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Cardi B e Luísa Sonza: a fisionomia sonora da ameaça sobre a liberdade sexual feminina

Em 2020, cada dia mais, direitos e espaços estão sendo devidamente conquistados e priorizados por e para mulheres. O caminho é longo, e certamente eterno, mas pequenas vitórias são notáveis e dignas de comemorações para incentivar o resto da caminhada. No entanto, eventos recentes a respeito da percepção do público e até de políticos a respeito da liberdade sexual de artistas sobre sua vida pessoal e forma de expressão através da arte, estão se tornando pauta e, mais do que isso, alvos de extremo ódio e um lembrete de onde o papel da mulher ainda se encaixa nas charts do Spotify, e em uma sociedade patriarcal.

“Isso me faz querer despejar água benta em meus ouvidos”: frases como essas parecem ter sido dita por padres contra bruxas na Idade Medieval, quando, na verdade, saíram diretamente do perfil oficial no Twitter do político republicano James P. Bradley a respeito de um dos maiores hits do ano, “WAP”, colaboração de Cardi B e Megan Thee Stallion.

Na faixa, que tem como título a sigla “WAP”, no português literal, “buceta bem molhada”, as artistas cantam explicitamente e apresentam seu verdadeiro Alice No País das Maravilhas das fantasias sexuais na possível canção do ano, trazendo no vídeo, (que já conta com mais de 200 milhões de visualizações no YouTube), mulheres poderosas de diversas áreas que, junto às rappers, sabem o que querem e dominam seus desejos em tudo, inclusive no âmbito sexual, para satisfazer seu próprio prazer — intenção definitivamente não muito apreciada pelos homens.

Muitos defendem que tópicos políticos e o mundo “artificial” da cultura pop não devem se misturar. Mas não é o caso quando a música número um do mundo se torna pauta dos debates republicanos nos Estados Unidos, com a intenção de convencer a população que a liberdade sexual presente em “WAP” é um verdadeiro retrocesso para a mulher, e que “os Estados Unidos precisam de mais de mulheres como Melania Trump e menos como Cardi B”, segundo a republicana DeAnna Lorraine. A intenção do partido com essas declarações é de que quem está promovendo tal movimento “negativo” é a rapper, que apoia e até entrevistou o candidato à presidência dos Estados Unidos pelo partido democrata, Joe Biden.

A canção definitivamente não foi a primeira a se tornar pauta política e evocar os “bons costumes cristãos” a respeito da arte de grandes artistas, como foi o caso de Madonna com o livro SEX, disponibilizado junto do álbum Erotica, em 1992, em que religiosos norte-americanos organizaram atos para impedir que Bíblias fossem impressas nas mesmas máquinas que a obra. O lançamento tinha como proposta mostrar o sexo como arte, algo positivo. Tal afirmação era de extrema importância tendo em visto a epidemia da AIDS, em que Madonna foi uma das maiores artistas a se posicionar para conscientizar seu público a respeito da prevenção da doença. Mas, mais do que isso, a artista colocou os desejos e fantasias sexuais sendo narrados do ponto de vista feminino, um movimento inédito para uma artista tão grande de maneira tão explícita, tendo como locais dos ensaios para o livro clubes de sadomasoquismo, saunas gays, entre outros.

Pouco tempo depois do lançamento de “WAP”, foi anunciado que Cardi e seu agora ex-marido, o rapper Offset do trio Migos, estavam se divorciando. O casal já havia quase se dissolvido anteriormente devido às traições de Offset, o que resultou em supostos ataques mandados por Cardi a strippers, o que lhe rendeu algumas idas ao tribunal. No entanto, o casal reatou como uma família feliz com a pequena Kulture. No entanto, dessa vez, manchetes como “Offset vai ficar sem a ‘WAP’” tomaram os tabloides e em meio a rumores de mais traições da parte do rapper (o que foi negado por Cardi), o hit “WAP” se tornou um dos alvos para possibilidade do fim do casamento devido à sua natureza sexual não salva apenas para dentro do casamento. Entretanto, na grande maioria dos clipes que Offset participou, ambientes cheios de mulheres sendo sensuais perto deles não significavam infidelidade ou falta de respeito — era “apenas um clipe”.

Situações semelhantemente hipócritas surgem ao observar comentários como “devolve a mulher do cara”, que parecem remeter a uma época em que mulheres serviam exclusivamente para serem moedas de troca entre homens, ou até parecer que estamos tentando investigar se Capitu realmente traiu Bentinho em Dom Casmurro. Mas se tratam de comentários no Instagram a respeito de Luísa Sonza, artista no auge de sua carreira, que assumiu publicamente um novo relacionamento após o término do casamento com o comediante Whindersson Nunes.

A cantora continua emplacando hits que promovem sua marca: poder, sensualidade e felicidade, mas, por ser uma mulher divorciada, todos seus movimentos se tornam alvos de famintos internautas que desejam ser ou até ter a cantora. Ao lançar “Flores”, ao lado do antigo colaborador, Vitão, a artista deixa mais explícito fantasias e vontades sexuais e as demonstra no clipe, com um conteúdo sonoro e imagético que não é novo para ninguém que acompanha o mundo do pop, mas que, para uma mulher que costumava ser casada, se torna sinônimo de promiscuidade.

Ao alimentar, segundo o olhar do público, rumores sobre a traição de seu antigo marido, Luísa e Vitão finalmente se assumem, sim, namorados. De repente, a celebração ao sucesso crescente de Sonza parece dar lugar nas manchetes ao escândalo que é se envolver com alguém depois de outra pessoa. Rendendo, para ele, memes sobre ser o garanhão, o amigo que vai postar “meu casal” e irá seduzi-la. E, para ela, de ser uma sanguessuga de homens famosos, promíscua, desonesta, fácil, negando o fato de que a artista está, cada dia mais, se tornando maior. Quanto uma mulher e sua liberdade romântica e sexual valem, mesmo no auge de sua arte?

Contar nos dedos definitivamente não é suficiente para listar a extensa quantidade de canções populares cantadas por homens que envolvem suas ambições, realidades e fantasias sexuais. Inclusive, ter uma namorada atrás da outra ou ser um solteirão eterno, apenas trocando de companheira que, de vez em quando, poderia ser sua filha, como é o caso de diversas personalidades populares, como Leonardo Dicaprio, de 45 anos, e a atriz argentina Camila Morrone, de apenas 23 — que podem ser alvo de manchetes, mas com um viés diferente, como algo que homens devessem aspirar.

Casos como esses reforçam que a sociedade patriarcal — e, com isso, a indústria do entretenimento — exige a sensualidade e sexualidade da mulher, mas não admite que elas sejam usadas a nenhum favor que não o masculino. A batalha até o reconhecimento da arte dessas mulheres se torna, portanto, ainda mais árdua para inspirar e tocar outras mulheres. E, finalmente, para que essas mulheres se permitam ser tocadas, por quem bem entenderem, sob o comando de sua própria batida.

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2 comentários

  1. Com todo o respeito, não é porque o homem se vê como libertino em uma sociedade imoral que a mulher agora fazer isso vai se tornar algo lindo e libertador. Não posso opinar sobre a Cardi B pois não a conheço e não vi nada demais na parte sobre ela na matéria. Mas a Luísa foi vulgar sim, juntamente do próprio Vitao, ao desconsiderarem a importância do relacionamento e o respeito. Estão jogando na cara da sociedade de como é bonito não ter sentimentos, responsabilidade afetiva e trair. É mais uma história que mostra os “espertos vencendo” e ta cheia de plateia para aplaudir. Não me reconheço, não me identifico e, sinceramente, acho uma decadência, tanto para ela quanto para ele. Bela ilustração de vulgaridade que, infelizmente, ainda tem artista como a Luísa para se valer de uma causa como o feminismo para esconder o próprio erro e as falhas de caráter.

    1. Não vi em nenhum lugar que a Luisa traiu o ex-marido. Quantos homens terminam o casamento e estão namorando logo em seguida? Diversos. Não foi confirmada traição alguma, o casamento acabou, ela namorou quem ela quis e ponto final. Vida que segue meu filho. Não sei pq o pessoal fez um auê todo nessa história.
      Obs: Se teve traição ou não, nós não temos nada haver com isso. Casais que se traem sempre teve e sempre vai ter. Não sei como as pessoas ainda acham que vivem em contos de fadas! Deus me livre!!