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A figura materna na série Harry Potter

Ainda que nos últimos anos J.K. Rowling tenha nos feito sentir tristes, para dizer o mínimo, com relação a seus comentários e posicionamentos a respeito de escolhas equivocadas de elenco nos filmes da franquia, entre outras coisas, é certo dizer que seu trabalho com Harry Potter ainda permanece — e permanecerá — por muitos anos no coração dos fãs.

O universo criado por Rowling é repleto de mistério e magia, fala sobre a importância do amor enquanto faz duras críticas a segregação racial, social e econômica, e ainda amarra tudo isso em uma trama sobre esperança. Sim, esperança de que dias melhores virão e de que é preciso lutar para que esse futuro aconteça. Em suas manifestações fora do mundo mágico de Harry Potter, no entanto, Rowling peca ao apoiar a permanência de Johnny Depp, acusado de violência doméstica por sua ex-esposa Amber Heard, no papel de Grindelwald na série Animais Fanásticos e Onde Habitam, o que vai totalmente contra o posicionamento de seus personagens em Harry Potter.

De qualquer maneira, esse texto (ainda) não é sobre isso.

J.K. Rowling fez do tema maternidade uma constante em Harry Potter e isso pode ser resultado do relacionamento próximo que a autora teve com a própria mãe, Anne Volant Rowling, que faleceu após dez anos lidando com a esclerose múltipla. Na época, Rowling escrevia Harry Potter e a Pedra Filosofal e o tema da morte se tornou cada vez mais presente na história, assim como a maternidade e suas diferentes formas. Ainda que, tecnicamente, a trama dos sete livros fale muito sobre o crescimento de Harry enquanto órfão, sabemos que grande parte dos adultos que cruza o caminho do protagonista deixa uma impressão muito forte nele — de maneira positiva ou negativa. Crescer sem os pais, assassinados por Voldemort em sua busca megalomaníaca por poder, moldou toda a trajetória de Harry e também sua maneira de se relacionar com outras pessoas — e, inclusive, as figuras maternas de sua vida.

O Amor de Uma Mãe: Lílian

Harry teve apenas um ano para viver ao lado da mãe, Lílian, e desse único ano não restaram muitas memórias para além do grito desesperado dela quando Voldemort os alcança. Tiago já havia sido morto pelo bruxo, enquanto tentava ganhar tempo para Lilian e Harry, e não há nada que ela possa fazer para impedir o triunfo do Lorde das Trevas fora proteger o filho com a própria vida. O sacrifício de Lílian, dando a vida pelo filho, seria responsável por proteger Harry pelos próximos quatorze anos: o amor que sentia por Harry foi capaz de evocar um feitiço antigo de que nem mesmo Voldemort tinha conhecimento. A proteção sacrificial é um encantamento duradouro, conjurado apenas quando uma pessoa, por amor verdadeiro, sacrifica sua vida para salvar outra. O feitiço é tão poderoso que o assassino é impedido de tocar na pessoa salva, visto que a proteção passa a viver, literalmente, em suas veias. Voldemort dá a Lílian a opção de deixar Harry e viver, mas ela decide se colocar à frente do filho para protegê-lo, ativando o encantamento. Ao optar por dar sua vida em troca da de Harry, Lílian o envolve com o que há de mais poderoso no universo criado por Rowling: o amor.

É certo dizer que não sabemos muito mais sobre Lílian além daquilo que nos é dito por outros personagens que viveram junto dela, e essa visão pode ser deturpada pela saudade dos que ficaram, mas ela se mantém como uma presença constante na vida do filho. Seja por meio dos sempre citados olhos verdes — “Harry, você tem os olhos da sua mãe… Mas é idêntico ao seu pai” —, por conta da proteção sacrificial ou por toda a rede de apoio que ela construiu para ele ao cercar-se de amigos leais e corajosos (e não, não estou incluindo Pedro Pettigrew nessa lista). Ao nomear Sirius Black como padrinho de Harry, Lílian e Tiago asseguraram que o filho tivesse sempre ao lado uma pessoa idônea e que faria de tudo por ele; Remus Lupin, um amigo valioso e por quem Lílian nutria um carinho especial (como esquecer que ela foi a primeira a descobrir sobre o lobisomem que morava em Lupin e não se afastou dele, ajudando-o sempre que era preciso?), também foi uma figura importante na vida de Harry e venceu um pouco da tristeza que sentia pela perda dos amigos ao encontrar os melhores traços de suas personalidades no filho.

Em Harry Potter e as Relíquias da Morte, Lílian — assim como Tiago, Sirius e Lupin — reaparece para mostrar que, durante todos aqueles anos, sempre esteve ao lado de Harry. Na medida em que o garoto entra na Floresta Proibida para enfrentar Voldemort pela última vez, todo o amor de Lílian se faz mostrar novamente e Harry repete os passos da mãe: por amor aos seus amigos e aquilo em que acredita, Harry permite que Voldemort o atinja com uma Maldição Imperdoável. A parte da alma de Voldemort que existe em Harry é morta, mas o menino que sobreviveu vive novamente. E tudo por amor.

“Dumbledore: Sua mãe morreu para salvar você. Se existe algo que Voldemort não consegue compreender é o amor. Ele não entende que um amor forte como o de sua mãe por você deixa uma marca própria. Não é uma cicatriz, não é um sinal visível… ter sido amado tão profundamente, mesmo que a pessoa que nos amou já tenha morrido, nos confere uma proteção eterna. Está entranhada em nossa pele. Por isso Quirrel, cheio de ódio, avareza e ambição, compartindo a alma com Voldemort, não podia tocá-lo. Era uma agonia tocar uma pessoa marcada por algo tão bom.”

Vínculo de Sangue: Petúnia

Com a morte de Lílian e Tiago, Harry se torna órfão. Sirius não pode cumprir sua função de padrinho, e Dumbledore decide que o melhor para o menino é ficar sob a proteção da família de Lílian, o que significa colocar Harry sob os cuidados de Petúnia e seu marido, Válter Dursley. A relação entre as irmãs nunca foi das melhores e degringola quando Lílian recebe a carta de Hogwarts, confirmando a existência de seus poderes mágicos, e Petúnia não. Petúnia, ainda criança, envia, então, uma carta para Dumbledore pedindo permissão para frequentar Hogwarts junto da irmã, mas como não havia magia na menina, não há nada que o diretor pudesse fazer a respeito. A jovem Petúnia fica cada vez mais enciumada e decide que não quer ter mais nenhuma relação com a irmã; sua vida normal e perfeitamente tradicional não teria espaço para Lílian, seus bolsos cheios de ovas de sapos e feitiços que transformam xícaras em ratos. Para Petúnia, ela era a única capaz de ver Lílian por aquilo que ela verdadeiramente era: uma aberração. O Sr. e a Sra. Evans, no entanto, se orgulhavam de ter uma bruxa na família, tratando Lílian com ainda mais deferência e entusiasmo do que nunca, o que faz de Petúnia uma pessoa ainda mais amarga.

Quando Lílian é morta por Voldemort, agora é Dumbledore quem escreve uma carta para Petúnia: para assegurar a proteção de Harry até sua maioridade, é imprescindível que ele viva sob o teto de seus parentes de sangue, o que envolve diretamente a família de Petúnia. A mulher não tem nenhum motivo para gostar de magia, afinal foi essa mesma magia que a fez se afastar da irmã e depois a matou, mas decide aceitar o sobrinho. Como guardiã de Harry, pode-se dizer que Petúnia fez apenas o necessário para assegurar a sobrevivência do menino, visto que nunca o tratou com muito carinho ou cuidado. Diferente da maneira como criava o próprio filho, Duda, Petúnia era negligente e abusiva com o sobrinho, transferindo para Harry os sentimentos que tinha por Lílian, somando, agora, também o medo da magia.

Em um primeiro momento, Petúnia pode ter acolhido Harry em sua casa apenas por medo de Dumbledore, mas seu ato foi responsável por garantir que o sobrinho pudesse ter pelo menos dezessete anos de segurança sobre seu teto — ou enquanto ele considerasse a casa de número onze na Rua dos Alfeneiros o seu lar. Harry não recebeu amor de mãe de Petúnia, mas o vínculo de sangue que dividiam foi responsável por mantê-lo a salvo de Voldemort e dos Comensais da Morte enquanto crescia. O relacionamento entre tia e sobrinho nunca foi dos melhores, marcado por mágoas e ressentimentos de ambas as partes, e o tratamento que Harry recebeu dos Dursley ficará marcado para sempre em sua vida, mas, no final do dia, não foi apenas Harry quem perdeu uma mãe: Petúnia perdeu a irmã sem nunca ter se resolvido com ela e poucas dores devem ser piores do que o arrependimento.

“Dumbledore: Ela pode ter levado você de má vontade, com raiva, contra a vontade e com amargura, mas ainda assim ela te levou, e ao fazê-lo, ela selou o encanto que eu coloquei em você. O sacrifício de sua mãe tornou o vínculo de sangue o escudo mais forte que eu poderia ter lhe dado”.

A Segunda Mãe: Molly Weasley

A figura materna que vem mais facilmente à lembrança quando se pensar em Harry Potter, sem dúvidas é a de Molly Weasley. Mãe de sete filhos biológicos e de Harry — e Hermione — por coração, Molly reúne os melhores predicados quando se fala em maternidade na saga de J.K. Rowling. Ainda que durante os sete livros nós possamos conhecer diversas figuras maternas que amam verdadeiramente seus filhos — não dá para negar, por exemplo, o amor que Petúnia sente por Duda ou Narcisa Malfoy por Draco —, Molly é, muito provavelmente, a única que estende esse amor a crianças que não são biologicamente suas. Molly já tem trabalho o suficiente cuidando de seus sete filhos e d’A Toca, mas não pensa duas vezes em receber Harry em seus braços enquanto entende perfeitamente a posição do menino no mundo bruxo. Ela não o acolhe por ser famoso, “O Menino Que Sobreviveu”, mas por compreender o trauma que Harry carrega consigo devido o assassinato dos pais.

Eventualmente, Molly se torna sogra de Harry devido ao seu casamento com Gina, mas o amor que sentia pelo menino vem de muito antes — talvez, até, do primeiro encontro que tiveram na Estação King Cross em Harry Potter e a Pedra Filosofal. Ali está um menino descobrindo um novo mundo, e ela sabe o quanto isso pode ser assustador, então o ajuda a passar pela parede de tijolos para chegar à Plataforma 9 ½. Daquele momento em diante, e após a amizade de Rony com Harry, ela o acolhe e o protege assim como protege seus filhos, transformando A Toca em uma segunda casa para ele, um lugar em que sabe que é amado e protegido. Molly é mãe e dona de casa, e junto de seu marido, Arthur, foi capaz de criar uma família amorosa e unida — até mesmo Percy, que vai cair em si eventualmente — e que não coloca seu privilégio como bruxos puro sangue acima dos outros.

Molly Weasley pode reunir alguns dos estereótipos que formam a imagem de uma mãe na cultura pop, mas isso não a faz uma personagem menos valiosa em Harry Potter. Ainda que fique boa parte do tempo na cozinha, que cuide do lar, dos filhos e do marido com extremo zelo, Molly também é uma bruxa extremamente talentosa e poderosa capaz, inclusive, de confrontar Belatriz Lestrange, uma das mais fiéis seguidoras de Voldemort e parte dos Comensais da Morte. O amor maternal de Molly por seus filhos a faz invencível e imparável e a obsessão de Belatriz por Voldemort não é nada perto desse sentimento.

“Sirius: Harry não é seu filho!
Molly: É como se fosse!”

Mães de todos os tipos

Além das figuras maternas mais óbvias e presentes na vida de Harry durante sua jornada, há também aquela que se destaca mas não é, necessariamente, mãe. A Professora Minerva McGonagall aparece logo em Harry Potter e a Pedra Filosofal, uma figura de importância e autoridade dentro de Hogwarts e responsável pelos alunos da Grifinória, e que, sim, se importa verdadeiramente com os estudantes de Hogwarts e seu bem-estar. A professora, inclusive, é contra a ideia de Dumbledore de deixar Harry com os Dursley por achar que eles são inaptos para a missão de cuidar do bebê. Enquanto Harry está em seus anos escolares, McGonagall geralmente o aconselha e ajuda a ser a melhor versão de si mesmo, batendo de frente com Dolores Umbridge em Harry Potter e a Ordem da Fênix em favor do garoto em mais de uma ocasião. Minerva pode não ser a figura materna idealizada como Molly mas, à sua maneira, sempre esteve por perto e de olho em Harry, zelando por ele assim como por todos os seus alunos.

“McGonagall: Potter, eu o ajudarei a se tornar auror nem que seja a última coisa que eu faça na vida! Nem que eu tenha de lhe dar aulas todas as noites, garantirei que você obtenha as notas exigidas!”

Outra figura materna que tem grande impacto na vida de Harry, mesmo que suas ações tenham sido pensadas para proteger o próprio filho, é Narcisa Malfoy. Mesmo que estivesse ao lado de Voldemort e dos Comensais da Morte com seu marido, Lucius, Narcisa não deixa de ser uma mãe dedicada e que ama incondicionalmente a ponto de fazer um Voto Perpétuo com Severo Snape para assegurar proteção à Draco. O Voto Perpétuo é um encantamento em que dois bruxos fazem um juramento sob termos específicos escolhidos por eles; se um dos bruxos quebrar o juramento, eles morrem. Ao realizar um Voto Perpétuo com Snape, Narcisa sabe o risco que corre, mas não pensa duas vezes ao fazer o professor prometer que irá mentorar Draco na tarefa que Voldemort o incumbiu: matar Dumbledore. Tal ato serve para provar que Narcisa também não pensará duas vezes ao desafiar Voldemort para proteger Draco. Em Harry Potter e as Relíquias da Morte, Narcisa mente para o Lorde das Trevas e, ao fazê-lo, protege não apenas Draco, mas também Harry por consequência.

“Narcisa: Não há mais nada que eu não faça!”

Além de Narcisa, é possível falar também sobre a avó de Neville, Augusta Longbottom, na lista das mães marcantes da série. Ainda que Augusta não interaja diretamente com Harry, ela é a figura materna na vida de Neville — os pais de Neville, Frank e Alice Longbottom, eram aurores e membros da Ordem da Fênix original. Frank e Alice eram considerados os mais brilhantes do grupo e sobreviveram, assim como Lílian e Tiago, a três duelos com Voldemort. Mas o casal acabou enlouquecendo quando foi torturado com a Maldição Cruciatus por um grupo de Comensais da Morte, sendo internados no Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos para sempre. É lá que Harry, Rony e Hermione os encontra pela primeira vez e descobrem a trágica história dos pais de Neville. Desde esse acontecimento, Augusta cria Neville. Embora não seja de demonstrar muito carinho e aja rigidamente na criação do neto, a avó de Neville é presença importante e constante em sua vida. Augusta é exigente e perfeccionista, mas ama o neto e o filho, desejando sempre que Neville tenha orgulho dos pais que foram corajosos mesmo enquanto estavam sendo torturados. E Neville sente, sim, orgulho de ser filho de Frank e Alice, tendo herdado a coragem dos pais e se mostrado um verdadeiro integrante da Grifinória em mais de uma ocasião durante os livros.

Todas essas mulheres imprimiram um pouco delas em Harry — até mesmo Narcisa que, ao trair Voldemort na Batalha de Hogwarts, fez com que ele pudesse continuar a lutar. Molly o amou quando Lílian não podia, Petúnia o acolheu em casa mesmo que isso a colocasse novamente em contato com a magia que tanto repudiava e McGonagall o ensinou a ser íntegro e leal. O amor, afinal, é o que de mais forte existe e todos esses laços estão aí para provar.

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5 comentários

  1. E chego arrepiar ao relembrar essas histórias!
    Por que, desde o enredo de Lily à Narcissa traindo Voldemort – uma das coisas que lembro que mais me surpreenderam nos livros -, é tudo muito bem pensado e amarrado na mente genial de J.K.
    Ainda, acho lindíssimo que tenha considerado Minerva quase como uma figura materna de Harry, considerando sua própria história pessoal, pois o modo como ela o tratava era para o melhor. Ela é o tipo de personagem que você consegue amar, mesmo com sua rigidez e formalidades, e uma das mais completas do universo a meu ver.
    É muito GRL POWER!
    Parabéns pelo texto, amei!
    <3

    1. Isso não dá pra negar, Rowling pensou muito bem sobre como amarrar cada pedacinho da trama!
      E dos professores todos, Minerva é a minha favorita. Adorei conhecer um pouco mais da história dela (daquele texto lá do Pottermore), e ainda que ela não seja uma escolha muito óbvia, acho que pode ser vista como uma figura materna pro Harry, sim! E fico feliz que tenha gostado do texto!! Escrevi com muito carinho (e nostalgia, mddc). <3

  2. molly e minerva, caso de amor sério por essas duas. mas é bem isso, todas tiveram seus momentos importantes nesse caminhar todo do harry. no filme eu nem tinha prestado muita atenção nisso, pra falar a verdade. já nos livros eu senti que esses detalhes foram mais desenvolvidos, mostrando a importância de cada uma na criação não só do harry mas de todos os seu filhos, biológicos ou não 🙂