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Os romances trágicos em The Killers

The Killers emergiu na cena do rock dos anos 2000 em um contexto mais indie e alternativo do que seus pares. A banda, formada em Las Vegas, originalmente inspirada pelo som do Is This It (2001) do The Strokes, explora relações dramáticas e romances trágicos em sua discografia.

Embora baladas românticas não sejam o foco da banda na maioria de seus trabalhos, que se concentra muito mais em um retrato mais cru e catártico sobre tragédias pessoais, saúde mental, histórias macabras e, mais contemplativamente, a busca por si mesmo sufocada em frustrações pessoais dentro de realidades limitantes, emulando experiências específicas deste cenário — própria e de outros — é possível pinçar em suas letras um certo fascínio pelos amores que não são para ser.

De mitos sangrentos da literatura grega como o de Medeia e Jasão até o romance mais trágico de todos os tempos, o clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare (datado por volta de 1500-1600), e suas ramificações na cultura pop, como o épico e atemporal Titanic (1997), o destino fatalístico dos amantes são um tema recorrente nas mais diversas formas de contar histórias. Em The Killers não poderia ser diferente. A banda considerada “britânica por excelência”, por emular o glamour dos grandes nomes oitentistas, como Freddie Mercury e David Bowie, além de explorar a sonoridade apoteótica do “stadium rock” de grupos como o Depeche Mode e U2, é lançada ao estrelato com um trabalho consistente e um hit duradouro sobre traição: “Mr. Brightside”.

Recorrente nos medidores musicais até dias atuais, a canção mais marcante da banda segue o eu-lírico na angustiante situação de presenciar sua namorada com outro homem. Inspirada em um acontecimento pessoal vivido pelo vocalista e principal compositor do grupo, Brandon Flowers, que encontrou sua então namorada o traindo em um bar de Las Vegas, “Mr. Brightside” é descritiva o bastante para conseguir a empatia e causar identificação naqueles que já se viram em cenas tão sufocantes quanto esta:

“Agora eles estão indo para a cama
E meu estômago está embrulhado
E está tudo na minha cabeça
Mas ela está tocando o peito dele agora
Ele tira o vestido dela
Me deixe ir
Eu simplesmente não consigo olhar 
Está me matando
Eles estão tomando o controle”

Flowers contou ao New Musical Express que, na época em que escreveu a música, tudo ainda era muito recente, o que torna a profusão do que sentia naquele momento muito verossímil, bem como extremamente simples, o que justifica um refrão raivoso, frustrado e, por fim, conformado, que combinado a um riff de guitarra memorável, transforma a faixa em um sucesso imediatamente reconhecível entre aqueles que vivem pelas grandes canções sobre corações partidos:

“Ciúmes
Jogando santos dentro do mar
Nadando em doentias canções de ninar
Sufocando em suas justificativas
Mas esse é apenas o preço que eu pago
O destino está me chamando
Abro meus olhos ansiosos
Porque eu sou o Sr. Otimista”

De fácil identificação, pois, segundo o compositor, as pessoas “pegam essas coisas” encaixando-as em nuances de suas próprias experiências, o hit parece dar o tom de um dos temas que seguiria com o grupo em outras faixas do primeiro álbum, Hot Fuss, eleito pela revista Rolling Stone um dos melhores da década de 2000, e por seus trabalhos seguintes: as desilusões amorosas.

Seja pela infidelidade, pela paranoia, a falta de timing ou pela tragédia de um crime, os relacionamentos desastrosos encontram espaço na música do The Killers, que parece ter consciência disso. Em 2007, para o experimental Sawdust, um álbum que chegou com um compilado de covers e músicas lado B descartadas, a banda fez a sua própria versão da clássica “Romeo and Juliet” da banda britânica Dire Straits (1980).

Na faixa, o casal mais conhecido do mundo é retratado sob uma perspectiva moderna, onde Romeu continua a cantar serenatas às escondidas sob o balcão depois de Julieta abandoná-lo por outra pessoa, alguém com quem ela contracena agora que está famosa em detrimento das intensas promessas de amor feitas antes, um aspecto que não muda em relação à história original de Shakespeare (“Você prometeu tudo, você prometeu estar no bom e no ruim/ Agora você apenas diz: Ah Romeu, sim, você sabe que eu tinha uma cena com ele”). Apesar da decepção, contudo, o sentimento de Romeu segue o mesmo:

“Não consigo falar, como eles falam na TV
E não consigo fazer uma canção de amor, do jeito que deve ser
Eu não consigo fazer tudo, mas faço qualquer coisa por você
Não consigo fazer nada além de amar você
E tudo o que eu faço é sentir sua falta e o jeito que costumávamos ser
Tudo o que faço é manter o ritmo e as más companhias
Tudo o que faço é beijar você através da métrica de uma rima
Julieta, eu iria às estrelas com você, a qualquer momento”

Ainda, a mitologia da banda é permeada pela conhecida teoria sobre a chamada Murder Trilogy [Trilogia do Assassinato]. Distante do amor-romântico, a história contada em três partes com letras ambíguas capazes de expressar alguma dúvida sobre o real tema das canções em uma decisão criativa mais sutil e assertiva, retrata a obsessão de um homem após o fim de seu relacionamento com a personagem principal — já icônica na discografia dos Killers — Jennifer.

Dessa vez, Flowers disse não ser o eu-lírico das canções, embora suas letras tenham sempre um tom autobiográfico, pois acompanhar a pessoa que você gosta seguir em frente com outra é sempre difícil. Assim, ainda que por meio de uma alegoria macabra, é possível se conectar com esse sentimento de apego e frustração, apesar de a maioria das pessoas não chegar ao extremo narrado pelo pequeno, mas denso, conto.

Segundo o canal do YouTube Middle 8, a trilogia seria baseada em um crime real acontecido em 1986. Jennifer Levin foi encontrada morta no Central Park, na cidade de Nova York, estrangulada pelo ex-namorado, Robert Chambers, em um caso que ganhou extrema cobertura da mídia estadunidense e motivou o documentário de 2019, The Preppy Murder: Death in Central Park, da AMC. Pode ser desse caso que o The Killers retirou elementos  para uma história que começa na canção “Leave the Bourbon on the Shelf” do álbum Sawdust.

Na faixa, lançada poucos anos depois daquelas que chegaram no Hot Fuss, o protagonista verbaliza sua insatisfação pelo término com Jennifer por meio de divagações bêbadas onde, ao mesmo tempo, a inferioriza e diz amá-la eternamente: “Deixe o bourbon na prateleira/ E eu vou beber sozinho/ E eu nunca gostei do seu cabelo ou das pessoas com quem você anda/ Mas eu não estou satisfeito/ Até te segurar forte”. E, se na primeira parte, o personagem pede para ter uma nova chance, a continuidade vem em “Midnight Show”, onde as coisas se tornam um pouco mais assustadoras quando a letra narra “show da meia-noite”, que acontece em uma viagem de carro para um lugar aparentemente isolado e ele diz “Ela virou seu rosto para falar/ Mas ninguém a ouviu gritar” terminando sua reminiscência após o ápice da canção:

“Oh, a maré quebrando não é capaz de esconder uma garota culpada
Por corações ciumentos que começam com gloss e cachos
Eu tomei o ar do meu amor sob o lustre 
Das estrelas na atmosfera
E a assisti desaparecer 
No show da meia-noite”

Ainda, ele menciona que tem um cobertor no banco de trás do carro, fazendo uma alusão dúbia a uma relação sexual ou ao modo de esconder um corpo, questionando se o ouvinte pode guardar um segredo. A canção termina com uma fuga de carro, mas a continuidade vem em “Jenny Was A Friend of Mine”, que inicia com uma interpolação do som de um helicóptero e do ruído de sintonização de TV (um canal de notícias?) introduzindo a cena de um interrogatório policial, onde ele “conhece seus direitos” e repetidamente afirma: “Não há motivo para este crime/ Jenny era minha amiga”.

Apesar de confirmar que esteve com Jennifer e que houve uma discussão durante o passeio daquela noite, há uma distorção na história quando ele conta que Jennifer disse que o amava, mas precisava estar em outro lugar. Dessa forma, distancia-se da cena do crime e da mulher de maneira romântica, de forma que realmente faltasse motivo para cometer qualquer crime, uma estratégia perspicaz para um um acusado de feminicídio.

Assim termina a Trilogia do Assassinato, que pode seguir com uma das muitas músicas sobre redenção que a banda criou ao longo dos anos. Em 2005, foi confirmado por Brandon Flowers e pelo baterista Ronnie Vannucci, que se tratava de uma pequena história contada em três atos, em parte inspirada pelo verso “I love the romance of crime” da canção “Sister, I’m a Poet” de Morrissey (1993), sobre o qual o vocalista diz ter estudado muito. Todavia, nunca se falou abertamente sobre o tema central de sua tragédia musical, além de ter tocado as faixas em ordem apenas duas vezes, em 2007.

Em uma decisão pessoal, Brandon já explicou que decidiu não atribuir interpretações oficiais e significados concretos às suas letras, deixando as possibilidades em aberto às experiências de cada pessoa. Ademais, concretizar a teoria, ainda que para apresentações ao vivo, escancararia o fundo misógino do relacionamento macabro, de forma que a sutileza das decisões criativas tomadas para tornar a narrativa menos gráfica seria deixada de lado em nome da curiosidade pela curiosidade.

De qualquer forma, o trio questionável, mas narrativamente bem construído, coloca a banda, definitivamente, entre os grandes contadores de história da música, que sempre os inspiraram, como Bruce Springsteen e a lendária dupla Elton John e Bernie Taupin. Não à toa, o primeiro faz uma ilustre participação em “Dustland”, 13 anos depois do lançamento oficial de uma das faixas mais apoteóticas da banda em Day & Age de 2008, A “Dustland Fairytale”, que aborda de forma bastante fantasiosa o relacionamento dos pais de Brandon.

Flowers afirma que nunca passou por muitas dificuldades familiares, tendo sempre vivido em um lar relativamente estável, onde seus pais se amavam. Mesmo assim, o tom dado à letra é bastante fatalista e urgente. O “Conto de Fadas da Terra Empoeirada” tem início em 1961, quando o casal se conhece aos 15 anos em um parque de trailers, vinte anos antes do nascimento de Brandon, e aborda os obstáculos da relação, dos sacrifícios feitos por sua mãe até os demônios de seu pai — dentre eles, a bebida alcoólica.

Reconhecendo que a letra é “como um carta de amor”, que descreve muito metaforicamente os altos e baixos da relação entre aquela Cinderela “de cabelos castanhos e olhos tolos” e o “Príncipe Americano de croma liso”, o vocalista contou nas redes sociais que foi uma tentativa de tentar compreender seu pai, o qual, apesar de ser sua ligação com a América que frequentemente retrata na mitologia do The Killers, é um mistério; assim como de lamentar por sua mãe, “de tentar reconhecer seus sacrifícios e, talvez, ter um vislumbre de quão forte o amor deve ser para acontecer nesse mundo.” Por isso, é apenas na sexta estrofe, após crises que envenenam a mente e deixam castelos no céu, abandonados e vandalizados, fechando pontes levadiças, como se o fim daquela relação estivesse muito próximo, que o ponto de ruptura acontece:

“Eu vi Cinderela em seu vestido de gala
Mas ela estava procurando por uma camisola
Eu vi o diabo amarrando as mãos dele
Ele está se preparando para o espetáculo
Eu vi o final quando eles viraram a página
Eu peguei meu dinheiro e corri
Direto para o vale da grande divisão
Lá fora, onde os sonhos são altos
[pois] Aqui, o vento não assopra 
Aqui, garotas boas morrem 
E o céu não neva 
Aqui, os pássaros não cantam
Aqui, os campos não crescem
Aqui, o sino não toca”

O amor, na visão da banda, constantemente chega com provações — sejam elas relacionadas à questões pessoais, à escolhas alheias ou à própria realidade sufocante das pequenas cidades do deserto em torno de Las Vegas, tomadas como uma eterna fonte de inspiração para o tipo de história que o The Killers conta, ainda que sejam românticas. Na recente “Caution”, do aclamado disco Imploding the Mirage (2019), a personagem principal que possui “olhos de Hollywood” sente a urgência de deixar um lugar nada promissor para trás: “Porque é um tipo de pecado/ Viver toda a sua vida/ Em um ‘poderia ter sido’.” 

Trata-se de uma releitura de um tema que esteve presente desde os primórdios da banda, como em “Read My Mind” do álbum Sam’s Town. Entretanto, ao passo que atualmente a personagem principal se mostra mais independente, em 2006 havia um casal com planos de deixar uma cidade sem grande futuro, ao mesmo tempo em que esse lugar é repleto de lembranças significativas para o eu-lírico, como canta já nos primeiros versos:

“Na esquina da rua principal
Apenas tentando manter a linha
Você diz que quer seguir em frente
E que eu estou ficando para trás
Você pode ser minha mente? 
Eu nunca desisti de verdade
De dar o fora dessa cidade pífia
Eu tenho o sinal verde
Eu tenho uma pequena batalha”

É então que chega a questão da escolha entre a necessidade e o desejo, pois nem todos são capazes de deixar esse lugar de frustração. Por isso, as relações que crescem no desapontamento com o que aquela vida cheia de promessas se tornou são afetadas, pois o que poderia ter sido, ou tudo aquilo que a vida foi antes de se estabilizar num marasmo de escolhas seguras, vai se tornando pesado. E como “Tranquilize” (feat. Lou Reed) deixa claro, o tempo pode ser cruel com esse personagem constantemente afetado por suas memórias:

“O tempo faz efeito, vivendo em minha cidade natal
Sinos de casamento, eles começam calmos

[…]

Foi por pouco, era amor ou foi apenas fácil?
O dinheiro fala alto quando as pessoas precisam de sapatos e meias

[…]

Veja, eu estava pensando que fiquei louco
Mas isso está me atacando o tempo todo
E não para de me puxar para baixo

[…]

Reflexão silenciosa transforma meu mundo em pedra
Correção paciente deixa a todos nós sozinhos
E, às vezes, eu sou um homem viajante
Mas hoje esse mecanismo está falhando”

Esses são questionamentos autoimpostos a muitos dos personagens das composições da banda, os quais emergem de forma mais ou menos explícita. Em “In Another Life” do Pressure Machine (2021), trabalho mais recente do grupo, demonstra-se como podem haver complexidades em torno da vida de um casal, ainda que seja aquele que tenha ficado naquele lugar aparentemente sem futuro em um emprego comum, vivendo uma vida pacata em detrimento dos sonhos da juventude explorados em “Runaway Horses” (feat. Phoebe Bridgers), onde eles cantam:

“Você trocou a escola por anéis de casamento e dívidas
Convites enviados por vocês em um celeiro nos arredores da cidade
Garota de cidade pequena, você coloca seus sonhos no gelo, 
Nunca pensando duas vezes,
Alguns você certamente esquecerá a alguns você nunca irá 
Havia uma promessa em nosso caminho
Mas mudamos os cursos de cabeça para o desconhecido” 

Dessa forma, o eu-lírico abertamente questiona as escolhas da esposa sobre o que se tornaram com o passar do tempo: esta é a vida que escolheu para si mesma ou apenas como acabou sendo? Ela queria se tornar uma esposa, e consequentemente, mãe, ou apenas não teve forças para se livrar da opressão daquele lugar e estava vivendo em looping a vida de outra pessoa, uma que não tinha sonhos sobre outras possibilidades?

Como um eu-lírico masculino, ele pode apenas questionar sem muitas respostas concretas, mas isso deixa claro, também, que se trata de uma frustração que parte também dele e não de forma rancorosa, nesse momento, pois no verso “Querida, eu posso responder pelo sonhador sem esperança” há a aceitação de que estaria tudo bem se aquela não era a vida que ela havia sonhado, pois ele também se sente dessa forma. Como um casal, eles se tornaram o que poderiam ser e só poderiam se conformar em se ver naquele outro casal jovem de mãos dadas, que o lembrava deles em outra vida, quando os sonhos pareciam mais próximos; se reconhecer nas canções country, conhecidas por histórias de desesperança semelhantes à dele e imaginar como tudo teria sido — o que se conecta diretamente ao pecado de “Caution”, viver sem saber o que havia além do óbvio.

É a partir dessa seara de decepções consigo mesmo e com o mundo cruel ao redor, que chegam as frustrações de “In the Car Outside”. Parte da mesma trilogia sobre esse amor desventurado e conformado explorada no Pressure Machine — um álbum de sonoridade mais contida e menos “stadium“, lançado durante a pandemia —, representa melhor a frustração com essa realidade pequena demais cantando “Eu coloquei esse filme na janela, que se parece com vidro de capela/ Mas quando ela fica brava, é como se a sombra da cruz/ Não lançasse nenhuma benção sobre nossa vida solitária/ É como esperar um trem passar, e não sei quando ele irá passar”.

Deste modo, enquanto a antiga “Tranquilize” termina com um tom de esperança sobre ser aquele que ainda têm em que acreditar, apesar de toda a opressão deste mundo de desilusões, na mais recente surge a possibilidade de uma traição com uma “antiga paixonite do colégio”, algo que vêm como um alívio de toda aquela realidade sufocante do casamento, da família e do que poderia ter sido. Na faixa, ele diz “É como se a parte de mim que grita para não se precipitar desaparecesse sob o som do trem”, por isso, o carro é usado como uma metáfora para representar como, ao mesmo tempo, pode se afastar e voltar para sua vida a depender da escolha que fará nesse momento crucial.

Esse é um tema dissecado em “Daddy’s Eyes” no longínquo Sawdust, onde o pai explica ao filho as razões para estar indo embora. Na letra, ele espera que o menino possa compreendê-lo quando estiver mais velho, mas a questão, além de armar outra mulher, é que “Às vezes, as pessoas se cansam/ E eu acordei um pouco tarde para mentir/ Sonhos deveriam durar bastante”. Porém, fica explícito na discografia da banda o quão difícil é fazer os sonhos durarem e, mais ainda, fazer permanecer aquela chama de juventude, que representava a gana de conseguir fazer melhor do que aqueles que julgavam quando jovens.

Ter essa consciência de que toda a relação está fadada ao fracasso por um motivo ou outro, no entanto, não significa podar sua intensidade e o fascínio apaixonado que existiu um dia para fazer funcionar, em tempos mais simples e menos carregados de pesos pessoais (“Nós encontramos um lugar para nós/ Nós pertencemos a ele para sempre/ Não é disso que se trata”). No entanto, como é dito em “A Matter of Time” do Battle Born (2012), é uma questão de tempo para que toda essa idealização seja consumida pelo cansaço e por promessas não cumpridas, não havendo nada que possa ser feito, pois, apesar do sentimento de paralisação, esse personagem em específico, em comum com o de “Daddy’s Eyes”, tem fósforos na mão, não uma forma de apagar o fogo da ânsia de partir:

“Era uma questão de tempo
Você não vê que está me consumindo por dentro?
Olhe para o que está caindo aos nossos pés? 
São os destroços de sonhos destruídos
E queimados”

O que pode ser feito a essa altura, quando as dúvidas surgem e o amor não parece suficiente, é apenas remoer a potência do que o casal foi naquelas “noites douradas” como em “The Way It Was”, do mesmo projeto. Agora, quando isso parece distante, quando “aquele paraíso está enterrado na poeira” dos afastamentos e da possibilidade de ser trocado, como se tudo estivesse afundando depois de mais uma briga, o eu-lírico deseja que seja tudo como antes: “Se eu continuar/ Com você ao meu lado/ Pode ser/ Do jeito que era?/ Meu coração é verdadeiro/ Garota, é só você/ Em quem estou pensando/ Pode ser do jeito que era?”

A continuação chega logo na faixa seguinte: “Here With Me”, onde o personagem demonstra como o medo de entrar de cabeça em uma relação, talvez por serem jovens demais, pode ter feito com que tudo acabasse: “Me apaixonar preencheu minha alma de medo/ Você ‘venha cá, amor, vai ficar tudo bem’/ Devo ter sido um tolo até o amargo fim/ Agora, eu vou me agarrar à esperança de ter você de volta/ Eu negociaria e lutaria/ Mas existe outro mundo em que estamos vivendo esta noite”. Assim, tudo o que ele tem são memórias de cabelos longos e pele bronzeada, além de fotos guardadas no celular e, embora tudo isso não seja suficiente, é o que o resta.

A mesma questão é enfrentada em “Miss Atomic Bomb”, sabidamente uma continuação narrativa e visual de “Mr. Brightside”, que conta, inclusive, com os mesmos atores do clipe de 2004, Izabella Miko e Eric Roberts, além de Brandon, para completar o triângulo amoroso, inspirado no musical Moulin Rouge (2001), adornado pelas “noites de néon” e relembrado pelo “menino de olhos ávidos”. Enquanto a primeira parte da história é muito mais direta, a versão da história de 2012, que chega como uma recordação de quando eram “jovens e inocentes”, representa um momento de maior maturidade do compositor. Ainda explorando a traição de forma que não deixa de ser dolorida (“Parece como um punhal enterrado em suas costas”), ele reflete sobre essa mulher sempre ter sido uma espécie de bomba atômica, pronta a explodir quando tivesse a chance, esmagando o que sentia à época.

Na letra, ele encara o fato de que, por um segundo, eles haviam vencido, cheios de química e do êxtase da juventude, mas insiste que ela sentiria sua falta quando partisse depois do que aconteceu, quando a poeira se dissipou de seus olhos e ele a viu com outro homem (em “Mr. Brightside”). Contudo, ela foi tão marcante — afinal, surge como objeto de duas canções da banda e merecedora de uma nova abordagem — que, às vezes, ainda é capaz de sonhar que está esperando por ela. Enquanto isso, o clipe rememora o tom burlesco do projeto anterior, a dançarina ainda se encontra aparentemente dividida e, marcado pelo riff de guitarra conhecido da icônica canção de 2004 no minuto 3:20, termina novamente com o coração partido de seu interlocutor.

Num geral, o disco Battle Born representa uma virada mais romântica para a banda, que, sem deixar as canções de superação e a urgência das crônicas da juventude de lado, explora em muitas faixas a intensidade de se doar a outro alguém, seja para apoiá-lo na iminência de uma decepção, como na letra de “Deadlines and Commitments”, seja para se esforçar para ser merecedor da atenção de uma mulher que ele venera de todas as formas possíveis, admirando seu trabalho, seu charme, sua elegância, sua persistência e deixando claro como tem medo de medo de perdê-la, como faz em “Prize Fighter”.

Provavelmente, se trata de uma das muitas canções da banda inspiradas pela esposa do vocalista, Tana Mundkowsky, com quem está casado desde 2005, a qual já foi objeto de outras de suas composições, como a pessoal “Rut” do álbum Wonderful, Wonderful (2017) e “Dying Breed” do Imploding the Mirage, descrita por Flowers como a canção mais romântica que já escreveu.

Na primeira ele toma uma licença poética para torná-la a voz do eu-lírico, que descreve toda a sensação de se encontrar neste buraco que apenas se alastra em sua própria essência em razão da depressão e do diagnóstico de estresse pós-traumático relacionados a eventos de sua infância, implorando para que seu par não desista dela. Segundo Brandon, foi a única canção que tocou para Tana ao piano quando terminou de escrever, para verificar se a esposa estava bem com tudo o que descrevia ali, ou seja, a forma que mergulhou nos problemas dela e os interpretou para colocar em palavras reais e significativas para o que eles, como família, vinham enfrentando.

Já a mais recente funciona como uma resposta ao álbum anterior, onde ele adentra mais profundamente em suas questões como um casal, deixando de lado as metáforas cheias de deserto de Day & Age e as tragédias comuns dos amores que não são para ser, esgotados pelas dificuldades da vida a dois. Assim, em “Life to Come”, ele pede que ela tenha mais fé nele e reforça que suas promessas foram feitas pensadas em todo um futuro que estava por vir, sem se arrepender disso por um único instante:

“Eu não pude prever isso, admito
Mas se acha que vou me curvar, esqueça
Eu disse que seria o único
Eu estarei lá na vida por vir

[…]

Você acha que perdi minha visão, mas não fiz
Isso soa como o paraíso, mas não é
Através de campos de âmbar, vamos correr
Em algum lugar na vida por vir”

Já na mais recente, “Dying Breed”, há a promessa cheia de metáforas de enfrentar tudo e persistir ao lado dela nas dificuldades, mesmo quando não é capaz de entender perfeitamente o que ela precisa, pois eles são esse tipo de casal, que, hoje em dia, já se encontra em extinção, que realmente se faz presente um para o outro quando na urgência da necessidade demonstrando certa evolução em relação a outras canções da banda, onde desistir se mostra muito mais fácil — uma característica do trabalho de 2019, que também está presente na faixa “My God” (feat. Weyes Blood) e na “When the Dreams Run Dry”, as quais  sugerem seguir “à beira do eterno” ao lado da parceira, mesmo quando os sonhos se forem.

De forma mais suave, mas não menos dramática, os pais de Brandon voltam a ser seus personagens principais, para explorar, relembrar e honrar. “Lightning Fields” traz os pontos de vistas de ambos em uma balada de amor eterno para estádios, retratando, dessa vez, os pontos de vista de cada um deles. K.D. Lang foi convidada para os versos femininos, que representam a mãe de Brandon, falecida em 2010 em decorrência de um câncer, confortando o pai que, “noite passada, a viu vestida de branco na área dos relâmpagos do amor”. Sem querer acordar, ele se cobra e deseja poder tê-la presente novamente — para um passeio de carro, criar um filho ou apenas segurar sua mão —, mas, dessa vez, ela chega para fazê-lo reconhecer que muito foi feito enquanto estavam juntos, assim como reforçando o fato de que esse sentimento não irá simplesmente terminar com o fim da presença física.

Dessa forma, nem tudo está perdido para o The Killers. Ainda que, aparentemente, consiga enxergar mais formas de contar histórias explorando o amargor de um bom drama romântico, como na própria “Just Another Girl”, na qual não consegue deixar para trás essa garota tão presa ao seu coração e que chegou como uma epítome da essência da banda no compilado de sucessos, Direct Hits (2014), há espaço para a leveza do amor. Assim é feito desde “My List”, de Sam’s Town, a qual Brandon descreve como uma tentativa de balada mais simples, downtempo, sem muitos instrumentais, e uma das primeiras canções para sua esposa, onde canta:

“Deixe-me te abraçar
Deixe-me mostrar como eu vejo
E quando você volta de lugar nenhum,
Você alguma vez pensa em mim?

[…]

Deixe-me mostrar o quanto me importo
Eu preciso desses olhos para me apoiar
Eu vou tirar uma foto sua quando partir
Me dá força e me dá paciência
Mas eu nunca te deixarei saber,
Eu não consegui nada sem você, amor”

Com pouco mais de vinte anos de formação, o que se vê na discografia do The Killers é uma evolução na forma como retrata as diversas facetas do amor em suas canções e, embora penda para os grandes romances trágicos pensados para serem cantados a plenos pulmões em estádios mundo afora, a banda se esforça em explorar também aqueles mais duradouros e profundos, os mais calcados no desejo, os mais contemplativos e reminescentes e até os egoístas, tornando suas letras extremamente identificáveis tal é a intensidade desses momentos catárticos, afinal não há sentimento mais universal do que o amor.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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