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Relacionamentos amorosos e amor próprio na discografia de Rina Sawayama

Desde o ano passado, com o lançamento de seu álbum de estreia — o aclamado SAWAYAMA (2020) —, a artista nipo-britânica Rina Sawayama ganha cada vez mais espaço e destaque no cenário musical internacional. Recentemente, lançou uma colaboração com nada mais nada menos que Elton John, na faixa “Choosen Family”; além de participação no álbum de remixes Dawn of Chromatica (2021), da Lady Gaga; estará no elenco do próximo filme da franquia John Wick; e em junho, Mês do Orgulho LGBTQIA+, foi capa da grandiosa Billboard (com um photoshoot maravilhoso, diga-se de passagem).

Na edição, Chris Fraser, gerente da Dirty Hit — gravadora responsável pela promoção da cantora —, aborda sobre uma das características que mais chamam a atenção em relação à Rina: a diversidade sonora presente em seus trabalhos. “Ela quer existir no mundo mainstream, mas em seus próprios termos”, afirma Chris. Tal pluralidade também está presente quando olhamos para as inúmeras temáticas propostas pela cantora em suas composições: conflitos familiares, identidade, sexualidade, xenofobia, machismo, capitalismo, tecnologia e amor são alguns dos assuntos encontrados em sua discografia.

E aí, ao ler o título deste artigo, você pode se perguntar: já que Rina nos oferece uma bagagem temática tão rica e ampla, por que falar sobre o amor — um assunto consideravelmente saturado na indústria musical? No entanto, é por Rina ir pelo caminho contrário, ao fugir das representações heteronormativas, românticas e abordando sobre as variáveis formas de amar, que a cantora nos oferece canções de amor mais representativas, críticas e diversas — como é o caso de “Valentine (What’s It’s Gonna Be)”, lançada em 14 de fevereiro de 2018.

Não por acaso, a música foi divulgada no Valentine’s Day daquele mesmo ano, sugerindo um novo olhar à data. “Eu odeio o Valentine’s Day, então escrevi uma música com @clarenceclarity sobre brincar com o amor — espero que isso dê força a você diante das correntes da comercialização heteronormativa do amor”, disse a cantora em seu Instragam, na época do lançamento. Nos versos, Rina subverte o caráter heteronormativo, monogâmico e não-inclusivo do feriado ao narrar e normalizar um relacionamento amoroso fugaz, incontrolável, sem expectativas ou falsas promessas. O que vai ser? Ao longo da canção, Rina repete a pergunta inúmeras vezes, e em todas elas não há uma resposta. São versos que narram um amor efêmero, tal qual os rifles de guitarra e as batidas synth-pop presentes em sua composição.

Amor na Discografia de Rina Sawayama

Seis meses depois, no dia 14 de agosto de 2018, Rina lança “Cherry” — um hino pessoal e confessional que a ajudou a se assumir como mulher panssexual. Na canção, a referência à melodia pop do final dos anos 90 se colide com uma letra progressista, que subverte a heteronormatividade presente nas canções de amor daquela época. “Lançá-la foi, por si só, um ato contra minha própria bifobia interna e processo de pensamento que não importa, como se não houvesse necessidade de contar essa história”, disse Rina em 2018 durante entrevista à Billboard.

Além de trazer letras que narram relacionamentos amorosos dentro de uma perspectiva não-monogâmica e LGBTQIA+, como também é o caso de “Choosen Family”, Rina faz questão de criar novas camadas, aliando o amor à era das tecnologias e redes sociais — como é o caso dos singlesWhere U Are” (2016) e “Tunnel Vision” (2017), este em parceria com o cantor estadunidense Shamir. Aliás, principalmente em RINA (2017), seu primeiro EP, a artista fala bastante sobre o impacto das redes sociais em nossa vida em sociedade.

Se você não consegue se amar, como você vai amar outra pessoa? A frase, eternizada pela drag RuPaul em seu reality show de competição RuPaul’s Drag Race, está presente em “Love Me 4 Me”, sétima faixa do disco de estreia de Rina Sawayama. “Every day, I wanna start over/ ‘Cause I remind me of me (Todo dia eu quero começar de novo/ Porque eu me lembro de mim)”: esse é um dos versos da canção que demonstram os altos e baixos da busca pelo amor próprio — temática também muito presente ao longo de toda a sua discografia e importante quando falamos de relacionamentos amorosos (como a própria RuPaul sempre nos ensinou).

Em “Alterlife” (2017), Rina explora a sonoridade cyberpunk, inspirada na trilha sonora enérgica de jogos como Gran Turismo e Need For Speed, como destacou em entrevista à The Fader em 2017. Dialogando com a sonoridade proposta à canção, os primeiros segundos de Alterlife nos apresentam sons de um carro sendo ligado, seguido de versos que confessam a dificuldade em se manter a essência diante da competitividade durante a busca pelo sucesso, da suposta crença em se encaixar dentro de padrões ou normas e do medo do fracasso. Ao mesmo tempo, é através da canção que a cantora também abraça essas inúmeras versões de si mesma.

Em “Snakeskin”, a última canção de SAWAYAMA (2020), Rina reflete muito bem as sensíveis camadas que envolvem a busca pelo amor próprio. “Buy my expensive, exclusive, pain wear (Compre o meu caro, exclusivo, vestuário de dor)”: externalizar, através da comercialização de sua arte, o vestuário de dor e traumas é também uma forma de vencê-los e não os deixar paralisá-la; é entender que a grande chave do amor próprio — e também do relacionamento amoroso — está em aceitarmos a(s) pessoa(s) que nos tornamos no mundo. Não é esquecer a dor, ou romantizar os traumas, mas perdoar a si própria por fazer o que estava a seu alcance. É não mudar por nada ou ninguém, exceto se vier de sua própria vontade.

É um tema sensível, reflexivo, que merece uma sonoridade que faça diálogo com a jornada proposta pela artista. Nesse sentido, o início de “Snakeskin” é lento, dramático e vai, gradativamente, alcançando tons redentivos, como se a cantora extravasasse e arrancasse de si todas as suas camadas de dor. De repente, em seu auge, a canção retoma ao instrumental clássico (que é, aliás, um sample de Beethoven). Um fim suave, como tudo deveria ser.

Você quebraria a corrente comigo? Esta é a pergunta proposta por Rina ao ouvinte em “Dynasty”, canção que abre o álbum SAWAYAMA (2020). A oferta não poderia ser mais certeira ao representar não só o conteúdo presente em seu disco de estreia, mas também em toda a sua discografia lançada até então. Abordando de forma subversiva e crítica temáticas ora saturadas na indústria musical, Rina surge para colocar o pop no avesso, caminhando ao lado de inúmeros outros artistas que buscaram e seguem buscando quebrar as inúmeras correntes presentes no gênero.

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