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As mulheres em Bom Sucesso

Um exame de saúde trocado une a vida de duas pessoas que aparentemente não compartilham nada em comum. Na novela Bom Sucesso, um dos últimos acertos da Rede Globo no horário das 19h, Paloma da Silva (Grazi Massafera), costureira que mora no bairro de Bonsucesso no Rio de Janeiro, vai a uma clínica fazer um exame de rotina para seu trabalho numa butique de Ipanema. Mas seu exame é trocado com o de Alberto Prado Monteiro (Antonio Fagundes), fundador e dono da editora de livros Prado Monteiro. Paloma está em perfeita saúde, mas o exame de Alberto revela que ele tem apenas seis meses de vida devido a um câncer.

Com a troca dos exames, Paloma acredita ter pouco tempo de vida. Com três filhos ainda dependentes dela, a moça se desespera. Com isso começa a fazer coisas que nunca faria antes: quebra a vitrine da loja em que trabalha como retaliação aos anos de abuso verbal e pede demissão em seguida; sai fantasiada de passista pela rua e vai parar na praia; liga para Ramon (David Junior) — o pai de sua filha mais velha que a abandonou ainda com a bebê no colo para viver o sonho de jogar basquete nos EUA —; vai para Búzios e dorme com Marcos (Rômulo Estrela), um irresponsável dono de bar.

Porém, é logo informada que sua saúde está perfeita e que na verdade seu exame foi trocado com o de outra pessoa. Paloma decide conhecer essa pessoa. Ela tem para si que pode entender o que Alberto está passando, pois um tempo antes era o que ela mesma sentiu. Assim nasce uma profunda amizade entre a costureira e o empresário ranzinza. Paloma traz para Seu Alberto um novo jeito de ver o mundo e ele proporciona a ela experiências únicas. Os dois se unem ainda mais ao descobrir a paixão mútua por livros.

No entanto, o relacionamento de amizade improvável entre os dois acaba por ter muitos opositores, dentre eles: Nana (Fabiula Nascimento), a filha mais velha de Alberto; Ramon, que volta dos EUA para estar com Paloma no que ele acredita serem seus últimos meses de vida; Diogo (Armando Babaioff), o marido de Nana que quer dar um golpe na família; e a atração que Paloma sente por Marcos, que vem a ser o filho mais novo de Alberto.

Carl Jung e o conceito de arquétipo

O psicanalista Carl Jung, que viveu entre o final do século XIX e meio do XX, apresentou o conceito de arquétipo. Segundo ele, arquétipos podem ser ideias ou modelos registrados na memória coletiva que se transpõem em símbolos que significam algo para cada pessoa. Porém esses significados são comuns no imaginário coletivo: embora tenham pequenas divergências de significado de pessoa para pessoa, seu cerne é o mesmo. Os arquétipos existem para a maioria dos comportamentos apresentados pela sociedade humana e permitem desenvolvimentos de padrões de comportamento. Esses padrões serão sempre atualizados com novos ideais sociais.

Na novela Bom Sucesso, o conceito de arquétipo de Jung é usado como base para a construção dos personagens, tanto femininos quanto masculinos. Marcos é o homem “galinha”, “pegador” e irresponsável; Ramon é o homem ciumento e raivoso (o ator ser negro faz com que esse vire um estereótipo racista); Alberto é o moribundo ranzinza que precisa de uma visão externa para perceber a beleza do mundo (como nos filmes Como Eu Era Antes de Você, de 2016, e Intocáveis, de 2011). Também as personagens femininas protagonistas seguem padrões de comportamento esperados de grupos específicos da população humana, atingindo assim uma espécie de empatia com o público. Ao invés de focar em facetas diversas do personagem, a construção deles gera ênfase em um ponto, tornando essas mulheres exemplos práticos de arquétipos sociais.

Paloma: a mãe

A mãe é protetora, gentil, suave e faz de tudo por seus filhos. É alguém que, acima de tudo, cuida do outro, e sacrifica a si mesmo pelo outro. Apesar de Paloma ter outros aspectos de sua vida e tentar se pôr como amante ou amiga, a personagem acaba sempre por ser mãe. Ela sempre se preocupa com os filhos em primeiro lugar, como a mãe tem o dever de fazer, e sua própria vida é posta em espera em função da criação deles durante anos.

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Assim que recebe a notícia que não tem muito tempo de vida, Paloma tenta quebrar seu arquétipo de mãe batalhadora. Ela se envolve com Ramon e Marcos e vai contra os filhos para acompanhar Alberto. Porém, ela acaba sempre projetando esse arquétipo nos espectadores. Sempre que tenta se afastar da imagem de mãe, fugir desse arquétipo, a narrativa a coloca de volta a ele. Quando está sozinha com Marcos e longe dos filhos, algo acontece para que ela tenha que voltar a eles. Paloma é, primeiramente e acima de tudo, mãe.

É por isso que Paloma deseja tanto o carnaval. Um momento de não ter que prestar atenção em suas responsabilidades maternas e ser ela por si mesma, colocando o arquétipo que é associada de lado para se transformar na figura da mulher livre. No carnaval Paloma não tem que cuidar de ninguém além de si, não mais a figura da mãe solitária, mas recorrendo a ajuda de Alberto para realizar seu sonho de desfilar como destaque (embora não aconteça exatamente como o esperado).

Nana: a filha

Já toda a saga de Nana é ter que lidar com a rejeição do pai. Apesar de ser também mãe, irmã e esposa traída, Mariana é principalmente filha em sua narrativa. O arquétipo de filha é tão claro na personagem que, em um primeiro momento, toda sua trama envolve o sentimento de não reconhecimento que ela nutre por Alberto. Depois suas outras facetas aparecem, mas seu arquétipo continua forte no imaginário: sua principal relação é com Alberto, o principal obstáculo que tem que vencer é se entender com o pai.

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Nana quer ser suficiente para seu pai, mesmo tendo talento para ser uma artista e não seguir seus passos na editora. A rejeição do pai faz com que ela seja a filha que quer ser como o progenitor: um espelho do pai. Nana só se afasta um pouco desse arquétipo quando entende que deve antes de tudo curar as mágoas que sente por ele. Só assim ela pode se transfigurar em outros arquétipos (mãe para Sofia e amante para Mário).

Gisele: a amante

É curioso que a personagem que trai sua chefe e amiga, que é moralmente caótica, seja interpretada por uma atriz negra. Não é a primeira vez que a emissora relega esse tipo de personagem para uma mulher negra. O arquétipo da amante nada tem a ver com traição, e sim com amor. Talvez Gisele (Sheron Menezzes) seja a personagem que mais engloba a ideia que o conceito de arquétipo está sempre mudando em nossa sociedade. Hoje não pensamos em amante apenas como alguém que ama, mas a palavra já contém outros significados: amante é também alguém que trai.

Gisele trai tanto a chefe-amiga com o marido dela como também o namorado, Yuri (Marcello Melo Jr.), com o antigo amante, mesmo que sentimentalmente. Amante é, atualmente, em nosso imaginário alguém moralmente corruptível, que vive fora das regras de convivência da sociedade. É esperado para os espectadores que Gisele, mesmo afirmando que não gosta de trair Nana, arme mil e um esquemas para ficar com a fortuna da chefe.

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Seu final não poderia ser outro a não ser a redenção pela morte. E após sua redenção/morte ser tida como segura, apesar de não ter feito muita diferença na narrativa (Diogo volta de qualquer forma), a não ser a experiência catártica da doação completa em nome da causa que traiu (Nana e a editora), é permitido a ela ter um final feliz. Já que sua doação foi completa, ela não mais responde pelo arquétipo de amante, mas sim pelo de herói — que se sacrifica para salvar todos —, merecendo viver como sempre sonhou.

Esses arquétipos apresentados nos personagens da novela não tornam os personagens ruins ou rasos. Muito pelo contrário: ao usar arquétipos junguianos como base para seus personagens, os autores da novela aproximam o público de sua história.

Outros personagens também podem ser vistos como arquétipos, já que a imagem mental que passam pode fazer parte de acontecimentos que ocorrem na vida real dos espectadores. Uma das filhas de Paloma, Alice (Bruna Inocêncio), apresenta uma narrativa que foca em sua superação de um trauma gerado por um sequestro e abuso sexual. Essa trama é secundária, como pede a história do folhetim, intercalada com outros aspectos da personagem, mesmo que esses aspectos também sejam ligados ao trauma que sofreu, como a escrita do livro e sua relação com Waguinho (Lucas Letto).

A outra filha de Paloma é Gabriela (Giovanna Coimbra), a garota esportista e doida por basquete. Francisca (Gabriela Moreyra) é a típica professora que quer salvar seus alunos e mostrar um futuro melhor para eles, um contraponto a Zeca (Elam Lima), que acredita que todos seus alunos são “vagabundos perdidos”. Silvana Nolasco (Ingrid Guimarães) é a diva desconectada da realidade, Lulu (Carla Cristina Cardoso) a mulher escandalosa sem papas na língua (configurando mais um estereótipo racista). Já Eugênia (Helena Fernandes) é a madame rica e preconceituosa e Vera (Angela Vieira), a mulher traída.

O público vê nesses arquétipos e personagens a si mesmos ou outras pessoas com que associam esses conceitos. Paloma é como a própria mãe dos espectadores: age, fala e toma atitudes iguais às das mães de muitos que acompanham a novela. Nana, a filha rejeitada, tem as dores de milhares de filhos que cresceram sem o carinho e aprovação paternos. Por fim, Gisele é o lado obscuro da humanidade, a amante que tenta fazer o bem ao mesmo tempo que tem a ambição do dinheiro ofuscando suas escolhas.

No fundo, quem acompanhou a novela viu nos personagens os mesmos arquétipos que os cercam, observados nas pessoas reais. É por isso que a trama é tão empática e funcionou tão bem. Ela tirou da percepção da vida real o jeito com que seus personagens agem, dando, assim, uma veracidade lúdica à trama que encanta e prende a atenção ao folhetim. Dessa forma, Bom Sucesso se tornou uma das melhores narrativas do horário das 19hs da década.

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