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La Casa de las Flores: a telenovela millennial

As primeiras palavras que recepcionam o telespectador, no frame inicial de La Casa de las Flores, são: “A normalidade é como uma estrada asfaltada; é confortável para caminhar, mas flores nunca crescem nela.” Essa citação de Vincent Van Gogh resume brilhantemente o espírito da série mexicana: ao longo de 22 episódios, o público embarca numa jornada para descobrir que tudo aquilo que parece normal quase sempre esconde segredos em armários, e que nem tudo são flores para a família De La Mora.

Atenção: este texto contém spoilers!

O episódio de abertura do programa é centrado em volta do aniversário de Ernesto (Arturo Ríos), pai e marido no pseudo-perfeito clã De La Mora, socialites mexicanos e donos da maior floricultura do país, a Casa de las Flores. Ainda que a celebração do dia seja para um homem, não demora para conhecermos Virgínia (Verónica Castro), organizadora da festa, matriarca e dona legítima da floricultura, uma mulher que preza pela aparência cultivada pela família ao longo dos anos e pelas impressões passadas por eles para o mundo de fora. Mesmo com a presença de diversos outros integrantes da classe alta mexicana e por revistas de celebridade e jornais locais, Virginia é incapaz de impedir que a festa seja arruinada, e da pior maneira possível: uma ex-funcionária comete suicídio dentro da floricultura durante as celebrações. A família prontamente descobre que a mulher era, na verdade, amante de Ernesto há mais de 10 anos, e o que era para ser uma festa da alta sociedade logo se transforma na catálise para a ruína iminente da família.

Em seu leito de morte, Roberta (Claudette Maillé) deixa uma carta de suicídio endereçada a Virgínia, e nela se revelam os segredos mais profundos da relação entre a mulher e o marido de Virgínia: juntos, eles têm uma filha, Micaela (Alexa de Landa), a qual Roberta implora para que Virgínia cuide e ame como se fosse sua, ainda que ela represente a materialização de toda a traição de Ernesto; além disso, Virgínia descobre que seu marido financiou, com o dinheiro da floricultura, a criação de uma outra Casa de las Flores, mas essa é bastante diferente: a Casa que Roberta e Ernesto administravam na periferia da Cidade do México, homônima à floricultura que representa a pureza e a riqueza da família de Virgínia, é um cabaré.

E, porque desgraça pouca é bobagem, especialmente quando se trata de novelas mexicanas, uma cascata de segredos logo começa a se revelar, como uma fileira de dominós desmoronando: Julian (Dario Yazbek Bernal), o filho mais novo, é bissexual e namora o contador da família, e o relacionamento que mantém com uma mulher é apenas para agradar a mãe conservadora; Elena (Aislinn Derbez), filha do meio que trabalha nos Estados Unidos, volta para casa depois de anos, com um namorado negro e gringo; Paulina (Cecilia Suárez), a mais velha, escondeu de todos que seu ex-marido, José María (Paco León), se assumiu transgênero, e agora é Maria José.

Mais tarde, Virgínia descobre que a família está falida, e que Ernesto irá para a cadeia pelas dívidas do cabaré de sua amante. Com as contas congeladas e o patriarca da família ausente, Virgínia começa a vender maconha em sua floricultura para tentar manter seu negócio e sua família no topo da hierarquia social. Por meio das incongruências da família De La Mora, a série procura ressignificar o sentido da moralidade e mostrar a maneira como as máscaras de uma sociedade purista caem rapidamente — e não só a sociedade mexicana, mas qualquer sociedade da América Latina.

La Casa de Las Flores

Nos anos 2010, os termos “novela millennial” e “telenovela moderna” têm sido usados para descrever uma nova leva de roteiros dentro desse gênero televisivo. Baseada na mesma cultura, a audiência-alvo dessas novelas é muito mais jovem; fundamentando-se em situações reais e sociais, as histórias fantasiosas típicas e o melodrama foram reinventados para atrair um novo público. De acordo com a Wikipedia, uma telenovela millennial pode conter os seguinte temas: alusão a políticas contemporâneas; representação positiva da comunidade LGBT+; empoderamento feminino e sexualização do corpo masculino; redes sociais como enredo relevante; personagens com moralidade ambígua, longe da dicotomia bem versus mal; momentos de comédia intencionais; protagonismo de uma família não-convencional.

Telespectadores brasileiros já estão acostumados com esse tipo de novela, com alguns dos expoentes mais famosos do horário das nove global, como Salve Jorge, Em Família, e, mais recentemente, O Outro Lado do Paraíso, aderindo a temáticas mais incisivas e que não dependem só dos mesmos clichês melodramáticos ou reviravoltas inesperadas para conquistar audiência. A percepção que o público internacional ainda tem da televisão mexicana, contudo, é de histórias que permanecem muito similares a Maria do Bairro, A Usurpadora, Rubi ou Coração Selvagem. Nessas telenovelas, até mesmo o telespectador mais desatento consegue captar as tramas dramáticas shakespearianas e o jogo bem versus mal criado pelos roteiristas, mas falha ao não reconhecer o apelo social desses programas: a maioria avassaladora das novelas latino-americanas exibidas no SBT, mais próximas ao público brasileiro, desenvolvem discussões sobre racismo e preconceito de classe, além de refletirem sobre as máscaras vestidas pelas mulheres para permanecerem ativas na sociedade patriarcal.

Rubi e A Usurpadora exibem as várias facetas de mulheres ambiciosas que não têm receio de desafiar o que o status quo exige delas, se voltando até mesmo para a crueldade e a usura contanto que seus desejos sejam realizados. Já Maria do Bairro e Coração Selvagem, e até mesmo novelas infantis como Carrossel ou Chiquititas, desmascaram disparidades de classe enraizadas na sociedade mexicana e que podem ser identificáveis em qualquer sociedade latino-americana. Simplificar as novelas mexicanas em momentos dramáticos ou memes e falas emblemáticas de Paola Bracho (Gabriela Spanic) é ignorar o intenso apelo social de tais programas, e por isso tramas como as de La Casa de las Flores surpreendem, quando, na verdade, são apenas uma revitalização e atualização de uma tendência que sempre existiu.

Por causa da alcunha de telenovela millennial, muitos elementos de La Casa de las Flores são ditos como satíricos exatamente por lembrarem tramas das novelas tradicionais, mas que acabam subvertendo as expectativas dos telespectadores ao abordar dilemas de classe, raça, gênero, moral e sexualidade com outros olhos. Graças a isso, aspectos do programa foram comparados com o trabalho do cineasta Pedro Almodóvar: a abordagem daquilo que a sociedade tradicional considera uma perversão, o uso de ângulos e cores que expressam mais do que diálogos, e o uso da música e da intertextualidade traduzem para a vivência mexicana aquilo que o aclamado diretor faz com a sociedade espanhola.

Quanto aos temas, a série desenvolve discussões complexas acerca da banalização do racismo, da importância das relações familiares e da necessidade de se debater sobre as nuances do sexo, além de conter vários personagens LGBT+, com episódios sobre homofobia internalizada e transfobia.

La Casa de Las Flores

A série se torna mais forte, no entanto, quando discute sobre privilégios e classes. De um lado, a floricultura representa o trabalho duro, o sucesso e a herança de uma família que agora sustenta um status de poder na sociedade, e que não surpreende quando propaga discursos meritocráticos. Do outro lado, o cabaré é símbolo da classe trabalhadora, chamando a atenção do espectador para a divisão aguda que existe não só entre ricos e pobres, mas também entre os diferentes perfis raciais mexicanos: enquanto os De La Mora são claramente brancos e possivelmente descendentes de colonizadores, a maioria dos frequentadores do cabaré e das drags que se apresentam no local são afro-mestiços ou descendentes de nativos mexicanos.

O patriarca Ernesto, portanto, se encontra dividido entre duas Casas, duas mulheres, e, consequentemente, entre dois hemisférios da realidade econômica da Cidade do México. Essa perspectiva compartilhada por ele e por sua filha Paulina, que, descobrimos mais tarde, ajudava o pai a manter sua “segunda família” escondida, ajuda o telespectador a compreender uma clara divisão até mesmo intelectual entre essas sociedades. A classe baixa não é menos letrada ou intelectual ou preocupada com o que acontece ao redor; pelo contrário: é apenas quando os De La Mora entram em contato com as discussões sobre dinheiro, sexo e homofobia que acontecem todos os dias no cabaré que eles mesmos começam a refletir sobre suas próprias vivências, e agir diferente dos métodos secretos esperados pela classe mais alta.

Paulina finalmente conversa sobre a transição de Maria José, abrindo-se acerca do impacto em sua própria identidade e na relação com o filho do casal, eventualmente chegando a um patamar superior de aceitação e apoio. Elena assume uma atitude sexual mais libertadora, encarnando sem desculpas o estereótipo da “filha que se rebela ao ir morar nos Estados Unidos”, além de confrontar a família acerca do racismo com seu noivo. Julián, assumidamente bissexual, explora as possibilidades de um relacionamento aberto, sem a vergonha de ser explicitamente um homem que namora outros homens. Cabe ao telespectador refletir acerca de até que ponto a família teria conseguido explorar essas diferentes realidades caso não tivessem tido contato com o cabaré, naturalmente pertencente a um universo que oferece mais possibilidades de liberdade do que a elite social, que pode até fazer, mas não abertamente.

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Ainda que os personagens masculinos acrescentem pontos de vista interessantes ao longo dos episódios, sendo Ernesto, Julián e Diego os mais frequentes e mais importantes, não é segredo que o âmago de La Casa de Las Flores é composto pelas personagens femininas.

Virginia, interpretada pela icônica Veronica Castro, é a incansável matriarca De La Mora, que acredita estar fazendo aquilo que é melhor para a sua família, ainda que por meio de atitudes arcaicas e restritivas. Virginia atua como um contraste para as atitudes do marido e dos filhos, e mesmo que seja difícil para a mulher deixar para trás pensamentos preconceituosos, ela mostra, ao longo da primeira temporada, que é capaz de mudar e rever aquilo que acha ser o certo; logo, Virgínia entende que a integridade de sua família é muito mais importante do que qualquer coisa que a sociedade a ensinou a achar correto ou não. Em sua jornada de redenção, que começa já no início da série, Virgínia deixa de ser uma mãe controladora e passa a ser compreensiva e amorosa, encorajando os filhos a desprenderem-se das amarras que ela mesma criou. Quando deixa sua mágoa de lado e percebe que existem coisas mais valiosas, Virginia desenvolve uma relação maternal e verdadeira com Micaela, tratando-a como se fosse sua filha, com o mesmo carinho que agora trata os filhos.

O público se torna tão apegado à matriarca e tão cativado por sua mudança que, quando a mulher desaparece no fim da primeira temporada e, no primeiro episódio da segunda, descobrimos que ela faleceu, é um choque. Contudo, mesmo após sua morte, Virgínia continua fazendo o enredo da série evoluir, principalmente por meio das circunstâncias desconhecidas sobre sua morte, seu testamento e seu suposto amante. Ainda assim, parece que a série perde o brilho e, por um certo período de tempo, a sensação que fica é que nenhum dos outros personagens tem a capacidade de substituir a presença e a liderança de Virginia frente ao clã De La Mora.

É nesse momento que Paulina, a filha mais velha da família, emerge como a salvadora da pátria. Já na primeira temporada, Paulina era cativante, interpretando perfeitamente o papel de filha mais velha e centrada que, simultaneamente, tinha que lidar com sua vida pessoal virada do avesso. Não só a prisão do pai e a ruína financeira da família, Paulina se vê confrontada com o processo de transição do marido, a insolência de um filho que ainda não compreendeu muito bem as mudanças em sua família, o suicídio de uma amiga próxima e o peso de, como filha mais velha, guiar sua família por esse momento conturbado.

La Casa de Las Flores

E ela o faz perfeitamente. Se tem uma personagem que é capaz de corresponder à vivacidade de Virgínia, cena por cena, é Paulina. Ela é uma revelação, a poster child que se afunda em remédios contra ansiedade e, mesmo assim, consegue ser a personagem mais determinada e moderna de todo o programa.

Paulina — e todo o crédito vai para sua intérprete, a excelente Cecilia Suárez — tem mil facetas, e consegue equilibrá-las bem: ela é a filha fiel, a déspota que precisa encontrar as rédeas de sua vida novamente, a mãe que se permite falhar, a esposa que se entrega, a irmã que perdoa e aconselha (até certo ponto), e a chefe que é mais amiga do que superior. Quantas são as cenas de Paulina dando conselhos e puxões de orelha em seus irmãos, ou acalmando as drags e assegurando-as de sua importância? Num primeiro momento, Paulina pode até parecer conservadora, mas é só porque ela tenta espelhar a mãe. Conhecer Paulina e entender seu papel na série é perceber que ela também se esconde por trás das expectativas e da aparência; fora da vida pública, Paulina forma vínculos profundos com drag queens e prisioneiros, frequenta bares gays com seus irmãos, comete erros ao trair sua esposa.

Acima de tudo, conhecer Paulina de La Mora é compreender que ela faria tudo por sua família — seja administrar um cabaré, esconder a vida secreta de seu pai, apoiar a carreira do irmão como acompanhante de luxo, aguentar a irmã traiçoeira de sua esposa ou acolher Micaela. Essa tendência fica ainda mais clara na segunda temporada, quando, abalada pela morte da mãe, Paulina entra em uma cruzada contra todos aqueles que contribuíram para a ruína da família, seja Diego, seja o pai. Ela faz isso com seu sotaque afetado e sem perder a pose, ainda que, mais tarde, perceba que essa atitude é exatamente o oposto do que a mãe queria, o oposto da razão pela qual Virginia foi embora: essencialmente, para ser livre, e permitir que seus filhos fossem livres também.

As outras mulheres da série são igualmente importantes, ainda que não rivalizem o protagonismo que claramente pertence a Virginia e Paulina. Elena, a filha do meio, passa por uma jornada de descobrimento sexual durante ambas as temporadas, e sua tendência a entrar em problemas faz com que ela se apaixone por um padre, uma narrativa que imita e modifica Fleabag. Micaela, filha de Ernesto e Roberta, é uma criança sincera que não esconde o sofrimento derivado do suicídio da mãe. Ela é inteligente e perceptiva para a sua idade, várias vezes sendo mais perspicaz e intuitiva do que os personagens do núcleo adulto; mesmo assim, ela não deixa de ser criança, entrando em confusões com o igualmente confuso filho de Paulina, Bruno (Luis de La Rosa), e aliando sua infantilidade à vontade de ajudar sua família, como na segunda temporada, quando tenta vencer um concurso de talentos para financiar a reconstrução da floricultura.

Delia (Norma Angélica), a incansável empregada da família, é a mãe para os filhos De La Mora que Virgínia falhava em ser, reciclando o velho tropo latino-americano das empregadas que são muito mais maternais do que as próprias mães. Ainda que os telespectadores não conheçam a vida de Delia fora da mansão do clã De La Mora, é possível identificar que ela mantém uma relação de carinho e apoio com todos ali, compreendendo e apoiando a decisão dos filhos mesmo que a situação pareça duvidosa, agindo como mais um contraste para o comportamento de Virginia. Já Maria José, esposa de Paulina, tem talvez a visão menos romantizada do mundo de aparências em que vive a família De La Mora. Antes de sua transição, Maria José desfrutava, ainda que superficialmente, as benesses dos privilégios daquele estilo de vida, mas é depois que assume sua identidade como mulher trans que ela percebe a tendência daquele ambiente de somente aceitar quem vive codificado, longe do real. Não só ela precisa lidar com dilemas externos, como o fato de ser uma mulher trans no universo judiciário (uma carreira em que homens cis héteros são sempre os maiores beneficiados) e como tentar se encaixar na vida de sua família novamente, mas também precisa perceber o que é um mundo livre para ela agora, e como encaixar quem ela sempre foi nas expectativas da sociedade (e nas suas próprias) sobre sua identidade.

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La Casa de Las Flores foi uma das melhores coisas que assisti em 2019. Apesar de seus enredos doidos, a série ainda acontece num cenário latino-americano que é familiar para a maioria de nós, e por muitas vezes me fez relembrar traços da minha mãe, da minha irmã e os meus próprios em seus personagens. Esse é um dos poderes da série, que por vezes se esconde em humor e clichês quando, na verdade, traz familiaridade e reflexão.

Há potencial em programas e séries mais leves. Num momento em que parece que todo o conteúdo que consumimos tem que ser sombrio, profundo e pesado, é bom saber que ainda dá para encontrar o mesmo nível de reflexão em séries cujo principal objetivo é divertir. La Casa de las Flores é mais um dos expoentes brilhantes da Netflix latino-americana. Aqui está um programa que não só tem como protagonista uma mulher trans (ainda que interpretada por um ator cis-gênero), mas que também explora temas como vício em sexo, racismo, homossexualidade, sex workers e drag queens com seriedade e humor na mesma medida, de uma forma que dificilmente é vista na televisão.

Com uma terceira temporada tida para estrear no meio do ano, o enredo de La Casa de las Flores prova não somente a possibilidade de equilíbrio entre opostos e a mudança de mentalidades, mas assegura ao telespectador que, talvez, segredos guardados nem sempre são tão maléficos quanto nós imaginamos.

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2 comentários

  1. Estudando sobre o México na escola, sempre notei uma certa semelhança cultural com nós, brasileiros. Assistindo La casa de las flores você encontra bem esse misto o qual você comentou sobre o cunho social das novelas brasileiras com a sátira das novelas mexicanas. Gosto muito de ver essa série simplesmente porque ela tem um toque de tudo que é bom: drama, comédia, reflexão.