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Uma jovem promissora. E os homens que amam outros homens.

Anos atrás li um texto cujo título era “Os homens que amavam outros homens”. Apesar de não lembrar qual o site em que li e ter procurado recentemente sem sucesso nenhum, o que tinha no conteúdo em si ficou muito marcado na minha cabeça e de tempos em tempos pensava nele. Era basicamente sobre esse cara, que tinha uma vida e uma namorada legal. Ele escutava sua parceira, respeitava suas decisões e eles tinham um relacionamento que era baseado em respeito mútuo. Até certo ponto. Quando ele estava com os amigos e rolavam aquelas piadas esdrúxulas e machistas, o rapaz não apontava o erro e não pedia para que os amigos parassem. Na sua casa, deitado com sua mulher, eles riam e falavam mal desse mesmo tipo de homem, das piadas que eles contavam e da forma que eles eram. Mas até que ponto o namorado, que não levantava um dedo para barrar esse tipo de comportamento, era conivente com a situação? O ponto principal do texto, no final, era que homens admiram e amam outros homens. Mesmo que eles não pensem nos absurdos misóginos e literais dos seus amigos, eles ainda estão dispostos a passar as mãos em suas cabeças, não contestar e consequentemente perpetuar uma cultura de silêncio que é violenta e estrutural. Promising Young Woman me fez pensar, mais uma vez, nesse texto. E dessa vez, de forma quase obsessiva.

Aviso de gatilho: este texto fala sobre estupro e agressões sexuais.

Atenção: este texto contém spoilers!

Promising Young Woman, dirigido e escrito por Emerald Fennell (atriz que interpreta Camilla Parker Bowles em The Crown), é um filme que engana. A história começa quando um homem (interpretado por Adam Brody) vê Cassandra Thomas (Carey Mulligan) passando mal em um bar. Ela está completamente bêbada, jogada em um canto e não consegue sequer pedir um táxi para ir até em casa. Se aproveitando da situação, e dizendo ao seus amigos que ia ajudá-la, o personagem de Brody acaba levando-a até sua casa onde, mesmo que ela esteja sem condições de engajar em atos sexuais, força o sexo. Mas Promising Young Woman não possui uma trama cujo estupro serve como pontapé inicial para uma narrativa sobre “rape revenge” (um tropo problemático e famoso no cinema e até mesmo na TV); ao contrário, a história dá uma reviravolta interessante. Logo depois que o homem tira a calcinha de Cassie, ela simplesmente senta na cama, completamente sóbria. Seu objetivo é dar uma lição em homens como ele: aqueles que se aproveitam de mulheres bêbadas. Aqueles homens que são estupradores.

Promising Young Woman

Por causa dessa pequena subversão, Promising Young Woman já é um pouco mais complexo do que o seu comum “rape revenge”. O subgênero, que começou a ficar famoso na década de 1970, tem como principal objetivo oferecer uma espécie de sentimento “catártico” para as vítimas de estupro. A realidade, no entanto, é bem diferente. A maioria desses longas são problemáticos não só porque são vendidos como “empoderamento”, sendo que cada vítima lida com o trauma de uma forma e não necessariamente pela vingança, mas também porque eles sexualizam as protagonistas em níveis extremos. Em um artigo sobre o gênero, o site Esqueletos no Armário vai além:

“A questão é que esse tipo de filme não era feito para mulheres. Por mais que usassem uma falsa mensagem de empoderamento, eles são repletos de fantasias fetichistas e medos intrinsecamente masculinos. É a figura feminina revidando, emasculinizando da maneira mais visceral possível: castração e estupro anal. Afinal, nada que aterrorize mais o ‘macho’ do que tirando seu símbolo mais iconográfico e violando seu canal mais precioso, certo? Reforçar esse tipo de estereótipos também é problemático.”

Nem o roteiro nem a direção de Fennell oferecem fantasias fetichistas ao público. Cassie não sofreu nenhum tipo de violência sexual e apesar de ir atrás dos homens que se passam por “bonzinhos”, mas que na verdade são predadores, ela não mata ou sequer é violenta. Suas ações vêm de um lugar um pouco diferente: o luto. Anos atrás, quando ainda estava na faculdade, sua melhor amiga, Nina, sofreu um estupro coletivo de seus colegas de faculdade. Sem conseguir seguir em frente e ignorada por todas as pessoas que tinham capacidade de lhe estender a mão, oferecer ajuda e punir os responsáveis pelo crime, Nina acaba entrando em depressão profunda e morrendo. Cassie, que a considerava como uma irmã, também não consegue seguir em frente. Assim, ela não só abandonou o sonho de ser médica e todo e qualquer indício de ter uma vida social, como também começou a utilizar várias noites da sua semana se fingindo de bêbada para que fosse levada para casas estranhas e, eventualmente, dar uma lição nesses caras e até mesmo proteger uma garota ou outra que talvez, na mesma ocasião, estaria na mira dos mesmos.

De certa forma, as ações de Cassie ainda são consideradas uma espécie de vingança. Ela é movida pela necessidade de assustar os homens que, de forma indireta e direta, perpetuam o sistema de violência que matou Nina, e mata milhares de outras mulheres todos os dias. Ao mesmo tempo, a situação toda é muito mais complexa do que isso. Cassie é uma mulher completamente tomada pela dor da perda que é catalisadora para que ela tenha se tornado uma mulher solitária e até mesmo desenvolver um gosto pelo perigo da vingança. Afinal, ir para casa com esses homens é muito perigoso e o resultado é sempre imprevisível. Essa mesma perda nasce não só porque ela perdeu sua amiga da forma mais literal possível, mas também porque as pessoas ao seu redor foram esquecendo Nina, sua história se tornou invisível e ninguém lembra do seu nome. Apenas Cassie. Então, junto com a dor insuportável do luto, que lhe fez perder uma parte importante de si e da sua vida, Cassie também tem uma boa dose de raiva e angústia.

Promising Young Woman

A atuação de Mulligan, que é de longe um dos pontos mais altos do filme, consegue passar muito bem os sentimentos complexos da protagonista. A direção de Fennell é precisa e, ao trabalhar em conjunto com a atriz, as duas criam uma personagem que é crua nas suas emoções, extremamente inteligente e quebrada por dentro. Como, afinal, você luta sozinha contra um sistema que silencia mulheres todos os dias? O mais interessante é perceber, porém, que os momentos mais profundos da obra não necessariamente surgem dos fragmentos que são mostrados da sua busca por vingança, mas sim nas partes em que ela mostra a profundeza do seus sentimentos por Nina, a perda na sua forma mais cruel e pura. O sentimento de estar vendo as pessoas seguindo em frente por uma janela, do lado de fora, e não conseguir se mover porque o que aconteceu ainda é uma parte dolorosa da história.

As coisas começam a mudar radicalmente para Cassie quando ela encontra Ryan (Bo Burnham), que estudava com ela e Nina na faculdade. Pouco tempo após o reencontro, ambos começam a se relacionar e ao mesmo tempo que a protagonista encontra nele a possibilidade de finalmente conseguir seguir em frente, se apaixonar e ter a sensação de “normalidade” de volta, ela também começa a procurar as pessoas que foram responsáveis pelo silenciamento de Nina na época. Entre eles está Madison (Alison Brie), amiga de ambas que ignora o caso, porque a vítima era uma “mulher que dormia com vários homens”. O advogado que ameaçou e pressionou Nina para que ela retirasse as queixas contra seu abusador, Jordan Green (Alfred Molina). A reitora Walker, da escola em que estavam matriculadas (Connie Britton). E, finalmente, o abusador em si: Al (Chris Lowell), que tem uma vida completamente estável e está prestes a se casar. Apesar de suas vinganças serem (quase) inofensivas, o fato de que ela estava criando algo real e sensível com Ryan (Bo Burnham), somado a sua conversa com Jordan (o único que parece genuinamente arrependido pelo o que aconteceu na época), Cassie consegue se desprender do padrão que tinha estabelecido para si e começa a seguir em frente. Até que ela descobre, por meio de um vídeo que Madison guardou por anos, que Ryan era um dos homens que estava com Al quando ele estuprou Nina. E ao invés de fazer alguma coisa, ele apenas riu, apontou e não disse absolutamente nada.

Essa reviravolta, apesar de não ser completamente inesperada, já que todos os passos apontavam para esse caminho, é chocante. Apesar de Cassie não ter sido violentada e abusada sexualmente como sua melhor amiga, ela também foi uma vítima. E tudo isso leva ao desfecho, que é uma das coisas mais cruéis e anticlimáticas do cinema dos últimos anos.

Ao confrontar Ryan, Cassie descobre que Al está dando uma festa de despedida de solteiro, no qual ela consegue arrumar a localização, com objetivo de se disfarçar de stripper e conseguir dar o passo final na sua vingança por Nina. Quando chega lá, no entanto, as coisas dão terrivelmente errado e Al sufoca Cassie com o travesseiro e desova seu corpo na floresta mais próxima. Seu último ato de vingança é deixar programado para o vídeo vazar, derrubando não só seu assassino, como também os abusadores de Nina e todos os homens que perpetuaram o silêncio na época, que foram coniventes de certa forma.

Em entrevista, Fennell descreve Promising Young Woman como uma armadilha — e não existe maneira melhor de sintetizar o filme e sua essência. Tudo é construído para esse cenário. A ambientação da produção é colorida e neon, as roupas que Cassie usa são extremamente femininas e doces e apesar da sua personalidade ácida e sarcástica, seu interior é o perfeito retrato da “garota promissora” que é descrita no título. O começo do longa é marcado por uma versão de “Boys”, de Charli XCX, e em momentos importantes da obra é comum escutar músicas pops, extremamente alegres e inofensivas, como “Stars Are Blind”, de Paris Hilton. Tudo é rosa e esteticamente perfeito. O que ajuda a construir a ilusão de que esse é um filme leve e de que um final feliz é uma possibilidade. O que com certeza não é. Isso é apenas um recurso usado para subverter o que é esperado de feminilidade e sentimentos femininos no geral.

Promising Young Woman é brutal e apesar dos seus defeitos, não é um filme que vai sair da sua cabeça com facilidade. É um filme sobre a violência estrutural e silenciosa que esmaga, mas é também sobre sentimentos como luto, perda e deslocamento social. No momento em que Cassie entra naquela cabana para o ato final da sua vingança pela amiga, com uma versão instrumental de “Toxic”, de Britney Spears, tocando ao fundo, é impossível tirar isso da cabeça. Não é catártico ou libertador, mesmo quando os abusadores são presos no final, simplesmente porque aquela sensação ruim que fica na garganta não vai embora. Não há dúvidas de que essa era a intenção da diretora, mas não faz com que a decisão de matar Cassie seja menos cruel, sufocante e difícil de engolir.

Promising Young Woman

No começo do filme, o personagem de Brody aparece claramente desconfortável com o comportamento dos seus amigos. Mas ele não faz nada para chamar atenção. Depois, ele conta para os mesmos amigos o que aconteceu com Cassie naquela noite na sua casa. “Vocês estão arruinando tudo”, diz um deles para a protagonista, se referindo às mulheres no geral e sua necessidade de vingança. Mais tarde, quando Cassie é morta por Al, o mesmo homem responsável por abusar e matar sua melhor amiga, um dos colegas do homem diz que a culpa não foi dele e que eles iriam resolver aquilo tudo. Ryan, mais ou menos ciente da situação da ex-namorada, não se pronuncia quando ela some. Não só porque ele quer proteger sua imagem e bem-estar ao ignorar seu comportamento no vídeo, mas também porque ignorar o comportamento tóxico de outros homens já é algo comum para ele. Afinal, eles estão sempre se ajudando. E assim, o ciclo de violência é perpetuado não só por aqueles que cometem o ato de forma direta, mas também por aqueles que se calam. Os homens que amam apenas outros homens.

O ponto que Fennell quer provar é explorado quase com maestria pela diretora. Ele te dá um soco na cara e te deixa desconfortável, é impossível ignorar. E apesar da extrema crueldade com a personagem, apesar de bem realista, essa ainda é uma solução melhor para o gênero do que a vingança sexualizada que é mostrada em longas como Revenge (2018) e até mesmo em obras que vieram a se tornar clássicos como A Vingança de Jennifer (1978). Promising Young Woman passa a mesma sensação que tive ao assistir The Nightingale, de Jennifer Kent. O longa também se encaixa na mesma categoria do subgênero, mas oferece algo que é violento, sim, mas sempre com o famoso female gaze: nunca sexualizando, sempre colocando doses de empatia e tirando o olhar masculino sobre corpos violentados. Nem tudo é perfeito na obra em si, mas esse com certeza é um ponto positivo da composição impactante de Kent. Com I May Destroy You, série autobiográfica de Michaela Coel, a sensação é mais ou menos a mesma. Sua personagem, a escritora Arabella, lida com o seu abuso no último episódio imaginando três cenários diferentes, com vingança, compreensão e perdão. Todas as narrativas têm em comum o fato de que ela está retomando o controle do seu próprio destino e escolhendo viver, apesar do abuso que sofreu. Em The Nightingale, a protagonista Clare (Aisling Franciosi) também retoma um pouco do controle que perdeu anteriormente. Com Cassie, no entanto, isso não acontece.

Ao longo do filme, suas armadilhas para os homens podiam até ser um pouco satisfatórias no início, mas a tristeza da personagem sempre foi algo palpável, do começo ao fim, e essa sensação de “triunfo” não era feita para ser duradoura. Cassie morre antes de conseguir retomar o controle da própria vida, de aprender lidar com seus sentimentos e ter a oportunidade de seguir em frente. É algo triste na sua essência.

Promising Young Woman é um longa divisor e polêmico. É ame-o ou deixe-o e, aparentemente, vai ser assim na temporada de premiações também. É fácil confundir o roteiro com propaganda do feminismo liberal, mas olhando em detalhes é possível perceber pequenas subversões do gênero que não só são válidas e importantes para o quadro geral, como também fazem com que Cassie seja uma personagem menos unilateral, mais completa e complexa. Está longe de ser perfeito e sempre vão existir elementos que são complicados para absorver, mas o olhar de Fennell está presente o tempo inteiro, assim como o female gaze. Ainda não está claro quanto barulho o filme está por fazer nessa temporada, atípica para dizer o mínimo, mas com certeza o trabalho impecável e honesto de Mulligan será recompensado de alguma forma, assim como o da diretora e roteirista.

Bela Vingança recebeu 5 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan), Melhor Diretor (Emerald Fennell), Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem.

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2 comentários

  1. Ótimo texto. Me deparei com essa ideia de nós homens amarmos outros homens enquanto lia Problemas de Gênero. Não tenho como discordar.
    Uma coisa que me impactou no final do filme foi como ao invés de mostrar o que aconteceu com Nina, e em resposta às afirmações de alguns personagens de “éramos crianças”, o filme faz com que todos os envolvidos tomem as mesmas atitudes só que contra Cassie. É chocante ver Al indo de um choro patético, quando se vê indefeso, ao puro ódio enquanto sufoca Cassie.
    É um filme que merece ser visto e discutido.

  2. Adorei o texto, a descrição do final foi exatamente como me senti “uma das coisas mais cruéis e anticlimáticas do cinema dos últimos anos”. A raiva que eu senti nas cenas finais me destruiu, com certeza vai ser um filme que eu vou ficar pensando sobre por um bom tempo.