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Patti Smith: ícone do rock, escritora e alguém como você

Imagine abrir seu e-mail e, entre as pilhas de spam, encontrar um áudio (sim, áudio!) de sua artista favorita. Foi exatamente o que eu e milhares de assinantes da newsletter de Patti Smith vivenciamos pela primeira vez em maio. Começando com um tímido “Hello, everybody! Happy May Day!” [Olá, todo mundo! Feliz Primeiro de Maio!], a musicista, performer e escritora agradecia pelo primeiro mês da nova plataforma e recitava um poema. Antes disso, uma série de e-mails com divagações, compartilhamentos de vídeos e visitas à sua rotina já haviam chegado à minha caixa de entrada.

O projeto The Reader is My Notebook, disponível apenas em inglês, está hospedado na plataforma Substrack e foi anunciado no dia 1º de abril nas redes sociais. Além da assinatura gratuita, é possível fazer uma contribuição anual de 70 dólares (ou 7 dólares mensais) para receber, às terças-feiras, o primeiro trabalho seriado da autora: The Melting, escrito ao longo do último ano. Segundo a própria, trata-se de um diário pessoal de pandemia.

Nascida em Chicago, Patti Smith cresceu entre a Pensilvânia e Nova Jersey. Em 1967, mudou-se para Nova York, onde trabalhou por um tempo como livreira até começar a se apresentar misturando poesia e música, em 1971. Durante a década de 70, lançou discos de inspiração punk e conviveu com grandes nomes das artes da época, como Andy Warhol, Harry Smith, Janis Joplin, entre outros. Depois de um hiato de dezesseis anos, os quais passou em Detroit se dedicando aos cuidados com suas duas crianças, retomou a vida nos palcos em 1995, numa turnê conjunta com Bob Dylan. Desde então, é presença constante em shows e estantes literárias, com suas memórias.

Patti Smith

A Companhia das Letras traduziu e publicou quatro livros dela: Só Garotos, que narra o início de sua vida em Nova York e a amizade com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Devoção, um texto curto, que mistura ficção e memórias. O Ano do Macaco, com os registros mais recentes publicados pela autora. E Linha M, livro que mais se aproxima das divagações e minúcias que nos entrega também na newsletter. Nessa obra, se mostra tímida, colecionadora de lembranças e sonhos e disposta a empreender viagens ao redor do Globo para visitar o túmulo de seus ídolos. Nas horas vagas, se ocupa como qualquer uma de nós: tomando café (seu único vício), escrevendo num caderno e assistindo a séries policiais.

É nesse clima que, pelo menos uma vez por semana, recebemos e-mails da artista. Diferentemente de outros escritores e escritoras que acompanho por esse meio, cujos conteúdos são textos de aspecto mais formal que estão desenvolvendo, o que Patti nos entrega periodicamente é uma mensagem pessoal e próxima. Seus medos, suas frustrações, a declamação de um poema via áudio, as músicas que tem ouvido. Em contrapartida, pede indicações e incentiva a participação do público na caixa de comentários disponível na plataforma.

Uma das edições mais tocantes da newsletter, intitulada “Reentenring” (“Retomando”, em tradução livre) trata da tão sonhada retomada pós-vacina que estadunidenses têm vivenciado. Nela, divide suas dificuldades em encarar esse novo momento da vida.

“Ultimamente tenho achado um tanto difícil tomar decisões, concentrar-me em um livro, redigir uma mensagem simples, lavar minha roupa, atender o telefone e, apesar de uma miríade de assuntos disponíveis, concluir esta tarefa que tenho em mãos. Existe uma ansiedade disfarçada, incomum e certamente indesejada. Sei que sou perfeitamente capaz de fazer tudo o que há para fazer. No entanto, uma estranha paralisia, combinada com a diminuição do entusiasmo, parece pairar sobre tudo, como uma poeira pós-pandêmica.

Há uma bem-vinda onda de otimismo, que deve ser motivo de celebração. Mas, por que está tingida de emoções misturadas? Nós estivemos vivendo atrás de uma máscara, e talvez tenhamos nos voltado para dentro. A cidade está reabrindo e, com isso, uma intensidade anormal, responsabilidades renovadas, um retorno abrupto ao tráfego pesado, ruas lotadas, foliões gritando, máscaras descartadas e escombros descuidados.

Enquanto escrevo isso, sinto que alguns de nós pode sentir uma estranha relutância em deixar para trás nossa existência pandêmica. No entanto, também acredito que esse temor não vai durar, e vamos recuperar nossas energias, nos juntar à multidão e voltar ao trabalho.”  (tradução nossa)

Ao final desta mensagem, indica um vídeo da banda R.E.M performando “Losing My Religion” no Festival Glastonbury.

“Michael uma vez disse que ‘Losing My Religion’ é uma música sobre o amor não correspondido, o resíduo de uma paixão devastadora. Tendo estado em confinamento por tanto tempo, descobrimos que tivemos uma paixão agonizante pela vida e estamos esperando por algum sinal de compaixão.

Ouvindo R.E.M., vendo Michael se apresentar, senti um renascer de entusiasmo, um desejo de estar com uma camiseta suada diante do meu próprio microfone com a feliz missão de criar uma conexão em massa. Obrigada por ler isso. Agora, vou ligar para quem devo, terminar o poema que abandonei, lavar minha roupa e ser grata por entrar com vida em nosso mundo um tanto destruído embolsando algumas ferramentas para ajudá-lo a se recuperar.”  (tradução nossa)

Patti Smith

Em outra ocasião, diante das inevitáveis alterações de humor que a pandemia e o isolamento social impõem, compartilhou com seus assinantes um desses momentos em que você liga uma música e dança sozinha em casa para espantar os demônios. Ouvindo uma playlist que envolvia Rolling Stones, James Brown, Ella Fitzgerald, entre outros, ela narra em seu texto o caminho percorrido até encontrar um vídeo de K.D. Lang performando ao vivo “Crying”, de Roy Orbison, o que provocou lágrimas de emoção. Pouco tempo depois de enviar o e-mail, retomou o contato, com uma nova proposição: Olá a todos, eu queria agradecer vocês pela resposta calorosa ao meu post Crying. Isso me fez pensar quais músicas fazem vocês dançarem, e também quais os levam às  lágrimas. Enviem-me seus pensamentos e eu darei a vocês uma lista”. O post conta com cerca de mil comentários com as contribuições do público — talvez seja por isso que a lista ainda não foi enviada.

As temáticas tratadas incluem ainda compartilhamentos de vídeos e fotos com Bob Dylan, por ocasião da celebração de 80 anos do músico, histórias de sua vida acompanhadas de imagens de suas anotações e cadernos, áudios com declamações de poemas e fotos de lugares que já visitou — estas, em sua maioria, feitas por Polaroid, hábito que nutre desde a juventude.

Num momento em que alguns nomes do rock têm feito uma guinada para o conservadorismo, como é o caso do ex-Smiths, Morrissey, Lobão, Roger e o ex-Raimundos, Rodolfo, é, no mínimo, reconfortante poder acompanhar esse movimento de Patti Smith. Um ícone do gênero que, aos 73 anos, ainda é capaz de se abrir de forma tão honesta e humana para o público, mostrando não só suas forças e convicções, mas também as ambiguidades e fragilidades que vive. Em entrevista ao El País, em 2020, a artista disse: “Os momentos que explicam nossa humanidade são os que nos tocam. Aprendi uma lição: as pessoas perdoam um erro em público se você é honesta e conta o que está lhe acontecendo.” E acredito que seja isso que mais encanta em seus e-mails semanais: a capacidade de dividir um pouco de si com o resto do mundo.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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