marroquinas lutam por seus direitos. Elas organizam manifestações e não precisam que os europeus venham salvá-las. Elas, inclusive, saem do Marrocos e ganham o Goncourt. Com Sexe et Mensonges, percebemos a força das mulheres marroquinas, guerreiras que tentam mudar as estruturas, ou mesmo conviver da melhor forma possível com elas.

Espero que tenhamos uma linda tradução brasileira desse livro, pois ele merece ser conhecido por qualquer pessoa que queira entender o funcionamento da sociedade marroquina e suas estruturas de poder. Em muitos aspectos, ela se parece com o Brasil, e isso é bastante assustador.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. A arte no corpo do texto é de autoria da editora Yuriko.

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