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O declínio do mocinho outsider na cultura pop

Qualquer pessoa que goste e consuma cultura pop já deve ter percebido que os estereótipos são um recurso muito utilizado para criar personagens. Se pensarmos em grandes produções do mainstream, conseguimos identificar padrões: Joey (Friends) e Barney (How I Met Your Mother), embora tenham personalidades diferentes, ocupam o mesmo papel na turma, são os mulherengos; Rory Gilmore (Gilmore Girls), Jane (Jane the Virgin) e Amy Santiago (Brooklyn Nine-Nine) são as certinhas, estudiosas;  Robin (How I Met Your Mother) e Rosa Díaz (Brooklyn Nine-Nine), assumem o papel das mulheres duronas, que gostam de esportes/filmes violentos. A lista é gigante e não se resume às séries. O tema já foi inclusive objeto de diversas pesquisas, como é o caso da feita pela crítica Anita Sarkeesian, que listou tipos muito comuns de mulheres abordados na ficção e pouco condizentes com a realidade.

Embora devam ser problematizados e repensados, o uso de estereótipos é um recurso narrativo bastante necessário para a partilha de sentido. Considerando que as produções são sempre endereçadas a consumidores, é natural que a sua criação busque abarcar características e interesses de nichos de público numa lógica de influência mútua. Quem nunca se identificou numa turma de amigos fictícios como Friends? Ou fez um teste para descobrir quem é você em Harry Potter e se assustou com a precisão das alternativas?

De todo modo, sempre achei genial quando alguém consegue romper com arquétipos pré-definidos e ainda assim criar identificação. Um caso recente é Fleabag. A personagem rompe com os estereótipos de mulher que costumamos ver na TV e ainda assim faz com que a gente se enxergue nela. Se Pheobe Waller-Bridge está inaugurando uma nova vertente é o que ainda vamos descobrir. Mas é sobre uma série de personagens masculinos que seguiu um caminho semelhante e ficou muito popular a partir dos anos 90 que quero tratar nesse texto: o mocinho outsider.

Esse é o termo que costumo utilizar para definir personagens que são homens, têm cerca de 30 anos e gostos peculiares. Eles não se aproximam do estereótipo do atleta, nem do bad boy ou do mulherengo, mas também não são os nerds ou os bobões do besteirol. São pessoas que seriam definidas como “alternativas”. Se vestem com camisetas de banda, flanela xadrez ou usam suéter de lã, sabem muito sobre algum assunto específico e, embora não tenham grandes sucessos na conquista de mulheres, também não são totalmente mal sucedidos. Têm uma aura um pouco melancólica e estão sempre dispostos a se apaixonar por mulheres que gostem das mesmas coisas que eles.

Se você, assim como eu, adora uma comédia romântica, provavelmente já identificou o tipo de personagem sobre o qual estou falando. O que acontece é que, depois de anos  figurando entre queridinhos, tenho notado que o estereótipo segue arrancando suspiros — mas, agora, de impaciência. Este texto é uma tentativa de entender o porquê disso a partir de três personagens que já foram amados e hoje não conquistam mais a simpatia do público.

Atenção: este texto contém spoilers!

Rob Gordon, de Alta Fidelidade

Comecei a pensar nesta questão lendo Alta Fidelidade, de Nick Hornby. Já havia assistido ao filme há anos, mas não me lembrava de nada, exceto a sensação de ter gostado. Trata-se da história de Rob Gordon, um rapaz de 35 anos, dono de uma loja de discos, a Championship Vinyl, e totalmente irredutível quando o assunto é gosto musical. Ao longo do livro, ele nos conta sobre os cinco términos mais dolorosos da sua vida, enquanto vive as dores do mais recente, com Laura.

Do início ao fim, é notável que Rob se sente um perdedor e, ao mesmo tempo, julga as opções de vida de todas as pessoas ao redor que escolheram profissões mais formais. É um personagem um pouco perdido e amargurado, que não se dá bem com os pais e não tem muitos amigos.

Até aí tudo certo, considerando que a entrada na vida adulta não é simples pra ninguém. Mas a relação de Rob com todas as mulheres ao seu redor é uma mistura de mansplanning e irresponsabilidade afetiva. Ele tem o hábito de reprovar as músicas que suas namoradas ouvem no carro, grava mixtapes e compra discos que pensa que elas deveriam ouvir no lugar dos que gostam e, sobretudo, não mede esforços para transformá-las em uma cópia de si mesmo do sexo oposto. Em paralelo, foge de compromissos que exijam algum suporte emocional e passa uma boa parte do tempo se autodepreciando.

Ao terminar o livro, fiquei me perguntando o que esse personagem tem que pode fazê-lo amado, pois a lista de situações e atitudes inapropriadas é extensa. De toda forma, acredito que o narcisismo seja o ponto-chave da mudança na forma como o encaramos. Se, em algum momento, aprendemos a admirá-lo pelo estilo de vida e fidelidade ao que acredita, a necessidade de ser reconhecido, cuidado e bajulado acaba nos afastando. No fim das contas, Rob Gordon gosta tanto de si, que adoraria transformar o mundo em um exército de clones seus.

Tom Hansen, de 500 Dias Com Ela

Em 500 Dias Com Ela, o mocinho outsider é Tom Hansen, vivido por Joseph Gordon Levitt. Um jovem formado em arquitetura, mas que trabalha escrevendo textos para cartões comemorativos. Fã de Smiths e música britânica, “cresceu acreditando que nunca seria verdadeiramente feliz até o dia que conhecesse a mulher certa”. Tom se apaixona por Summer (Zooey Deschanel), sua nova colega de trabalho, quando, ao pegarem o mesmo elevador, ela reconhece a música que ele está ouvindo  (“There is a Light That Never Goes Out“, The Smiths) e diz amar a banda. Summer, ao contrário de Tom, não acredita que existem pessoas predestinadas a ficarem juntas e, desde o início, diz não se sentir confortável na posição de “namorada de alguém”. A partir daí, se desenha um relacionamento baseado em interesses diferentes: Tom quer viver uma relação convencional e Summer, embora goste do que estão construindo, não deseja ter algo sério.

Existem inúmeras coincidências entre Tom e Rob, o que já foi apontado por diversos textos, mas acredito que a principal diferença entre ambos está em algo que, curiosamente, se tornou uma das cenas mais famosas do filme: a expectativa.

Tom acredita que Summer é sua alma gêmea por gostar das mesmas coisas que ele. A partir disso, a expectativa de que o relacionamento se desenrole por um caminho rodeado de flores é gigantesca. Enquanto Rob tenta transformar suas namoradas em alguém que ele é capaz de amar, Tom tenta transformar uma pessoa cujos interesses são coincidentes com os seus, em sua namorada. E é a partir daí que a coisa perde o encanto.

A recusa de Tom em aceitar o fim do relacionamento parece estar ligada à sensação de perfeição que existe em sua cabeça, mas não reflete a realidade. Em um momento de término, quando Summer diz que acredita que eles precisam parar de se ver, ele demonstra ter uma percepção completamente diferente da relação, como se a infelicidade dela não estivesse evidente.

Um amigo uma vez me disse que 500 Dias Com Ela é o filme sobre “o cara que não fez terapia”. E é bem por aí que Tom parece não ser um personagem atraente pra mais ninguém: encerrado em si mesmo, no ideal de relacionamento que criou, não consegue aceitar o término de uma relação que parecia perfeita apenas em sua cabeça. Tendo consciência da violência que pode se desenvolver a partir da recusa de um homem em aceitar um término, fica difícil olhar para o personagem com bons olhos.

Ross Geller, de Friends

Um pouco diferente de Rob e Tom, Ross (David Schwimmer) é o outsider que mais se aproxima do nerd. Paleontólogo, ele é chamado de “cara dos dinossauros” por uma das mulheres com quem se envolve, na terceira temporada. Em inúmeros episódios é encarado como motivo de piada por gostar de temas que fogem do padrão de sua turma — arte, história e música. Além disso, é o filho preferido, o mais romântico entre os personagens masculinos e, por algum motivo, obcecado com casamentos.

Ao longo das 10 temporadas de Friends, se relaciona com diversas mulheres, mas sua principal trama se desenrola entre as idas e vindas com Rachel Greene (Jennifer Aniston). Por ter um perfil mais sensível, Ross poderia ser uma representação positiva de masculinidade, mas o que se desencadeia desse viés é uma série de atitudes baseadas em insegurança e sua incapacidade de lidar com ela.

Ross foi apaixonado por Rachel durante os tempos de escola e, ao reencontrá-la na vida adulta, sente dificuldades de se declarar. Depois de uma temporada inteira de muitas tentativas falhas, eles ficam juntos. O término vem na terceira temporada, depois de mais uma briga por ciúmes com Ross, Rachel pede um tempo. A noite acaba com o personagem ficando com outra mulher e desencadeando a maior discussão da série de todas as temporadas: é traição ou não?

Embora eu tenha minha opinião, a resposta pra essa pergunta é pouco relevante para o ponto que estamos construindo aqui. O que importa é que Ross já havia cruzado a linha do aceitável muito antes de dormir com outra mulher. Com a desculpa de estar sendo atencioso e romântico, impõe sua presença em ambientes onde a personagem não o quer, comprometendo sua vida profissional. Além disso, ao longo das temporadas, constantemente tem crises de ciúmes e desdenha do intelecto e gostos de Rachel. A opção de terminar a série com o casal reunido é, na minha opinião, uma das mensagens mais erradas que o seriado passa.

A coincidência dos términos serem muito relevantes na formação dos três personagens é um fato que chama atenção. Se as produções inovam ao apresentar homens mais sensíveis, capazes de sentir e sofrer o fim de um relacionamento, trazem também algo real, mas pouco saudável: a incapacidade que alguns deles têm de lidar com as próprias dores e frustrações.

Voltando alguns anos no tempo, lembro de um termo bastante popular na minha adolescência: “friendzone”. Ele partia da linha de pensamento: “como assim eu fui legal com uma menina e ela não se apaixonou por mim?”. Provavelmente muitos garotos que se consideravam legais estavam seguindo os mesmos passos de personagens como os citados: sendo apenas autocentrados o suficiente para não entender que, em todo relacionamento, existe uma outra pessoa com desejos, expectativas e sentimentos. Ao ver essas figuras sendo rejeitadas pela nova geração (e também pela que costumava gostar delas), fico otimista para que novas narrativas de relacionamentos possam ser construídas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma.

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2 comentários

  1. Eu gostava muito de 500 dias com ela (e ainda gosto!) e demorei um tempo pra entender o filme de verdade, depois de me aproximar das leituras feministas. E aí ele começa a fazer bem mais sentido! É curioso como esses personagens bons moços ganharam muito a cultura no início dos anos 2000, e convenceram bastante os telespectadores… até percebemos que eles eram obcecados com aquela ideia da mulher perfeita e queriam moldá-la a seu próprio gosto.

    1. Nossa, é exatamente isso. haha 500 dias com ela foi e ainda é uma das minhas comédias românticas favoritas. Na primeira vez que assisti, fiquei do lado do Tom. Hoje, eu vejo tudo de um jeito bem diferente. Mesmo que diretores e roteiristas tenham tentado fazer o Tom ser o lado “certo” (o que não sei se é o caso), é uma história que dá pra interpretar sob perspectivas diferentes. E isso é bem legal.