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Nos arrozais do Vietnã: um olhar sobre Marguerite Duras

No dia 4 de abril de 1914, em Saigon, na Indochina (Vietnã), nasceu Marguerite Donnadieu. Romancista, poeta, dramaturga, cineasta e roteirista associada ao movimento nouveau roman, foi autora de quase cinquenta livros e diretora de quase vinte filmes, sendo O Amante (livro, 1984), India Song (direção, 1975) e Hiroshima, mon amour (roteiro, 1959) alguns de seus trabalhos mais conhecidos. A vida de Marguerite Duras, nome que adotou em referência ao lar de seu pai, é matéria-prima de sua própria narrativa, que ela criou e recriou em uma ficção profundamente autobiográfica.

A infância no Vietnã marcou profundamente a escritora francesa. Nesse cenário, destacam-se elementos como o calor e a pobreza da colônia; a separação entre os brancos franceses, os vietnamitas e os chineses; o desespero de uma mãe que tentou ganhar dinheiro com a plantação de arroz, mas foi enganada e levada a comprar do Estado a concessão de um terreno improdutivo; o amor profundo por essa mãe que nunca conseguiu agradar; e a violência e os furtos do irmão mais velho. Uma família, apesar de tudo, unida pela revolta diante da indignidade e do abandono.

“Estamos juntos na vergonha de sermos obrigados a viver a vida. Aí está a parte mais profunda de nossa história em comum, somos os três filhos dessa pessoa de boa-fé, nossa mãe, assassinada pela sociedade.”

Marguerite é a única dos filhos de Marie Donnadieu que pôde estudar. Aos quinze anos e meio, menina ainda sem seios, pequenina como foi a vida inteira, com vestido surrado e chapéu masculino, atravessa o Mekong de balsa para chegar ao liceu. Ali, conhece um chinês de trinta anos. O homem rico, ela sabe, irá prostitui-la. É prostituída que descreve o conhecer da dor e do sexo. Ler O Amante é como folhear um álbum de fotografias: podemos ver o homem elegante, mas chinês; a pobreza aviltante da família branca e francesa; a impossibilidade étnica que os separava e a opulência que a permitia se despir muitas vezes no quarto do mal afamado bairro de Cholen. A menina volta tarde da noite para o pensionato. Desonrada, Marguerite deixa de andar no ônibus para nativos e passa a ser levada de limusine para a escola, onde a ordem é que ninguém fale com ela. Leva surras da mãe que, apesar de não saber dos pormenores, permite que a filha se prostitua pelo dinheiro do homem chinês.

A palavra prostituída é utilizada primeiro por Marguerite Duras em Barragem Contra o Pacífico (1950), livro que conta a história dessa mãe fadada a viver em terras inundadas. A mãe tenta impedir o mar de entrar, mas, a cada ano, o pacífico, implacável, derruba as barragens e destrói as plantações de arroz. O arroz se desfaz sob a água do mar como as crianças que morrem a cada dia na colônia — como se fossem nada. O pacífico destrói os sonhos dessa mãe enlouquecida pelo fracasso, pelo engano, pela ingenuidade, pela infelicidade. A miséria de sua família é também a miséria das terras da Cochinchina. Neste livro, Marguerite conta a história como gostaria que tivesse sido. Apenas muitos anos mais tarde, já livre desse amor maternal, ela pode realmente contar, livre do pudor, o que aconteceu. Em O Amante, a história se dá como se lembra, em suas nuances e obscuridades. Depois do homem chinês, Marguerite envelhece. Aos dezoito anos, já estava envelhecida. Uma modificação profunda se faz em seu rosto. “Tenho um rosto destruído”, ela nos diz. É com esse rosto que é mandada para a Europa para terminar seus estudos.

O mar está sempre presente na literatura de Marguerite Duras. O mar e a figura do amor incompleto se abraçam em melancolia no calor do verão europeu, continente onde a menina vai viver aos dezessete anos. As personagens de Duras estão muitas vezes em frente ao mar, no mar, contra o mar. A Europa de Marguerite é quase sempre quente, sufocante, tediosa das férias longas, dos silêncios, das incompreensões, das relações vazias e infelizes e da solidão das mulheres tidas como loucas e desgraçadas. No velho continente, Marguerite faz graduação em matemática para agradar a mãe, mas já se sabe escritora. Vive a Guerra e suas insuportabilidades, descritas em A Dor (1985). Fala, dentre outras coisas, sobre o sofrimento na busca pelo marido feito prisioneiro, que retorna com trinta e cinco quilos. Ainda, fala sobre a necessidade de odiar por inteiro os alemães, sem ter de lembrar que na Alemanha havia crianças e inocentes, explicitando, de maneira crua, o sentimento de desamparo diante do horror. Sente-se sem lar naquele continente tão agitado que não é o seu. A Indochina ainda vive e sempre viverá em seus pulmões.

Marguerite Duras idosa

Em Uma Vida por Escrito, biografia escrita por Frédérique Lebelley, conhecemos todas as contradições que fazem de Marguerite Duras por completo fascinante, por completo humana. Jovem, viveu entre os tresloucados, os desajustados, os imigrantes. Por outro lado, demonstrava aversão pelos asiáticos, dizendo-se contra a relação entre brancos e amarelos. Algo dentro de si queria ocultar e enterrar aquele amor proibido pelo homem da China do Norte, fonte da desonra de sua família. Foi comunista e depois deixou de ser. Incapaz de viver apenas com seu primeiro marido, Robert Antelme, teve diversos amantes, chegando a morar com Robert e Dionys Mascolo na mesma casa até o nascimento de seu único filho. Lebelley diz “Viver e ser amada é de importância vital para ela”. Para Marguerite, o amor, personificado na figura de muitos romances, é sempre incompleto, nunca pleno. A escrita, por outro lado, é a felicidade. A escrita é a própria vida. Não escrever é morrer.

Escrever é o que Marguerite fará sem parar, por horas intermináveis, ao mesmo tempo em que se entrega ao álcool. O alcoolismo é sua resposta para o vazio de sentido e a falta de fé. Substitui o prazer do gozo e o medo da morte. Marguerite bebe e escreve. Entretanto, por dez anos, Duras deixa a literatura e se aventura no cinema. Dirige muitos filmes, que são feitos de maneira profundamente literária. Ela busca atores que não atuem e imagens que não digam o que a palavra diz. Se a escrita por vezes parece não significar nada, as imagens significam muito menos. Tudo o que quer é destruir. Fez filmes porque não sabia como fazê-los. Por fim, abandona o cinema e se volta mais uma vez para a literatura.

Marguerite já não consegue ficar mais de duas horas sem beber. Toma aspirinas para recuperar a lucidez. Mistura o álcool com antidepressivos, o que a faz parar no hospital muitas vezes. Isolada em sua casa, ainda recebe cartas de fãs e admiradores. Um deles, entretanto, é tão insistente que chega a perturbar a escritora, mas também a fasciná-la. Ela se identifica com o desespero e com a beleza de suas cartas. Certo dia, ele aparece em sua porta. Yann Andréa Steiner tem vinte e sete anos, uma bagagem na mão e a certeza de que deve ficar ou morrer. Naquela noite, fazem amor uma primeira e única vez. Marguerite é uma idosa de sessenta e seis anos. Sem saber bem onde se meteram, permanecem juntos pelo resto da vida, em uma história de amor sem sentido, mas legítima. M. D. escreverá livros para ele, cujos sentimentos giram em torno daquela criança e de seu amor incestuoso. Yann é seu filho e seu marido. Nas suas palavras:

“Porque se trata de um amor que não terminará nunca, que não conhecerá nenhuma resolução, que não é vivido, que é insuportável, que é maldito e que se mantém na segurança do anátema (…). É uma espécie de jogo trágico a que chamo felicidade (…) eles se amam, estão juntos diante dessa interdição. Eles se amarão por toda a vida.”

Por toda a vida escreve livros que são puro sentimento de existir, pura sensação de estar em um mundo permanentemente estrangeiro, solitário, doloroso, ardente e quente como a infância no Vietnã. Escrever é viver com todas as contradições de ser o que se é. Ganha reconhecimento, dinheiro e chega a dirigir peças de teatro. Porém, com a saúde cada vez mais debilitada, morre, aos oitenta e um anos, em março de 1996.

Luizza Milczanowski é graduanda de Direito, uma leitora voraz, começou a criar histórias antes mesmo de aprender a escrever, encontrando na Literatura sua forma de estar e agir no mundo. Escreve poesia e prosa, colaborando com diferentes revistas literárias como a revista Philos, Intransitiva, Subversa, Inversos, LiteraLivre e Fale com Elas. Em 2020, publica seu primeiro romance, pela Editora Penalux.

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1 comentário

  1. Li o amante, nos anos 90, e vi o filme anos depois. As imagens descritas e situações vividas por aquela adolescente, e seu relacionamento com o chinês, são tocantes, pela distância entre duas culturas e falta de perpectivas…assim como a vida do irmão viciado em ópio. A vida na pobreza as cenas do Rio, e a menina com chapéu masculino, são poesia pura. Sem dúvida alguma, este é um dos melhores romances que já li.