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Isso não é um cachimbo: uma reflexão sobre como vemos e consumimos arte

Um dia desses fui ao cinema com os meus pais. Estava tendo aqui em São Paulo uma mostra do Ingmar Bergman, em homenagem ao centenário de seu nascimento, então resolvemos passar um sábado quente de inverno dentro da sala de cinema. Um dos filmes que vimos foi Monika e o Desejo (1953), até então inédito, tanto para mim, quanto para meus pais. O filme é lindo e nós amamos, mas a experiência de assisti-lo também me trouxe vários questionamentos que vão além do filme e que vão além de qualquer obra.

No filme, Monika (Harriet Andersson), a protagonista, se sente presa em sua própria rotina e junto com seu namorado, Harry (Lars Ekborg), decide ir embora da cidade e de todos. Eles passam o verão no barquinho do pai de Harry, desembarcando em praias, comendo o que conseguem achar — ou roubar —, e sonhando com o futuro juntos. Quando Monika fica grávida, Harry se preocupa e eles decidem voltar para Estocolmo; de volta à cidade, à rotina, às obrigações, à vida sem dinheiro. Harry parece satisfeito, mas Monika não. Ela, que não queria essa vida, e já havia fugido antes, queria ser livre.

Durante todo o filme, eu fiquei preocupada. Acostumada com outros filmes do Bergman, assisti já prevendo algum desastre, algum evento devastador — mas ninguém ficou doente de cama gemendo de dor, nem a morte apareceu para levar ninguém. Mas mesmo assim, eu continuei apreensiva, temendo que Monika fosse julgada demais, não apenas pelos outros personagens do filme, mas pelos espectadores; temi que as pessoas iriam odiá-la por não ser a mulher que esperavam que ela fosse, por não ter dado mais atenção aos outros, ao Harry, ao seu bebê.

Quando o filme terminou, virei para os meus pais e perguntei se eles haviam gostado, mas parte de mim estava receosa com o que eles iriam dizer. Eu queria proteger Monika, fazer as escolhas dela serem válidas diante de uma sociedade que está sempre esmagando pessoas que querem outras coisas, principalmente mulheres. O que os meus pais me disseram me desarmou. Eles amaram a Monika, eles gostaram do filme e se identificaram com ela. Nada do que eu temia aconteceu. Eu até me perguntei se tinha visto o mesmo filme que eles.

uma reflexão sobre como vemos e consumimos arte

Temos uma relação complexa com a arte. Antes de tudo, ninguém sabe muito bem como defini-la, mas é fácil demais julgar algo que achamos ruim, ou não gostamos, como não pertencente daquilo que é arte. No final, a arte pode ser muitas coisas e também pode se sobrepor e acumular outros significados e conceitos.

O que é arte também pode ser político. Muitas vezes, associamos a crítica de arte com posicionamento político — o cancelamento da exposição Queer Museu em 2017 é um grande exemplo disso —; é cobrado de artistas um posicionamento político, obras são amadas ou odiadas pelo seu conteúdo político, etc. Isso acontece em todas as esferas, desde o crítico literário Roberto Schwarz cobrar do movimento da Tropicália (e do Caetano Veloso) um engajamento político alinhado à esquerda, até pessoas cobrarem da Taylor Swift uma posição política nas redes sociais.

Por outro lado, há quem acredite que a arte não tem nada a ver com política. Arte é estética e política é política. No mundo contemporâneo, esse discurso parece estar cada vez mais datado. Artistas de todo o mundo se posicionaram sobre o movimento #MeToo, artistas de todo o mundo se posicionaram quando Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados no Rio de Janeiro e, recentemente, a atriz Scarlet Joahansson, após fortes críticas nas redes sociais, anunciou que não irá mais interpretar um homem trans no filme Rub & Tug. As discussões de representatividade e inclusão, além do movimento negro, movimento LGBTQIA+ e o movimento feminista, estão mudando a forma como consumimos arte e conteúdo. E isso é positivo. Paradigmas estão sendo quebrados, assuntos velados estão sendo discutidos publicamente e mudanças estão, a passos lentos, realmente acontecendo.

uma reflexão sobre como vemos e consumimos arte

Ao falarmos de arte, em geral, usamos absolutos. Ou é, ou não é arte. Ou é político, ou não é político. Talvez falte na nossa educação artística uma visão com mais nuances e menos afirmações categóricas. Afinal, a arte só pode ser arte quando há o espectador. Se uma artista pinta um quadro, faz um filme, compõe uma música, sua obra só será considerada arte após ser vista, compartilhada, apresentada para o público — a arte só é arte no olhar do outro. Ou seja, quem faz a arte — além da artista, é claro — é o público. Só depois de vista, a obra pode ser interpretada, e quem completa esse esquema é o público, a audiência, o espectador.

Muitas vezes, trocamos a ordem desse sistema e acabamos julgando alguma obra antes mesmo de vê-la por completo. Isso acontece em diferentes estágios; acontece quando deixo de assistir alguma série ou filme porque tem algum ator que não gosto e já acho que vai ser ruim, ou quando estava no cinema com os meus pais vendo Monika e o Desejo, achando que o filme iria condenar sua personagem a um estereótipo feminino negativo. A minha vontade de proteger a personagem do julgamento alheio, e o costume de ver personagens femininas mal representadas e desenvolvidas, treinou o meu olhar para sempre estar esperando algum tipo de “falha” em qualquer obra que eu veja. Antes mesmo de terminar o filme, já achava que a personagem foi injustiçada e mentalmente estava escrevendo um textão em sua defesa. Entretanto, no fim do filme, minhas expectativas foram frustradas, pois ao contrário de mim, o filme não julgou seus personagens e a Monika, a quem eu queria tanto proteger, sabia muito mais de si do que eu.

Uma das coisas mais legais sobre arte é que ela pode ser política. A arte pode mudar o mundo, mudar a forma como as pessoas pensam e processam informações, a arte carrega discursos poderosos que moldam a nossa cultura. Contudo, a arte também é estética, é beleza, é emoção. A arte mexe com a gente de muitas formas e, para isso acontecer, precisamos abaixar nossas defesas, nos colocar mais vulneráveis para sermos afetados por ela, para podermos sentir. A arte não precisa ser uma coisa ou outra, pois na arte cabe todas as definições, afinal, quem define a arte é quem a vê.

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No entanto, o meu erro, e o erro de muitas de nós, é julgar e interpretar antes mesmo de ver a obra. O meu medo do julgamento dos outros quando vi Monika e o Desejo me impediu de ver o filme como gostaria, me impediu de senti-lo e de apreciá-lo por completo. É claro que é uma consequência mínima e extremamente individual e subjetiva, mas ir armada para o cinema não me fez ser mais feminista ou mais política do que as outras pessoas na sala, só me fez ficar tensa e me preocupar com o que estava fora do meu alcance.

Se antes mesmo de vermos a obra já vamos com o intuito de problematizar e julgar, algo pode se perder no meio do caminho. Uma boa obra nunca é monológica, e nela cabem muitas significações e interpretações. Se vamos ao cinema já predispostas a não gostar, ou com a preocupação de dar um significado maior ao filme, talvez esqueçamos aquilo que é mais legal da arte — o que ela comunica e o que nos faz sentir.

Muitas vezes é confuso olhar a arte de forma crítica, pois os discursos — principalmente na internet, onde é difícil existir nuance —, estão cada vez mais absolutos, e a nossa opinião é cobrada antes mesmo de sabermos qual é o tema da discussão. O que se perde no meio disso é lembrar que sim, é possível gostar de uma obra e também analisá-la de maneira crítica. A arte é formada a partir do olhar externo — do nosso olhar —, e é a nossa responsabilidade vê-la, interpretá-la e (tentar) entendê-la.

Não quero dizer aqui que a problematização não seja importante, pois ela é. Não é contra as leis assistir um filme antigo com o olhar contemporâneo, afinal, somos livres para analisar qualquer obra. Seja qual for a reflexão sobre como consumimos arte e conteúdo, ela é válida, pois isso nos auxilia a perceber os nossos hábitos e também nossos erros. O mundo nunca foi perfeito, e a arte nos ajuda a olhar para o outro, a termos empatia e a nos comunicarmos melhor.

No entanto, a arte não é apenas crítica (e olha que eu me formei em Crítica Literária); a arte também é apreciação estética, a arte nos faz vulneráveis para sentir outras coisas, para sermos afetados por outras emoções, a arte pode nos trazer novas experiências. Eu perdi isso quando fui assistir Monika e o Desejo, porque fiquei tão preocupada com o julgamento dos outros, que esqueci de pensar por mim mesma.

Confiem em vocês, assistam apenas pelo prazer de assistir. Vale a pena.


** A arte do texto é de autoria da colaboradora Clara Browne.

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2 comentários

  1. Voce, Júlia, mostra que a experiência e a auto-reflexão produzem conhecimento e de uma maneira tão bacana…. a pedagogia de ensinar o que aprendeu é verdadeiro, mas tambem é convidativo ao universo do contexto, da arte.
    Sacou e sacou por dentro. Eu adorei isso, a arte pode ser e é estética, e beleza é sentimento, tirei um acento onde tinha porque fica lindo assim e isso já estava lá, tambem. Fruir a beleza estética nos faz ser mais aquilo que já somos, nos potencializa em nossa sensibilidade, nos torna mais humanos, como Rubleov. Adorei esse texto!
    É muito do que eu mesmo gostaria de dizer, mas não posso, porque nao sei dizer “assim de um modo explícito”. Eu estava lá e tambem tive medo do que ia sentir da Monika, mas já tinha vivido o suficiente para ter já me arrependido de odiar monikas, por nao conseguir ama-las. Posso admirar sem julgar. Uma das coisas que mais prezo nas minhas aulas é que os alunos possam admirar o que os colegas produzem. Admirar pode vir antes de compreender.