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Mare of Easttown: uma série de investigação e relações humanas

Uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, que faz frio o tempo inteiro e onde todos os moradores se conhecem. Um crime chocante, investigado por uma detetive cheia de traumas que, para se distrair da vida pessoal, investe toda sua energia no trabalho. Poderia-se nomear um número considerável de obras audiovisuais com exatamente essa mesma trama ou algo similar. De prontidão, penso em Twin Peaks, The Killing e True Detective, como séries que ao menos se aproximem desse enredo.

De maneira muito resumida, essa também é a história de Mare of Easttown. Mas, ao contrário de muitas outras, a minissérie consegue se diferenciar, partindo de sutilezas do enredo, e construindo um tom único de originalidade. A produção da HBO é protagonizada por Mare, genialmente interpretada por Kate Winslet, uma detetive do condado de Easttown. A trama começa quando a jovem Erin (Caillee Spaeny) é encontrada morta no riacho da cidade — sinopse que, a princípio, deve levar qualquer um a pensar que se trata de uma série de investigação, o que não deixa de ser. Mare of Easttown, no entanto, possui muitas camadas no seu enredo, especialmente na construção da protagonista, indo muito além do que sugere em princípio, com o primeiro e principal ponto que a diferencia de outras séries policiais: o foco nas relações humanas. 

Mare, a exemplo de milhares de mulheres ao redor do mundo, precisa lidar com uma conturbada vida pessoal, de relações familiares difíceis, e conciliar tudo com seu trabalho. Ela mora com a mãe, a filha e o neto, e possui dificuldades de convivência nos três núcleos. Dona de uma personalidade muito forte e combativa, série e durona, dificilmente baixa a guarda nas discussões. Com a mãe, Helen (Jean Smart), o dia a dia é baseado em diálogos duros, de tom passivo-agressivo, e que por vezes cruzam a linha, tornando-se desrespeitosos. Ainda assim, devo dizer que Helen, mesmo não interferindo na narrativa principal, se tornou uma das minhas personagens favoritas. Basicamente, toda a carga de comédia da minissérie foi depositada nela e executada brilhantemente por Smart. São momentos pontuais, mas que fazem rir bastante.  

mare of easttown

A relação também não é fácil com sua filha Siobhan (Angourie Rice). A jovem está vivendo o auge da adolescência, o fim dos anos escolares e precisa lidar com a escolha da universidade. A princípio, não fica claro para quem assiste os motivos da complicada relação entre as duas, tão diferente da afetuosa dinâmica entre Siobhan e Frank (David Denman), seu pai e ex-marido de Mare. Em paralelo, Mare batalha pela guarda do neto com a mãe da criança, cujo pai era seu filho, Kevin (Cody Kostro), que se suicidou. A situação desperta em Mare memórias relacionadas a seu filho e aos recentes traumas, que claramente não foram superados. Apesar do ar dramático e triste de Mare of Easttown ser uma constante, as memórias de Mare com o filho são particularmente difíceis de assistir.

Nesse embaraço de relações, logo no primeiro episódio, também chega na cidade Richard (Guy Pearce), um escritor e professor universitário e futuro interesse romântico de Mare. Todas essas camadas colocadas sobre a personagem de Kate Winslet exemplificam o tom da série e sua abordagem sobre as relações humanas. Considerando Mare como uma peça relevante para toda a cidade, o enredo sempre a coloca em conexão com outros personagens, menos que nem sempre aprofunde essas relações. Com um roteiro bem encadeado, não se sente falta do mistério e todas as vertentes caminham juntas de forma equilibrada. A investigação, apesar de tudo, ainda se mantém como o grande fio condutor, e a vítima do assassinato, Erin, também estava envolvida em uma complexa trama de relações que se tornam cada vez mais surpreendentes com o desenvolvimento dos episódios. É angustiante assistir a garota inserida em um ambiente hostil, de figuras masculinas ameaçadoras, especialmente seu pai e seu ex-namorado.

Para completar, o desaparecimento de outra garota da cidade, Katie Bailey (Caitlin Houlahan), ocorrido há mais de um ano, volta a ser assunto após o assassinato de Erin como uma possível conexão entre os casos. O retorno do caso de Katie se mostra como um fator incômodo para Mare, tanto em seu trabalho, já que, apesar de todos os seus esforços, ela não conseguiu solucionar o caso, quanto em sua vida pessoal, uma vez que a mãe da jovem desaparecida é uma antiga amiga que a culpa por não encontrar sua filha. 

mare of easttown

Um dos elementos preferidos de Mare of Easttown é outro clássico das séries e filmes de investigação: o detetive outsider — o investigador que vem de outra cidade para auxiliar nas buscas e que, ao contrário do protagonista, que já tem uma relação estabelecida com os moradores da cidade, não conhece ninguém. Um olhar novo e imparcial. Colin Zabel, interpretado por Evan Peters, é esse detetive, mas um pouco diferente: Colin é um detetive certinho, que sempre busca fazer tudo da maneira mais correta possível. É extremamente interessante acompanhar a dinâmica de convivência entre Colin e Mare, sendo eles duas pessoas de personalidades tão distintas. Mare of Easttown não cai no lugar comum de colocar Mare como uma mulher que precisa mudar sua personalidade ou modo de trabalho para tentar ser mais agradável ao colega. Os dois apenas aprendem a coexistir enquanto trabalham por um objetivo comum e se tornam uma dupla muito funcional.

Atenção: grandes spoilers a seguir! 

Sobre a resolução final do mistério, Mare of Easttown consegue surpreender ao mesmo tempo em que dá pistas de quem é o assassino. Uma vez revelada a culpa do menino Ryan Ross (Cameron Mann), percebemos que a série dá algumas pistas sobre o comportamento suspeito da criança que, inicialmente, associamos ao drama familiar e a traição do pai. Colocar uma criança como assassina é um fator levemente polêmico, mas não é algo que me incomoda em obras de ficção, e especialmente não neste caso, quando as coisas se desenvolvem de maneira tão crível. Ryan sabia que o pai estava traindo a mãe e o quanto aquilo era destrutivo para sua família. O garoto tinha acesso a uma arma e foi até a amante do pai com o propósito apenas de assustá-la, mas uma tragédia maior acabou acontecendo — uma demonstração do que se pode acontecer quando se tem fácil acesso a uma arma, mesmo que a intenção de quem a porta não seja machucar. 

Ao longo da série, no entanto, as apostas para quem era o assassino variam, e porque sou péssima para resolver mistérios, passei a maior parte sem questionar muito para além das opções óbvias. A presença de Guy Pearce como o típico personagem bonitão, novo na cidade, que instantaneamente vira o interesse romântico da protagonista, no entanto, me fez questionar por algum tempo se seu papel seria apenas esse, ou se ele também seria o responsável ou se teria algum envolvimento com o crime. Mas não: seu papel é apenas dar vida ao par romântico de Mare, o que não deixa de ser grandioso.    

Ao se encaminhar para o seu desfecho, sobretudo nos dois últimos episódios, no entanto, a narrativa começa a indicar com mais clareza a culpa de Ryan Ross, e é quase impossível imaginar que outra pessoa seja responsável pelo assassinato de Erin. 

Mare of Easttown é, sim, uma série de investigação. Mas é também uma série que vai muito além e consegue quebrar a bolha da abordagem e do público das séries policiais.

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