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“I remember everything”: como Pacey e Joey, de Dawson’s Creek, moldaram o conceito de amor adolescente na TV

Uma boa obra da cultura pop deve conter uma trama interessante, figuras relacionáveis, conflitos, diálogos bem-feitos e espaço para que os personagens possam crescer com arcos emocionais satisfatórios. Dawson’s Creek, que foi ao ar pela primeira vez em 1998, tinha tudo isso e mais uma bela exposição de diálogos intensos, rápidos, inteligentes e até um pouco irreais para os adolescentes da época (ou de qualquer época). Criada por Kevin Williamson, o seriado talvez não seja tão popular quanto The O.C. ou One Tree Hill — que vieram a fazer sucesso nos anos seguintes —, mas essa pequena obra-prima hoje se consagra com o status cult de uma das melhores produções adolescentes da televisão. Com um total de seis temporadas, a série não só criou protagonistas memoráveis, como também alguns dos melhores relacionamentos românticos do seu gênero, sendo que Pacey (Joshua Jackson) e Joey (Katie Holmes) moldaram a forma com que o amor e a intimidade adolescente são retratados na TV.

Atenção: este texto contém spoilers!

Dawson’s Creek sempre foi excelente em captar o sentimento da perda e a experiência que vem junto com essa sensação — não a perda literal que vem com a morte de alguém, mas um tipo de perda tão comum aos adolescentes do mundo inteiro: a da inocência. Achar que seus pais são perfeitos e descobrir que não são; perceber que, no mundo real, boas intenções e paixão nem sempre são suficientes, que a frustração de amar alguém desesperadamente e não ter seus sentimentos correspondidos da forma que você esperava é uma realidade. São sentimentos comuns na maioria das obras que têm como principal escopo a intimidade adolescente, mas existe algo no jeito como Dawson’s Creek lida com esses assuntos que tornam a série melhor e mais relacionável.  Seja pela forma como Dawson (James Van Der Beck) lida com a separação dos pais ou a frustração com sua ambição para se tornar um diretor de cinema (o próximo Steven Spielberg), até a transformação de Jen (Michelle Williams) que precisa aprender a se apoiar em outras pessoas após ser abandonada pelos pais e desenvolver problemas sérios de confiança; Andie (Meredith Monroe), que lida com seus transtornos mentais, ou Jack (Kerr Smith), que tem um arco tocante e sensível sobre assumir-se gay em uma época em que tramas sobre inclusão e representatividade ainda eram mais raras.

“Jen: Esta é uma realidade alternativa onde nós somos mais inteligentes, nossos gracejos são espirituosos e  nossos corações são partidos repetidamente enquanto, levemente ao fundo, ouve-se uma trilha sonora pop contemporânea que logo vai sair de moda.

Dawson: Então porque dói tanto?

Andie: Porque nosso sofrimento faz nos sentirmos vivos.”

Apesar de ter um elenco excelente e todos os personagens terem tempo para brilhar, Pacey e Joey sempre estiveram no centro da narrativa. Ao longo das seis temporadas da série, eles cresceram, juntos e individualmente, e mesmo que seus arcos não estivessem ligados, eles sempre estiveram presentes um para o outro. De duas pessoas que não se gostavam muito, Pacey e Joey tornaram-se melhores amigos e, depois, namorados, para então se tornarem melhores amigos outras vez.

Dawson’s Creek

Quando Joey estava estagnada, era Pacey quem oferecia uma forma de desafio para ela. Quando o contrário acontecia e Pacey se via solitário e perdido, se apoiava em uma das poucas coisas constantes em sua vida turbulenta: Joey. A química entre Joshua Jackson e Katie Holmes era palpável e de longe a melhor da série, e o romance foi construído com calma e cuidado. Apesar de Dawson e Joey começarem a produção como o grande casal, todos esses fatores contribuíram para que Pacey e Joey aos poucos tomassem esse lugar. E quando eles realmente terminam juntos no final, esse parecia ser não apenas o caminho mais orgânico possível, mas o único caminho possível.

Dawson’s Creek começou a com a história de amor entre Dawson e Joey, dois melhores amigos de infância que se apaixonaram. Mas com Pacey e Joey o relacionamento sempre foi muito melhor e mais complexo. Dawson e Joey tiveram seus momentos, mas nenhum dos dois jamais conseguiu sair do quarto em que passaram a infância juntos assistindo aos filmes de Steven Spielberg. O romance entre eles nunca superou as barreiras do tempo para se tornar maduro, saudável e mais interessante. A amizade, no entanto, permanece. Com Pacey, Joey vive um romance construído de forma orgânica, com altos e baixos catalisados por situações realistas, em muito baseados na fase turbulenta que é a transição da adolescência para o início da vida adulta.

No estudo de caso “A Contente Analysis of Relationships and Intimacy in Teen Dramas on Television”, a autora Sara Valoise Lamb argumenta que as pessoas procuram romance nas mídias para “ver relacionamentos que prosperam independente de todos os obstáculos”. Acompanhar um relacionamento nascer e perceber, aos poucos, a maneira como ele se transforma, de platônico para romântico, agora concretizado, nas telas, é grande parte do atrativo de toda história — sendo que todas elas esperam, de alguma forma, que o público se interesse pelos personagens e suas respectivas jornadas (que, nesse caso, envolvem o romance). Pacey e Joey são muito bons nisso e suas melhores e mais marcantes características são ressaltadas pelo relacionamento em si.

“Pacey: Você e eu foi uma das poucas coisas que sempre fez sentido na minha vida.”

Amor, sexo e identidade

Inicialmente, as jornadas amorosas de Pacey e Joey andam em paralelo, mas nunca se cruzam efetivamente. No decorrer dos primeiros episódios, Joey mantinha uma paixão secreta pelo seu melhor amigo, Dawson, que estava muito interessado em Jen Lindley para começo de conversa. Entre demorar a perceber que ele também estava apaixonado por Joey e as idas e vindas do casal na segunda temporada, a totalidade da trama parece arrastada, como se algo faltasse para tornar a dinâmica digna de uma história de amor adolescente.

À medida em que o triângulo amoroso Joey/Dawson/Jen ganha novas cores — inclusive com um quarto elemento sendo jogado na mistura com Jack, antes de aceitar sua sexualidade — Pacey protagonizou ao mesmo tempo dois relacionamentos que se consagraram como o pior e um dos melhores de Dawson’s Creek, respectivamente: na primeira temporada, envolveu-se com uma professora do colégio (uma trama questionável até mesmo para os padrões da época); depois, com Andie McPhee, com quem teve um relacionamento doce e construtivo, fundamental para o seu amadurecimento dentro da série.

Até então, Pacey e Joey mantinham um relacionamento complicado, com a implicância comum entre duas pessoas que se conheceram a vida inteira, mas nunca foram muito fãs uma da outra. Apesar de Dawson’s Creek tomar alguns poucos episódios para explorar a química que claramente existia entre os dois, o foco de suas jornadas era outro — até a terceira temporada quando, após mais um término entre Dawson e Joey, Dawson pede que Pacey cuide de Joey, que estava passando por um período complicado com o pai e a irmã e não poderia contar com seu melhor amigo. O simples pedido de Dawson leva os dois a uma rota de colisão que, se não parecera óbvia antes, se torna naquele momento, e toma todo o tempo para explorar o romance que nasce entre eles e como eles poderiam dar o próximo passo.

Tanto Pacey quanto Joey têm personalidades marcantes e papéis importantes dentro da série, sendo que o jeito que eles veem o mundo e as pessoas ao seu redor entram em conflito direto sempre que é dada a oportunidade. Pacey foi criado para ser o bad boy: cheio de problemas com os pais, na escola e com um relacionamento absurdo com uma professora muito mais velha que ele (além de uma figura de autoridade), o personagem se destaca quase imediatamente. Cínico e centrado, ele é o contraponto para a figura idealista e otimista de Dawson, um eterno sonhador. Enquanto isso, Joey é estudiosa e uma menina tímida, o estereótipo das protagonistas “boazinhas”. Ela também é o contraponto direto de Jen, uma garota da cidade grande, liberta e que não tem vergonha de falar sobre sua sexualidade.

Os quatro protagonistas são, de muitas formas, um complemento um do outro e suas experiências são um reflexo desse mesmo ponto. Essa dinâmica influencia a forma como eles veem assuntos como sexo, amor e intimidade. Não apenas individualmente, mas no pequeno grupo que eles criam entre si.

Apesar de ser o protagonista e levar o nome da série, Dawson é o que mais sofre para sair dessa caixinha, permanecendo sempre com um pé no mundo real e outro no seu quarto, no mundo dos filmes. Jen floresce de formas diferentes, se tornando uma mulher completa. Ela é gentil, forte, vulnerável e disposta a amar as pessoas ao seu redor com todas as forças. Mesmo que a narrativa seja cruel com a personagem (como as séries geralmente são com personagens como ela), Michelle Williams faz um trabalho sensacional. Pacey e Joey, por sua vez, a alma de Dawson’s Creek em todos os aspectos, terminam em um lugar tão diferente do que lhes foi oferecido no começo que é difícil lembrar como eram antes. Ele não é mais um bad boy, ela tampouco é mais uma garota tímida. Ainda assim, e ao contrário do que acontece em séries que se prolongam por anos, a essência de ambos é mantida com uma facilidade realmente incrível por parte dos roteiristas.

Dawson’s Creek

As opiniões fortes de Joey sobre amor e sexo não necessariamente são compatíveis com as de Pacey, que tem uma experiência diferente. Porque Joey só conhecia, até então, o romance infantil que teve com Dawson, Pacey traz uma perspectiva que abre seus olhos em relação a maneira como a garota vê esses elementos: ele oferece apoio incondicional, sim, mas também faz com que ela saia da sua zona de conforto. É ele quem a ensina a dirigir, ajuda a sua irmã com a pousada e faz com que ela questione seus sentimentos e não apenas a escondê-los e fugir — um padrão facilmente rastreável na sua jornada. Depois de passar por um relacionamento abusivo e ser traído pela namorada anterior, Pacey faz de seus momentos com Joey também uma forma de escape, criando uma relação que, seja como amizade ou romance, se torna a melhor de Dawson’s Creek. Ao mesmo tempo, Pacey também questiona Joey e faz com que ela fale sobre seus sentimentos e lhe dá espaço para que ela não tenha que pensar apenas nele, mas também entendê-los.

“Joey: Essa manhã… eu senti. Seu braço tocou o meu e eu senti.

Pacey: Se sentiu como?

Joey: Viva.

Pacey: Jo, você não pode me dizer algo assim e esperar que eu não te beije, então é exatamente isso que vou fazer. Eu vou te beijar em exatamente 10 segundos e se você não quiser isso, você vai ter que me parar nesse tempo.”

Se tem uma coisa que fica clara durante esses capítulos é a forma como Pacey e Joey parecem entender muito bem o que precisam/querem, individualmente e como casal. Enquanto Dawson sempre teve uma visão idealizada de Joey, e principalmente do relacionamento deles, Pacey oferece algo diferente ao enxergar Joey — e amá-la — por quem ela realmente é: seus conflitos, inseguranças e desejos inclusos, muitos dos quais nem mesmo ela saberia dizer em voz alta. No episódio “Anti-Prom”, quando Dawson dá um ultimato a Joey e faz com que ela termine tudo com Pacey, é ele quem a lembre que (ainda de forma não intencional) ele é a pessoa que realmente a conhece. Quando eles dançam juntos, fala sobre a ocasião em que Joey, usando seu suéter azul com bolinhas de neve, disse de forma casual ter achado o bracelete da sua mãe e como aquele era um dia importante para ela, gravando-o na mente de Pacey como um momento em que ele, ainda que de forma inconsciente, passou a conhecê-la um pouco mais.

“Joey: Você se lembra disso?

Pacey: Eu lembro de tudo.”

Existe algo realmente tocante em ver a outra pessoa como ela é e ainda sim amá-la. Mas, principalmente, é reconfortante ver que essa mesma pessoa também te vê, por completo, e é capaz de entender uma parte que talvez seja tão invisível para outras pessoas. O que claramente acontece aqui.

Mais tarde, Joey oferece um pouco do que Pacey deu a ela antes (ele sempre foi, por exemplo, o primeiro a dar grandes discursos apaixonados e românticos). No episódio da quarta temporada, “A Winter’s Tale”, os dois sofrem com a pressão de fazer sexo pela primeira vez. Como essa é a primeira vez de Joey, e Pacey não sabe exatamente como lidar com a expectativa de dar o próximo passo com uma pessoa que ele ama tão profundamente, os dois sentem a pressão e criam conflitos que dizem muito sobre quem eles são e como veem o ato sexual em si. Dessa vez, no entanto, é Joey quem procura Pacey e oferece uma alternativa, reconhecendo que, assim como ele, ela também o vê.

“Pacey, isso é sobre a forma como você carregou minhas malas ontem. É sobre como sempre que vamos ao cinema você compra pipoca e me traz guardanapos para eu não limpar minhas mãos na calça. E como sempre que vamos jogar golfe você faz todas as tacadas antes para que eu entenda como se faz. Você me ensinou a dirigir. E ano passado você sabia que o bracelete que eu estava usando era da minha mãe. Você me beijou primeiro, mas da segunda vez você contou até dez só para o caso de eu não querer te beijar de volta. Você me comprou uma parede [para poder pintar]. Nós estávamos sozinhos em um barco por meses e você sempre entendeu que eu não estava pronta para fazer sexo, sem me questionar sobre isso. E você ainda me pergunta por quê?”

O fato de Joey ser capaz de reconhecer esses pequenos gestos diz que ela, assim como Pacey, também o enxerga e o aprecia por aquilo que ele é: gentil, leal, curioso. Quando os dois terminam no final da quarta temporada, é porque Pacey entende que Joey precisa sair de Capeside e procurar seu próprio caminho. O amor incondicional de Pacey por Joey era tão profundamente maduro para uma pessoa da sua idade que ele sempre viu o potencial que ela tinha dentro de si e entendeu que se o relacionamento deles ficasse no caminho de qualquer oportunidade que ela pudesse ter, talvez eles não sobrevivessem de qualquer forma (um paralelo direto com a segunda temporada quando Joey desiste de estudar em Paris por causa de Dawson).

Durante a quinta e a sexta temporada, é isso que acontece. Ambos crescem e se tornam adultos, Joey trabalha com literatura, o que sempre foi o seu sonho, e Pacey cada vez mais maduro e emocionalmente preparado para estar com Joey outra vez. As coisas não ditas entre eles permanecem ali e o subtexto do sexto ano da série deixa isso bem claro. Como diz Taylor Swift em ‘‘Tis the Damn Season”:

“And the road not taken looks real good now,
and it always leads to you in my hometown”

“E a estrada que não tomei parece muito boa agora
E sempre leva a você na minha cidade natal”

No 15º episódio da sexta temporada, “Castaways”, os dois finalmente confrontam o que sentem um pelo outro. Parte deles lembra com amor da época que fugiram juntos em um barco (“Quando eu e você estávamos no barco, costumava sonhar que ficaríamos naufragados juntos em algum lugar, uma ilha deserta”, diz Joey), mas outra entende que eles são pessoas diferentes agora. A única coisa que permanece é a forma como eles parecem ser atraídos um para o outro constantemente. O caminho é claro: o relacionamento de Joey e Pacey sobreviveu ao teste do tempo e mesmo que eles não sejam mais as pessoas que foram quando namoraram anos atrás, eles ainda se amam, se respeitam. Todas as melhores qualidades do relacionamento ainda estão ali, com o adendo de que agora eles são adultos, maduros e preparados para enfrentar uma relação que claramente tem uma profundidade que vai além do comum.

Um tema que Dawson’s Creek levantou muitas vezes durante sua trajetória é o que, exatamente, define uma alma gêmea. O próprio Dawson diz que uma alma gêmea é “a primeira pessoa que te aceitou e acreditou em você antes de qualquer pessoa no mundo. E não importa o que acontecer, você sempre vai amá-la”. Por essa definição, uma alma gêmea não necessariamente deve ter um apelo romântico, mas sim um conceito que pode vir de todos os tipos de relacionamentos, inclusive o platônico — como se torna o caso de Joey e Dawson, depois de anos de problemas amorosos. Mas esse também não é o caso de Pacey e Joey? Eles não acreditaram, e viram um ao outro, mais do que ninguém? Jen e Jack, que tem uma das melhores amizades da série, também não são alma gêmeas de todas as formas que importam? A mensagem que fica no final é justamente essa: pessoas são almas gêmeas de formas diferentes, por motivos diferentes e esse conceito não exatamente te prende a um destino para sempre. Todas as estradas definitivamente levaram Pacey de volta para Joey e vice-versa, mas não porque eles estavam pré-destinados, mas porque escolheram um ao outro, mais de uma vez, em momentos diferentes da vida.

E é por isso que o final da série, frustrante em alguns aspectos, acerta em cheio na sua decisão de deixar os dois juntos no final.

“Minha vida inteira Joey, minha vida inteira, você sempre foi a coisa mais linda na minha órbita. E meus sentimentos por você foram o que me provaram que eu poderia ser ótimo. E esses sentimentos são mais fortes, mais sábios, persistentes e resilientes do que qualquer outra coisa na minha vida.”

Dawson’s Creek

Os melhores episódios de Dawson’s Creek são os da terceira temporada — que também é o melhor ano da série — e aqueles centrados em Pacey e Joey e toda a complexidade do seu relacionamento. “Cinderella Story”, “Stolen Kisses”, “The Longest Day”, “Anti-Prom”, “True Love”, “A Winter’s Tale” e “Castaways”. De muitas formas, o relacionamento deles se tornou a alma e o coração da série porque nunca deixou de ser compatível com a essência de Dawson’s Creek. Juntos (e individualmente), Pacey e Joey criaram uma dinâmica que era sim sobre amor, intimidade e sexo, mas também sobre identidade e amadurecimento. Tudo isso sempre de forma honesta e sensível, criando uma história de amor épica e intensa.

Afinal, em quantos romances o casal principal tem uma cena importante onde eles simplesmente navegam em um barco chamado Amor Verdadeiro em direção ao pôr do sol?

Qual é o verdadeiro legado de Pacey e Joey?

Tudo que as pessoas absorvem de arte tem um impacto muito maior na nossa vida do que podemos compreender. Morawitz e Mastro, dois estudiosos de cultura pop e como sua representatividade afeta as pessoas, dizem que “o consumo de mídia tem uma influência imensurável na forma como vemos o mundo e, independentemente da precisão dessas visões, elas são usadas para respaldar atitudes, julgamentos e ações”. Porque somos afetados pelas histórias que nos tocam (e até mesmo por aquelas que têm o efeito oposto), todas as obras, produtos de cabeças tão falhas e complexas quanto os personagens que amamos, são recheadas de influências, referências e inspirações. Isso não é diferente na televisão e por causa disso, é natural que essas influências se estendam em todos os espectros de uma série, até mesmo na forma como o romance e a intimidade adolescente são retratados.

Séries como Dawson’s Creek, Buffy, the Vampire Slayer, Felicity, Veronica Mars, Freaks and Geeks e My So Called Life elevaram as expectativas no que diz respeito a representação adolescente e conquistaram não apenas o público para a qual eram direcionadas, mas também jovens adultos que ainda buscavam seu lugar no mundo e conseguiam, de alguma forma, se identificar com a jornada dos personagens em algum nível.

Recentemente, revisitando todas as séries que me trouxeram algum tipo de conforto durante a adolescência, não apenas por buscar familiaridade em tempos complicados, mas também porque muitas dessas produções precisaram de introspecção quando vistas da última vez, para entender meus próximos passos. É natural que ciclos se fechem e se você é uma pessoa ligada em ficção, existem obras que nos acompanham de tempos em tempos. Ao rever algo, é possível entender que aquilo não tem mais nada a dizer (e tudo bem) ou descobrir algo novo e brilhante que tenha escapado a percepção da primeira vez.

Com Dawson’s Creek essa percepção me atingiu em vários níveis, começando pela sensação de perda que permeia a série. Mas o que mais chama a atenção é a forma como o romance de Pacey e Joey é retratado ao longo dos anos. Quando assisti a série pela primeira vez também gostei muito do casal, mas também era apaixonada por Damon (Ian Somerhalder) e Elena (Nina Dobrev) de The Vampire Diaries, e hoje não consigo entender muito bem o porquê. Mesmo assim, meu amor por Pacey e Joey, como acontece para os dois na série, conseguiu superar a barreira do tempo e me peguei pensando muito na forma como eles são construídos. Consequentemente, passei a perceber também uma mudança realmente dramática na forma como os relacionamentos em séries adolescentes são retratadas em geral.

A verdade é que algumas séries voltadas ao público adolescente não necessariamente tem o melhor currículo quando se trata de romance e intimidade. Sim, muitas das relações são retratadas de forma intensa e com muita angústia (o que causa conflito) e algumas delas são amadas com tanta intensidade quanto Romeu e Julieta, clássico supremo do romance. Mas analisando os detalhes é possível perceber alguns padrões problemáticos, para dizer o mínimo — como o tropo da menina que cede aos seus desejos e, depois de transar pela primeira vez, sofre consequências graves e até perigosas. Isso aconteceu com Buffy (Sarah Michelle Gellar) — apesar do seu romance com Angel (David Boreanaz) ser vendido como épico —, com Felicity (Keri Russell) na série que leva seu nome, Brooke Davis (Sophia Bush) em One Tree Hill, e a lista segue. Mesmo assim, os romances naquela época tinham uma construção e ritmos diferentes e hoje as coisas acontecem de formas bem distintas.

Ajuda muito o fato de que a maioria das séries adolescentes no ar não sejam mais character driven, usando tramas sobrenaturais ou investigativas para mover a narrativa. Ainda são histórias que lidam com sentimentos e conflitos comuns a pessoas dessa faixa etária, mas o foco não é esse, como foi em Dawson’s Creek, The O.C, One Tree Hill, Felicity e muitas outras séries do gênero — que chegou ao seu ápice no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000. Analisando friamente, é óbvio que as séries adolescentes mudaram e muito. Seguindo a onda do cinema, histórias sobre super heróis e figuras sobrenaturais são a tendência predominante. As coisas mudam e o ritmo usado antes para desenvolver uma relação amorosa já não existe; é quase impossível ver um relacionamento ser desenvolvido com a calma e o carinho reservados a Pacey e Joey na terceira temporada de Dawson’s Creek — o que faz com que as lealdades sejam mais voláteis e mutáveis. E quando as pessoas ficam realmente investidas, como aconteceu com Archie (KJ Apa) e Betty (Lili Reinhart) de Riverdale, os roteiristas não necessariamente vão em frente com o “caminho mais óbvio” — mesmo que a própria narrativa aponte organicamente para esse lugar.

Santana (Naya Rivera) e Brittany (Heather Morris) de Glee são uma exceção para a regra. O amor das duas é algo que nasce aos poucos, começando pela amizade, passa por uns beijos que “não eram pra significar nada” e se torna algo muito maior. A trajetória de Santana é uma das mais tocantes da série e a personagem é tão absurdamente incrível e vulnerável, de um jeito tão diferente, que todas as suas apresentações são marcantes, principalmente aquela em que ela canta “Songbird”, do Fleetwood Mac, para Brittany. Quando elas estavam juntas, era lindo e, por isso, o casal se tornou muito popular e amado.

Spencer (Daniel Ezra) e Olivia (Samantha Logan), de All American, também são um sopro de ar fresco para aqueles que sentem falta de um ritmo mais lento na hora de construir um romance. Os dois têm trajetórias pessoais bem fortes: ela como uma mulher que supera constantemente o seu vício em drogas e bebidas; ele como um jogador de futebol que precisa encontrar seu lugar no mundo. Mas eles sempre se encontram no meio do caminho, oferecendo conforto e companheirismo um ao outro. Depois de três temporadas bem estabelecidas, eles estão canonicamente apaixonados e todas as suas interações lembram o quanto eles são maravilhosos juntos. Na atual temporada da série, os dois são ativistas, pessoas importantes na sua comunidade e são melhores pelo relacionamento que nasceu entre eles. Ainda existem questões para serem resolvidas, mas a jornada é satisfatória e tudo indica que o pay-off fará valer o seu tempo.

Em Nancy Drew, outro casal também começa a ser desenvolvido com ares de Pacey/Joey. Ao longo de duas temporadas, Nancy (Kennedy Mc Kannan) aprendeu a se apoiar em Ace (Alex Saxon) e o mais engraçado é que o desenvolvimento foi tão gradualmente perfeito que você nem percebe que está envolvida com a dinâmica até estar completamente imersa nas situações e investida no relacionamento. Ainda não existe nada concreto, muito como no começo de Pacey e Joey na terceira temporada, mas a forma como um fala com o outro, a preocupação que um sente pelo outro, a indicação de que talvez eles se conhecessem melhor do que qualquer outra pessoa no mundo, é o suficiente para traçar um paralelo firme como o começo de Pacey e Joey.

Em uma matéria extensa e bem pertinente, a Vox não apenas descreve Dawson’s Creek como o seriado “com jovens lindos em uma bela turbulência romântica” como também diz que o triângulo amoroso entre Pacey/Joey/Dawson mudou a forma com que as séries adolescentes abordariam romance e intimidade adolescente. A matéria conta que, aos 27 anos, Greg Berlanti (ironicamente, criador também de Riverdale e o grande nome da CW hoje) chegou com a ideia louca de que “Pacey deveria beijar Joey” e as coisas nunca mais foram as mesmas. E não foram mesmo. Apesar dos romances não terem mais o ritmo com o qual o relacionamento deles foi abordado (o famoso “slow burn”) a trajetória Pacey/Joey é muito mais sobre companheirismo e amadurecimento, enquanto a de Dawson/Joey é mais sobre um conceito atrasado sobre um pertencer ao outro, mesmo que essa teoria não se sustente em nenhum momento. Pacey e Joey estavam constantemente elevando um ao outro, e eles cresceram por causa disso, mesmo quando não estavam juntos. E hoje é muito mais comum ver relacionamentos assim do que ao contrário. Logan e Veronica, Haley e Nathan. Os recentes e já citados Santana e Brittany, Olivia e Spencer, Nancy e Ace.

Quando assisto algo voltado para o público mais jovem e existe um casal que é meticulosamente desenvolvido e amado pelos roteiristas, revelando pouco a pouco um romance incrível e novas facetas dos personagens, em que ambos carregam uma relação de amor, cumplicidade e lealdade, acabo lembrando de Pacey e Joey — mesmo que as histórias em si não tenham nada a ver. Esse é, até hoje, o maior legado do casal na TV, e talvez até a marca registrada de Dawson’s Creek. Uma série que, apesar dos seus defeitos tão aparentes e da sua jornada turbulenta, conseguiu criar uma das melhores histórias de amor de todos os tempos.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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5 comentários

  1. Como a pessoa que está assistindo Dawson’s Creek pela primeira vez, a análise veio muito a calhar.

    Até o momento, sigo com antipatia do próprio Dawson e na esperança de ver mais da Joey e do Pacey (tô no final daprimeira temporada ainda).

    E nossa, que rolê errado que foi aquele relacionamento com a Tamara, nossa.

  2. Dawsons creek é definitivamente minha série preferida. Ao longo das 6 temporadas, o assunto sobre amor, amizade, amadurecimento, conflitos e sexualidade são explorados de forma que pode-se também perceber a evolução dos personagens, o que é maravilhoso. O amadurecimento de cada um dos personagens, das amizades e, principalmente, dos casais que se formaram são cruciais, pois a partir deles você consegue estudar, analisar e tirar suas conclusões a respeito.
    Como o triângulo entre Dawson, Joey e Pacey. Apesar de toda essa questão de almas gemêas ser intrinsecamente ligado com a ideia romântica, a série mostra que não, pelo menos não nesse aspecto.
    O romance entre Dawson e Joey é complicado, já a amizade não. Vemos questões sobre amor, egoísmo, crescimento e respeito entre os casais e, de longe, Pacey e Joey dão um show representando o lado mais bonito e saudável de uma relação como a deles, tanto de amizade, quanto de romance. Por mais variados motivos, pacey é meu personagem favorito, e junto com Joey, um casal que eu amo demais!!

  3. Esse texto traduziu muitas reflexões que tive ao assistir Dawson’s Creek 15 anos depois de ter assistido pela primeira vez. Foi a série da minha adolescência, que eu amei e a minha referência. Estava relutante em assistir novamente depois tanto tempo algo que gostei tanto e me decepcionar, mas foi muito bom de novo. Enquanto assistia ficava pensando se era a nostalgia que me fazia ficar tão empolgada de novo com a série e ter tantas reflexões, mas ler o texto logo após acabar o último episódio foi, de alguma maneira, reconfortante. Obrigada pelo texto!

  4. Eu creio que além disso tudo que você explanou perfeitamente, o autor ficou dividido na hora de desenvolver o roteiro, todos sabemos que a relação dos atores marcou a produção da série o que contribui também para a série ficar marcada no triângulo amoroso.
    O autor tinha na estrutura que a série seria sobre relações e amadurecimento e baseado na sua própria experiência ele decidiu desenvolve-la baseada no amor platônico, inocente e puro das personagens do Dawson e da Joey em conflito com a personagem e a história da Jen uma garota que tinha perdido essa essência ao já ter sofrido com a realidade e o Pacey seria a ligação entre eles com cinismo e sarcasmo sempre provocando os ideais dos personagens.
    Entretanto nos bastidores creio que tudo mudou devido as atuações de Joshua Jackson, na verdade ele era a Jen na vida real, sendo o mais experiente em atuar e com um carisma muito forte acabou encantando e desenvolvendo uma relação com a Katie Holmes na vida real, o que acarretou num problema de relação entre os atores, só que isso motivou o autor a desenvolver na trama um amor entre os personagens. Ele acabou desenvolvendo o enredo com o que acontecia na vida real por isso a química dos atores contribui e muito para os personagens mas como na vida real o amor tem seus dilemas complicados e complexos e isso gerou no autor da série a percepção de colocar no roteiro essa dinâmica e na verdade lhe causou um dilema que é perceptível no final da terceira temporada, ” a melhor”, pois a personagem da Joey é encarnada pela vontade do autor onde ele não consegue escolher entre escrever e desenvolver o amor platônico, que é puro e doce e idealizado na sua premissa original e o amor verdadeiro que é compassivo, generoso e real com a complexidade da vida.

  5. Que matéria perfeita!!! Li duas vezes. Excelente. Algumas partes bem reflexivas.
    Dawnson’s Creek é minha série da vida preferida. Já assisti umas 3x.
    Não gosto muito da quinta temporada, mas gosto do amadurecimento de Dawnson e do seu relacionamento com Jen, que sempre achei que deveria ter tido uma melhor exploração na série.
    Amo a forma que o relacionamento de Joey e Pacey foi sendo construído, é meu casal de série preferido. Ele soube lidar com todas as questões de Joey, ele desafiou quando nem ela acreditava muito em si, e a maior prova de amor, foi que desde a primeira temporada ele sempre soube e entendeu o sonho dela de sair de Capeside, e quando foi a hora, ele deixou ela seguir… e na minha visão a gratidão E amor, foi ela levá-lo para conhecer outros lugares (NY).
    Pacey sempre foi um jovem destemido, realista, quando ele viu que todos estavam seguindo os seus sonhos, ele não se acomodou e foi atrás das coisas que gostava de fazer… Jen ahhh Jen me ensinou tanto, uma jovem a frente de seu tempo, das lutas que até hoje lutamos, foi um erro o fim de Jen, mas entendi pois, assim como ela, aqui na vida real tb perdi um amigo de colegial na mesma fase vida.
    Dawnson era sonhador, acreditava no seus sonhos e mesmo com tanta coisa saindo errado, ele continuou… A real definição de alma gêmea me deixou, foi que na terra, vida, tem encontros definido, destinos traçado de amor e cumplicidade, seja ele entre um homem e uma mulher, ou entre dois amigos de infância. ou como a amizade de Jack e Jen, aquele encontrinho não terra que depois de anos, te da sentido… e sobre a série” I remember everything”
    ⛵️🛶🚤