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O que o figurino de Harley Quinn diz sobre sua emancipação?

Poucas vezes um figurino me chamou tanto a atenção quanto em Aves de Rapina. Ele ajuda a contar a história das personagens e nos faz cair de cabeça no universo fantabuloso da Harley Quinn — mas por que o figurino faz toda a diferença nessa história?

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa faz parte do universo da DC Comics e veio logo depois da Harley (Margot Robbie) ser apresentada em Esquadrão Suicida. Assistir à personagem nos dois filmes me fez pensar em como figurino e fotografia têm um papel fundamental na construção de uma personagem e como vemos o seu relacionamento com o Coringa (Jared Leto) representado.

A começar por Esquadrão Suicida. No filme, vemos flashbacks do começo da história da personagem, como surgiram algumas características clássicas do seu estilo e como ele é fortemente influenciado pelo seu relacionamento com o Coringa.

Harley Quinn

Em um desses flashbacks, vemos a cena em que Harley se joga em um tonel de produtos químicos dizendo que morreria e viveria pelo Coringa. A cena é importante porque explica de onde vem o seu tom de pele muito branco e o uso do azul e do vermelho nas roupas e no cabelo de Harley: essas eram as cores que eles estavam usando na hora da queda e que acabam derretendo e se misturando aos produtos químicos. A combinação de cores específica seria o símbolo da união do casal e marca a virada da personagem — de médica psiquiatra a parceira de um dos maiores vilões do DCU.

Muitas das peças de roupas que aparecem depois dessa cena fazem alusão à sua relação de submissão ao Coringa. Quando vemos eles saírem para um date, Harley usa um vestido dourado e preto com estampa de ouros (naipe do baralho em formato de losango) que deixa as tatuagens de “daddy’s ‘lil monster” e “property of joker” (“monstrinha do papai” e “propriedade do coringa”, respectivamente) aparentes. A estampa de ouros é recorrente, inclusive estando tatuada no braço de Harley, e faz lembrar um dos figurinos mais icônicos da personagem, quando aparece pela primeira vez no desenho do Batman, em 1992.

Além das roupas mais reveladoras, a personagem também usa muitas joias e acessórios dourados, que combinam com a do seu par. Talvez por serem descritos como “rei e rainha de Gotham”, o dourado representa o status de realeza, que acaba sendo perdido em Aves de Rapina.

Apesar dos pequenos flashbacks, na maior parte do filme, Harley usa um único figurino: a camiseta “daddy’s ‘lil monster” (que também aparece em Aves de Rapina, mas de um jeito bem divertido), a pulseira escrito “joker” (coringa, em inglês), um casaco no qual se lê “property of joker” e um short muito curto, mais parecido com uma calcinha de paetês, tudo em vermelho, azul e dourado. Praticamente todas as peças são uma referência direta ou indireta ao seu par, enquanto as roupas e tatuagens do Coringa são apenas sobre ele mesmo ou sobre o Batman — o que deixa mais evidente o aspecto unilateral da relação. Tudo reforça o sentimento de posse: Harley Quinn é, literalmente, uma propriedade do Coringa.

Em entrevista ao The New York Times, Margot Robbie afirma que Harley usa shorts curtos porque eles são brilhantes e divertidos, não porque quero o olhar de homens em sua bunda. Ela diz que o figurino faz parte da iconografia da personagem, mas também diz que não usaria os mesmos shorts num próximo filme por se sentir muito autoconsciente com roupas tão apertadas, curtas e transparentes.

Esquadrão Suicida hipersexualiza Harley em quase todas as cenas. Sendo uma das únicas mulheres protagonista em um esquadrão formado apenas por homens, ela é chamada de doida e gostosa em vários momentos do filme. Algumas cenas direcionam o foco para uma Harley molhada de chuva ou trocando de roupa. O olhar masculino em direção a ela é literal: outros personagens não fazer questão de esconder o desejo pelo corpo da personagem de Robbie. O mesmo acontece com a direção de David Ayer, que se demora no corpo da personagem, mostrando shorts e poses sexualizadas, o que não acontece com outros personagens.

Mas se em Esquadrão Suicida Harley Quinn não tinha muitas opções de roupa, era explicitamente sexualizada e submissa ao Coringa, em Aves de Rapina a situação é completamente diferente.

O filme começa explicando rapidamente o que aconteceu com a personagem até aquele momento, incluindo o pé na bunda que levou do Coringa. Depois do fim do relacionamento, Harley tem a melhor ideia de toda a sua vida: explodir a fábrica de químicos onde tudo começou. Isso coloca um alvo em suas costas, já que agora a cidade toda vai saber que ela não tem mais a proteção do maior criminoso de Gotham. É aí que ela joga fora a última peça de roupa que ainda fazia menção ao ex: um colar com a letra J. Repare que é o único acessório dourado que ela ainda usa, todos os outros são prata, o que também pode ser um sinal de afastamento do status de “rainha do crime” da cidade.

Apesar de suas roupas em Aves de Rapina serem bastante diferentes das usadas no filme anterior, elas não deixam de ser a cara da personagem: são completamente inadequados para uma luta e é exatamente o que podemos esperar de alguém que leva um taco de baseball para entrar num tiroteio. São curtas, coloridas, brilhantes, sexy e com detalhes divertidos.

Dois pontos são bem marcantes nesse momento: Harley se afasta da paleta exclusivamente azul-vermelho-dourado e das estampas que fazem referência ao Coringa — um passo interessante em uma nova direção na qual ela é a protagonista. Essas cores ainda aparecem, principalmente no início do filme, em versões um pouco diferentes, como um casaco de lantejoulas pratas com as costas em azul marinho combinando com uma calça listrada de azul, vermelho e branco. Conforme a história se desenrola, no entanto, vemos cada vez mais cores neon como rosa e amarelo tomarem conta de suas roupas. Ao invés de usar um único figurino, como acontece em Esquadrão Suicida, aqui Harley está em liberdade e pode escolher entre algumas opções de roupa, que reforçam sua emancipação.

Harley Quinn

Além da cena clássica de cortar o cabelo após o término, vemos a personagem em um macacão pink com corações chorando enquanto come comidas gordurosas, o combo completo do fim do relacionamento. Aqui suas roupas têm mais brilhos, metais, lantejoulas e cores vibrantes, mas também parecem ser mais para o conforto do que para a sensualidade ou em função do olhar do outro. Vale ressaltar que Aves de Rapina contou com maior controle criativo de Robbie sobre o guarda-roupa de Harley, que trabalhou em parceria com a diretora Cathy Yan e a figurinista Erin Benach.

As peças mais utilizadas ao longo do filme são um top rosa vibrante, uma blusa com o próprio nome estampado vários vezes (em oposição ao que usava antes, não mais propriedade de ninguém) e shorts jeans curtos, mas que dessa vez se parecem com shorts de verdade, usáveis. Algumas peças dão a impressão de serem feitas à mão ou customizadas, o que reforça a personalidade da personagem. Um exemplo maravilhoso é o casaco de franjas feitas com fitas de “do not cross” [não ultrapasse], utilizada pela polícia em cenas de crimes, e que no filme funciona como um aviso de que ela continua perigosa.

Seus acessórios continuam extravagantes, mas fazem alusão à hiena que ela adotou, como o pingente de ossinho. O cabelo fica mais curto, menos infantil, e as cores mais desbotadas — outro sinal de que o antigo sentimento está se desfazendo. As armas, por sua vez, continuam customizadas e divertidas: atiram munição de glitter, tinta e gás colorido. Em um detalhe conseguimos ver escrito “fun gun” [arma divertida] e o desenho de dentinhos que parecem de tubarão. Harley também usa o bastão de baseball e seu martelo gigante, mas não a vemos mais armada o tempo.

O figurino utilizado na luta final do filme mantém o top rosa pink, mas agora com um macacão dourado com estampas de ouros. Enquanto escolhia suas armas e roupas para essa luta, e ajudava as novas amigas a se prepararem, Montoya (Rosie Perez) pega a antiga camiseta usada em Esquadrão Suicida e Harley a tira de suas mãos dizendo que essa ela não poderia usar porque tem um valor sentimental. O que é totalmente compreensível: mesmo em sua jornada de emancipação, a lembrança do antigo relacionamento é difícil de superar. É também uma rápida referência ao filme e ao figurino do passado. Outro momento ótimo que mostra como a direção de Yan traz um olhar diferente para o figurino de Aves de Rapina é quando Harley empresta um prendedor de cabelo para Canário (Jurnee Smollett) no meio de uma luta. Em que outro filme veríamos uma cena tão real quanto essa?

Harley Quinn

Fica evidente que o figurino do filme foi bolado por mulheres, assim como a escrita, direção e protagonismo do filme. Aqui, Harley ainda aparece em roupas curtas e se molha no sistema anti-incêndio da delegacia, mas a câmera de Yan não focaliza seu corpo. A diretora parece mais preocupada em mostrar a luta do que como ela se parece quando está molhada.

A maioria diferença na construção da personagem, além dos figurinos, é a forma como a câmera passa a ver Harley. Em Esquadrão Suicida, o foco no corpo dela e nos olhares que recebia promovem uma exposição exagerada — o que por si só não é um problema, desde que o corpo do personagem seja utilizado para ajudar a construir a história, marcar independência e sexualidade. A questão é que o filme não faz uma coisa nem outra. As cenas mostrando o corpo de Robbie não avançam a história e outros personagens não têm o mesmo nível de exposição e sexualização. Aves de Rapina, ao contrário, prefere focar em seu rosto, nas suas emoções e nos detalhes como a tristeza ao perder a única coisa que amava: o sanduíche que caiu no chão.

Mesmo com roupas curtas e transparentes, é tudo mais divertido do que sexy em Aves de Rapina, a preocupação da personagem aqui não é chamar atenção do sexo oposto, mas ser independente, sobreviver em Gotham e se divertir enquanto faz tudo isso. As roupas são só uma parte da jornada de emancipação de Harley Quinn e eu mal posso esperar para ver mais de sua versão independente e estilosa.

Adilane Silva é maratonista de série desde que aprendeu a usar um computador, se formou em Jornalismo para saber da vida dos outros e legalizar a fofoca. Cansada de falar sozinha no Twitter, resolveu escrever para dar spoilers sem limite de caracteres. Não sabe o que é para fazer, mas descobre fazendo.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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