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O debut de Rina Sawayama

Quando me apresentaram ao trabalho de Rina Sawayama poucos meses atrás, pensei comigo que há anos eu não via um nome japonês inédito atravessando as fronteiras e fazendo o gosto de pessoas que conhecidamente têm artistas ocidentais mais dominantes no repertório. Ela é natural do Japão, mas foi criada no Reino Unido, e, por consequência, canta suas músicas em inglês. Tenho um forte palpite de que a acessibilidade do idioma foi um forte fator contribuinte para torná-la mais conhecida, porém, após mergulhar a fundo no seu universo, eis o meu veredicto: Rina Sawayama deve cruzar as fronteiras, e não é difícil defender a sua fama.

Nascida em 1990, em Niigata, Japão, Rina morou em seu país natal até os cinco anos de idade e então se mudou para a Inglaterra com seus pais, onde mora desde então. A artista nipo-britânica de vinte e nove anos se formou em Políticas Sociais na Universidade de Cambridge e trabalhou como modelo durante esse período, antes de ingressar na música. Em uma entrevista para o canal i-D, ela disse que na infância sentia vergonha pela sua mãe mandar obentos elaborados para seu lanche na escola, pois o que ela mais queria era se encaixar entre as crianças brancas inglesas e seus sanduíches de geleia, e apenas começou a resgatar sua dupla nacionalidade nos últimos anos, acreditando, hoje em dia, que isso não a exclui de um lugar, nem de outro, mas agrega camadas à pessoa que ela é.

De fato, o estilo de Rina Sawayama se encaixa no alternativo moderno de Tóquio, um estilo hoje adotado internacionalmente e que chama a atenção pelos cabelos coloridos e as combinações da moda do street style. Sua música também vem carregada de um ritmo moderno, embora às vezes nostálgico por remeter à década de 2000 (o que, para os millennials não parece distante).

Rina, seu primeiro mini-álbum de apenas oito faixas, foi lançado como um projeto independente apenas três anos atrás, em 2017, e o tema recorrente é a evolução do seu relacionamento com a internet e a descoberta da sua identidade, ora entrelaçados, ora paralelos, que muitos de nós experienciamos desde a década de 2000, com o advento das redes sociais e as personalidades que criamos em cima dos nossos perfis. Nessa mesma época, a influência das celebridades ganhava força graças a essa proximidade que o mundo virtual proporciona, com suas informações percorrendo os computadores tal qual uma faísca rapidamente se transformando em incêndio em um estábulo, e Rina brinca com esse tema também.

Desse mini-álbum, um dos destaques precisa ser dado à “Ordinary Superstar”, uma das minhas faixas favoritas, e também aquela que abre o mini-álbum, que fala sobre o discurso contraditório de celebridades que dizem ser gente como a gente enquanto ostentam um estilo de vida longe do acessível. O cenário do vídeo criado para a música é composto por mármores e espelhos e figurinos extravagantes; o ritmo poderia ser parte da trilha sonora de uma narrativa de um sonho popstar. Já “Cyber Stockholm Syndrome”, a música que encerra o mini-álbum, reflete a transformação do relacionamento da própria Rina com a internet. Se antes morar no mundo virtual parecia uma experiência vazia, percebendo como havia ido parar ali voluntariamente, ela fez da internet um recurso para uma pessoa introvertida como ela se expressar com mais liberdade e ter uma voz sobre os assuntos que lhe são importantes com autoconfiança. Por isso a Síndrome de Estocolmo cibernética — been there, done that.

Rina Sawayama

Então, em 17 de abril, Rina lançou seu álbum de estreia, SAWAYAMA, com aclamação da crítica e também do público. Com treze faixas, Rina conseguiu explorar batidas com bastante coerência, trazendo elementos conhecidos que unidos à maneira dela, e com toques das culturas que formam sua identidade, criam uma música original e versátil.

“The album ultimately is about family and identity. It’s about understanding yourself in the context of two opposing cultures (for me British and Japanese), what “belonging” means when home is an evolving concept, figuring out where you sit comfortably within and awkwardly outside of stereotypes, and ultimately trying to be ok with just being you, warts and all”.

“O álbum, em última análise, é sobre família e identidade. É sobre entender você mesma em um contexto de duas culturas opostas (pra mim, a britânica e a japonesa) e o que ‘pertencer’ significa quando lar é um conceito fluido, quando se está descobrindo onde você se sente confortável dentro e estranhamente fora de estereótipos, e  no final das contas, tentando ficar bem sendo você mesma, defeitos e tudo.”

Dynasty”, escolhida para ser a abertura de SAWAYAMA, faz jus ao álbum como música de introdução, não apenas do conceito que a artista quis transmitir com seu primeiro trabalho, mas também da miscelânea de gêneros com a qual ela escolhe trabalhar, homenageando ora um som mais pop, ora mais rock’n’roll. O primeiro tom da música pode, por exemplo, nos remeter à Florence and the Machine num segundo e nos transportar para a profundidade do Evanescence no próximo, isso sem nos levar a comparar a Rina com Florence Welch ou Amy Lee por um momento sequer, porque as influências passam rápido demais para nos prendermos a elas, e a letra que reverbera por entre as batidas é um constante lembrete que de estamos dialogando com uma artista que está procurando se libertar das correntes que limitam a pessoa que ela é. Estamos diante de um trabalho carregado de autoconhecimento.

“XS” (“excess”), a segunda música, com suas batidas agitadas típicas do rock, mas que também lembram um pouco algumas das músicas pop de Koda Kumi, faz uma crítica ao consumo desenfreado da sociedade capitalista sem grandes discursos, apenas com um refrão repetitivo. Afinal, a cultura do capitalismo não precisa de discursos elaborados para se justificar, ela simplesmente se mantém à base de desejos. “STFU!” (sigla de “shut the fuck up”), também animada, tem um quê de revolta de quem está cansada de se justificar o tempo todo, pelo motivo que for. Já em “Comme des Garçons (Like The Boys)”, um dos singles do álbum, Rina faz uma crítica ao comportamento egocêntrico que homens adotam para demonstrar autoconfiança e reverte o discurso para incentivar a autoestima das mulheres, quase como Lizzo faz em “Juice”. “Comme Des Garçons” é, também, o nome de uma grife japonesa, e ela aproveitou-se desse fato para escrever a letra sobre referências às marcas fundadas e/ou dirigidas por homens em um misto de luxo, capitalismo e dominância.

“Akasaka Sad”, de cunho pessoal, se refere a Akasaka, um distrito de Tóquio onde Rina se hospeda sempre que vai ao Japão e, dentro do tema da identidade, a música reflete a insegurança de não pertencer mais ao lugar depois de ter crescido em outro país, vivenciando um sentimento que em algum grau seus pais também sentiram. Em seguida, “Paradisin”, com uma vibe mais alegre, poderia ser a trilha sonora de um videogame ou de uma série e essa, de fato, é a inspiração para a música, que descreve a adolescência de Rina de uma maneira livre e rebelde de uma forma inocente como as experiências jovens normalmente são quando apenas querem quebrar alguns padrões e regras para se autodescobrir com um pouquinho de diversão; como se a vida fosse um filme dirigido John Hughes. Já “Love Me 4 Me”, também, com um ritmo mais leve e positivo, funciona como um recado dela para si mesma em formato de uma balada pop com a velha mensagem que nunca é demais relembrar: amar-se por si mesma, apesar das pressões internas e externas.

“Bad Friend”, a oitava faixa do álbum, atinge o íntimo de qualquer um que já vivenciou o término de uma amizade intensa; aquela velha história de melhores amigos que viraram estranhos, porque a vida aconteceu e de repente o contato foi ficando mais espaçado até não existir mais. As marcas que uma vivência como essa com frequência leva ao questionamento da nossa (in)capacidade de manter amizades, ainda que o buraco seja mais embaixo e, racionalmente, saibamos que as relações não funcionam desse jeito, apontando vítimas e culpados. É uma música melancólica, mas bonita pela honestidade e com um refrão que transmite uma energia ótima para ser cantado no karaokê e exorcizar qualquer dose de culpa ou unir duas amigas sobre feridas passadas.

“F*uck This World (Interlude)” lembra uma trilha sonora interpretada por Utada Hikaru e, apesar do nome, não expressa revolta contra o mundo em si, mas com o que as pessoas fazem com ele, representando uma das muitas preocupações da nossa geração. “Who’s Gonna Save U Now?”, por sua vez, com o ritmo poderoso do rock, não é intencionada para ser uma música de acusação, mas de redenção. “Tokyo Love Hotel”, também na questão da identidade dividida, fala sobre estrangeiros que dizem amar a cultura japonesa e nutrir um fascínio por Tóquio sem realmente conhecer o povo japonês e respeitar seus costumes, que, por sua vez, não dão a liberdade que a capital moderna faz parecer. Ainda assim, Rina inclui uma autocrítica por ter reproduzido esse comportamento antes, como a história contada anteriormente em “Bad Friend” revela, num ciclo de pertencer/não pertencer: “I guess this is just another song about Tokyo” [“Acho que essa é só mais uma música sobre Tóquio”].

“Chosen Family” é para Rina uma ode à união da comunidade LGBT+, da qual ela faz parte e defende como pansexual, e às pessoas que escolhemos para ser a nossa família quando a nossa, de sangue, às vezes não é suficiente. É um abraço confortante em contraste com o lamento e a culpa que ressoam em “Bad Friend”, porém ambas as faixas têm um lugar em trechos da vida real. SAWAYAMA termina com “Snakeskin” para encerrar com chave de ouro o que o álbum significou para ela: despir-se publicamente e abrir o coração para suas questões pessoais.

Não é só pela música de qualidade que Rina Sawayama merece um lugar ao sol. Decidindo tornar a cultura do seu berço um dos elementos principais do seu trabalho, mas no limite de suas experiências pessoais, ela representa as pessoas que cresceram entre a cultura japonesa e a ocidental e até hoje esperam para se ver em personalidades não estereotipadas. O fato de Rina não ter abandonado seu sobrenome na identidade artística é muito significativo, porque assim não deixa dúvida alguma quanto à sua origem, e assim também vai afastar quem, por algum motivo, não sai do eixo americano/europeu em suas influências, ainda que este não seja o caso dela, que também possui cidadania britânica. Paciência. O episódio recente com Parasita nos mostrou o quanto a cultura dominante ainda resiste em dar audiência a outras culturas.

Com isso, fico pensando como seria se Mitski respondesse por Mitsuki e suas músicas falassem sobre a solidão por aspectos específicos de ser criada com elementos de duas culturas; as pessoas teriam dedicado a mesma atenção às minúcias do seu trabalho? Não é uma tendência maldosa, mas ainda é uma tendência da maioria abraçar o trabalho das minorias desde que possam se identificar de alguma maneira com eles ou apenas para ter um exemplo da sua desconstrução, e os sentimentos, humanos e subjetivos do jeito que são, terminam por ser o melhor tema para unir duas raças diferentes. Ainda assim, quando conseguem alcançar essa identificação, não é incomum as pessoas brancas usarem essas músicas para chamar a atenção para as próprias narrativas pessoais, e, tendo apontado algum mérito ali, acabam levando os créditos daquele sucesso.

Se Rina Sawayama terá um sucesso explosivo, ainda não sabemos, mas ela certamente está trilhando os caminhos certos para estabelecer desde o princípio quem ela é.

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