Categorias: CINEMA, COLABORAÇÃO

Dunkirk: a falta de sentido das guerras

A indústria cinematográfica é fascinada por filmes ambientados em guerras. Há sempre algo de fascinante nas possibilidades oferecidas por um tempo/espaço em que é suspenso qualquer que seja o contrato que integra a humanidade em uma civilização. Esse se torna o terreno ideal para as histórias que constroem suas fundações na jornada do herói, entre ritos de passagens e arquétipos junguianos. Há um inimigo, há desafios, há um bem maior a ser alcançado. Esqueça de tudo isso quando assistir a Dunkirk. O “filme de guerra” de Christopher Nolan não é um filme de guerra. Ele é um filme sobre a guerra — e sobre o que move e o que motiva os seres humanos, sabendo que o que move e o que os motiva são coisas diferentes.

Dunkirk é um filme sem vozes. À época da estreia da produção, no fim de julho de 2017, Nolan disse que os veteranos da Segunda Guerra Mundial entrevistados por ele para a construção do roteiro contaram que a principal lembrança do tempo em que ficaram presos na praia era a lembrança do barulho. Os alemães se aproximavam depois de tomar Paris e dominar a França, e Winston Churchill, primeiro ministro da Inglaterra à época, queria seus “meninos” de volta. Afinal, não ia dar para proteger a sua ilha sem um exército.

A trilha sonora, assinada pelo compositor alemão Hans Zimmer (mais ou menos a Meryl Streep da sua área) cumpre o papel de nos marcar com precisão cirúrgica — não à toa, o filme levou dois Oscars técnicos pelo som, nas categorias de Edição e Mixagem. Como transmitir a claustrofobia de se estar preso em uma praia, cercado por um inimigo invisível na terra e no ar, enquanto a sua casa está quase à vista? Nolan rouba uma página dos filmes mudos e conta com a habilidade de Zimmer para construir o suspense e a tensão de uma guerra em que não se fala, apenas se escuta.

Dunkirk

“— Enxergar nossa casa não nos ajuda a chegar lá, Capitão.”

A raridade dos diálogos entre os que estão em Dunquerque marca a desconstrução que o diretor britânico faz sobre o que a indústria cinematográfica tentou nos convencer, por décadas, que era a guerra. Não há espaço para algo tão complexo quanto a construção do discurso naquele lugar. Não há sentido narrativo na vida. Não existe nacionalismo ou sacrifício por um bem maior quando você está no olho do furacão. Se o seu inimigo é invisível e você é pequeno demais para lutar contra ele, tudo o que você pode fazer é fugir.

E é nisso que os que estão em terra se concentram. Nas suas pesquisas para o roteiro, Christopher Nolan descobriu que os soldados evacuados da praia eram jovens e inexperientes, o que o levou a escalar atores novos e desconhecidos (e Harry Styles — em defesa do diretor, ele não tinha a menor ideia do quão famoso o inglês era). Tommy (Fionn Whitehead), Gibson (Aneurin Barnard) e Alex (Harry Styles) não disputam a alcunha de herói. Um acordo de ajuda e cumplicidade se estabeleceu pela necessidade e pelo acaso entre os três. Até o momento em que se fez necessária a eleição de um Outro.

Atenção: este texto contém spoilers!

Quando o trio se escondeu em um barco encalhado com escoceses e alguém precisava descer da embarcação para que ela não afundasse, Alex chamou atenção para o fato de que Gibson não havia falado nada mesmo depois de eles terem passado dias juntos, acusando-o de ser um espião alemão. Após ser violentamente pressionado, o garoto confessou que, na verdade, era francês — ou seja, um aliado. Ainda assim, ele continuava como o Outro naquela situação. Os primeiros a serem evacuados deveriam ser os ingleses, o que significa que ele estava “cortando a fila”. Tommy o defendeu, Alex quase o matou. Mas quando surge a oportunidade de todos eles se salvarem, Alex apressa Gibson para que o colega saia logo do barco que afundava.

É a lógica do “se tem que ser alguém, antes eu do que você”. Tommy já havia sido expulso da fila dos que esperavam pela evacuação por não ser um granadeiro. Os três haviam sido impedidos de subir nas canoas depois do navio em que estavam afundar. Alex tentou tirar Gibson do barco. No fim, não acaba a sensação de que a sobrevivência não passa de uma questão de espaço.

Dunkirk

“— A sobrevivência não é justa 
— Não, é bosta. É medo e ganância. Destino espremido pelos intestinos de homens. Bosta.”

Se quisermos encontrar sentido em tudo isso, precisamos atravessar o canal da Mancha. Na Grã-Bretanha, Winston Churchill contou com o senso patriótico dos cidadãos do país para conseguir salvar o seu exército. Ele convocou os civis a cederem suas embarcações particulares para resgatar os compatriotas encurralados na França. Mr. Dawson (Mark Rylance) e seu filho, Peter (Tom Glynn-Carney), atendem ao chamado do primeiro-ministro e se lançam ao mar, acompanhados pelo colega de Peter, George (Barry Keoghan).

Mr. Dawson conhece as naves britânicas e empatiza com os pilotos que receberam a missão de proteger Dunquerque dos ataques aéreos. Afinal, seu primogênito era um deles — mesmo tendo morrido logo no começo da guerra. O que motiva o senhor e Peter é um senso de dever, honra, família. Já o que motiva George é a juventude. O desejo de ser parte de algo maior do que si mesmo, de ser útil. O propósito de servir a um projeto.

O motor do pequeno Moonstone são aqueles grandes valores humanos que nós costumamos assistir no campo de batalha dos filmes de guerra típicos. No filme de Nolan, fica claro: só pode existir grandeza quando o ato de se colocar em risco é uma escolha.

As duas forças se cruzam quanto Mr. Dawson, Peter e George socorrem o Soldado que Tremia (Cillian Murphy). A missão da tripulação do Moonstone colide com o desespero do militar traumatizado. A vontade de Dawson acaba por prevalecer, mas o instinto de sobrevivência do Soldado faz uma vítima, ainda que colateral. A morte de George é uma ironia perversa, ridícula. Um lembrete da fragilidade da vida, de como ela está em perigo mesmo quando não estamos prestando atenção.

Dunkirk

“— Ele está em choque, George. Ele não é ele mesmo. Talvez ele nunca mais seja ele mesmo novamente.”

É quando a França fica para trás, contudo, que Dunkirk deixa a sua maior lição. Ao se perceber fora de perigo, Alex começa a temer o que espera os soldados em casa: a decepção dos que confiavam neles, a vergonha por terem perdido a batalha. Ele se esquece da maior façanha dos três mil e seiscentos garotos que Churchill recuperou: ter sobrevivido.

É fácil menosprezar a sobrevivência porque nós não fomos educados para pensar nela. Nós não enfrentamos a morte, estamos acostumados a ter como certa a segurança do dia seguinte. Depois de sair da beira do abismo, nós olhamos para o caminho percorrido com arrogância. É tão natural manter a postura quando o chão está firme sob os nossos pés que passamos a duvidar que tenhamos mesmo precisado de tanto equilíbrio um dia.

É fácil menosprezar a sobrevivência. E é errado. Em certas situações, sobreviver é tudo o que podemos fazer.

Dunkirk

“— Muito bem, rapazes, muito bem. 
— Tudo o que fizemos foi sobreviver. 
— É o suficiente.”

Dunkirk recebeu 8 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Direção (Christopher Nolan), Melhor Montagem (Lee Smith), Melhor Mixagem de Som (Mark Weingarten, Gregg Landaker e Gary Rizzo), Melhor Edição de Som (Richard King e Alex Gibson), Melhor Fotografia (Hoyte van Hoytema), Melhor Trilha Sonora Original (Hans Zimmer) e Melhor Direção de Arte (Nathan Crowley e Gary Fettis). 

Odhara Caroline é escritora. Continua sendo jornalista do mesmo jeito que continua acreditando em coisas boas — só de birra. Adora se apropriar de xingamentos dizendo que é feminazi, persegue cachorros na rua, explica tudo o que faz com base no mapa astral, sempre acaba fazendo drama demais e pedindo desculpas depois. Como boa millennial, não tem a menor ideia do que tá fazendo com a própria vida. Twitter | Instagram | Newsletter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 comentário