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Melancolia, substantivo feminino

“Melancolia”: substantivo feminino que significa “estado de tristeza intensa, traduzido pelo sentimento de dor moral e caracterizado pela inibição das funções motoras e psicomotoras”, segundo o Dicionário Aurélio. De acordo com o diretor de cinema Lars von Trier, Melancolia é um enorme planeta azul em rota de colisão com a Terra — essa é a base do enredo do filme de mesmo nome, lançado pelo diretor em 2011. Ao longo do filme, acompanhamos alguns momentos de duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), e como esse sentimento, juntamente as diversas imposições e expectativas colocadas sobre elas, permeia a vida de ambas.

Melancolia é divido entre duas partes, cada uma focando em uma das irmãs. A primeira parte, intitulada Justine, começa com a personagem e seu marido, Michael (Alexander Skarsgård), indo para sua festa de casamento, que é o pano de fundo de sua história. Depois de alguns problemas com o carro, eles chegam algumas horas atrasado à festa que havia sido cuidadosamente organizada por Claire, a irmã mais velha. Claire tem cada momento da noite planejado, agendado, meticulosamente arranjado para que tudo dê certo. Muitas coisas acontecem nesse casamento, fazendo com que não seja, de forma alguma, como havia sido organizado. No início da festa, Justine está sorridente, vestida de noiva, participando de todos os rituais próprios de uma festa de casamento tradicional. Brindes, bolo, valsa, tudo conforme manda a tradição. Mas em algum momento dessa festa percebemos que Justine não está bem, que os sorrisos são falsos, que a felicidade mostrada ali é uma máscara para um sentimento que nunca é nomeado, mas é tão latente que fica quase palpável.

Durante os brindes do casamento, vemos três momentos que deixam claro o que era esperado de Justine ali, assim como de todas as mulheres há muitos séculos. Primeiro, seu chefe — que também é o padrinho do noivo — fala sobre como ela é uma excelente profissional e a pressiona para entregar um slogan publicitário no qual estava trabalhando. No meio de sua própria festa de casamento, Justine é pressionada por seu chefe homem a trabalhar, como se lhe devesse isso por ele ter dito que era uma boa profissional. Ao longo da festa, continua insistindo que ela lhe entregue o slogan pronto, embora ela negue e se esquive. Por fim, Justine lhe diz que odeia trabalhar para ele, que odeia a empresa e o seu trabalho. Esse homem então quebra os pratos, grita, se descontrola. Ali se quebra um papel que Justine interpretava, o da boa funcionária dedicada, que trabalha em horas totalmente impróprias. Quanto é preciso que uma mulher se esforce a mais para que o seu trabalho seja reconhecido? Se é cabível que se peça para uma mulher trabalhar durante a sua própria festa de casamento, quanto ela já teria feito por aquele trabalho?

O segundo brinde é de sua mãe, que assume o posto depois de uma discussão com seu pai enquanto ele faz seu discurso. Sua mãe desde o começo deixa claro que odeia casamentos, que não queria estar ali. Diz então que é contra os casamentos e que os noivos aproveitem enquanto durar, pois aquilo estava fadado ao fracasso. Algumas cenas depois ela diz ainda que não vai se reunir aos demais enquanto o bolo é cortado, porque não quer compactuar com aquele ritual. A família se revolta contra ela, mais de uma vez ela é chamada de desequilibrada. Se o casamento é um momento tão importante para uma mulher, como ela ousa dizer que não concorda com aquilo?

O último brinde é o do noivo. É também o mais desajeitado e deprimente. Dizendo várias vezes que não sabe o que falar, que não tem jeito com as palavras, diz apenas que Justine é linda e que ele nunca havia sonhado com uma esposa tão bonita. No momento em que poderia falar sobre qualquer característica da esposa, é isso que ele escolhe ressaltar: sua beleza. Não que seja mentira — Justine é linda e está deslumbrante vestida de noiva, com os cabelos perfeitamente presos e um sorriso no rosto. Mas não teria mais ali? Por trás daquele sorriso e daquele vestido existe uma pessoa completa, com sentimentos complexos e que está passando por um momento de sofrimento.

Durante a festa, vemos que Justine está muito deprimida, embora esteja sorrindo o tempo todo. Num diálogo com sua irmã Claire, ela diz que está tentando atravessar tudo isso, mas que há algo agarrado às suas pernas e sente que se torna cada vez mais difícil arrastar tudo isso. Claire entende perfeitamente bem o que está acontecendo, ela e a mãe parecem ser as únicas pessoas que compreendem a profundidade e a importância do sentimento de Justine. Mais tarde, Justine faz outra analogia entre a depressão e o ato de caminhar, dizendo para sua mãe que não consegue mais andar sozinha. Pois andar parece ser o que Justine mais quer fazer, andar para fora dessa festa, do casamento, dos seus sentimentos, da tristeza que toma conta dela.

Acontecem outras coisas nessa festa que fazem com que ela desande totalmente, culminando com que, ao final, Claire diga à irmã que a odeia. Odeia porque ela havia cumprido seu papel de irmã mais velha, responsável, organizada. Seu papel de mulher que se preocupava com os detalhes, com uma festa de casamento, com o conforto dos convidados e a imagem que a irmã estava passando. Já Justine não consegue cumprir com o que esperavam dela. As expectativas eram altas demais, especialmente porque todos os envolvidos sabiam que ela não se encontrava em plena saúde mental. Embora o sentimento de Justine nunca seja nomeado diretamente, compreendemos que ela se encontra num estado de melancolia profunda. Embora ela diga várias vezes que tentou, que está tentando ser feliz na festa, que está se esforçando genuinamente para parecer feliz, é evidente que a felicidade está longe dali. O que ninguém parece entender é como uma mulher estaria triste num momento tão glorioso quanto o seu casamento. Supondo que meninas e mulheres passem a vida sonhando com aquele momento, como poderia uma mulher ousar não estar feliz ali?

A segunda parte do filme leva o nome de Claire. Embora apareça rapidamente antes, aqui vemos a história do planeta Melancolia. Trata-se de um enorme planeta azul vindo direção à Terra, que exerce uma grande força sobre todos os personagens. “Blue”, que em inglês significa “azul”, é também a palavra usada para nomear a tristeza. Trata-se, portanto, de uma grande e poderosa metáfora sobre a tristeza e a depressão. Claire tem medo que o planeta se choque contra a Terra, pesquisa na internet diversas vezes e descobre o que os cientistas estavam chamando de ‘A dança da morte entre Melancolia e a Terra’, uma teoria que demonstrava que o planeta eventualmente se chocaria com o nosso. Claire nunca a experimentou pessoalmente, mas conhece a melancolia de perto e sabe do que ela é capaz. Sabe que é uma força capaz de grande destruição e por isso teme pela sua vida, pela vida de sua família e porque não tem certeza do que virá.

Já o marido de Claire, John (Kiefer Sutherland), rejeita a ideia de que os planetas irão se chocar. Da mesma forma em que não acredita que Justine tenha um problema de verdade, não acredita que sua vida esteja em risco devido ao Melancolia. Todas as vezes que Claire fala com ele sobre os seus medos, ele argumenta que “os cientistas de verdade” provaram que nenhuma tragédia iria ocorrer. Até o momento em que os planetas começam, de fato, a se aproximarem demais, numa velocidade muito acima do normal. John não sabe lidar com o fato de que a colisão é iminente, de que o Melancolia vai chegar e fazer com ele o que faz com qualquer outra pessoa. John é homem e acredita que sentimentos são inofensivos, que o que importa de verdade na vida é o dinheiro e a família. Ao se sentir acuado pelo medo daquilo, John comete suicídio, após negar que a situação era real.

Já Justine, não se abala nem por um momento. Pelo contrário, se sente fascinada pelo planeta e pela possibilidade da colisão com a Terra. Justine, mais do que ninguém ali, conhece Melancolia como conhece a si mesma. A consciência disso, que poderia fazer com que ela fosse quem mais se desesperasse, faz justamente o contrário. Justine tem tanta familiaridade com aquilo que é como se estivesse olhando em um espelho. A sua própria vida é mais aterrorizante que a possibilidade de um planeta colidindo com o seu.

Em uma rápida pesquisa na internet, é possível encontrar diversos artigos de profissionais da área comentando sobre o filme, com opiniões bastante divergentes entre si. Não sou da área e, portanto, acredito que não caibam aqui comentários acerca dos males que acometem Justine ou das metáforas utilizadas pelo diretor, que também é uma figura polêmica. O que me chama atenção nesse filme é a forma discrepante por meio da qual homens e mulheres lidam com a tristeza em suas vidas e como as mulheres parecem se compreender quando falam sobre isso.

Todas as imposições feitas às mulheres ao longo de suas vidas parecem ser um dos elementos que ajudam a criar um terreno fértil para problemas que vão desde a tristeza e a insegurança até questões psicológicas mais graves e complexas. Na contramão disso, homens parecem não aceitar que esses problemas sequer existem, encontrando dificuldade em enxerga-los até que estejam quase colidindo. Assim, Melancolia nos convida a refletir sobre o lugar desses sentimentos em nossa vida e a enxerga-los nas outras pessoas, ainda que isso seja muito desafiador.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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