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Como as mulheres me fizeram (re)descobrir o cinema nacional

É muito comum ouvir, quando se fala em cinema brasileiro, que a produção nacional não presta ou não tem futuro. Frases assim são repetidas incansavelmente mesmo por pessoas que não têm contato algum com a realidade cinematográfica do país; muitos acabam reproduzindo falas repletas de preconceito com a produção cultural nacional. Inclusive eu.

Percebi como me colocava nessa situação, e ainda hoje me pego nela de maneira desprevenida, de não valorização da nossa produção cultural, da nossa literatura, do nosso cinema, e até mesmo da produção científica. Como refletia Nelson Rodrigues, por meio de seu conceito de complexo de vira-lata, nós, povos colonizados, temos a tendência de valorização extremada das culturas norte-americanas e europeias, e isso se reflete nessa constante colocação de nós mesmos em posições de inferioridade em face do resto do mundo. Durante todo o processo histórico brasileiro, nós, enquanto sujeitos, parecemos não ter desenvolvido uma espécie de orgulho e autoestima enquanto nação, enquanto coletividade, e isso reflete diretamente em como consumimos arte e como nos projetamos enquanto sociedade.

E isso acontece também por outro fator, desencadeado pela mesma motivação, que é a circunstância da nossa produção ser “massacrada” em termos de espaço e divulgação em detrimento dos filmes estrangeiros. Basta observar quando for ao cinema: quando vou ao cinema da minha cidade não há nenhum filme brasileiro em cartaz. Ou, quando há em cartaz, há pouquíssimas sessões ou salas disponíveis. Não existe qualquer encorajamento ao consumo desses filmes, além da divulgação deficiente e limitada. Até mesmo a restauração de filmes históricos e importantes para a nossa cultura é feita escassamente, desconsiderando seus valores.

Para tanto, nesse meio-tempo, como reflexo dessa posição inferiorizadora que nos colocamos, acabou por passar despercebidos uma gama de filmes nacionais relevantes das últimas décadas. Ou até mesmo da nossa história cinematográfica: quantos filmes brasileiros clássicos vocês conhecem? Por meio do projeto #52FilmsByWomen, toda a minha forma de enxergar produções cinematográficas foi afetada por completo — e isso inclui as produções nacionais.

Após ler tantos depoimentos de pessoas que se debruçaram sobre a iniciativa, e sobre o quanto é importante esse incentivo de consumo de projetos inclusivos, compreendi que para haver uma real experiência de diversidade, não basta assistir apenas filmes feitos por mulheres, mas deve haver uma diversidade frente aos gêneros cinematográficos, aos formatos dos filmes e, principalmente, quanto aos países de origem e, desse modo, o Brasil passou a ser um sujeito central nesse parâmetro.

Grande parte da minha interpretação da indústria cinematográfica brasileira se baseava na concepção de que a grande massa de filmes produzida era feita de comédias que basicamente copiavam a velha técnica hollywoodiana e que geralmente estavam em cartaz nos cinemas sendo distribuídos pela famosa Globo Filmes. Entretanto, espantei-me com a vastidão de gêneros e criações independentes, que refletem a nossa diversidade enquanto país. Então, desse modo, selecionei algumas obras brasileiras que imprimem toda essa diversidade e força do cinema nacional por meio da ótica de várias diretoras incríveis.

Mãe só há uma, Anna Muylaert

Anna Muylaert, que já expressou toda sua identidade e personalidade por meio de longas como Que Horas Ela Volta? e Durval Discos, já se manifestando como uma das diretoras mais elogiadas do país, me surpreendeu por completo com Mãe Só Há Uma. O longa conta a história de Pierre, que descobre abruptamente que sua família não é a biológica quando a polícia prende sua mãe. Desnorteado, o adolescente vai atrás de seus parentes consanguíneos, que o chamam constantemente de Felipe, e essa nova realidade faz com que o rapaz entre numa busca sobre a sua real identidade.

A narrativa se impõe logo nos primeiros minutos de filme, demonstrando consideração pelo recorte de gênero e classe, já tão presente em outras obras da diretora, e se propõe a desenvolver campos emocionais e dramáticos geralmente pouco explorados pela “nata” do cinema nacional em que temos contato diariamente. Um filme surpreendentemente emocionante e que se propõe a incomodar o expectador.

Bicho de Sete Cabeças, Laís Bodanzky

O filme, inspirado em um livro autobiográfico do autor Austregésilo Carrano, nomeado O Canto dos Malditos, conta a trajetória de Neto, um adolescente sadio, mas rebelde, que possui um relacionamento complicado com seus pais, que pensam estar perdendo o controle de seu filho. O relacionamento deles chega em seu ápice no momento em que Neto é internado em um manicômio por seu pai, que espera, com essa atitude, teoricamente afastar o filho das drogas. No manicômio, Neto conhece uma realidade desumana e vive emoções e horrores que ele nunca imaginou que pudessem existir.

Bicho de Sete Cabeças é, provavelmente, um dos filmes mais perturbadores e assustadores que já vi em toda a vida. Retratando o sistema manicomial brasileiro, o filme busca abordar os sentimentos humanos em seus extremos. Laís Bodanzky se destaca por sua forma direta, simples e crua, em um tom quase documental, de contar essa história tão dolorosa. Rodrigo Santoro está em uma de suas melhores atuações dando vida a Neto e o filme mostra o poder que o cinema nacional tem de contar experiências com tanta seriedade e importância.

Bicho de Sete Cabeças passou pelos festivais de Brasília e de Recife, sendo consagrado com as principais estatuetas —  entre elas a de Melhor Filme, Direção, Roteiro e Ator, para Rodrigo Santoro. Laís Bodanzky também é a responsável por filmes como As Melhores Coisas do Mundo e Como Nossos Pais.

Que Bom te Ver Viva, Lúcia Murat

O filme aborda a tortura durante o período de ditadura civil-militar no Brasil por meio do relato de mulheres sobreviventes que relatam, cerca de duas décadas depois, os anos de violência que vivenciaram. Que Bom te Ver Viva brinca com os gêneros de ficção e documentário, apresentando depoimentos de oito ex-presas políticas brasileiras torturadas, como também apresentando uma personagem anônima, interpretada pela atriz Irene Ravache, que toma parte de um monólogo intenso e doloroso sobre suas experiências.

Lúcia Murat, que foi uma vítima direta da tortura no período da ditadura militar, trata de dar vida a trajetória de algumas mulheres brasileiras que lutaram contra o regime, e como estas procuraram recuperar, uma a uma, a sua própria maneira, suas vidas e suas identidades. Por conhecer sua vida pessoal e suas vivências, a figura da diretora influencia diretamente sobre a interpretação desse longa extraordinário que nos faz repensar as amarras do militarismo, da falta de memória no país e também em como o patriarcado age diretamente sobre os corpos das mulheres, principalmente nessas situações.

Divinas Divas, Leandra Leal

Provavelmente vocês já conhecem Leandra Leal das diversas novelas e filmes em que trabalhou como atriz. Entretanto, em Divinas Divas, ela assume o papel de direção com maestria. O documentário conta a história das divinas divas, ícones da primeira geração de artistas travestis conhecidas do Brasil, por volta dos anos 1960. Rogéria, Valéria, Jane di Castro, Camille K., Fujica de Holliday, Eloína, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram o grupo que testemunhou o auge da Cinelândia, repleta de cinemas e teatros. O Teatro Rival, dirigido por Américo Leal, avô da diretora, foi um dos primeiros palcos a abrigar essa arte.

Pela proximidade familiar e por conta do próprio contexto do filme se passar no Teatro Rival, que hoje é administrado por Leandra, o longa assume esse tom sensível, pessoal, quase nostálgico, que aborda afetuosamente o talento e as trajetórias de vida de uma geração que desafiou e revolucionou os papéis sociais de uma época. Em um momento que, no país, o conservadorismo está em crescente, o filme assume um papel essencial para relembrarmos a resistência em momentos tão difíceis. Filme obrigatório.

As Boas Maneiras, Juliana Rojas e Marco Dutra 

O filme mais atual da lista, e também, talvez, o mais surpreendente e que se destaca por sua tão única e extraordinária história, As Boas Maneiras é um horror brasileiro que se propõe a versar sobre questões de sexualidade e divisão de classes. Essa fábula narra a vida de duas mulheres. Uma enfermeira solitária vinda da periferia, Clara (Isabél Zuaa) é contratada por Ana (Marjorie Estiano) mulher rica vinda de uma elite rural como babá do filho que ela espera. Com o passar do tempo, Clara começa a perceber que algo não vai bem com aquela gravidez.

É muito difícil ouvir falar do cinema nacional, ainda mais quando este faz parte de um gênero que tem em si mesmo preconceitos de todas as naturezas. Juliana Rojas já se destacou por seu filme Sinfonia da Necrópole e aqui ela toma um rumo bastante interessante na forma de contar a história de Clara e Ana.

Cinema Nacional, ANCINE e o que esperar daqui pra frente

Após essa tentativa de consumir mais cinema brasileiro, a minha concepção sobre a minha realidade, sobre como eu me enxergo enquanto mulher latino-americana foi completamente transformada. O incentivo ao cinema nacional é também a valorização de nós mesmos, da nossa cultura e identidade. Essa situação de desconsideração com as nossas obras não é uma circunstância que afeta apenas a indústria do entretenimento, mas que acaba refletindo como nós agimos e nos identificamos diariamente enquanto seres políticos, já que pessoas muito jovens vêem-se dissociadas entre o que elas vivenciam no cotidiano com a produção cultural que consomem.

Quando temos contato apenas com filmes estrangeiros que não refletem nossas individualidades, que não valorizam nossos traços e histórias, acabamos por reforçar esse processo do complexo de vira-lata. Ao não nos enxergarmos (praticamente nunca), ao não nos vermos valorizados em formas de arte, como o cinema, internalizamos, mesmo que indiretamente, que o cotidiano do outro é sempre melhor.

A Agência Nacional do Cinema, ANCINE, é um órgão oficial do governo brasileiro que se imprime enquanto uma agência reguladora cujo objetivo é incentivar, regular e fiscalizar a indústria cinematográfica e videofonográfica nacional. A ANCINE, hoje, é essencial para que tenhamos o cinema nacional como formador de nossas identidades e subjetividades. Porém, com o (des)governo atual, a ANCINE, que incentiva diretamente a nossa cultura, corre risco. Ao desestruturar essa instituição, que já não possui muitos recursos e incentivo de políticas públicas, esse processo de internalização de que a nossa cultura não presta e não produz “filmes marcantes” como Hollywood, por exemplo, se intensifica ainda mais.

O cinema brasileiro evoluiu bastante nos últimos tempos e vive em um ótimo momento. Em 2016 foram lançados 143 filmes e o mercado interno está em ascensão, sendo que em janeiro de 2017 um único filme atingiu a marca de 8 milhões de ingressos vendidos. O cinema brasileiro está recebendo destaque em diversos festivais internacionais — e aqui vale lembrar que no Festival de Cannes de 2019, Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho, recebeu o prestigiado Prêmio do Júri. E a ANCINE tem um papel direto nisto.

Ao assumir a postura de que o Estado não deveria estar preocupado em incentivar a produção cinematográfica (e por extensão toda a produção cultural e científica, que recebem ataques diários), ou afirma de maneira leviana que o governo deve poder regulamentar e impor filtros nas produções audiovisuais brasileiras, a ANCINE corre risco — e toda a nossa produção cultural também. Em defesa da ANCINE e do cinema nacional, uma campanha tem tomado as redes sociais: por meio da hashtag #ANCINESim, os usuários são convidados a citar um filme brasileiro que marcou sua vida, convidando amigos para fazerem o mesmo, dando início a uma corrente de divulgação do cinema nacional. A ideia é que experiências com o cinema nacional sejam compartilhadas, seus filmes favoritos, e como eles formaram sua identidades.

Nosso cinema é muito rico e deve ser valorizado, e a importância de defender nossa cultura e identidade passa por cada uma dessas produções. Vamos em defesa da ANCINE.


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