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Law & Order SVU: a cor do problema

Ou: o primeiro episódio da vigésima segunda temporada de Law and Order: Special Victims Unit é uma aula de como não abordar o racismo em uma série mainstream.

Se você é fã de Law and Order SVU, provavelmente ficou desapontado com a season premiere que estreou no Brasil no dia 26 de janeiro de 2021. A história baseada em casos de racismo pela polícia americana não é nova, mas deixou a desejar. Como mulher negra que está sempre procurando representatividade nas mídias que consumo, esse é exatamente o tipo de representatividade que eu não quero.

De acordo com sinopse do episódio, intitulado “Guardians and Gladiators“, “quando a unidade tenta solucionar um ataque no Central Park, eles são prejudicados por seus preconceitos e uma comunidade que está perdendo a confiança na polícia.” A história foi baseada em fatos reais de um caso de racismo em Nova York durante a quarentena. Um homem negro pediu que uma mulher branca colocasse a coleira em seu cachorro, em área reservada para observação de pássaros no parque. Irritada, ela ligou para a polícia e disse que estava sendo ameaçada. Na versão de SVU, além do incidente com o cachorro, os policias encontram uma vítima de estupro no parque. Jayvon Brown (Blake Anthony Morris), o personagem negro que foi acusado pela mulher branca, é levado pela equipe de Olivia Benson (Mariska Hargitay) como suspeito do crime. Todo esse incidente foi gravado, tanto pelo próprio Jayvon quanto por pessoas que estavam no parque. Sem procurar outros suspeitos e sem esperar pela perícia, a equipe de SVU se vê no meio de mais um caso de discriminação racial, agora proferido por eles mesmos.

O fato é que o episódio tinha tudo para ser ótimo. SVU tem uma longa história de retratar casos reais que estão na mídia e não tem nada de mal falar sobre questões raciais e polícia. Ou não teria, se fosse feito do modo certo. Com mais de 20 anos no ar e com o título de série dramática mais longeva dos EUA, SVU conta com o sargento Fin Tutuola (Ice-T) como personagem negro oficial da série por quase todos esses anos. Além dele, tivemos a detetive Monique Jeffries (Michelle Hurd) na primeira temporada e a médica legista Melinda Warner (Tamara Turnie) por muitos anos no casting oficial. Nessa temporada, temos Demore Barnes interpretando o subchefe da polícia de Nova York. Nenhum desses papéis são de personagens principais. Tirando Ice-T, todos os outros aparecem em apenas algumas cenas rápidas durante os episódios. Não é muito para uma série que está no ar há mais de vinte anos. Inclusive a nova spin-off de Law & Order, Organized Crimes está chegando com um casting bem mais diverso.

Uma pergunta importante, porém, é: toda representatividade é boa representatividade? Law and Order: SVU sempre foi aclamada por trazer temas que são considerados tabus pela sociedade, mas durante seus longos anos de duração pecou bastante em termos de representatividade racial e queer. O fato é que você vai ver muitos personagens negros e LGBTQI+ coadjuvantes na série, mas a questão é como. Existem vários estereótipos clássicos para minorias em séries e filmes. SVU, na minha opinião, foca bastante no black and queer suffering: personagens negros e queer servem somente para sofrer.

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Mesmo sendo uma série que trata de temas complicados como estupro e abuso sexual, não podemos deixar de frisar que essas histórias são escritas e dirigidas por pessoas brancas que invariavelmente vão ter uma perspectiva branca sobre a história que vai ser contada. De acordo com Sujata Moorti em sua tese Color of Rape: Gender and Race in Television’s Public Spheres (em tradução livre, A Cor Do Estupro), séries como Law and Order: Special Victims Unit são escritas e dirigidas, em sua maioria, por homens brancos que falham em retratar muitas realidades, principalmente a realidade de pessoas negras.

“Eles [diretores e escritores] destacam que o processo legal quase sempre é falho e as experiências de violação relatadas pelas mulheres são muitas vezes desacreditadas. Porém, essas séries raramente são capazes de elucidar como as experiências de mulheres negras são significativamente diferentes das de mulheres brancas.” (tradução livre)

O fato de esses tipos de séries serem feitas por homens brancos (e no caso específico de SVU, mulheres brancas também) contribuem para uma visão de que “o estupro ocorre por causa de uma masculinidade ruim (geralmente a masculinidade negra). Em outros casos, esse ponto de vista do homem branco explica o estupro ao explorar mitos da sexualidade racializada (tanto a masculina quanto a feminina).”

Law and Order: SVU já conseguiu fazer bons episódios que retratam a experiência de uma pessoa negra. Isso geralmente ocorre com participação de pessoas negras na direção, como foi o caso de “Community Policing” (temporada 17, episódio 5). A história é baseada no movimento Vidas Negras Importam e gira em torno de um policial que mata um homem negro inocente que era suspeito de cometer um estupro. No final, os detetives da unidade de vítimas especiais, inclusive a então sargento Olivia Benson, refletem sobre como eles próprios têm seus preconceitos e como isso é prejudicial para a sociedade. Infelizmente, nenhum desses aprendizados duram mais do que um episódio e depois disso voltamos para as mesmas histórias de suspeitos negros sendo acusados sem provas. De certa forma, a ficção imita a realidade.

Chegamos então no péssimo exemplo de “Guardians and Gladiators“, o primeiro episódio da nova temporada. Como foi dito antes, Olivia deveria saber tudo sobre racismo e brutalidade policial. Ela já passou por isso, não só em “Community Policing“, mas também em outros episódios. Porém, nenhum aprendizado foi retido dessas experiências pelos detetives, incluindo a agora capitã Benson. Olivia leva o suspeito negro para o delegacia e deixa toda a polícia de Nova York em maus lençóis. A população está revoltada com os inúmeros casos de violência policial contra negros, como o caso de George Floyd, e a mídia está em cima do caso.

O enredo e a maneira como a história foi apresentada deixam claro que o episódio foi escrito por pessoas brancas (SVU tem pessoas negras no seu writing room, mas os escritores principais e o diretor do episódio são pessoas brancas). A gente percebe isso de diferentes formas. No entanto, existem duas cenas nas quais vamos nos concentrar nesse artigo para ilustrar essa falha.

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A primeira foi o confronto entre Olivia Benson e a nova capitã da IAB (Gabinete de Assuntos Internos, em português, a unidade que fiscaliza e investiga a própria polícia). É a primeira vez que vemos a nova capitã da unidade, Renee Curry (Aime Donna Kelly) que entrou no lugar do ex-namorado de Olivia, Edward Tucker (Robert John Burke). Benson é chamada para esclarecer sua atuação onde um homem negro inocente foi acusado de estupro e a capitã Curry, uma mulher negra, não dá espaço para Olívia arranjar desculpas para sua péssima e claramente racista participação no caso. Olivia fica desconfortável, sem jeito. Ela não se considera uma pessoa racista. Então fica a pergunta: atitudes pontualmente racistas são desculpáveis? Uma pessoa tão justa e boa como Olivia Benson pode ser considerada racista?

Antes de responder essa questão, vamos para a segunda cena mais importante desse episódio: a conversa (ou não-conversa) entre Olivia Benson e seu filho Noah (Ryan Buggle).

O vídeo de Olivia e seus companheiros prendendo um homem inocente no Central Park se tornou viral nas redes sociais. O filho de Olivia assiste o vídeo — não há como esconder muitas coisas das crianças de hoje em dia — e faz a pergunta que todos nós estávamos nos fazendo:

— Mãe, você é racista?”

A resposta de Olivia?

— Eu não sou racista.

E fim. Essa é a conversa. Aqui temos a confirmação de que esse episódio foi escrito por pessoas brancas. Essa simplicidade é tão prejudicial quanto as ações racistas de Olivia. Mas por que apenas dizer que você não é racista é tão ruim? Ou mais: o que Olivia deveria dizer depois de ser repreendida por seu próprio filho?

Law & Order
Fonte: NBC

Para analisar melhor como essa “não-conversa” foi um grande erro do episódio, vamos utilizar o livro So You Want To Talk About Race da autora Ijeoma Oluo. No capítulo dezesseis, Oluo responde à pergunta “Eu fui chamado de racista, o que eu faço agora?”. Oluo reconhece que falar sobre racismo costuma ser muito doloroso para todos os envolvidos, especialmente para as pessoas negras. Essa nunca é uma conversa agradável. Pessoalmente, trabalhando com pessoas negras diariamente durante a quarentena e durante todo o movimento Black Lives Matter de 2020, uma das coisas que mais escuto é “eu não aguento mais falar sobre racismo.” E é verdade, mas essa conversa ainda é necessária.

“Por que falar sobre racismo se essa conversa é tão dolorida? Porque não temos outra escolha. Porque não falar sobre racismo está nos matando. Porque por muito tempo nós fomos os únicos que carregamos o peso do racismo. Se você é uma pessoa branca e está lendo este livro e se perguntando por que nós nos incomodamos em ter essas conversas se elas são tão dolorosas, pense o quão horrível a alternativa — racismo desenfreado — tem que ser para que tomemos esse risco. Você então vai começar a entender melhor a realidade da vida de pessoas negras.” (Oluo, p. 304-305 tradução livre)

Portanto, ao negar uma conversa mais profunda com seu filho, Olívia está fazendo o que tem feito desde o episódio “Community Policing“, que é admitir que fez algo errado, mas seguir a vida com os mesmos preconceitos. Não ter essa conversa não só não ajuda, como machuca e mata. E isso não tem nada a ver com seu caráter ou sua natureza. Olivia é realmente uma pessoa generosa, amorosa e compassiva. Mas o que temos que entender é que essa pessoa também pode ser racista. Como diz Oluo:“Você é racista porque você nasceu e foi criado em um país racista, em uma sociedade de supremacia branca.” A autora está falando dos Estados Unidos aqui, mas podemos utilizar o mesmo conceito para o Brasil.

“Isso não significa que você tem ódio no coração. Você talvez tenha a intenção de tratar todas as pessoas igualmente, mas isso não significa que você não absorveu conceitos errados sobre raça. Conceitos esses que vão aparecer de alguma forma em algum momento.” (Oluo, p. 308 tradução livre)

De certa forma, tudo se resume à responsabilidade. Ou você aceita que é racista e procura modos de mudar ou vai continuar a negar (“eu não sou racista!“, disse Olívia) e seguir com seus preconceitos. Se assumir racista é o primeiro passo para mudar. Sem isso você continua a prejudicar as pessoas negras.

Em seu livro, Oluo montou um passo-a-passo do que fazer ao ser chamado de racista, especialmente se você for chamado de racista por uma pessoa negra (o que realmente não é o caso aqui já que estamos falando da conversa com Noah, mas podemos também analisar a conversa dela com a capitã da IAB). Eu encorajo você a ir até o livro de Oluo e verificar todos os passos mas aqui vou me concentrar em um, porque acho que isso fala muito sobre o caráter de Olivia:

“Lembre-se, você não é o único que está sofrendo.” (Oluo, p. 314, tradução livre)

Law & Order: Special Victims Unit

Benson fica extremamente magoada em pensar que ela pode ser racista porque, em sua mente, ela realmente não é. Ela está em um estado de negação muito comum. Escutamos vários comentários de outros fãs da série justificando o jeito como Olívia lidou com toda essa situação. Comentários do tipo: “sim, ela tem alguns preconceitos, mas assim, ela é uma pessoa boa que quer ajudar mulheres… ela não é racista.”

O problema é que esse tipo de comportamento é exatamente o que o racismo é. Um racista não é apenas um defensor de Bolsonaro. Não é um personagem de desenho animado dos anos 50. Na real, vivemos em uma sociedade racista e, se a gente não faz um trabalho de se libertar de certos conceitos, somos, sim, racistas. A verdade é que temos medo de ser chamados de racistas. Olivia não se sente confortável em ser chamada de racista. E ela está certa. Não é confortável e machuca, mas seu racismo machuca muito mais.

O primeiro passo é falar sobre racismo. Dói, mas é necessário. Necessário para que possamos seguir para as próximas etapas, que são ações reais que podem enfim trazer consequências reais. Se ficarmos presos na parte da conversa, não importa o quanto gritemos Vidas Negras Importam, nada vai mudar.

Não foi nesse episódio que Olivia reviu seus conceitos, na minha opinião. E eu não acho que isso vai acontecer enquanto esses escritores estiverem à frente da série. No mais, fico torcendo para vermos mais da excelente personagem de Renee Curry como chefe da IAB e que em algum momento vejamos diversidade sendo feita de uma maneira correta nessa série que já ajudou tantas pessoas pelo mundo.


Referências:

Moorti, Sujata. The Color Of Rape: Gender and Race in Television’s Public Spheres. State University of New York Press, 2001.

Oluo, Ijeoma. So You Want To Talk About Race? Seal Press, 2019.

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1 comentário

  1. Ao final desse episódio, ainda fica no ar a ideia que a desconfiança da população e a reação do homem negro preso injustamente fizeram com que o verdadeiro estuprador ficasse livre. Isso é algo que perdura, de uma forma ou de outra, pelos primeiros episódios da temporada, as manifestações contra a violência policial estão prejudicando as investigações e beneficiando estupradores. Terrível!