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“Te Amo Lá Fora, aqui dentro sou só eu”: Duda Beat e a jornada da nova geração para superar ardores

Tive minha primeira paixão não correspondida aos 11 anos. Era um menino mais velho, pinta de colírio capricho, muito educado apesar das más companhias. Eu costumava colocar as iniciais do nome dela escritas à caneta na minha mão, como alguém que queria marcar território para um menino que não sabia meu nome. Quando descobriu, foi namorando a minha melhor amiga.

Após esse processo, foi só ladeira a baixo. Algumas decepções aqui, outros corações quebrados ali, expectativas não atendidas, isolamento, carência, compensação e tudo mais. A ironia é que hoje ele namora uma menina com o mesmo nome que o meu, que não é lá tão comum assim. Como Duda Beat, também sempre achei que todo carinho do mundo para mim é pouco. Seja por uma dosagem hormonal errada ou tropeços do universo astrológico, sempre amei muito e amei intensamente cada pessoa que passou pela minha vida.

Hoje sendo uma das grandes referências da música brasileira, Eduarda Bittencourt, com 33 anos, conquistou seu espaço na música nacional após pessoas como eu, que um dia tiveram o coração partido, se identificarem com suas letras. Debutou com o álbum Sinto Muito, em 2018, e embalou muitas noites em um momento pré-pandemia em que podíamos jurar que a partir dali poderíamos ser felizes para sempre. Lotou casas de shows, passou por todo o Brasil, participou de projetos com grandes nomes da música nacional e não perdeu tempo.

Em abril deste ano, Duda Beat lançou seu segundo disco, Te Amo Lá Fora, um projeto novamente assinado pela pernambucana e a dupla de produtores Lux & Tróia, que foram responsáveis por trazer um álbum em que a impressão até é de ser mais uma narrativa sobre amor, apegos, desapegos e superação, mas foi além. Te Amo Lá Fora abarca todos os efeitos de sentido de um processo de nostalgia, da escolha da identidade visual do álbum a seus arranjos multi-musicais que remetem às raízes pernambucanas ao mais novo techno.

As 11 faixas inéditas e autorais do álbum reúnem um processo de amadurecimento emocional por parte da cantora. A segunda fase de Duda Beat veio para mostrar por que seu sucesso foi tão estrondoso: de um lado, uma mulher autêntica, de bom timbre, boas histórias para contar e uma capacidade de composição de dar inveja; do outro, um time que compartilha de sons a afetos para que assim nasça uma mistura deliciosamente romântica.

Te Amo lá Fora

Faixa a faixa

A primeira faixa de Te Amo Lá Fora carrega ainda algumas sementes do primeiro álbum da cantora — o sentimento de decepção amorosa. Conta a história de alguém que se entregou para outra pessoa de corpo e alma, esquecendo de si, mas, que no final das contas, foi trocada. A virada de chave, entretanto, mostra para que Te Amo Lá Fora veio: vou chorar, vou me acabar, mas vou dançar e você pode me olhar. Vou passar.

No plano rítmico, a faixa é regada de referências da cultura popular pernambucana, uma homenagem da cantora ao seu estado natal. Para a cereja do bolo, dois samples da grande Cila do Coco, com o toque do maracatu de baque solto e variações rítmicas da poética do coco. Nenhuma faixa poderia ser mais apropriada para abrir o segundo álbum do que “Tu e Eu”.

“Meu Pisêro”, o primeiro single do álbum, é carro-chefe da narrativa principal abordada por ele — “te amo, mas te amo longe, distante, aqui dentro eu sou mais eu”, como explicou a cantora no seu Instagram. “Meu Pisêro” traz referências do forró e do pop, além de uma estética eclética que apenas alguém como Duda Beat poderia sustentar. Seu clipe, lançado em fevereiro, reúne o oposto da primeira fase da carreira dela a partir de um tom mais sóbrio para revelar a maturidade da artista em sua nova fase e referências visuais dos filmes de terror dos anos 80. “Meu Pisêro” encara o fantasma que chegou com Sinto Muito — o de sofrer por um amor que escolheu ir embora — mas com a maturidade de alguém que entende que amor não se pede reciprocidade, e que está tudo bem não ser amada da mesma forma e nem da maneira como deseja.

“Mais Ninguém” traz uma Duda Beat no auge do amor, o momento onde as conversas se desembolam sem esforço e a gente descobre alguém que se destaca no meio de todos os outros. A faixa traz também um elemento novo na composição da pernambucana com a flauta de Aline Gonçalves. Acima de tudo, “Mais Ninguém”, é uma música para os amores intensos e sobre a urgência para viver tudo junto logo, mas também lembra os amores que marcam e se vão, mas vão com a mesma leveza com que chegaram. Como em um processo de identificação instantânea, “Mais Ninguém” ganhou um espaço especial nas minhas escutas diárias por remeter a um momento onde éramos felizes e sabíamos.

“Quando eu te vi
Achei que não podia amar
Alguém como amei você
Doeu o peito só de ver
E depois minha respiração parou
Naquele momento a dois
Você me arrasou”

A quarta música do projeto conta com um feat de Duda com o cantor e compositor baiano Trevo. Nela, os dois falam sobre um processo comum a todos — amar quem não vale nada. “Nem Um Pouquinho” traz referências do pagode baiano, do axé e também resgata a narrativa da primeira fase da cantora, ou seja, a sofrência do amor não correspondido, a insistência para que a reciprocidade chegue logo e o processo de desapego.

Se “Nem Um Pouquinho” traz as nuances de Sinto Muito, “Melô de Ilusão” entrega toda a nostalgia que o primeiro álbum trouxe em 2018. Com arranjos mais eletrônicos que dão base para Te Amo Lá Fora, a faixa traz algumas pitadas musicais da década de 90 e conta a história de quem está com muito medo de se entregar, mas que vai mesmo assim. “Melô de Ilusão” chega com mais elementos de coesão sobre a nova fase de Duda através da maturidade emocional para ainda confiar no amor, mas independência suficiente para se colocar em primeiro lugar.

A sexta faixa é referência de uma narrativa familiar a muitos. “GAME” conta a história dos joguinhos amorosos, de demonstrar desinteresse mesmo querendo muito. Ele querendo, mas fingindo que não; ela querendo e com medo de dizer sim. A música traz um arranjo mais pesado e de referência para identidade do álbum, com um beat mais pesado e até mesmo um ambiente mais “dark”.

“50 Meninas” tem uma das transições mais legais do Te Amo Lá Fora. Com uma fala mansa de início como alguém com interesse, uma mulher apaixonada que “traça planos e elabora chegadas inesperadas”, a música se parte para uma narrativa que a própria Duda diz ser um deboche. O tom mais alto, o trombone, a bateria e o trompete fazem um arranjo quase que delator do golpe. “50 Meninas” é uma das faixas cuja musicalidade tem a melhor composição narrativa.

O significado da oitava faixa é, de longe, o meu favorito. Em “Decisão de Te Amar” temos finalmente uma Duda feliz com um amor correspondido. A cantora e compositora da música disse que o motivo é simples: uma dedicação a Tomás, seu companheiro de banda e de vida. “Decisão de Te Amar” é sobre finalmente achar o amor que as pessoas tanto falam por aí, aquele leve, sem guardas levantadas, que a paixão não acaba mesmo com o tempo. É sobre estar na mesma página, namorar um grande amigo, voltar para as borboletas no estômago e finalmente se entregar para um amor que vale. A lição é simples: demora, mas chega, e quando chega, a gente entende o por quê de tanta demora.

“Te confesso, até hesitei em te falar
Que ao meu lado era o seu lugar
Então tomei pra mim essa decisão de te amar
Vem cá, hoje eu sou sua mulher
E a gente faz o que quiser
De nós e pra nós”

Te Amo Lá Fora também fez suas apostas transicionais. O interlúdio voltou com força para muitos álbuns deste ano e com a pernambucana isso não seria diferente. A faixa nove, com o símbolo “≈(♡ω♡)”, o disco introduz a “Meu Coração”, uma balada sofrida com direito até a arranjo de cordas. É a famosa música triste. Para sentar, chorar e se deixar inundar por uma sensação de melancolia e sofrência. Os vocais de Duda imperam na faixa e por vezes parecem um sopro no ouvido, como alguém que canta só para você. Com um toque de nostalgia que deixa pitadas em cada parte do álbum, “Meu Coração” não seria diferente. É sobre amores que se vão por conta de erros, pessoas que se encontram quase que em tempos errados. Uma história intensa em que apenas os dois souberam sobre tudo o que aconteceu e, agora que acabou, parece até imaginação.

Te Amo lá Fora

A última música do álbum dá o tom perfeito para quem ainda estava em dúvida sobre colocar no repeat. Do fundo do poço com “Meu Coração”, “Tocar Você” traz a redenção de Duda: amei, perdi, sofri, superei e agora eu sou mais eu. A faixa final leva o astral ao pico e até deixa aquela vontade de repensar as coisas que a gente já fez por amor. Na letra, o sentimento é de paixão, mas conhecimento suficiente para não se envolver de novo em mais um esquema que não vale mais a pena chorar ou sofrer por. Ela ressurge como alguém que escolhe as próprias batalhas e finalmente pega para si o amor que tanto distribuía.

Como Duda, também estou em uma nova fase de amadurecimento emocional após muito quebrar a cara. Conheci novos amores, vivi momentos intensos cujos quais não me arrependo nem por um segundo. Hoje, vejo como nos tornamos uma nova geração que encontra no ardor uma oportunidade de se redescobrir. Entre carências e falhas de comunicação, chifres, rebuceteios e ficantes fixos, entendemos que de ciclos o mundo está cheio, e dores intensas também passam, o amor da nossa vida, às vezes, pode até ser mais de um. A João Lucas, o menino do oitavo ano cujas iniciais ficavam marcadas na minha mão, agradeço pelos primeiros tropeços. Aos amores passageiros, aos de uma noite, aos de descoberta, aos de engano, aos de alguns meses e aos que ficaram até aqui, que bom poder reencontrá-los através da música. À Duda, o sucesso que já a pertence. À nossa geração, todo carinho do mundo.

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